segunda-feira, 9 de julho de 2018

Rejeitado pelo mundo, escolhido por Deus (Atos 7.20-35)

Prosseguindo no discurso em sua defesa, Estêvão passa a falar de Moisés, contra o qual foi acusado de blasfemar. Ele apresenta o grande líder histórico de Israel como um homem cheio de qualidades, as quais, no entanto, não garantiram sua aprovação diante do mundo. Pelo contrário, Moisés foi um homem rejeitado, até o momento em que Deus o transforma em libertador do seu povo.

As boas qualidades não garantem aprovação no mundo. Mas Deus tinha um plano bem traçado para a vida de Moisés, e é isto que, no final, importa. Ele aceitou e seguiu o plano de Deus para sua vida e tornou-se um dos nomes mais importantes para Israel e para o mundo inteiro, até aos dias de hoje. Neste parágrafo do livro de Atos podemos notar que Moisés tinha pelo menos três qualidades, as quais não garantiram por si mesmas a aprovação do mundo.

Beleza. (20-21)

"Por esse tempo, nasceu Moisés, que era formoso aos olhos de Deus. Por três meses, foi ele mantido na casa de seu pai; quando foi exposto, a filha de Faraó o recolheu e criou como seu próprio filho".

O lindo bebê Moisés foi guardado em seu lar durante três meses, mas por causa da lei de Faraó, seus pais foram obrigados a rejeitá-lo, lançando-o ao rio, ainda que, cuidadosamente, tenham providenciado uma pequena arca, para que ele não afundasse. Pela providência de Deus, foi acolhido pela filha de Faraó, que contratou a própria mãe do bebê para lhe servir de ama em sua fase de lactente.

Imagine uma linda criança, pense nas que você conhece. Como seria possível explicar para uma criança assim que ela tinha que deixar a sua casa para morar na casa de outra mulher, que lhe serviria de mãe, porque agora, desmamada, já não precisava dos serviços daquela que lhe dera à luz e que o tratava com todo o amor do mundo?

Crianças ou adultos, a quem Deus agraciou com beleza física, não estão isentos de serem rejeitados. Homens e mulheres de hoje se utilizam de técnicas que podem incrementar ou fazer manutenção da sua beleza física. Dietas, academias, maquiagens, cirurgias, vestimentas, cortes e pinturas de cabelos, entre outros procedimentos. Mas, como aconteceu com Moisés, também conosco pode acontecer que a beleza não seja determinante para evitar que sejamos rejeitados. E mesmo que as pessoas não nos rejeitem, podemos ficar tão obcecados em nos mantermos dentro dos padrões modernos de beleza que isto nos torne sempre insatisfeitos, frustrados, ou até mesmo doentes. As mulheres são as que mais sofrem com este problema. Augusto Cury, em seu livro “A ditadura da Beleza”, observa que

A era da imagem trouxe uma expansão da beleza estética em diversas áreas da atividade humana. Mas, na área da auto-imagem e da imagem do ser humano diante do outro, provocou um estrago no inconsciente, fazendo com que grande parte das pessoas perdessem o senso da magia, da suavidade, da leveza do ser, do encanto pela vida, afetando drasticamente a saúde emocional e as relações sociais.

CURY, Augusto Jorge. A Ditadura da Beleza e a Revolução das Mulheres. Rio de Janeiro: Sextante, 2005, pag. 15.

A busca de aceitação por meio de padrões de beleza chegam a extremos, como revela uma reportagem de abril de 2014 no site da revista Marie Claire, cujo título é “Médico se especializa em cirurgia nos pés para sapato de grife calçar melhor”:

Há até nomes para os procedimentos: Perfect 10 para encurtar os dedos; Model T para crescer os dedos; e o mais radical de todos, Cinderela, no qual o pé é remodelado para o formato de um sapato que se deseja usar. [...] Os termos foram criados por Ali Sadrieh, médico de Beverly Hills, que há 13 anos deu início a uma clínica especializada em pés. Não se trata apenas de corrigir joanetes ou deformidades reais, suas pacientes querem caber em saltos de estilistas famosos.

Revista Marie Claire (online), 27/04/2014. Disponível em: https://revistamarieclaire.globo.com/Beleza/noticia/2014/04/medico-se-especializa-em-cirurgia-nos-pes-para-sapato-de-grife-calcar-melhor.html Acesso em 15 out. 2016.

A verdade, porém, é que nem sempre acertamos ao imaginar o que as pessoas esperam de nós quanto à nossa aparência. Um artigo assinado por Caroline Caron menciona uma boa ilustração do fato de que erramos frequentemente, ao imaginar o que as pessoas esperam de nós quanto à aparência física. O estudo divulga que foram comparadas as reações de 20 homens e 20 mulheres,

[...] que classificaram o grau de atração perante as fotos de uma modelo em trajes provocantes e em trajes “normais”. Assim os avaliadores observaram uma série de fotografias onde as modelos apareciam com camiseta sobre o sutiã, na outra camiseta molhada sem sutiã, outra camisa abotoada e outra foto com a camisa desabotoada até o meio. Transcrevendo as palavras de Mirkin (2001): “Surpreendentemente, quando olharam as fotografias das modelos de roupa deliberadamente provocante, os homens não percebiam acréscimo na capacidade de atração da mulher e as mulheres percebiam decréscimo.”

CARON, Caroline Freiberger. Influência da Moda da Ditadura da Beleza Feminina. Faculdade de Tecnologia Senai Blumenau, 2008. Disponível em:  http://www.fiepr.org.br/nospodemosparana/uploadAddress/moda%5B24229%5D.pdf Acesso em 06 out. 2016.

Vigor físico e intelectual (22-29)

E Moisés foi educado em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em palavras e obras. Quando completou quarenta anos, veio-lhe a idéia de visitar seus irmãos, os filhos de Israel. Vendo um homem tratado injustamente, tomou-lhe a defesa e vingou o oprimido, matando o egípcio.  Ora, Moisés cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus os queria salvar por intermédio dele; eles, porém, não compreenderam. No dia seguinte, aproximou-se de uns que brigavam e procurou reconduzi-los à paz, dizendo: Homens, vós sois irmãos; por que vos ofendeis uns aos outros? Mas o que agredia o próximo o repeliu, dizendo: Quem te constituiu autoridade e juiz sobre nós? Acaso, queres matar-me, como fizeste ontem ao egípcio? A estas palavras Moisés fugiu e tornou-se peregrino na terra de Midiã, onde lhe nasceram dois filhos.

Moisés era vigoroso, física e intelectualmente, mas esta qualidade não evitou que ele fosse rejeitado pelos seus irmãos. Diante da rejeição, se viu obrigado a fugir, sendo acolhido pelo sacerdote de Midã, que lhe deu sua filha Zípora como esposa, com a qual teve dois filhos e assim constituíram uma família.

O vigor físico e intelectual que Deus deu a Moisés era impressionante aos olhos de qualquer um. Ele era muito bom nos argumentos, e quando os argumentos falhavam, ele usava sua força física. Foi assim que “convenceu” o egípcio a não espancar mais os pobres escravos, e seus irmãos, a pararem de brigar. Foi assim também que “convenceu” os pastores a deixarem em paz as frágeis pastoras, filhas de Reuel (Jetro), no momento em que as queriam enxotar do poço para furarem a fila e darem água para o seu rebanho em primeiro lugar (Êxodo 2.16-19).

Podemos desejar ter as mesmas qualidades de Moisés, quanto ao vigor físico e intelectual, para que sejamos melhores aceitos na sociedade, mas é quase certo que, se nos apoiarmos neste conceito, acabaremos decepcionados, porque isto não nos garante aceitação, assim como não garantiu ao aspirante a libertador de Israel.

Falo agora especialmente aos homens. Você é daqueles que deseja ter uma “barriga de tanquinho” e “músculos de aço”? E se você tiver, além do corpo atlético, uma inteligência acima da média, de forma que possa debater qualquer assunto com qualquer intelectual e ainda sair vencedor? Não é um sonho de consumo?

