domingo, 10 de março de 2019

A viagem a Damasco (Atos 9.1-9)

Eu e minha esposa gostamos de viajar, tirar fotos, descontrair. Toda vez que temos a oportunidade de fazer uma longa viagem, nas férias ou num feriado prolongado, parece que voltamos renovados. No parágrafo de Atos 9.1-9, lemos que Saulo, ao fazer uma viagem, também voltou renovado, como uma outra pessoa. E não poderia ser diferente, pois aquela foi a viagem da sua conversão. Uma conversão dramática, uma mudança radical em sua vida. Isto porque, conforme suas próprias palavras, ele era, antes, o “principal dos pecadores” (1ª Timóteo 1.15). 


No caminho de Damasco há uma sequência de fases bem distintas. Na primeira fase, Saulo anda segundo o seu próprio entendimento, seguindo os seus impulsos, perdido em suas próprias obsessões, respirando ameaças e morte. Na segunda fase, ele tem um encontro com Jesus, a quem perseguia, e toda a força que o movia cai por terra. Saulo ficou desnorteado, abalado, vazio de si. Deixa cair as cartas dos sacerdotes, e, com elas, cai a sua importante missão policial, a qual nunca mais retomaria. Entra em Damasco como um guerreiro vencido, debilitado, amparado por seus companheiros. Inicia então a terceira e mais importante fase de sua vida: a conversão. Saulo faz um retorno, uma curva de 180 graus. Descobriu que estava errado, e agora precisava encontrar o caminho de volta, para consertar o que fosse possível, para se reencontrar com o seu Criador.


Será que a nossa vida é parecida com a de Saulo? Se fôssemos comparar nossas vidas com o caminho de Damasco, em que fase estaríamos hoje? Analisemos cada fase desse caminho.


Primeira fase: Perdendo-se nas próprias obsessões (1,2)


Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém.


Saulo respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, e, para ele, o melhor caminho era pedir ao sumo sacerdote cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do outro Caminho, fossem homens, fossem mulheres, os levasse presos para Jerusalém. Ele pensava que tinha o controle de sua vida, nem passava pela sua cabeça que estava perdido. Tinha uma meta, um alvo bem definido, não se distraía com nada que pudesse fazê-lo desviar. Passava longe de sua consciência a voz da advertência bíblica de que “há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Provérbios 14.12). Estava surdo para o conselho de Provérbios (3.5): “Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento”. Mais do que se estribando em seu próprio entendimento, Saulo estava completamente prostrado diante do seu modo de entender o mundo. Sua determinação em perseguir o Caminho de Jesus era uma obsessão. Não bastava perseguir e dispersar os cristãos, pretendia persegui-los por onde quer que se dirigissem, mesmo que fugissem para Damasco, distante mais de 200 Km de Jerusalém. Quantas pessoas, hoje em dia, estão nessa fase do caminho, perdidos em suas próprias obsessões. De acordo com um folder da UFRGS,


Obsessões são pensamentos, ideias, imagens, palavras, frases, números ou impulsos que invadem a consciência da pessoa de forma repetitiva e persistente. Sentidas como estranhas ou impróprias, geralmente são acompanhadas de desconforto, medo, angústia, culpa ou desprazer. O indivíduo obsessivo, mesmo desejando ou se esforçando, não consegue afastá-las ou suprimi-las de sua mente. Apesar de serem consideradas absurdas ou ilógicas, as obsessões causam aflição elevam a pessoa a fazer algo (rituais ou compulsões) ou a evitar fazê-lo (evitações) para livrar-se do medo ou do desconforto. As obsessões mais comuns se relacionam com: sujeira, contaminação; dúvidas; simetria, perfeição, exatidão ou alinhamento; impulsos ou pensamentos de ferir, insultar ou agredir outras pessoas; sexo ou obscenidades; armazenar, poupar, guardar coisas inúteis ou economizar; preocupações com doenças ou com o corpo; religião (pecado, culpa, escrúpulos, sacrilégios ou blasfêmias); pensamento mágico (números especiais, cores, datas e horários).


 


Cordioli, Aristides Volpato. Heldt , Elizeth. Litvin Raffin, Andréa. Transtorno obsessivo compulsivo: perguntas e respostas. Porto Alegre: UFRGS, 2004. Disponível em: http://www.ufrgs.br/psiquiatria/psiq/FOLDER%20TOC%20vers%C3%A3o%2010_05.pdf Acesso em: 05 fef. 2017.


