segunda-feira, 26 de abril de 2021

Ameaçados (Atos 16.16-24)

 


A apresentação do abismo ligado é um método de evangelização que consiste em conscientizar a pessoa de que está separada do amor de Deus e da salvação, e que precisa fazer uma decisão de crer em Jesus, ato simbolizado pela travessia de uma ponte formada pela cruz de Cristo. O ponto mais tenso da apresentação é o momento da decisão. Até ali as pessoas podem ouvir com muita atenção e prazer, mas quando se sentem pressionadas pelo desafio de “atravessar a ponte”, muitas recuam, porque se sentem, de certa forma, ameaçadas.

É com um sentimento semelhante, envolvendo medo e ressentimento, que Paulo e os demais missionários foram tratados na cidade de Filipos, conforme Atos 16.16-24. As pessoas rejeitaram o evangelho porque o acharam ameaçador. Comparando este parágrafo bíblico com a nossa realidade, podemos notar que, ao serem evangelizadas, há pelo menos três ameaças sentidas pelas pessoas, que as fazem rejeitar o evangelho.

Ameaça ao lucro (16-19)

Aconteceu que, indo nós para o lugar de oração, nos saiu ao encontro uma jovem possessa de espírito adivinhador, a qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus senhores. Seguindo a Paulo e a nós, clamava, dizendo: Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação. Isto se repetia por muitos dias. Então, Paulo, já indignado, voltando-se, disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, eu te mando: retira-te dela. E ele, na mesma hora, saiu. Vendo os seus senhores que se lhes desfizera a esperança do lucro, agarrando em Paulo e Silas, os arrastaram para a praça, à presença das autoridades;

A jovem escrava filipense tinha um dom que é o sonho de consumo dos grandes operadores do mercado financeiro em nossos dias, já que era portadora de informações superprivilegiadas. Ao incomodar o apóstolo Paulo, contudo, este acabou revelando que o dom da moça era de natureza maligna, expulsando o espírito que a possuía, levando as autoridades, até então tolerantes, a identificarem os missionários como uma grande ameaça à economia local, já que, num só golpe, desfizeram a esperança do lucro dos que exploravam a pobre adivinhadora endemoninhada.

O propósito de obter lucro, em si, não é uma coisa má. O dinheiro não é a raiz de todos os males, mas sim o amor ao dinheiro, a falta de escrúpulos, a ganância. É possível e desejável que o enriquecimento aconteça por meios honestos, sem a necessidade de opressão aos mais fracos.

Um artigo do site Globo Ação[1] divulga que

Muitos empreendedores descobriram que os ganhos de uma empresa podem ser redirecionados também para a conquista do bem-estar social de uma determinada comunidade. A mistura de geração de renda com sustentabilidade é o chamado negócio social, termo cunhado pelo economista e professor Muhammad Yunus, prêmio Nobel da Paz de 2006”.

Peter Ferdinand Drucker[2], considerado como o pai da administração moderna, disse que

Uma empresa que visa o lucro é, não apenas falsa, mas também irrelevante. O lucro não é a causa da empresa, mas sua validação. Se quisermos saber o que é uma empresa, devemos partir de sua finalidade, que será encontrada fora da própria empresa. E essa finalidade é criar um cliente.

O lucro financeiro não pode ser encarado como uma razão de viver, como bem lembra Augusto Cury[3], ao afirmar que

Fazer coisas fora da agenda é fazer coisas inesperadas, romper a rotina, quebrar a mesmice. É nutrir sua história com aventura. É ser um caminhante nas trajetórias do próprio ser. É gastar tempo com aquilo que lhe dá lucro emocional e não financeiro. É ter um caso de amor com a vida.

Mas o cristão, que deveria ser um exemplo de desapego às coisas do mundo, às vezes tem uma atitude contrária aos princípios do evangelho, conforme 1ª Timóteo 6.3-12:

Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino segundo a piedade, é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras, de que nascem inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro. De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão. Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas.

Estas são sérias advertências, pois a busca do lucro a qualquer custo pode afastar a pessoa da piedade e do verdadeiro evangelho, encarando-o simplesmente como uma ameaça ao seu lucro.

Ameaça à tradição (20-21)

“[...] e, levando-os aos pretores, disseram: Estes homens, sendo judeus, perturbam a nossa cidade, propagando costumes que não podemos receber, nem praticar, porque somos romanos”.

As autoridades de Filipos apresentaram como argumento, para deter os evangelistas, que eles propagavam costumes contrários à sua tradição. O medo e o ressentimento por sentir que o evangelho ameaça a sua tradição pode afastar as pessoas da decisão de seguirem a Cristo. Este pode ser o caso que acontece em lugares como o Nepal, segundo o site Guia-me[4], o qual informou, em 2017, que

O presidente do Nepal assinou um projeto de lei que efetivamente proíbe a evangelização, a conversão religiosa e o ato de "ferir o sentimento religioso" - norma que inclui a proibição ao trabalho de missionários cristãos no país. [...] Quem for condenado de acordo com a nova lei - incluindo visitantes estrangeiros - pode ser condenada a até cinco anos de prisão por "tentar converter uma pessoa" ou "prejudicar a religião, fé ou crença de que qualquer casta, grupo étnico ou comunidade".

Aqui no Brasil, também, o evangelho pode ser afetado por este fenômeno, quando as pessoas o rejeitam por se sentirem ameaçadas em suas tradições. Temos aqui muitas comunidades indígenas, judaicas, muçulmanas, além de ideologias, as mais diversas.