Eu tenho a impressão que, antigamente, as pessoas eram menos exigentes. Se alguém era muito forte, não se esperava que fosse muito inteligente. Se fosse fraco, sua fraqueza poderia ser compensada por uma inteligência acima da média. Mas hoje em dia, parece que ninguém se contenta com menos do que os atores de novelas e de filmes de ação que, além de serem muito inteligentes para poderem interpretar bem, precisam ter ainda um porte atlético.  O preparador físico Eric Oram, que tem como cliente o ator Robert Downey Jr., fala de sua preparação para interpretar seus dois personagens mais famosos:

Tony Stark, o Homem de Ferro, é forte e musculoso. Sherlock Holmes, ao contrário, se não é exatamente fraco, é bem mais magro, seco e definido. Ambos os personagens foram interpretados nos últimos anos por Robert Downey Jr., que teve que mudar a configuração do próprio corpo de acordo com as exigências de cada filme. “[...] O tamanho 'natural' do corpo de Robert é algo entre esses dois personagens, [...] "A primeira parte da transformação dura cerca de 30 dias e quando chegamos ao terceiro mês ele está pronto para filmar", completa. Além de levantamento de peso, o treino preparado para Downey Jr. por Oram inclui o boxe chinês, kung fu e um exercício que consiste em bater em pneus gigantes com um martelo.

O Segredo de Downey Jr. Site UOL/Entretenimento, 27/09/2013. Disponível em: https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2013/09/27/segredo-de-downey-jr-e-se-exercitar-sempre-diz-preparador-fisico-do-ator.htm Acesso em 09 out. 2016.

Pra ser aceito no meio cinematográfico, o vigor físico e intelectual é imprescindível, mas, tanto ali quanto no meio social, pode não ser suficiente para evitar a rejeição. Não foi suficiente para Moisés, quando se candidatou a libertador de Israel.

Humildade (30-35)

Decorridos quarenta anos, apareceu-lhe, no deserto do monte Sinai, um anjo, por entre as chamas de uma sarça que ardia. Moisés, porém, diante daquela visão, ficou maravilhado e, aproximando-se para observar, ouviu-se a voz do Senhor: Eu sou o Deus dos teus pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Moisés, tremendo de medo, não ousava contemplá-la. Disse-lhe o Senhor: Tira a sandália dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa. Vi, com efeito, o sofrimento do meu povo no Egito, ouvi o seu gemido e desci para libertá-lo. Vem agora, e eu te enviarei ao Egito. A este Moisés, a quem negaram reconhecer, dizendo: Quem te constituiu autoridade e juiz? A este enviou Deus como chefe e libertador, com a assistência do anjo que lhe apareceu na sarça.

Moisés tornou-se tão humilde que já não era mais questão de ser rejeitado pelos outros. Ele chegou ao extremo de rejeitar-se a si mesmo. Quando Deus o chamou e comunicou que era o escolhido para a importante missão de libertar Israel da opressão do Egito, não quis aceitar. Falou que era incapaz, que não sabia nem falar direito.  Deus até se irritou com Moisés, por causa da sua insistência em não aceitar a nobre missão para a qual foi escolhido (Êxodo 3.11-4.17).

A humildade é uma boa qualidade, e todos nós devemos ter. Mas não devemos confundir humildade com baixa auto-estima. O consultor Alan Miranda, em seu site Motivação e Foco, propõe uma comparação entre humildade e baixa auto-estima:

A humildade é uma qualidade que se caracteriza pela modéstia, simplicidade, pela consciência de suas próprias limitações. É a virtude de se manter no nível dos outros, de reconhecer que ninguém é pior ou melhor que ninguém e que todos estamos no mesmo nível de dignidade humana. [...] Por outro lado, a baixa auto-estima é caracterizada por uma percepção negativa de si mesmo. É uma sensação de incapacidade ou de menor valor atribuída a si mesmo.

MIRANDA, Alan. Não confunda baixa auto-estima com humildade. Site Motivação e Foco. Disponível em:  http://motivacaoefoco.com.br/nao-confunda-baixa-autoestima-com-humildade/ Acesso em 09 out. 2016.

Moisés precisou lutar contra sua baixa auto-estima, com a ajuda de Deus. Manteve, porém, a humildade.

Conclusão

As qualidades dadas por Deus a Moisés, não garantiram, por si mesmas, a aprovação do mundo. Apesar da Beleza, do Vigor e da Humildade, ele foi rejeitado no seu meio social, e até mesmo aos seus próprios olhos. Mas, independente de tudo, ele foi escolhido por Deus.

Você se sente rejeitado? Pode ser que o mundo inteiro te rejeite, mas se você se achegar a Deus com fé, ele não vai te rejeitar. Jesus foi o melhor homem que já viveu neste mundo, não obstante, também foi rejeitado. Ele não precisava passar pelo que passou, mas aceitou o sofrimento por amor de nós, para nos salvar. Creiamos nele e nos acheguemos para salvação.

Você se sente incapaz? Deus chamou Moisés, mesmo que ele estivesse se sentindo assim. Deus te chama também para fazer a sua obra. Creia nele, permita que ele te use. Se Deus está dizendo que você pode, não resista à sua vontade.

* Imagem "Moisés" disponível em: http://www.radiojacuipe.com.br/2015/09/02/tv-record-pragas-do-egito-rendem-recorde-de-audiencia-a-os-dez-mandamentos/ acesso em 09 jul. 2018.

domingo, 3 de junho de 2018

A Terra Prometida (Atos 7.1-19)


Este parágrafo nos apresenta o cenário de um tribunal, no momento em que Estêvão começa a apresentar a sua defesa contra as acusações de:

a) Proferir blasfêmias contra Moisés e contra Deus;

b) Não cessar de falar contra o lugar santo e contra a lei;

c) Afirmar que Jesus, o Nazareno, destruiria o lugar santo e mudaria os costumes que Moisés lhes dera.

(Atos 6.11.13,14)

Os seus acusadores, os helenistas, a maioria judeus que moravam fora da Judeia, precisavam ter boas condições financeiras para se manterem ligados ao lugar santo. Alugavam casas, pagavam hospedagem, faziam viagens onerosas, tudo para manter sua religião. Os ensinamentos de Estêvão, ao que parece, ameaçavam colocar tudo isto a perder, caso o povo passasse a aceitar que novos tempos chegaram, em que esse sistema de adoração perderia o seu valor.

Estêvão não estava falando nenhuma blasfêmia, mas ensinando o que o Senhor Jesus anunciou à mulher samaritana, em João 4.20,21,23:

Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.

O próprio Paulo, que na ocasião era um dos helenistas adversários, se transformou, mais tarde, no grande divulgador dessa nova verdade, fundando igrejas independentes de Jerusalém em territórios habitados por judeus da dispersão.

Ao rebater a acusação de blasfemar contra o lugar santo, Estêvão procura abrir a mente dos ouvintes, ensinando que Deus preparou o povo da promessa em vários lugares e, em cada lugar, o povo passou por, pelo menos, um teste.

Primeiro lugar: Harã, o teste do amor (1-4)

O primeiro lugar que Deus usou, como preparação para o seu povo, foi Harã. Podemos dizer que, em Harã, Deus aplicou ao povo o teste do amor.

Então, lhe perguntou o sumo sacerdote: Porventura, é isto assim? Estêvão respondeu: Varões irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, quando estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, e lhe disse: Sai da tua terra e da tua parentela e vem para a terra que eu te mostrarei. Então, saiu da terra dos caldeus e foi habitar em Harã. E dali, com a morte de seu pai, Deus o trouxe para esta terra em que vós agora habitais.