Será que eu ou você estamos também passando por essa fase no caminho de nossas vidas? Será que alguma obsessão da lista acima se identifica com o nosso comportamento atual?


Segunda fase: Caindo por terra (3-6)


Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer.


Quando Saulo estava já próximo de Damasco, de repente uma luz do céu brilhou ao seu redor, fazendo-o cair por terra. Era Jesus glorificado, que se fez ouvir: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” Era Jesus, a quem Saulo perseguia, o qual lhe ordenou levantar-se e entrar na cidade, onde devia aguardar mais instruções.


Nessa fase do caminho houve uma crise inesperada, um súbito encontro com a luz divina, uma experiência que nunca mais iria esquecer. Assim acontece conosco também, quando somos pegos de surpresa por tempestades. Não somente as tempestades climáticas, mas também as tempestades emocionais, para as quais não estávamos preparados. Talvez não se trate de um acontecimento tão espetacular como o de Saulo, ou uma sequência de tragédias tão contundentes como ocorreu na vida de Jó que, de uma hora para outra, teve sua vida virada do avesso. Mas, quando Deus decide tocar em uma área crítica de qualquer pessoa, ela nunca mais será a mesma. Tudo cai por terra.


Já houve na sua vida um momento em que enfrentou grande angústia? Alguma vez aconteceu algo que mudou o rumo de sua vida? Uma doença, um acidente, uma morte precoce? Para que todos os nossos planos caiam por terra, nem sempre precisa acontecer uma coisa ruim.


Certa vez, eu li uma interessante história sobre um folheto salvador:


Todos os domingos de manhã, depois do Grupo de Oração na Igreja, o coordenador do grupo e seu filho de 11 anos saíam pela cidade e entregavam folhetos [...]. Numa tarde [...], fazia muito frio lá fora e também chovia muito. [...] Depois de caminhar por horas na chuva, estava todo molhado, mas faltava um último folheto. [...] Então ele se virou em direção à primeira casa que viu e [...] tocou a campainha, mas ninguém respondeu. Ele tocou de novo, mais uma vez, mas ninguém abriu a porta. Finalmente, o menino se virou para ir embora, mas algo o deteve. Mais uma vez, ele tocou a campainha e bateu na porta bem forte. [...] A porta se abriu bem devagar. Uma senhora idosa com um olhar triste [...] perguntou: O que você deseja, meu filho? [...] Senhora, [...] vim aqui para lhe entregar o meu último folheto[...]. No domingo seguinte na Igreja, [...] uma senhora idosa se pôs de pé. E começou a falar. [...] No domingo passado, um dia frio e chuvoso, [...] eu peguei uma corda e uma cadeira e subi para o sótão da minha casa, amarrei a corda numa madeira do telhado, subi na cadeira e coloquei a corda em volta do meu pescoço [...] quando [...] o toque da campainha me assustou. [...] A campainha era insistente; [...] Afrouxei a corda do meu pescoço e fui à porta [...], pois na minha varanda estava o menino mais radiante que já vi em minha vida. [...] Ele me entregou este folheto que eu tenho em minhas mãos. [...] Li cada palavra deste folheto. Então eu subi para o sótão, peguei minha corda e a cadeira. Eu não iria precisar mais delas. [...] vim aqui pessoalmente para dizer OBRIGADO [...].


O último folheto. Disponível em: http://www.hpbysandra.com.br/ultimo_folheto.html Acesso em 05 fev. 2017.


Aquela senhora idosa ia se suicidar, mas o Senhor interveio com uma coisa boa, com uma demonstração de amor que mudou a sua vida. Mas quando não ouvimos a voz mansa e suave de Jesus nos chamando, ele pode derrubar nossos planos obstinados através de outra metodologia.


Nossa igreja conhece uma jovem senhora, cujo filho sofreu, há alguns anos, um terrível desastre que quase lhe tirou a vida. Eu e minha esposa tivemos a oportunidade de visitá-los pouco depois do acidente. Seu filho já estava quase totalmente recuperado, e nos recebeu à porta. Logo veio também a senhora. Estávamos tentados a dizer que o acidente foi uma intervenção de Deus para que eles despertassem espiritualmente e voltassem para a igreja, mas não precisamos falar. Ela mesma disse que reconhecia a mão de Deus, tanto em permitir o acidente, quanto em poupar a vida de seu filho. Disse que iam dar atenção à voz divina, e que iam voltar à comunhão da igreja.