Quando alguém se converte, crendo no evangelho de Jesus Cristo, é natural que comece a questionar algumas tradições que antes seguia. Afinal, ele se torna uma “nova criatura”, para a qual as “coisas antigas já passaram”, e “se fizeram novas” (2ª Coríntios 5.17). Mas não é necessário que o novo convertido rejeite completamente as suas tradições e, em muitos casos, ele acaba fazendo somente alguns ajustes.

As festividades do solstício do inverno (ou do verão, no hemisfério sul), por exemplo, poderiam continuar acontecendo, mas agora com uma motivação diferente, celebrando o nascimento de Jesus Cristo (ainda que saibamos que esta provavelmente não é a sua verdadeira data natalícia).

Já as festividades do solstício do verão (ou do inverno, no hemisfério sul), ideais para comemorar o nascimento de João Batista que, segundo o relato bíblico, nasceu seis meses antes do Salvador, são aproveitadas principalmente pelos cristãos católicos. Entre os evangélicos, porém, há resistência em participar das festas juninas, pelo que algumas igrejas decidiram inovar, criando a festa de “Sem João”, de acordo com um artigo no site da UOL[5]:

Santo Antônio, São João e São Pedro. As festas juninas estão entre as celebrações mais populares do país, mas contêm o elemento religioso, do catolicismo, que costumava afastar evangélicos das comemorações. Há ainda elementos de festa pagã --os cultos solares, que já aconteciam na Antiguidade nos dias de solstício de verão no hemisfério Norte-- e sincretismos religiosos --é o início do ano agrícola para os indígenas brasileiros, que cultivavam o milho, um dos principais integrantes da mesa junina-- abominados pelas igrejas evangélicas. O fim dessa resistência, no entanto, foi ensaiado e já é praticado em comunidades evangélicas do Nordeste ao Sul, sem no entanto elementos que remetam ao que os adeptos desaprovam. As fogueiras, por exemplo, nem sempre são acesas. Os santos não existem (a Festa de São João virou a de “Sem João, com Cristo”) e as bebidas não incluem álcool. O quentão (cachaça fervida com gengibre) virou o “crentão” (algum suco fervido com gengibre). Há até o vinho crente, feito com suco de uva.

A Bíblia nos ensina, em: 1ª Tessalonicenses 5.21: “julgai todas as coisas, retende o que é bom”. Portanto, não há motivo para os cristãos não reterem o que é bom nas tradições que herdaram de seus antepassados.

Ameaça ao status. (22-24)

Levantou-se a multidão, unida contra eles, e os pretores, rasgando-lhes as vestes, mandaram açoitá-los com varas. E, depois de lhes darem muitos açoites, os lançaram no cárcere, ordenando ao carcereiro que os guardasse com toda a segurança. Este, recebendo tal ordem, levou-os para o cárcere interior e lhes prendeu os pés no tronco.

Os donos da escrava adivinhadora usaram uma estratégia de acusação que comoveu o povo e fez os pretores mandarem açoitar os missionários, provavelmente por medo de perderem seu status perante a multidão, e, consequentemente, perante o imperador. Sua situação lembra a de Pilatos, quando teve que julgar Jesus e, mesmo considerando-justo, o condenou por medo da acusação da multidão em João 19.12 “[...] se soltas a este, não és amigo de César! Todo aquele que se faz rei é contra César!”.

O carcereiro de Filipos também achava que seu status e sua segurança dependiam do seu zelo, por isso prendeu Paulo e Silas no mais interior do cárcere, e ainda os acorrentou os pés ao tronco. Mas essa impressão de segurança foi perdida ao ver que Deus abrira todas as portas e soltara todas as correntes. Foi então que conheceu a verdadeira segurança quando, finalmente, creu em Jesus.

O evangelista indiano Sundar Singh nasceu em 03 set. de 1889, era filho do governador e sardar (chefe) Sher Singh, no Estado Sik de Patiala, no distrito de Rampur. Ele se converteu em 18 dezembro 1904. De acordo com a Wikipedia[6],

[...] Ele viajou por toda a Índia vestindo um roupão amarelo sem comida e sem qualquer residência permanente. Ele viveu somente da caridade de outras pessoas. [...] Em 1906, ele foi ao Tibet, pela primeira vez em sua vida. Esse país o atraiu, principalmente por causa da grande resistência contra o evangelismo. Sundar visitava o Tibet a cada verão. Em 1929, ele visitou o país novamente e nunca mais foi visto desde então. Sundar manifesta em sua vida o versículo escrito em Marcos 8:35 que diz: "Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas quem perder a vida para mim e para o Evangelho vai salvá-la.".

No livro “O Apóstolo dos pés sangrentos”, Boanerges Ribeiro[7] conta que, após sua conversão,

O ambiente familiar tornava-se cada dia mais carregado. Afinal, Sher Singh resolveu enfrentar a situação e procurou o filho. Expôs-lhe seus aborrecimentos. Se Sundar continuasse obstinado no seu cristianismo, ele acabaria perdendo o respeito do Distrito. Afinal, era sardar, e se em sua própria casa se manifestava a apostasia, com que autoridade imporia ao povo acatamento aos princípios e costumes siks? Não somente ele, mas toda a família já sofria a teima de Sundar. Pois então ele não podia dirigir seu fervor religioso para outro lado, se lhe era mesmo impossível abandonar esse fanatismo que manifestava desde a infância? Não viviam tão bem com a religião de seus antepassados? Para que, agora, esse estranho capricho? O cristianismo era a religião de estrangeiros – dos estrangeiros que oprimiam a Índia. Falava com calma e gravidade, como se o filho menor fosse um adulto que lhe merecesse todo o respeito e consideração. E quando o moço respondeu, com firmeza, que não se tratava de mania nova, mas de uma realidade que o dominava e à qual consagraria a vida, fez a derradeira tentativa: bem, pois que se fizesse cristão, se isto lhe agradava. Mas o pai lhe pedia ao menos um obséquio: não lhe enxovalhasse o nome pregando a torto e a direito que tinha nova religião. Seguisse a Cristo em silêncio, em casa. Que necessidade havia de lançar publicamente lama sobre o nome honrado da família? (p.13).