Harã é uma cidade no noroeste da Mesopotâmia, bem na extremidade da fronteira dessa próspera e aprazível região onde Abraão nasceu e foi criado, no oriente médio. Essa cidade, bem como toda a região da qual fazia parte, teve influência quase que constante na vida do povo de Israel, e isto pode ser notado em vários pontos cruciais de sua história:

a) Abraão saiu de Ur, extremo sul da mesopotâmia, e se deteve na fronteira noroeste, na cidade que passou a ser chamada de Harã, metade do caminho para Canaã. Foi só depois da morte de seu pai que ele prosseguiu viagem.

b) Quando traziam as primícias da colheita em oferta ao Senhor, os israelitas faziam uma espécie de juramento solene, e num determinado trecho diziam: Arameu prestes a perecer foi meu pai [...] (Deuteronômio 26.5,10);

c) Abraão manda seu servo buscar esposa para Isaque em Harã (Gênesis 24.2-4);

d) Jacó busca refúgio em Harã contra a ira de seu irmão Esaú (Gênesis 27.43; 28.10; 29.4); Ele foi para ficar alguns dias na fazenda de Labão, na mesma cidade em que habitara seu avô Abraão, e acabou constituindo família, e lá ficou por 20 anos. Depois da evidente e crescente inimizade de seu sogro para com ele foi que Jacó, definitivamente, partiu de volta para a terra prometida.

e) Balaque manda buscar o profeta Balaão, em Harã, para amaldiçoar o povo de Deus (Números 23.7);

f) O povo Assírio, que ameaçava Jerusalém no tempo de Ezequias, havia dominado a região da Mesopotâmia e falava a língua chamada aramaica, ou seja, a língua de Harã (Isaías 36.11);

g) O império babilônico, que tomou da Assíria o poder sobre a Mesopotâmia, também usava a língua aramaica. Para lá o povo de Abraão foi obrigado a voltar, agora como a nação de Israel, conquistada, onde ficou 70 anos e acostumou-se a falar o idioma aramaico (ou, sírio), situação que perdurou até o tempo de Jesus. Trechos importantes da Bíblia foram escritos em aramaico, durante o exílio (Daniel 2.4).

Conforme foram aconselhados em Jeremias 29.5, em Babilônia edificaram casas e habitaram nelas; plantaram pomares e comeram o seu fruto, tanto que, no tempo de Neemias, quando o povo já tinha obtido autorização para voltar à terra prometida, muitos não quiseram. Em Neemias 1.3 ele constatou com tristeza que “os restantes, que não foram levados para o exílio”, se achavam “em grande miséria e desprezo”, e os muros de Jerusalém estavam “derribados, e as suas portas, queimadas”.

Parece que Harã era um lugar muito aprazível, onde as pessoas tinham vontade de ficar. Tão aprazível que partir para Canaã, deixando de lado os amáveis campos e montanhas onde estavam bem instalados, era um teste de amor. O mesmo teste pelo qual nós, também hoje, precisamos passar, segundo 1João 2.15,16:

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo.

Segundo lugar: Canaã, o teste do caráter (4-9)

O segundo lugar que Deus usou, como preparação para o seu povo, foi Canaã. Podemos dizer que em Canaã Deus aplicou ao povo o teste do caráter.

E dali, com a morte de seu pai, Deus o trouxe para esta terra em que vós agora habitais. Nela, não lhe deu herança, nem sequer o espaço de um pé; mas prometeu dar-lhe a posse dela e, depois dele, à sua descendência, não tendo ele filho. E falou Deus que a sua descendência seria peregrina em terra estrangeira, onde seriam escravizados e maltratados por quatrocentos anos; eu, disse Deus, julgarei a nação da qual forem escravos; e, depois disto, sairão daí e me servirão neste lugar. Então, lhe deu a aliança da circuncisão; assim, nasceu Isaque, e Abraão o circuncidou ao oitavo dia; de Isaque procedeu Jacó, e deste, os doze patriarcas. Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para o Egito; mas Deus estava com ele.

A promessa de Deus a Abraão, de lhe dar a terra de Canaã, não se cumpriu durante a sua vida. Na verdade, ele foi alertado para o fato de que sua descendência ainda passaria por um longo período de escravidão no Egito, antes que a promessa a respeito da terra fosse concretizada. Deus não lhes deu imediatamente a posse da terra prometida, porque tinha outras prioridades. Era necessário testar o caráter.

Abraão foi bem, nos testes mais importantes, mas também houve algumas manchas que ficaram registradas em sua biografia, como seu hábito de mentir a respeito de sua esposa, dizendo que ela era sua irmã, para não correr o risco de ser morto por quem a cobiçasse, e sua precipitação em seguir o plano equivocado de Sara para ter um filho através de sua escrava Agar.

Ló, seu sobrinho órfão, não foi muito prudente em sua relação, perigosamente estreita, com as cidades pecaminosas de Sodoma e Gomorra e, como consequência, acabou perdendo tudo o que tinha, inclusive sua esposa, ao escapar da catástrofe que Deus enviou como juízo sobre aquelas cidades.

Isaque, cuja vida aparentemente não teve tantas emoções como a de seu pai Abraão e de seu filho Jacó, seguiu a tradição de mentir a respeito de sua esposa, como meio de proteção, quando em terra estranha. Seus filhos se desentenderam, e é bem provável que a educação que ele e sua esposa Rebeca lhes deram contribuiu para que isto acontecesse. O que se pode dizer de favorável a respeito do caráter de Isaque, porém, é o fato de ele ser um homem de oração (Gênesis 24.63; 25.21).

Os patriarcas, filhos de Jacó, não foram muito bem nos testes de caráter pelos quais passaram, chegando a vender seu irmão mais novo como escravo no Egito, para onde, mais tarde, também foram obrigados a ir, para não morrerem de fome.

Existe um corinho muito conhecido nas igrejas evangélicas que diz: "Caminhando eu vou para Canaã; Glória a Deus! caminhando eu vou para Canaã; Se você não vai, não impeça eu ir; [...] Glória a Deus! caminhando eu vou para Canaã". A letra, a melodia e o ritmo foram criados para dar uma sensação de vitória, de regozijo, pelo fato de estarmos caminhando rumo a Canaã, a “terra que mana leite e mel”, um lugar de descanso, onde almejamos um dia estar. Eu entendo, porém, que esse lugar é o céu, e não Canaã, o qual, na verdade, é um lugar onde os crentes estão em constante luta espiritual, tanto para estabelecer o reinado de Cristo, quanto para se defender dos constantes ataques do inimigo. É o nosso teste de caráter.

Terceiro lugar: Egito, o teste de resistência (10-19)

O terceiro lugar que Deus usou como preparação para o seu povo, foi o Egito. Podemos dizer que no Egito Deus aplicou o teste de resistência.

[...] e livrou-o de todas as suas aflições, concedendo-lhe também graça e sabedoria perante Faraó, rei do Egito, que o constituiu governador daquela nação e de toda a casa real. Sobreveio, porém, fome em todo o Egito; e, em Canaã, houve grande tribulação, e nossos pais não achavam mantimentos. Mas, tendo ouvido Jacó que no Egito havia trigo, enviou, pela primeira vez, os nossos pais. Na segunda vez, José se fez reconhecer por seus irmãos, e se tornou conhecida de Faraó a família de José. Então, José mandou chamar a Jacó, seu pai, e toda a sua parentela, isto é, setenta e cinco pessoas. Jacó desceu ao Egito, e ali morreu ele e também nossos pais; e foram transportados para Siquém e postos no sepulcro que Abraão ali comprara a dinheiro aos filhos de Hamor. Como, porém, se aproximasse o tempo da promessa que Deus jurou a Abraão, o povo cresceu e se multiplicou no Egito, até que se levantou ali outro rei, que não conhecia a José. Este outro rei tratou com astúcia a nossa raça e torturou os nossos pais, a ponto de forçá-los a enjeitar seus filhos, para que não sobrevivessem.

José serviu como escravo o tempo suficiente para conquistar a confiança de seu senhor, depois foi preso por causa de uma calúnia, esquecido na prisão mais de dois anos, até que sua sorte mudou radicalmente, chegando a tornar-se governador do Egito.

Seus irmãos, porém, se viram em apuros por causa da grande fome, e tiveram que se humilhar diante de seu irmão mais novo, que os perdoou e acolheu depois de algumas repreensões.

Jacó e seus filhos morreram, todos, no Egito, e não alcançaram em vida a promessa da terra. Até mesmo seus ossos foram sepultados em terra que foi comprada a dinheiro (Gênesis 23.16; 33.19), e não recebida em herança, conforme a promessa.

Toda aquela geração passou o resto de sua vida ali, e as gerações seguintes viram sua situação se deteriorar a cada ano, até se tornarem meros escravos, gemendo sob a opressão do novo Faraó.