Pode ser que algum dia você ou eu nos sintamos assim, como se tudo caísse por terra. Os nossos sonhos, os nossos planos, o nosso ritmo, de repente é quebrado pela intervenção do Senhor. Quando isso acontecer, ouçamos a sua voz, e perguntemos como Saulo perguntou: “Quem é tu, Senhor?” e “que farei, Senhor?” (Atos 22.10). As cartas do sumo sacerdote já não tinham mais utilidade, podiam ser deixadas ali mesmo, no chão. Seus projetos, sua respiração de ameaças e morte já não faziam mais sentido. Tudo estava ali, como o próprio Saulo, caído na terra.


Terceira fase: Convertendo-se ao Senhor (7-9)


Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém. Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco. Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu.


Os companheiros de viagem de Saulo pararam emudecidos. Ouviram a voz, mas não viram ninguém. Saulo se levantou da terra e, quando abriu os olhos, percebeu que estava cego. Guiando-o pela mão, seus companheiros o levaram para Damasco. Lá ficou três dias, sem ver, e durante esse tempo nada comeu, nem bebeu.


Sabemos, pelo versículo 11 deste capítulo, que Saulo estava orando. Estava prostrado diante do trono do Senhor. Não era mais aquele jovem determinado que deixou Jerusalém com uma missão obstinada. Agora estava à disposição de Jesus, esperando instruções antes de dar o próximo passo, e a oração era a melhor maneira de ouvir a sua voz. Todo homem que, sinceramente, quer saber a vontade de Deus para a sua vida, deve ser um homem de oração. Homens de Deus famosos deixaram também esse testemunho, homens como David Livingstone, um escocês, que


Foi um dos personagens mais impressionantes do século 19. Foi cientista, explorador e evangelista [...] descobriu e mapeou vários rios e foi o primeiro homem branco a percorrer a África de Norte a Sul, ida e volta. Sua vida chegou ao fim quando intentou descobrir a nascente do rio Nilo [...]. Morreu orando, ajoelhado à beira da cama” (Sombrio et al., p.43)


SOMBRIO, Alexandre, et al. Dia a Dia com Deus. Curitiba: Publicações RBC, 2011.


O fato de Saulo estar orando evidenciava sua conversão. Ele estava voltando, havia feito uma curva de 180 graus no seu caminho, pois reconheceu que andara errado, e se arrependeu. A conversão não foi o final do caminho de Saulo, até Damasco. Sua caminhada, sob o ponto de vista da conversão, estava apenas começando. E começou muito bem, buscando a orientação do Senhor através da oração. Até onde sabemos, Saulo nunca mais se desviou do caminho estreito, até completar a sua carreira. Mas nem todos são assim. Há momentos na vida de um crente em que ele precisa parar e analisar se não está se desviando do caminho que iniciou quando da sua conversão. Podemos achar que estamos no caminho certo, mas é necessário consultar o Senhor, através da Bíblia e da oração, para provar se de fato não nos desviamos do caminho estreito. Vejam o caso de Pedro, que estava andando com Jesus havia mais de três anos. Tinha mudado drasticamente sua vida. Tinha abandonado tudo para seguir Jesus. Tinha confessado diante de todos que aquele homem era o Cristo, o filho de Deus, mas Jesus o abordou com palavras que poderiam lhe parecer estranhas naquela altura de sua vida: “Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos” (Lucas 22.32). Como assim, “quando te converteres”!? Pedro podia achar que já era convertido, as pessoas que o observavam podiam também chegar a essa conclusão, mas aos olhos do Senhor Jesus, Pedro ainda não tinha chegado a essa fase.


Conclusão


Meditando sobre estas coisas, podemos nos perguntar: “Em que fase estamos?” Perdidos em nossas próprias obsessões? Ainda não caímos por terra, nos prostrando diante do grande poder do Senhor? O que ele precisa fazer para nos derrubar do nosso próprio entendimento, sobre o qual estamos estribados? Hoje não é o dia de nos convertermos ao Senhor? De voltarmos do caminho errado pelo qual estamos teimosamente trilhando? Será que a contracorrente deste mundo está vencendo os nossos esforços, de modo que retrocedemos alguns passos? Deixemos o Espírito do Senhor nos dar essa resposta. Examinemo-nos a nós mesmos, e oremos: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Salmos 139.23,24).