Podemos ver na fala do pai de Sundar a sua preocupação com seu status, sua segurança, sua estabilidade. Por outro lado, Sundar encontrou tudo isto em Cristo, que é “[...] poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia” (2ª Timóteo 1.12).

Conclusão

Imagine-se à beira do abismo, prestes a dar o primeiro passo e atravessar aquela ponte que vai levá-lo, com segurança, ao lado onde vai se encontrar com Deus, abandonando tudo o que este mundo oferece de maneira ilusória. A sua travessia representa a sua salvação, já que este mundo “jaz no maligno” (1ª João 5.19). Mas esta travessia lhe parece uma ameaça, seja em termos de lucro, de tradição ou de status. Atravessar ou não a ponte sobre o abismo que o separa de Deus é uma questão de fé em Jesus Cristo, o Salvador morto na cruz, por nossos pecados, sepultado, e ressuscitado no terceiro dia, segundo as Escrituras.

Mas, se argumentos racionais ajudarem, considere que o dinheiro não traz a felicidade. A verdadeira felicidade está em Jesus. Isaías 55.2-6 diz:

Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares.  Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi. Eis que eu o dei por testemunho aos povos, como príncipe e governador dos povos. Eis que chamarás a uma nação que não conheces, e uma nação que nunca te conheceu correrá para junto de ti, por amor do SENHOR, teu Deus, e do Santo de Israel, porque este te glorificou. Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto.

A tradição só é importante na medida em que serve a um bom propósito. Ela não pode se sobrepor aos mandamentos de Deus. Jesus advertiu os fariseus por essa causa, em Mateus 15.3 “[...] Por que transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição?”

O melhor status, a verdadeira segurança, está em Jesus. Provérbios 1.32,33 diz que “Os néscios são mortos por seu desvio, e aos loucos a sua impressão de bem-estar os leva à perdição. Mas o que me der ouvidos habitará seguro, tranquilo e sem temor do mal”.

O evangelho do Senhor Jesus Cristo não é uma ameaça, mas sim uma bênção eterna.

Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, abril de 2021.

(*) Foto do cabeçalho disponível em: อยากทราบว่ากรรมอะไรที่ทำให้ต้องฆ่าตัวตาย | พลังจิต (palungjit.org) Acesso em. 26 abr. 2021.

(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

[1] Empresas não buscam apenas lucro, mas também o bem-estar social. Site da Globo Ação, 17/11/2012. Disponível em: http://redeglobo.globo.com/acao/noticia/2012/11/empresas-nao-buscam-apenas-o-lucro-mas-tambem-o-bem-estar-social.html Acesso em 18 fev. 2018.

[2] Disponível em: https://kdfrases.com/frase/164307 Acesso em 18 fev. 2018.

[3] CURY, Augusto Jorge. Dez leis para ser feliz: Ferramentas para se apaixonar pela vida. Rio de Janeiro: Sextante, 2003, p. 18.

[4] Cristãos são proibidos de evangelizar, após aprovação de nova lei no Nepal. Fonte: Guiame, com informações do God Reports, nov. 2017. Disponível em: https://guiame.com.br/gospel/missoes-acao-social/cristaos-sao-proibidos-de-evangelizar-apos-aprovacao-de-nova-lei-no-nepal.html Acesso em 18 fev. 2018.

[5] SILVA, Marcos Sergio. Festa "sem João" evangélica adapta a junina com música gospel e "crentão" sem álcool. UOL/Cotidiano, 23/06/2027. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/06/23/festa-sem-joao-evangelica-adapta-a-junina-com-musica-gospel-e-crentao-sem-alcool.htm Acesso em 25 abr. 2021.

[6] Sadhu Sundar Singh. Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sadhu_Sundar_Singh Acesso em 18 fev. 2018.

[7] RIBEIRO, Boanerges. O Apóstolo dos pés sangrentos. São Paulo: CPAD, 1988.

sábado, 27 de março de 2021

Comunicação e cooperação (Atos 16.6-15)

No artigo “Brasileira doutora nos EUA  diz como vacinas da covid surgiram tão  rápido”,  disponível no site da UOL[1], a Doutora Denise Golgher responde a uma das perguntas dizendo que: “[...] Durante um ano de tanto sofrimento, temos um experimento gigante, que demonstrou que trabalhando juntos,  o público e o privado, a ciência e os negócios, as agências reguladoras e organizações sem fins lucrativos, conseguem gerar resultados incríveis para o bem da humanidade”.   

    Isto se aplica também, com toda certeza, à maior obra do mundo, que é a evangelização. Ninguém pode fazer a obra de Deus sem ajuda, pois a obra é do Senhor, e nós somos seus cooperadores. Paulo costumava dizer aos Coríntios: “[...] Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós” (1ª Coríntios 3.9).