Talvez não estejamos percebendo, mas a escravidão não é uma realidade tão distante de nós, no tempo e no espaço. Uma matéria no site da BBC Brasil, em junho de 2016, relatava que

 

O trabalho escravo foi banido em quase todos os países, mas ainda existem muitas pessoas vivendo sob essa condição ao redor do mundo. [...] A chamada escravidão moderna atinge mais de 45,8 milhões de pessoas no mundo, segundo a edição deste ano do Índice Global de Escravidão, publicado pela Fundação Walk Free, da Austrália. A maioria (quase 35%) está na Ásia. Na América Latina, são 2,16 milhões de trabalhadores, 161,1 mil deles no Brasil [...] a incidência desse crime é maior nas áreas rurais no país, principalmente em regiões de cerrado e na Amazônia. [...] A Tailândia [...] foi acusada de lotar seus barcos com birmaneses e cambojanos que foram obrigados a trabalhar como escravos. [...] Os números sugerem a existência de 10 mil a 13 mil vítimas de escravidão no Reino Unido, vindas de países como Albânia, Nigéria, Vietnã e Romênia. [...] O relatório destaca que muitas crianças na Europa, Ásia, África, América Latina e Oriente Médio são forçadas por criminosos a pedir esmolas nas ruas. [...] Grande parte da escravidão moderna não é visível para o público - ela acontece em casas, fazendas ou outros tipos de propriedades particulares. [...] No mês passado, um britânico começou a cumprir uma pena de dois anos de prisão por manter sua própria mulher sob servidão doméstica - é o primeiro caso do tipo de se tem conhecimento no país. Ela foi torturada, forçada a trabalhar e não podia sair de casa, segundo os promotores.

5 exemplos da escravidão moderna, que atinge mais de 160 mil brasileiros. Site da BBC Brasil, 03/06/2016. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-36429539 Acesso em 03 jun. 2018.

Às vezes, mesmo que não estejamos sofrendo esse tipo de violência, somos desafiados a exercitar nossa fé e paciência como escravos, neste mundo de injustiças, onde a maior parte do fruto do nosso trabalho é subtraída sem que tenhamos chance de nos defender.

Na escravidão do Egito, os Israelitas foram testados quanto à sua resistência, ilustrando inclusive a escravidão espiritual referida por Jesus em João 8.31-37:

Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres? Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado. O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.

Conclusão

Estêvão se defendeu, apresentando a sua tese de que os planos de Deus não incluem, necessariamente, a terra prometida, sendo ela, junto com outras terras, apenas parte de um plano maior que é separar deste mundo um povo santo.

Nossas vidas se assemelham muito com a história de Israel, pois Deus também não nos dá, de imediato, o cumprimento de todas as promessas que nos tem feito. Em vez disso, ele quer nos preparar para a futura posse da vida eterna.

Vamos, pois, nos apropriar da exortação de Paulo em 1Timóteo 6.12 : “Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas”.

Sabemos que o chamado e a eleição são obras de Deus. Ele chama e salva a quem quer, ele se compadece e endurece a quem quer. A nossa responsabilidade é procurar confirmar, “com diligência cada vez maior”, a nossa “vocação e eleição; porquanto, procedendo assim”, não tropeçaremos em tempo algum, e dessa maneira nos será “amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pedro 1.10,11).

Que possamos nos esforçar, e que Deus nos ajude a passar com louvor nos testes do Amor, do Caráter e da Resistência.

Foto do cabeçalho - “Pastos Verdejantes” disponível em: https://br.pinterest.com/skduley224/the-lord-is-my-shepherd/ Acesso em 03 jun.2018.

sábado, 12 de maio de 2018

As virtudes de Estevão (Atos 6.8-15)

Quando andar pelas ruas e encontrar um gari fazendo o seu serviço de varrição, cuidado para não se enganar. Você pode estar diante de um doutor. Numa reportagem da Folha Online de 2009 lemos o seguinte:


Com inscrições abertas desde o dia 7, o concurso público para a seleção de 1.400 garis para a cidade do Rio já atraiu 45 candidatos com doutorado, 22 com mestrado, 1.026 com nível superior completo e 3.180 com superior incompleto, segundo a Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana).


Concurso para garis atrai 22 mestres e 45 doutores. Folha de São Paulo/Cotidiano (online), 22/10/2009. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2210200915.htm  Acesso em 06 maio 2018.


Parece que Estevão também estava na mesma situação desses doutores garis, porque era um dos sete diáconos escolhidos para serem servidores das mesas na igreja de Jerusalém, e certamente foi muito fiel nesta simples tarefa, mas não se limitou a isso, pois o Espírito Santo também o habilitou para fazer grandes coisas, inclusive sinais e prodígios diante do povo. Além disso, com grande sabedoria era capaz de debater e confundir doutores para convencê-los das verdades do evangelho de Jesus Cristo.


Aqueles que se dedicam a servir a Deus de todo o coração podem ser notados pelas virtudes que o Espírito Santo lhes confere. As pessoas que conviveram com Estevão podiam notar que ele trazia pelo menos três virtudes que comprovavam sua dedicação para servir a Deus.


Umas das virtudes que notamos na vida de Estevão é a Graça, conforme o versículo 8, que diz: “Estevão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo”.


Estevão era o que poderíamos chamar de um homem engraçado. Mas não é que ele fazia os outros rirem o tempo todo, e sim que era um homem que tinha graça, um homem que os outros queriam por perto, porque sempre trazia bênçãos às pessoas ao seu redor. Ele fazia milagres em nome de Cristo. A graça, como já vimos em outro parágrafo, é um dos frutos coletivos do Espírito Santo. É natural para o cristão ajudar a todos com prontidão e alegria, e isto promove uma boa fama do cristão para com a comunidade.


Talvez você, como eu, não tenha recebido o dom de Deus para fazer milagres, igual Estevão, mas pode ser que Deus lhe tenha dado, como também a mim, outros dons. Os tradutores da Bíblia “Almeida Revista e Atualizada” nos dão uma dica, ao traduzir a palavra grega Charis, em Atos 2.47, como “simpatia”. Veja como ficou o versículo: “[...] louvando a Deus e contando com a simpatia [Charis] de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos”.


A graça é um grande instrumento de evangelização. Tradicional e eficaz. Quanto mais a Igreja for graciosa, mais chances haverá de que almas sejam incorporadas no reino de Deus. Num livreto chamado Evangelismo e Comunhão Cristã, de John Walker, lemos o seguinte:


Conta-se a história de um cristão zeloso que se aproximou de um rabino judeu e lhe perguntou: “Senhor Rabino, quando é que os judeus se tornarão cristãos?”. O rabino lhe respondeu: “Os judeus serão cristãos quando os cristãos se tornarem cristãos!”.Seja qual for a intenção do rabino ao dar esta resposta maravilhosa, a verdade é que os cristãos serão evangelistas quando os cristãos forem cristãos! O evangelismo acontecerá como Deus intentou quando os cristãos se relacionarem corretamente a Cristo e uns aos outros.


WALKER,John. Evangelismo E Comunhão Cristã. Disponível em: http://www.ruach.com.br/livretos/evangelismo.e.comunhao.crista.pdf Acesso em17 set. 2016.


Estevão tinha os dons de curar e fazer milagres, e os utilizava com os critérios da virtude da graça.


Outra virtude evidente na vida de Estevão é a Sabedoria, conforme os versículos 9 e 10: “Levantaram-se, porém, alguns dos que eram da sinagoga chamada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia, e discutiam com Estevão; e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava”.


A virtude da sabedoria é também um dom do Espírito Santo. Deus não precisa, mas gosta de usar a cultura e o conhecimento adquiridos ao longo da vida por pessoas como Estevão, para que seu nome seja glorificado.


Estevão podia ser Paulo. Quero dizer, se ele não tivesse sido apedrejado até a morte, poderia ter sido um apóstolo zeloso e produtivo como foi Paulo. Tenho a impressão de que Estevão podia ter sido escolhido para ser o grande apóstolo, mas Paulo (por cumplicidade) o apedrejou, e por isso Deus o condenou a ficar no lugar dele, a tomar o seu encargo.