    Os crentes em Cristo, na qualidade de cooperadores, além de precisarem estar em permanente contato uns com os outros, precisam manter comunicação constante com Deus, para fazerem adequadamente a sua obra. Algumas razões podem ser apontadas, pelas quais os crentes devem manter com Deus uma comunicação constante.

Permissão do Espírito (6,7)

    “E, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu”.

    Para fazermos bem a obra precisamos, em primeiro lugar, da permissão do Espírito Santo. O novo nascimento, claro, é um requisito fundamental para que sejamos habilitados, e assim como a equipe de Paulo foi impedida de pregar a palavra na Ásia, por mais que o seu coração desejasse, assim também nós não devemos avançar sem a permissão do Espírito. Muitos obstáculos que, equivocadamente, atribuímos ao inimigo, podem ter sido colocados pelo próprio Espírito Santo, que tem uma visão privilegiada e estratégica, enquanto nós temos uma visão limitada.

    Existe um hino em que cantamos: “Mais de Cristo eu quero ter, mais do seu amor obter [...]”. Um crente sincero deseja e busca cada dia mais ser cheio do Espírito de Cristo. Porém, de acordo com uma pregação que ouvi de um amado pastor, “o que importa é o quanto o Espírito tem de você, e não o quanto você tem do Espírito”. Ele é que enche as velas espirituais para guiar e impulsionar o barco de nossas vidas, quando estamos em constante comunicação. Como um veleiro, então, seguimos no caminho que nos permitem os seus bons ventos.

Orientação do Espírito Santo (8-13)

E, tendo contornado Mísia, desceram a Trôade. À noite, sobreveio a Paulo uma visão na qual um varão macedônio estava em pé e lhe rogava, dizendo: Passa à Macedônia e ajuda-nos. Assim que teve a visão, imediatamente, procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho. Tendo, pois, navegado de Trôade, seguimos em direitura a Samotrácia, no dia seguinte, a Neápolis e dali, a Filipos, cidade da Macedônia, primeira do distrito e colônia. Nesta cidade, permanecemos alguns dias. No sábado, saímos da cidade para junto do rio, onde nos pareceu haver um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que para ali tinham concorrido.

    A maneira como Lucas narra o processo que os levou à decisão de evangelizar a Macedônia aponta para o fato de que o Espírito Santo não lhes falou explicitamente, mas sugeriu que essa era a melhor decisão.

    A visão de Paulo pode ter sido um sonho. Podemos também ter uma “visão”, como costumam dizer os grandes empreendedores; ou uma “iluminação” da Palavra de Deus. Mas isso é apenas a percepção humana. Somos muito suscetíveis ao erro. Deus, no entanto, sempre faz a sua vontade prevalecer.

    Tomemos como exemplo o contraste das percepções de Barnabé e Paulo. Eles se separaram, e parece que Paulo tomou o caminho mais acertado. Se Barnabé tivesse se submetido à liderança de Paulo, não teria sido substituído por Silas nessa segunda viagem missionária. Mas apesar de Barnabé ter desaparecido da narrativa de Atos, depois da divergência com Paulo, ele e Marcos, pivô de seu desentendimento, são mencionados de maneira honrosa nas cartas aos colossenses e a Timóteo, demonstrando que Deus tinha um plano também para eles:

    “Saúda-vos Aristarco, prisioneiro comigo, e Marcos, primo de Barnabé (sobre quem recebestes instruções; se ele for ter convosco, acolhei-o)” (Colossenses 4.10).

    “Somente Lucas está comigo. Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério” (2ª Timóteo 4.11).

    Nossa principal fonte de orientação é a Bíblia, que é inspirada por Deus, mas foi escrita por homens, cujas personalidades e estilos literários, às vezes tão diferentes como eram Paulo e Tiago, deixam suas marcas em cada obra. 2ª Timóteo 3.16 diz que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça [...]”; 2ª Pedro 1.19-21 completa as informações sobre a inspiração das escrituras dizendo:

Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.

    Um estudo preparado por Hélio de Menezes Silva[2] informa que a Bíblia tem 39 + 27 = 66 livros, e

Embora escrita por cerca de 40 (!) homens, de cerca de 19 (!) ocupações e backgrounds diferentes, em 11 (!) países, durante pelo menos 1500 (!) anos, em aproximadamente 10 gêneros literários, com muitos dos seus escritores não conhecendo nenhum outro ou somente conhecendo alguns poucos dos seus demais escritores, a Bíblia é clara e espantosamente um só (e completo) livro! Que contraste com os outros livros “sagrados”, que essencialmente são coleções de material heterogêneo, sem começo nem meio nem fim, inúmeras vezes frontalmente discordantes!

    Não obstante o reconhecimento de que as Escrituras são inspiradas, tendo como autor o próprio Deus, vemos em 2ª Pedro 3.15,16, de relance, um pouco da percepção de Pedro a respeito dos fortes traços da personalidade de Paulo contidos em seus escritos sagrados:

[...] e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.

    Deus usa cada um segundo suas características, seus dons, sua personalidade, para a realização de sua obra. Sendo nós cooperadores na obra de Deus, nada de bom podemos fazer sem a ajuda do Espírito Santo, e por isto precisamos estar em constante comunicação com ele, que nos proporciona orientação, ainda que a luz não nos seja dada de maneira tão intensa quanto gostaríamos que fosse, mas, ainda assim, providencial como “uma candeia que brilha em lugar tenebroso”.

Convencimento do Espírito Santo (14,15)

Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia. Depois de ser batizada, ela e toda a sua casa, nos rogou, dizendo: Se julgais que eu sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa e aí ficai. E nos constrangeu a isso.

    Autorizados e orientados pelo Espírito Santo, Paulo e sua equipe encontraram um lugar de oração, onde falou para as mulheres presentes. Entre elas estava Lídia, vendedora da púrpura, de quem o Senhor abriu o coração para atender à pregação, sendo batizada junto com toda a sua casa. Isto ilustra o que profetizou Jesus em João 16.8 sobre o Espírito Santo, dizendo: “[...] quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo”. Ele também disse em João 6.37: “todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”. Sua reação à reveladora resposta de Pedro em Mateus 16.15-17, quando confessou que Jesus é o Cristo, foi: “[...] bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus”.

    Jeremias 29.10-14 fala a Israel, nação que estava indo para o cativeiro porque não havia buscado a Deus de todo o coração, que depois de um juízo de 70 anos, a sua atitude iria mudar:

Assim diz o SENHOR: Logo que se cumprirem para a Babilônia setenta anos, atentarei para vós outros e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos para este lugar. Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais. Então, me invocareis, passareis a orar a mim, e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração. Serei achado de vós, diz o SENHOR, e farei mudar a vossa sorte; congregar-vos-ei de todas as nações e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o SENHOR, e tornarei a trazer-vos ao lugar donde vos mandei para o exílio.

    Por mais que seja bem aceita e desejada por Deus a nossa intervenção na evangelização do mundo, devemos compreender que somos não mais do que um instrumento, uma voz, um incentivo, no convencimento do pecador, quando ele se arrepende e se entrega a Cristo. Por isto é tão importante que estejamos em constante comunicação com aquele que opera em nós tanto o querer quanto o realizar.

Conclusão

    Existe uma igreja que não gosta de chamar seus líderes de pastores, para que eles não se ensoberbeçam. Chamam-nos de cooperadores. Na maioria das igrejas, porém, são pastores. Ora, o pastor de ovelhas, que inspirou a nomenclatura, não era uma profissão muito nobre em Israel (como não era considerada nobre no Brasil a profissão de peão de boiadeiro, hoje exaltada nas modas de viola e nos rodeios). Alguns pastores se chamam de ministros, mas muitas pessoas ignoram que ministro, no sentido original, tem a ideia de escravo (diácono), como é bem destacado em Marcos 10.43: “[...] Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva”.

    Lídia disse aos missionários: “Se julgais que eu sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa e aí ficai”. Ela queria ter o privilégio de poder fazer a sua parte na obra de Deus, e reconhecia que somente seria digna disso se fosse considerada fiel. Para sermos considerados fiéis, mantenhamos constante comunicação com o Senhor através da oração e da leitura da Bíblia. Precisamos ser zelosos em providenciar um tempo diário, a sós, onde possamos falar de nossas ansiedades e ouvir a voz do Pai, tanto no silêncio da oração secreta, quanto na proclamada palavra de Deus escrita.

    A vacina contra o coronavírus, que hoje temos, é um abençoado exemplo de cooperação e de constante comunicação entre os cientistas e demais autoridades envolvidas, o que nos proporciona uma proteção contra o vírus mortal. O evangelho, por sua vez, é um abençoado exemplo de cooperação entre os crentes fiéis e o Senhor dos senhores, que proporciona a vida eterna a todo o que nele crê.

    Então, na qualidade de cooperadores nesta grande e vital obra de evangelização, mantenhamos comunicação constante, tanto entre nós mesmos quanto com o Espírito Santo, do qual dependemos da Permissão, da Orientação, e do Convencimento, para que a obra seja bem-sucedida.

Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, março de 2021.

(*) Foto do cabeçalho: Crédito de Giuliano Gomes/PR Press, disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/vacina/noticia/2020/12/11/vacina-contra-a-covid-tira-duvidas-explica-as-principais-questoes-sobre-imunizacao-contra-o-coronavirus.ghtml Acesso em. 27 mar. 2021.

(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.


[1] LAFETÁ, Duda. Brasileira doutora nos EUA diz como vacinas da covid surgiram tão rápido. site da UOL/tilt, 19/12/2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/12/19/como-as-vacinas-da-covid-19-mudaram-a-forma-de-fazer-ciencia-no-mundo.htm Acesso em 27 mar. 2021.

[2] SILVA. Hélio de Menezes. Bibliologia: A Doutrina da Bíblia. Site Sola Scriptura – tt, mar.2008. Disponível em: http://solascriptura-tt.org/Bibliologia-InspiracApologetCriacionis/Bibliologia-BibliaGenuinaConfiavelCanonicaInspirada-Livro-Helio.htm Acesso em 31 jan. 2018.

domingo, 7 de março de 2021

Bom Testemunho (Atos 16.1-5)

Quando a igreja dá sinais de que está crescendo, todos nós nos alegramos. O crescimento pode vir de várias maneiras. Nós oramos, traçamos estratégias e perseguimos esse objetivo. Utilizamos muitas técnicas, algumas até se assemelham ao marketing utilizado pelas empresas. Mas o que queremos, na verdade, é um crescimento sadio, porque, por mais que nos esforcemos fazendo a semeadura e o cultivo, o crescimento continua sendo um milagre operado por Deus,

Nesta passagem de Atos em que Paulo e Silas estavam iniciando a segunda viagem missionária, eles encontraram o jovem Timóteo, que tinha bom testemunho dos irmãos, e o recrutaram para acompanhá-los no ministério. A maneira cuidadosa de Paulo e sua equipe conduzirem seu ministério contribuiu certamente para o grande crescimento da Igreja.