Mattew Henry comenta que os adversários de Estevão eram judeus helenistas da dispersão,


[...] que parecem ter sido mais zelosos da religião do que os judeus nativos; foi com dificuldade que eles mantiveram a prática e a profissão de fé no país onde viviam [...], e isso fez com que se tornassem mais ativos para o judaísmo. [...] Alguns pensam que estes Libertos eram judeus que tinham obtido a cidadania romana, como Paulo (Atos 22.27-28); e é provável que ele fosse o líder desta sinagoga dos Libertos que disputavam com Estevão, e engajado com outros na disputa, pois ele estava presente no apedrejamento de Estevão, e consentia na sua morte. [...] Eles não foram capazes de resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava [...]. Estava cumprindo-se a promessa: “porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem” (Lucas 21.15).


Mattew Henry’s Commentary on the Whole Bible. Domínio Público (tradução livre).


A virtude da sabedoria é dom do Espírito Santo, mas não devemos esperar que ela “caia do céu”. É nosso dever adquiri-la, conforme Provérbios 4.7: “O princípio da sabedoria é: Adquire a sabedoria; sim, com tudo o que possuis, adquire o entendimento”. E Deus vai nos dar então o que nos falta, vai nos dotar com habilidade de utilizar a sabedoria que adquirimos. É como acontece com os bancos de investimento, que costumam ter como regra não financiar 100% de nenhum empreendimento. Assim também é com aquele que pede a Deus sabedoria: precisa investir seus recursos próprios, estudando diligentemente a Palavra de Deus. Estevão tinha adquirido sabedoria, e Deus lhe deu a virtude de bem utilizá-la.


Uma terceira virtude que notamos em Estevão é a Serenidade. Nos versículos 11 a 15 nós lemos que os opositores subornaram homens para o acusarem falsamente, sublevaram o povo e as autoridades, que o arrebataram, levando-o ao Sinédrio. Em meio à enxurrada de acusações falsas, “todos os que estavam assentados no Sinédrio, fitando os olhos em Estevão, viram o seu rosto como se fosse rosto de anjo".


Parece que tudo aquilo não abalava a sua fé. Seu rosto foi notado, pelos juízes, como se fosse rosto de anjo. Ele tinha serenidade, porque confiava no Senhor, e seu estado de espírito transparecia em seu rosto. Voltando ao comentário de Mathew Henry, ele diz que


O Espírito de Deus enchia o coração de Estevão quando este foi trazido perante o conselho, e fez com que fosse visível sua presença com ele [...]. É usual que os juízes observem o rosto do prisioneiro, porque às vezes seu semblante é uma indicação de culpa ou de inocência. O rosto de Estevão era um rosto como de um anjo.


1. Talvez a expressão signifique não mais do que um semblante extraordinariamente agradável, uma fisionomia alegre, e não havia nele o menor sinal de medo ou de raiva de seus perseguidores [...]. Tal serenidade imperturbável, uma coragem tão destemida, e uma mistura tão inexplicável de brandura e majestade, que havia em seu rosto, era como ver um rosto de anjo; [...].


2. Pode também ter havido um esplendor milagroso, um brilho em seu semblante, como o de nosso Salvador, quando ele foi transfigurado, ou, pelo menos, como o rosto de Moisés quando ele desceu de sua audiência com Deus [...].


Mattew Henry’s Commentary on the Whole Bible. Domínio Público (tradução livre).


O rosto de uma pessoa pode dizer muito sobre sua personalidade ou sobre o seu estado de espírito. O rosto de Caim demonstrou sua inconformidade para com a vontade de Deus, em Gênesis 4.3-6:


Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta;  ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante?


Jacó notou no rosto de seu sogro, Labão, que ele não estava muito contente com a sua presença, e viu que havia perigo em permanecer com ele, em Gênesis 31.2. Ana, mãe de Samuel, quando creu que o Senhor lhe atenderia a oração, não ficou mais com o semblante triste (1Samuel 1.18). Provérbios 15.13 diz que “O coração alegre aformoseia  o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate”.


Eu gostaria de poder ser como Estevão, quando me acusam falsamente. Se não conseguir ficar passivo, e se descair o meu semblante, é porque não estou no Espírito, e preciso buscar mais do Senhor. Às vezes, porém, necessitamos nos entristecer por causa de nosso próprio pecado, porque a “a tristeza segundo Deus” (2Coríntios 7.10) pode fazer descair o nosso semblante, mas fará bem ao nosso coração, conforme Eclesiastes 7.3: “Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”.


Estevão tinha o rosto como de um anjo, em uma situação que haveria muitos motivos para que tivesse o semblante descaído.


Assim, um serviçal, cuja atribuição era servir às mesas, por sua dedicação e fé, revelou possuir virtudes, as quais lhe foram dadas pelo Espírito Santo. Virtudes como a Graça, a Sabedoria e a Serenidade. Há muitos dons que Deus tem concedido à Igreja para usarmos com o critério da graça. Sejamos graciosos e utilizemos esses dons para o bem dos outros e para a glória de Deus. Possamos nós também adquirir sabedoria, conhecimento de Deus, através da Bíblia, utilizando toda a diligência que pudermos. Não percamos tempo com o que é passageiro, vamos investir no que é eterno. Estevão tinha um semblante de anjo, mesmo estando em situação nada agradável, sendo acusado injustamente, julgado por um sinédrio furioso. Como tem sido o nosso semblante diante das dificuldades da vida cotidiana? Às vezes precisamos nos esforçar para abrir um sorriso, mas esse esforço vale a pena, porque temos o alvo de glorificar a Deus e ganhar pessoas para Cristo.


Imagem no cabeçalho disponínel em: http://www.infocristiana.it/galleria-the-last-supper-the-passion-of-the-christ-jpg-jpg.html Acesso em: 12 maio 2018.

 

Este e outros artigos deste Blog fazem parte do livro "A Igreja em Expansão (Atos 6-14)", disponível em um dos links abaixo:

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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Pobres atenienses (Atos 17.16-21)


Atenas era um dos mais importantes centros culturais do mundo antigo. Uma cidade muito rica. Ainda hoje se pode visitar em Atenas as ruínas de construções imensas e belas como o Erectheion e o Partenon e o templo do Zeus Olímpico, que tinha 104 colunas de 17 m de altura e 2 m de diâmetro. Mas essa toda essa riqueza de Atenas não tinha nenhum valor para o apóstolo Paulo, que viu nos atenienses uma profunda pobreza espiritual. Ele ficou revoltado ao ver a situação em que os atenienses se encontravam. Seu coração não se conformava em vê-los assim. Por isso, além de pregar na sinagoga, pregava também na praça, onde a maioria se reunia, para tentar fazê-los entender que estavam num caminho que os levaria à perdição.  É possível afirmar que Paulo fez pelo menos três constatações sobre a pobre situação dos atenienses que o motivaram a pregar numa praça de Atenas.


A primeira constatação era de que os atenienses se perdiam em meio à idolatria. No versículo 16 está escrito que, “enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava em face da idolatria dominante na cidade”.


A idolatria reinava. Fazia parte do seu cotidiano, era normal. Os deuses gregos, os quais adoravam, não eram muito diferentes dos homens quanto aos seus sentimentos e atos pecaminosos. Na verdade, como observa o professor Roriz (2017) em uma revista educacional,


[...] a mitologia serviu para justificar atos falhos dos homens. Donos de terra e monarcas possuíam sua própria versão das antigas lendas e as impunham às pessoas de acordo com seus interesses mesquinhos. Um homem rico poderia ser infiel à esposa, pois seguia os exemplos de Zeus. Mesmo o vício pela bebida era visto como uma virtude pelos homens que acreditavam que o álcool o aproximava dos deuses. Segundo as leis dionisíacas, o homem que alcançasse um estado de euforia por meio da bebida, poderia se transformar em um herói, o primeiro estágio para conquistar a imortalidade. Por outro lado, a embriaguez também poderia ser explicada pela mitologia. De acordo com os gregos antigos, aquele que tentasse ser imortal por meio da bebida seria amaldiçoado pelos deuses, tornando-se desequilibrado e socialmente inábil.


RORIZ, João Pedro. A mitologia grega no dia a dia das crianças. Site Educação Infantil, 30/01/2017. Disponível em: http://revistaeducacaoinfantil.com.br/a-mitologia-grega-no-dia-a-dia-das-criancas/  Acesso em 22 abr. 2018.


A idolatria tem muitas definições que até evoluem com o tempo. Nós, os evangélicos, temos sérias divergências com os católicos no que diz respeito à utilização de imagens em seu culto, o que os evangélicos consideram como idolatria, mas os católicos fazem distinção entre veneração e adoração. Precisamos admitir, porém, que o catecismo da Igreja Católica tem em seu texto uma excelente definição de idolatria, e alerta sobre várias práticas idólatras que vão muito além da adoração de imagens. Vejamos alguns trechos de um comentário do Catecismo:


§2112 O primeiro mandamento condena o politeísmo. Exige que o homem não acredite em outros deuses afora Deus, que não venere outras divindades afora a única. A escritura lembra constantemente esta rejeição de "ídolos, ouro e prata, obras das mãos dos homens", os quais "têm boca e não falam, têm olhos e não vêem..." Esses ídolos vãos tornam as pessoas vãs: [...]


§2113 A idolatria não diz respeito somente aos falsos cultos do paganismo. Ela é uma tentação constante da fé. Consiste em divinizar o que não é Deus. [...] quer se trate de deuses ou de demônios (por exemplo, o satanismo), do poder, do prazer, da raça, dos antepassados, do Estado, do dinheiro etc.[...]


§1723 [...]a verdadeira felicidade não está nas riquezas ou no bem-estar, nem na glória humana ou no poder, nem em qualquer obra humana, por mais útil que seja, [...]


A riqueza é o grande deus atual; a ela prestam homenagem instintiva a multidão e toda a massa dos homens. [...]


§2289 Se a moral apela para o respeito à vida corporal, não faz desta um valor absoluto, insurgindo-se contra uma concepção neopagã que tende a promover o culto do corpo, a tudo sacrificar-lhe, a idolatrar a perfeição física e o êxito esportivo. [...]


§2138 A superstição é um desvio do culto que rendemos ao verdadeiro Deus. Ela se mostra particularmente na idolatria, assim como nas diferentes formas de adivinhação e de magia.


Catecismo da igreja Católica – Índice analítico – 1.5 Idolatria/Ídolo. Disponível em: http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/h/idolatria.html  acesso em 23 abr. 2018.


A idolatria está ligada ao coração do homem. Ele busca uma entidade superior, transcendente, para aplacar seus medos, seus sofrimentos. Os evangélicos não estão isentos de idolatria, quando supervalorizam símbolos ou experiências sobrenaturais, na maioria das vezes sem fazer um exame cuidadoso para saber em que está fundamentada a sua fé. Você já se pegou pensando que a oração do pastor é mais forte, que a oração feita em determinado local é mais poderosa, que a bíblia não pode ser lida na igreja por meio de um celular? Tomemos cuidado, porque essas coisas podem sem sintomas de idolatria.


Os atenienses estavam afundados em diversos tipos de idolatria, e precisavam se converter ao Deus Desconhecido, que Paulo mais tarde apresentou como o Deus Verdadeiro, que criou os céus e a terra, e que vai julgar todos os homens de acordo com o evangelho. Que o Senhor nos dê sabedoria, e nos livre de nos entregarmos a qualquer tipo de idolatria.


A segunda constatação de Paulo era de que os atenienses se perdiam em meio à filosofia. Os vesrículos 17 e 18 prosseguem dizendo que, em vista da revolta no coração de Paulo com a idolatria dominante na cidade, ele “dissertava na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos; também na praça, todos os dias, entre os que se encontravam ali. E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? E outros: Parece pregador de estranhos deuses; pois pregava a Jesus e a ressurreição”.


Segundo a Wikipédia, Epicurismo é um sistema filosófico “de cunho materialista, não havendo espaço para a imortalidade. O filósofo acreditava que o maior bem era a procura de prazeres moderados de forma a atingir um estado de tranquilidade [...]”. E os “estoicos apresentaram sua filosofia como um modo de vida e pensavam que a melhor indicação da filosofia de um indivíduo não era o que uma pessoa diz, mas como essa pessoa se comporta.”.


Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Epicurismo e em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo>. Acesso em 23 abr. 2018.


A filosofia busca o conhecimento da verdade, mas se ela não considerar o que diz a Palavra de Deus, pode fazer com que as pessoas se percam em seus próprios pensamentos. Numa apostila de introdução à filosofia do site Administra Brasil, nós lemos o seguinte:


[...] em filosofia nenhuma verdade é definitiva, nenhuma posição é a última a ter, tiranicamente,  pregnância sobre as demais. Não, quando pensamos em filosofia, há um universo de problemas ainda não respondidos que atravessam os tempos [...].


Introdução à filosofia. Administra Brasil Cursos. P.29. Disponível  em: https://administrabrasil.com.br/wp-content/uploads/2018/01/Introduc%CC%A7a%CC%83o-a%CC%80-Filosofia.pdf  Acesso em 23 abr. 2018.


Se uma determinada linha filosófica afirma que nenhuma verdade é definitiva, ela não pode ser adotada por um cristão, pois Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida [...]” (João 14.6). Portanto existe, sim, uma verdade definitiva, e essa verdade é encarnada no próprio filho de Deus.


A história mostra que é possível ser filósofo e ao mesmo tempo cristão, como o foram, por exemplo, Agostinho e Tomás de Aquino. O cristão não deve temer o conhecimento, apenas deve entender que o conhecimento deve ter um propósito, como tudo o que ele faz na vida, e que deve ser colocado diante do altar, como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, como um culto racional, como diz Romanos 12.1,2.


O conhecimento somente pelo conhecimento não é produtivo, pode inclusive tornar-se nocivo. Pessoas com grande conhecimento que, porém, não adotam princípios cristãos, tendem a ser muito arrogantes. A Bíblia alerta quanto a isso, e diz para evitarmos discussões inúteis. Podemos encontrar esse tipo de advertência em pelo menos quatro lugares na Bíblia:


1ª Timóteo 1.4  nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé.


1ª Timóteo 4.7  Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas caducas. Exercita-te, pessoalmente, na piedade.


2ª Timóteo 4.4  e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.


Tito 1.14  e não se ocupem com fábulas judaicas, nem com mandamentos de homens desviados da verdade.


2ª Pedro 1.16 Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade


Paulo era um homem muito culto, e estava à altura dos filósofos para poder argumentar. Pedro achava Paulo meio complicado, como podemos perceber na sua exortação de 2ª Pedro 3.15,16:


[...] e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.


Mas, se um dia Paulo foi como aqueles filósofos que amavam o conhecimento só pelo conhecimento, ele chegou um dia a uma conclusão diferente, segundo seu testemunho em Filipenses 3.7,8:


Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo


Falando ainda ao povo convertido de Corinto, uma cidade vizinha de Atenas, Paulo relembra:


Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação. Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios;  mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus.  Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.  Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.


(1ª Coríntios 1.20-31)


Mas não se deve pensar que o cristão tem que ser simplório, que deve evitar a filosofia, como se a busca do conhecimento fosse pecado, como se fosse comer do fruto proibido. Pelo contrário, a falta de uma análise profunda de nossa maneira de agir é que tem produzido grandes pecados. Em 1961, a filósofa Hannah Arendt participou do julgamento do nazista Adolf Eichmann, um burocrata que autorizava e controlava a deportação dos judeus para os campos de extermínio. Em sua fala durante o julgamento, Hanna adverte que uma pessoa comum como, que tem esposa e filhos, que cumpre fielmente sua rotina da trabalho com qualquer cidadão, é capaz de fazer atrocidades se não parar para pensar profundamente no que está fazendo:


[...] a atividade do pensamento é um guia constante para nossas ações e condutas. Pensar, dirá Arendt, não é simplesmente uma faculdade entre outras. Mas, pelo pensamento, somos capazes de compreender a necessidade de ponderação e constante vigilância sobre nossas atividades. Nesse sentido, a barbárie produzida pelo aparato burocrático de Hitler tem estreita vinculação à uma incapacidade de pensamento; experiência do isolamento e da fria distância do espaço comum,os homens que não pensam seriamente sobre sua realidade e sobre as potencialidades de suas ações podem mandar milhares de pessoas à morte com a mesma simplicidade que um funcionário “ executa ordens”.