Baseados neste exemplo podemos destacar pelo menos três cuidados que a igreja precisa ter para crescer de forma sadia.

O testemunho entre os irmãos (1,2)

“Chegou também a Derbe e a Listra. Havia ali um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia crente, mas de pai grego; dele davam bom testemunho os irmãos em Listra e Icônio”.

Um dos cuidados que a igreja precisa ter para crescer de forma sadia, é o bom testemunho entre os irmãos. O jovem Timóteo tinha conquistado isto em sua comunidade, e isto contribuiu para que Paulo o escolhesse para o acompanhar na missão. Como é que nós podemos conquistar um bom testemunho entre os irmãos? O nosso comportamento durante os cultos, por exemplo, contribui bastante. O site de uma instituição pertencente a uma grande igreja tem uma lista de dez coisas que você deve observar durante os cultos:

[1][...] 1. Chegue no horário [...]; 2. Evite conversas [...]; 3. Leve a Bíblia [...]; 4. Vista-se com decoro [...]; 5. Comporte-se: Vá ao banheiro antes de começar a reunião, evitando circular durante a pregação [...]; 6. Evite orar alto [...]; 7. Não saia antes do término da reunião [...]; 8. Não se apresse em prometer nada [...]; 9. Ofereça o seu melhor em tudo [...]; 10. Siga as normas do local [...]. As pessoas que estão lá para recebê-lo seguem toda uma orientação de maneira que a sua permanência seja agradável. Não as ignore.

Há mais algumas coisas que podemos observar em nossa convivência como família na fé? Certamente. É necessário também, é claro, que todos sejam zelosos quanto à vida de santidade, como nos manda o Senhor, e a igreja tem a obrigação de julgar, caso aconteçam desvios, como os que chegaram a acontecer na Igreja de Corinto:

Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora, porém, Deus os julgará. Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor (1ª Coríntios 5.9-13).

O testemunho na comunidade em geral (3)

“Quis Paulo que ele fosse em sua companhia e, por isso, circuncidou-o por causa dos judeus daqueles lugares; pois todos sabiam que seu pai era grego”.

Timóteo não era obrigado a ser circuncidado, pois seu pai era grego, embora sua mãe fosse judia. Mas, para evitar problemas e manter o bom testemunho, Paulo convenceu o jovem a se submeter à circuncisão. Não queriam que a exigência de seus direitos atrapalhasse o seu testemunho diante dos judeus, a quem queriam ganhar para Cristo.

Para crescer de forma sadia, é necessário que a igreja tenha um bom testemunho diante da comunidade onde vive. O missionário Hudson Taylor levou isto com muita seriedade. Segundo a Wikpédia, ele:

[2]foi um missionário Cristão Protestante Inglês na China, e fundador do China Inland Mission (CIM) (agora OMF International). Taylor viveu na China por 51 anos. A sociedade que ele iniciou foi responsável pelo envio de mais de 800 missionários ao país que começaram 125 escolas e diretamente resultou na conversão Cristã de 18,000 pessoas, também como no estabelecimento de mais de 300 estações de trabalho com mais de 500 colaboradores locais em todas as dezoito províncias.

No livro O Segredo Espiritual de Hudson Taylor está registrada uma importante experiência desse jovem missionário, que decidiu adotar alguns costumes do povo a quem pretendia evangelizar:

[3]O que ele desejava era aproximar-se do povo. Uma recente viagem de vinte e cinco dias, sozinho, quando penetrou trezentos quilômetros pelo rio Yangtsé, provou-lhe que era possível fazer mais do que se imaginava por meio do evangelismo itinerante. Das cinqüenta e oito vilas e cidades visitadas, cinqüenta e uma nunca antes tinham recebido mensageiros do Evangelho. Mas o cansaço e a tensão da viagem foram, em grande parte, devido ao fato dele usar roupa européia, os trajes mais grotescos possível aos olhos daqueles que nunca o tinham visto! [...] depois de orar muito e procurar orientação na Palavra de Deus. [...] Naquela noite ele deu o passo que teria tão grande influência sobre a evangelização do interior da China. Quando o barbeiro acabou seu trabalho, o jovem missionário tingiu de preto o cabelo que restava para combinar com a trança comprida que, a princípio, precisava usar no lugar da dele. E então, no outro dia cedo, ele vestiu como pode as roupas folgadas a que não estava acostumado, e apareceu pela primeira vez nas vestes e sapatos de cetim próprios de um “Mestre“, ou de homem da classe dos estudiosos.

Talvez nenhum de nós venha a evangelizar na China, no Nepal, ou mesmo numa das tribos indígenas do Brasil, mas há muito que podemos fazer para nos identificarmos com a comunidade na qual estamos morando, para o bem do progresso do evangelho. A Bíblia nos exorta, em 1ª Tessalonicenses 4.9-12:

No tocante ao amor fraternal, não há necessidade de que eu vos escreva, porquanto vós mesmos estais por Deus instruídos que deveis amar-vos uns aos outros; e, na verdade, estais praticando isso mesmo para com todos os irmãos em toda a Macedônia. Contudo, vos exortamos, irmãos, a progredirdes cada vez mais e a diligenciardes por viver tranquilamente, cuidar do que é vosso e trabalhar com as próprias mãos, como vos ordenamos; de modo que vos porteis com dignidade para com os de fora e de nada venhais a precisar.

O testemunho perante as autoridades (4)

“Ao passar pelas cidades, entregavam aos irmãos, para que as observassem, as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros de Jerusalém. Assim, as igrejas eram fortalecidas na fé e, dia a dia, aumentavam em número”.

Paulo fazia questão de entregar aos irmãos, para que observassem, as decisões tomadas pelos líderes de Jerusalém. Isso fazia bem para a igreja e a protegia contra as heresias, neste caso, dos judaizantes.

Nós cremos que a Bíblia é a única autoridade em matéria de fé e prática, e por isso nos sentimos livres para ler e interpretar os seus preceitos. Mas existem limites para nossa liberdade, porque também cremos que existem interpretações distorcidas das escrituras e não queremos compactuar com elas. Por isso escolhemos nos submeter a certas autoridades eclesiásticas, incluindo, por exemplo, em nossos estatutos, proteções contra heresias, especialmente em um dos artigos que diz o seguinte: “No caso de se verificar uma divisão na Igreja, o patrimônio ficará pertencendo à facção que permanece fiel às doutrinas contidas na confissão de fé a que se refere ao Art. 4º dos presentes Estatutos, ainda que essa facção seja minoritária”.

Para julgar a fidelidade às doutrinas a que se refere o artigo citado, seria convocada a diretoria de um instituto bíblico designado, obrigando as facções a ficarem sujeitas à decisão final daquela diretoria.

Além disto, nos cadastramos no “Ministério Fiel” e, depois de analisar nossa doutrina, eles aceitaram nos incluir no mapa das igrejas que concordam com sua declaração de fé. Isso é um privilégio para poucas igrejas, mas também é uma grande responsabilidade, pois temos que vigiar para que não haja em nossa igreja quem pregue heresias, destoando assim da proposta de doutrina que professamos.

Há também autoridades não eclesiásticas, que devemos respeitar, para mantermos o bom testemunho. Nós devemos cumprir as exigências da Prefeitura de Rio Preto para que mantenhamos ativo o nosso alvará de funcionamento; as faixas de segurança e o sinalizador na entrada do estacionamento; os extintores e os demais equipamentos de segurança, conforme os laudos de vistoria periódicos dos bombeiros; e nesta fase de Pandemia em que vivemos, devemos respeitar e aplicar as orientações da Vigilância Sanitária. Paulo ensina a igreja a ser submissa às autoridades, conforme Romanos 13.3,4:

Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.

Às vezes as autoridades seculares são injustas, mas, mesmo assim, na medida do possível, devemos nos submeter a elas, seguindo o exemplo de Jesus em Mateus 17.24-27:

Tendo eles chegado a Cafarnaum, dirigiram-se a Pedro os que cobravam o imposto das duas dracmas e perguntaram: Não paga o vosso Mestre as duas dracmas? Sim, respondeu ele. Ao entrar Pedro em casa, Jesus se lhe antecipou, dizendo: Simão, que te parece? De quem cobram os reis da terra impostos ou tributo: dos seus filhos ou dos estranhos? Respondendo Pedro: Dos estranhos, Jesus lhe disse: Logo, estão isentos os filhos. Mas, para que não os escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que fisgar, tira-o; e, abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Toma-o e entrega-lhes por mim e por ti.

Conclusão

Para que a igreja cresça em número não se pode descuidar da qualidade. Vimos que o texto indicado nos permitiu reconhecer pelo menos três cuidados que a igreja precisa ter para crescer de forma sadia: o testemunho entre irmãos, testemunho na comunidade em geral e o testemunho perante as autoridades. Para que tenhamos um bom testemunho, vamos amar uns aos outros, e andar com retidão e sabedoria para com as pessoas de fora, respeitando também as autoridades.

Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, março de 2021.

(*) Foto do cabeçalho disponível em: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDo5TwQx3rptEabzRiKUozny0n-Yvae-FAkLdNZBifx2gqrmERkiD7otNYqSv0_blVG-l4NYGcXG4-ZPw9UwNMZUAKseDQVfbFo8BPhYdledGFExI3WNQC7Mid8FUV_-ZFOyzQTnFuzWs/s1600/image001a.jpg Acesso em 06 mar. 2021.

(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.



[1] 10 coisas que você não pode fazer na igreja. Site da UCKG Centro de Ajuda. Disponível em: https://www.uckg.org/pt/10-coisas-que-voce-nao-pode-fazer-na-igreja/ Acesso em 28 jan. 2018

[2] Hudson Taylor. Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hudson_Taylor Acesso em 28 jan. 2018.

[3] TAYLOR, Howard. O Segredo Espiritual de Hudson Taylor. Editora Mundo Cristão. São Paulo, 1976 p.30. 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

O jeito e o lugar certo para servir (Atos 15.36-41)


Parece que o mundo está cada vez pior. Além da pandemia, há muita violência, terremotos, erupção de vulcões, inundações e nevascas. Vemos através destas coisas que precisamos servir ao Senhor, porque só ele pode nos proteger de tantos infortúnios e, no final, nos dar a vida eterna. Mas, de que jeito e em que lugar devemos servir ao Senhor? Esta é uma decisão importante, que precisamos tomar com sabedoria. 

Podemos identificar, no texto bíblico indicado, pelo menos três indicadores que nos dão direção para decidir sobre onde e como servir ao Senhor. 

O desejo do coração (36-39) 

Alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Voltemos, agora, para visitar os irmãos por todas as cidades nas quais anunciamos a palavra do Senhor, para ver como passam. E Barnabé queria levar também a João, chamado Marcos. Mas Paulo não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho. Houve entre eles tal desavença, que vieram a separar-se. 