Introdução à filosofia. Administra Brasil Cursos. P.33. Disponível  em: https://administrabrasil.com.br/wp-content/uploads/2018/01/Introduc%CC%A7a%CC%83o-a%CC%80-Filosofia.pdf  Acesso em 23 abr. 2018.


Será que nós, os cristãos, também podemos ser assim? Sem pensar profundamente no que estamos dizendo ou fazendo, será que podemos ser instrumentos do diabo para afastar pessoas da igreja ou até mesmo da fé? Eu temo que sim, que a falta de se pensar profundamente em nossos atos e palavras pode nos tornar instrumentos do diabo, achando que estamos servindo a Deus.


Por outro lado, os cristãos também podem ser excessivamente racionais e intelectuais a ponto de perderem a sensibilidade do amor cristão. Esta falta de equilíbrio entre o saber e o não saber é um problema tão grande que todos devem estar em constante vigilância diante da advertência de Jesus em Marcos 9.42: “E quem fizer tropeçar a um destes pequeninos crentes, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse lançado no mar”.


Os atenienses amavam o conhecimento, e isso não era ruim, porque as escolas de filosofia os faziam questionar a ética, a moral, e até mesmo a questão da idolatria. Mas estavam profundamente perdidos em meio à sua filosofia, e estava na hora de darem espaço para o sublime conhecimento do Deus Verdadeiro.


A terceira constatação de Paulo era de que os atenienses se perdiam em meio à sua ociosidade. Lemos nos versículos 19 a 21 que “Então, tomando-o consigo, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos saber que nova doutrina é essa que ensinas? 20  Posto que nos trazes aos ouvidos coisas estranhas, queremos saber o que vem a ser isso. 21  Pois todos os de Atenas e os estrangeiros residentes de outra coisa não cuidavam senão dizer ou ouvir as últimas novidades”.


A arqueologia nos revela uma curiosidade sobre o contraste entre os grandes monumentos e as moradias dos gregos, em geral. No livro de Brandini e Lorenzetti (2017) chamado “A casa fala”, as autoras nos contam que os gregos:


[...] pouco valorizavam o luxo e a ostentação. Eram incapazes de considerar essas coisas como as mais importantes. Almejavam viver de maneira interessante e satisfatória, sem passar os dias trabalhando arduamente para obter mais conforto para a família, nem tinham interesse em acumular riquezas. Desejavam mesmo ter mais tempo livre para a política, as conversas nos mercados, as atividades intelectuais e artísticas. Essa forma de viver sem dúvida influenciou na arquitetura das cidades que valorizavam muito os espaços públicos, templos, mercados, teatros, banhos públicos, ginásios, estádios. Os espaços privados, como as residências, eram menos privilegiados, contando com espaços menores e muito simples. Comparadas com as de hoje, as casas eram pequenas e sem conforto.


BRANDINI, Maria do Carmo; LORENZETTI, Yara. A casa fala: Uma relação de vida e amor. São Paulo: Scortecci, 2017.


Embora se possa argumentar que o conforto material não é tão importante quanto o enriquecimento espiritual, a Bíblia não nos incentiva a negligenciarmos o trabalho em prol, por exemplo, da melhoria de nossas moradias. Pelo contrário, Eclesiastes 10.18 critica uma atitude de relaxamento para com a nossa moradia, dizendo que “pela muita preguiça desaba o teto, e pela frouxidão das mãos goteja a casa”. Se as casas dos gregos estavam enfraquecidas e tinham pouco conforto, eles bem que podiam dedicar mais tempo para fazê-las melhor habitáveis, pensando nas mulheres e crianças que ficavam em casa, enquanto eles só se ocupavam de dizer e ouvir as últimas novidades.


Hoje também é muito fácil passarmos o dia inteiro nas redes sociais, vendo e compartilhando as últimas novidades, perdendo um tempo precioso que deveria ser dedicado à produtividade. O tédio leva as pessoas de hoje a se tornarem viciados em internet. Se você não tiver um propósito pelo qual se dedicar, cairá mais facilmente nessas armadilhas do diabo. Devemos procurar ser úteis. Os poucos atenienses que se converteram com a pregação de Paulo certamente mudaram de vida. É bem provável que não ficavam mais apenas cuidando de dizer ou ouvir as últimas novidades, e quem sabe, até, dedicaram um tempinho para tornarem suas moradias mais confortáveis para suas esposas e filhos, porque a vida de um cristão tem que ser diferente, pelo fato de ele ter um propósito maior para buscar.


Quando falamos do propósito maior do cristão, não queremos dizer necessariamente evangelizar ou ser um missionário. Se o cristão cumpre bem o seu papel como cidadão, se ele é trabalhador e tem uma vida respeitável, também faz isso para Cristo. É uma parte importantíssima do seu propósito maior como cristão. Veja por exemplo a instrução que Paulo dá a Timóteo a respeito da assistência social às viúvas da igreja em 1ª Timóteo 5.11-15:


Mas rejeita viúvas mais novas, porque, quando se tornam levianas contra Cristo, querem casar-se, tornando-se condenáveis por anularem o seu primeiro compromisso. Além do mais, aprendem também a viver ociosas, andando de casa em casa; e não somente ociosas, mas ainda tagarelas e intrigantes, falando o que não devem. Quero, portanto, que as viúvas mais novas se casem, criem filhos, sejam boas donas de casa e não dêem ao adversário ocasião favorável de maledicência. Pois, com efeito, já algumas se desviaram, seguindo a Satanás.


E não pensem que essa instrução vale apenas para as mulheres. Em 2ª Tessalinicenses 3.10,11 Paulo ordena: “se alguém não quer trabalhar, também não coma”. Porque tinha ouvido que alguns dentre eles estavam andando “desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs”. E em Colossenses 3.22-24 ele exorta:


Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo”.


Mas os atenienses não tinham esse conhecimento, estavam perdidos em meio à ociosidade, e caminhavam para a morte eterna, sem Cristo.


Conclusão


Atenas era uma cidade muito rica, e tinha um valioso patrimônio cultural, mas ainda assim era pobre no sentido espiritual, porque ignorava o conhecimento de Cristo.  As constatações que Paulo fez sobre a pobre situação dos atenienses, que o motivaram a pregar numa praça de Atenas, era de que eles se perdiam em meio à idolatria, à filosofia, e à ociosidade. Tomemos cuidado para não seguirmos o exemplo dos pobres atenienses. Fujamos de toda forma de idolatria, sejamos equilibrados quanto à nossa filosofia, como diz 2ª Coríntios 10.5: “[...] levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo”, e não fiquemos ociosos, mas sejamos “sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1ª Coríntios 15.58).


 


Foto do Partenon – disponível em:  https://www.oversodoinverso.com.br/o-partenon-de-atenas-um-monumento-epico-e-o-misterio-das-medidas/   Acesso em 25 abr. 2018

sábado, 14 de abril de 2018

Uma igreja em expansão (Atos 6.1-7)


Nossa igreja é pequena. Como desejamos vê-la, um dia, como uma grande igreja, cheia de fiéis! A igreja do Novo Testamento, da qual lemos nesse parágrafo de Atos, era uma comunidade em pleno crescimento. Os problemas que iam surgindo eram tratados com muita seriedade e oração. À medida que aumentavam as pessoas, multiplicava-se também o trabalho e as dissensões, exigindo cada vez mais a intervenção sábia de seus líderes. Podemos notar neste texto a evidência de que uma igreja em expansão precisa se encarregar de prover ao seu povo alguns tipos de serviço, cujos comentários veremos a seguir.


Um dos principais serviços do qual uma igreja em expansão precisa se encarregar é Assistência Social.  Percebemos essa ideia implícita nos versículos 1 e 2, onde lemos que,


[...] naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas.


O que nós chamamos hoje de assistência social, serviço cuja responsabilidade atribuímos principalmente ao governo, era um serviço natural entre os cristãos. Era o amor em prática.


O apóstolo João faz um questionamento e uma exortação, em sua primeira carta geral, onde argumenta: “aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (Primeira João 3.17,18).


Jesus ensinou a prática da teoria do amor a um esclarecido intérprete da lei que lhe perguntou a respeito das exigências divinas para se obter a vida eterna. Sua resposta veio através de uma pequena e didática história que está registrada em Lucas 10.33-35, onde uma vítima de um violento assalto se encontrava ferido, caído na beira de uma movimentada estrada:


Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar.


O serviço de assistência social na igreja tornou-se mais organizado no decorrer do tempo, quando passou a regulamentar algumas peculiaridades, conforme podemos notar nas instruções de Paulo a Timóteo sobre algumas regras a serem seguidas (Primeira Timóteo 5.3-5):


Honra as viúvas verdadeiramente viúvas. Mas, se alguma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiro a exercer piedade para com a própria casa e a recompensar a seus progenitores; pois isto é aceitável diante de Deus. Aquela, porém, que é verdadeiramente viúva e não tem amparo espera em Deus e persevera em súplicas e orações, noite e dia;


Outro tipo importante de serviço do qual uma igreja em expansão precisa se encarregar é o Ensino. Vejam como os apóstolos enfatizam isto nos versículos 3 a 6, onde sugerem a eleição de sete homens para se encarregarem da organização da assistência social enquanto eles, os apóstolos, se consagrariam à oração e ao ministério da palavra. Esse parecer agradou a toda a comunidade, e então


[...] elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia.  Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos.


Com isso vemos que Pedro e os demais apóstolos perceberam a necessidade de delegar algumas tarefas para que tivessem tempo suficiente de consagração à oração e ao ministério da palavra. Com sabedoria, elegerem diáconos para se encarregarem dos outros serviços, os mais elementares. Notem porém que, apesar de terem sob seu encargo os serviços mais básicos, os diáconos deveriam ter boa reputação, ser cheios do Espírito Santo e de sabedoria. Por que? Porque, como líderes na igreja, eles também tinham a responsabilidade de ensinar e dar bons exemplos.


Paulo, o apóstolo dos gentios, pioneiro e grande responsável pela expansão inicial da Igreja para o ocidente, desejava que seus filhos na fé se dedicassem em aprender os princípios e os mistérios da palavra de Deus. Em dois momentos, pelo menos, nas suas cartas, ele declarou: “Não quero que sejais ignorantes” (Primeira Coríntios 12.1 e Primeira Tessalonicenses 4.13). Parece que, infelizmente, em nosso tempo, essa preocupação com o ensino tem sido diminuída consideravelmente. Uma estimativa da Faculdade Teológica Sul Americana aponta que,


Durante o último século, o número de cristãos evangélicos cresceu de forma explosiva em todo o mundo. Estima-se que 75% deles vivem na África, Ásia ou na América do Sul e, embora seja impossível saber com certeza, estima-se que existam cerca de 2,2 milhões de igrejas evangélicas em todo o mundo. No entanto, 85% deles são liderados por pastores com pouco ou nenhuma formação teológica. Estima-se que menos de 10% dos pastores tem um bacharelado em Teologia.


BARRO, Jorge H.  Faculdade Teológica Sul Americana. Disponível em: http://www.ftsa.edu.br/site/index.php/publicacoes-da-ftsa/professores-em-foco/530-estudo-diz-que-85-das-igrejas-evangelicas-sao-lideradas-por-pastores-sem-preparacao-teologica Acesso em 04 set. 2016.


Se as igrejas negligenciarem o ensino da palavra, cairão na situação em que se encontrava o povo de Israel, no tempo de Oséias, que profetiza em seu livro (4.1-6):


Ouvi a palavra do SENHOR, vós, filhos de Israel, porque o SENHOR tem uma contenda com os habitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus. O que só prevalece é perjurar, mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios.  Por isso, a terra está de luto, e todo o que mora nela desfalece, com os animais do campo e com as aves do céu; e até os peixes do mar perecem.  Todavia, ninguém contenda, ninguém repreenda; porque o teu povo é como os sacerdotes aos quais acusa. Por isso, tropeçarás de dia, e o profeta contigo tropeçará de noite; e destruirei a tua mãe. O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.


Um terceiro tipo de serviço do qual uma igreja em expansão não pode, de maneira nenhuma, se esquecer, é a Evangelização. Lemos no versículo 7 que, na igreja, “crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé”.


A palavra grega que foi traduzida como obedeciam (a fé) neste texto, foi traduzida, em outros lugares, como atender. A idéia é de um criado que vai atender à porta, como por exemplo em Atos 12.13, quando a criada Rode vai atender a Pedro que batia no portão, depois de ter sido solto pelo anjo. Quando, pois, este texto diz que muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé, nós podemos imaginar que eles atenderam à voz que lhes chamava à fé, e “abriram a porta” do seu coração para receber Jesus. Eles foram, portanto, evangelizados. A mensagem do evangelho, de alguma maneira, chegou às suas portas e eles a atenderam. É assim que a Igreja crescia e continua crescendo, através do serviço da evangelização.


Quando falamos em crescimento da Igreja, não nos referimos, necessariamente, a uma determinada igreja local. Há um pastor em nossa igreja que quase diariamente visita um cemitério local e encontra pessoas para quem fala de Cristo, e nos tem dado testemunho de que um grande número dessas pessoas tem orado com ele recebendo Jesus como seu Senhor e Salvador. Ouvimos dele também um relato de que, recentemente, centenas de crianças ouviram o evangelho e não foram poucas que aceitaram a Cristo pelo ministério de seu genro e de sua filha, realizado em escolas da cidade de Araçatuba. É comum ouvirmos histórias de irmãos que se converteram por causa da observação da vida devota de um crente fiel. Quantos já passaram por esta igreja e não estão mais aqui, mas foram influenciados em sua vida cristã pelos ensinamentos aqui adquiridos? Embora essas ações não tenham resultado necessariamente no crescimento da igreja local, elas contribuem efetivamente para o crescimento da igreja de Cristo, como um todo.


Existem muitos métodos utilizados para evangelização. Num manual usado pelas igrejas Assembleia de Deus, lemos o seguinte:


Os evangelistas devem aproveitar as oportunidades para pregar o Evangelho, fazendo-se presentes nos locais onde se aglomeram as pessoas nas cidades (praças públicas, mercados etc.) – as “pregações ao ar livre”, os “cultos ao ar livre”. (...) Além da busca de aglomerações de pessoas, de locais estratégicos das cidades, é mister, também, irmos aos locais que se encontram marginalizados, às “periferias que precisam da luz do Evangelho.


Manual de Evangelização. Disponível em: http://portalebd.org.br/attachments/article/1554/3T2016_L5_slidescaramurubruto.pdf  Acesso em 02 set. 2016.


Um trecho do documento produzido durante o Congresso Internacional de Evangelização Mundial, realizado em Lausanne, Suíça, de 16 a 25 de julho de 1974, diz que:


Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todos os que se arrependem e crêem. Mas a evangelização propriamente dita é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor, com o intuito de persuadir as pessoas a vir a ele pessoalmente e, assim, se reconciliarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que queiram segui-lo a negarem a si mesmos, tomarem a cruz e identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo. *Documento produzido durante o Congresso Internacional de Evangelização Mundial, realizado em Lausanne, Suíça, de 16 a 25 de julho de 1974, com a presença de 2.700 participantes, representando mais de 150 países.


GONÇALVES, Marcelo Aleixo. Evangelização e questões urbanas. Centro universitário de Maringá - Cesumar. Disponível em: http://www.ead.cesumar.br/moodle2009/lib/ead/arquivosApostilas/760.pdf Acesso em 02 set. 2016.


Qual método será que a igreja utilizou para evangelizar os sacerdotes citados neste texto bíblico? Não sabemos, mas o fato é que, de algum modo, o evangelho lhes bateu à porta, e eles atenderam. A evangelização era tanto uma causa como uma conseqüência do crescimento da igreja.


Conclusão


Como vimos, a igreja nascente estava se expandindo. A igreja continua crescendo até hoje, e crescerá até a volta de Jesus. Como igreja local, nós também devemos procurar o crescimento e nos preparar para atendermos todas as necessidades da comunidade, nos dedicando desde já aos serviços de Assistência Social, de Ensino e de Evangelização.

Foto do cabeçalho disponível em: http://comunhao.com.br/morre-billy-graham/  Acesso em 15 abr. 2018