Paulo e Barnabé decidiram, segundo o desejo do seu coração, começar a segunda viagem missionária visitando os irmãos onde anteriormente tinham anunciado a palavra do Senhor. Segundo o seu coração, também, acabaram por tomar rumos diferentes, por divergirem a respeito de incluírem ou não João Marcos nesse ministério. 

Não podemos confiar somente em nosso coração, pois Jeremias 17.9 alerta que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto [...]” e, às vezes, servir o Senhor significa fazer justamente aquilo que nosso coração mais rejeita, conforme o exemplo do Senhor Jesus, que ensinou a orarmos: “venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6.10); e renunciou à sua própria vontade ao orar, na noite de sua prisão, na véspera de sua crucificação: “[...] Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua”. 

Não obstante, o desejo do coração deve ser o primeiro indicador que nos leva à decisão de servir ao Senhor. Não podemos servir ao Senhor plenamente, se não for de coração. Deuteronômio 6.5 ordena: “Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”, e Jesus reafirma esta citação em Marcos 12.30: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. 

Assim como está registrado em 2ª Coríntios 9.7 que Deus ama a quem dá com alegria, também podemos deduzir que Deus ama a quem serve com alegria, e nada melhor para a alegria do que fazer aquilo que o nosso coração deseja, desde que não seja contrário à vontade do Senhor. 

As circunstâncias favoráveis (39) 

Então, Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. 

Barnabé tomou a decisão de ir para a ilha de Chipre, região onde nasceu. De modo semelhante, quando fizeram a primeira viagem missionária, uma das regiões escolhidas foi a Cilícia, onde Paulo nasceu. Às vezes as circunstâncias favoráveis nos levam a tomar decisão sobre como e onde vamos servir o Senhor. O bairro onde eu moro, o local onde trabalho ou estudo, meu círculo de relacionamento social. Assim foram criados grupos como Atletas de Cristo, Clubes de Motociclistas, Gideões Internacionais, Adhonep (associação de homens de negócio do evangelho pleno). Esta última , por exemplo, é: 

[...] uma Instituição brasileira, não eclesiástica, fundada em 1977 pelo empresário Custódio Rangel Pires, do Rio de Janeiro, por incentivo e autorização de Demos Shakarian, um fazendeiro norte americano que, por sua vez, foi o fundador da FGBMFI, uma organização congênere, em 1952. [...] A ADHONEP tem como objetivos principais difundir e incentivar a observação e prática de princípios sociais, éticos, morais, a valorização da instituição familiar, bem como a difusão de princípios espirituais cristãos, fundados na bíblia sagrada (Disponível em: https://adhonep.org.br/ Acesso em 23 jan. 2018). 

No meu caso, estou motivado pelas circunstâncias a servir ao Senhor escrevendo artigos neste Blog, já que está disponível e é uma forma de divulgação de minhas ideias e de minha fé. 

A comunhão com Deus e com a igreja (40,41) 

Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor. E passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas. 

Paulo escolheu a Silas para o acompanhar no lugar de Barnabé, e partiram encomendados pelos irmãos à graça do Senhor, passando pelas igrejas da Síria e Cilícia.  

A comunhão com Deus e com a igreja é o maior, o mais seguroo mais confiável indicador de direção para que tomemos a decisão sobre como e onde servir ao Senhor. Estando em comunhão com Deus, através da leitura da Bíblia e da oração, seremos guiados num patamar superior ao das emoções e das circunstâncias. 

Deus nos mostra os melhores caminhos quando estamos buscando constantemente a sua presença, como diz Salmos 16.7: “Bendigo o SENHOR, que me aconselha; pois até durante a noite o meu coração me ensina. O nosso alvo deve ser “[...] conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento [...]”, para que sejamos “tomados de toda a plenitude de Deus” (Efésios 3.19). Desta forma, “[...] a paz de Deus, que excede todo o entendimento [...]” (Filipenses 4.7) guardará o nosso coração e a nossa mente em Cristo Jesus. 

Além disto, Deus nos fala através da igreja, da comunhão com os irmãos. Provérbios 11.14 diz que “não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança”; Provérbios 24.6 aconselha: “com medidas de prudência farás a guerra; na multidão de conselheiros está a vitória”; e Provérbios 27.17 reconhece que, “como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo”. Ora, “se o ferro está embotado, e não se lhe afia o corte, é preciso redobrar a força; mas a sabedoria resolve com bom êxito” (Eclesiastes 10.10). É por estes motivos e por muitos outros que Colossenses 3.16 recomenda: “habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”, pois a comunhão com Deus e com a igreja é um poderoso indicador de direção para decidirmos onde e de que maneira iremos servir ao Senhor. 

Conclusão 

Como é que você está servindo ao Senhor? Se você não está frequentando uma igreja, procure uma que agrade o seu coração, que seja perto de sua casa, mas especialmente que valorize a Palavra de Deus, ensinando e praticando os princípios bíblicos. 

Se você pretende se entregar completamente para o serviço do Senhor, não espere melhores circunstâncias. Sirva já, onde você está. No seu trabalho, no seu dia a dia. As pessoas em redor de você precisam ouvir o evangelho, e você pode dar a elas testemunho de um cristão que vive, de fato, o evangelho. Seja uma fiel testemunha de Cristo onde você está, fazendo sempre o que Cristo faria em seu lugar. 

Assim, dirigidos pelo nosso coração, pelas circunstâncias e pela comunhão, não deixemos de servir ao Senhor. 

Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, fevereiro de 2021. 

(*) Foto do cabeçalho disponível em: Но только не говори мне, что любишь меня! (b17.ru) Acesso em.27 fev. 2021. 

(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.