(*) Foto do cabeçalho: Arco Romano, Damasco, Síria. David Samuel Santos, 18/06/2010. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/samuel_santos/4840926639/ Acesso em 10 mar. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

domingo, 3 de março de 2019

O maior tesouro (Atos 8.26-40)

Nos acampamentos de carnaval de que participávamos quando jovens, sempre fazíamos brincadeiras emocionantes que envolviam a todos. Uma das preferidas era a “caça ao tesouro”. No site do jornal O Globo, em meados do ano passado, nós lemos que


Em algum lugar da França está enterrada uma pequena estatueta de uma coruja feita de ouro e prata. Quem a encontrá-la ganhará não apenas a escultura original como prêmio, mas será reconhecido como o vencedor da mais longa caça ao tesouro do mundo, que já dura 25 anos. "Sur La Trace de La Chouette d'Or" (algo como "A Caça à Coruja de Ouro", em português) foi um livro ilustrado publicado pela primeira vez em 1993, logo depois que seu autor, Max Valentin, secretamente escondeu a escultura da coruja em um local na França conhecido apenas por ele. [...] Um quarto de século depois, milhares de "chouetteurs" — como os caçadores da coruja se intitulam — continuam estudando os 11 enigmas do livro Max Valentin, que podem ser baixados gratuitamente na internet. Eles trocam teorias em fóruns de bate-papo on-line e se reúnem em encontros anuais. Existe até uma associação criada pelos "caçadores", a A2CO.


A caça ao tesouro mais longa do mundo intriga a França há 25 anos. Site O Globo/Sociedade, 13/08/2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/a-caca-ao-tesouro-mais-longa-do-mundo-intriga-franca-ha-25-anos-22973888 Acesso em 03 mar. 2019.


No parágrafo de Atos 8.26-40, encontramos a história de um eunuco etíope, que era superintendente do tesouro do seu país, mas buscava para si um maior tesouro, o tesouro espiritual. Sendo um alto oficial, estava acostumado a elaborar estratégias e tomar grandes decisões. E o eunuco tomou pelo menos quatro grandes decisões que o levaram a conquistar o seu verdadeiro tesouro.


Primeira grande decisão: Buscou o Deus revelado nas escrituras sagradas (26,27)


Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Dispõe-te e vai para o lado do Sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Ele se levantou e foi. Eis que um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro, que viera adorar em Jerusalém,


Sendo um homem bem-sucedido, abastado, culto, leu nessas escrituras os relatos de Moisés sobre a criação, o dilúvio, a saga de Abraão e seus descendentes, a história do próprio Moisés, cujo Deus poderoso subjugou os deuses do Egito (Êxodo 12.12), país que ficava ao norte da Etiópia. Tomou então a decisão de buscar esse Deus, e certamente o comunicou à Rainha, que por meio de seu alto oficial, repetiu o nobre feito de sua antecessora (1º Reis 10.1) elogiada pelo próprio Senhor Jesus em Mateus 12.42: “A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão”.


A história da Etiópia está documentada como uma das mais antigas do mundo. Na Wikipédia nós lemos que,


Junto com os países vizinhos de Eritreia, Sudão, Djibouti, Somália e Somalilândia, esta região hospedou também o Império de Axum. A origem de Axum, por sua vez, remonta ao reino de Sabá (ou Shebah), no Iêmen, referido na Bíblia, que, por volta do ano 1000 a.C., se estendia, aparentemente, por todo o Corno de África e por parte da Península Arábica. Desde aproximadamente o século IV a.C. os gregos chamavam de "Etiópia" a todos os países com população de raça negra, sem distinguir reinos nem países. Portanto, a Etiópia, segundo os gregos poderia ser a Núbia do sul de Egito e Sudão, ou poderia ser o Império de Axum, que se concentrava nos arredores da Eritreia e ao norte da própria Etiópia, mas não há certeza histórica sobre isso. Fontes gregas referem que o Império de Axum era extremamente rico no século I e a cidade de Adúlis (que fica no país vizinho da Eritreia) é frequentemente mencionada como um dos mais importantes portos de África. Documentos oficiais, contudo, colocam a cidade de Axum como a capital onde se encontrava a corte da Rainha de Sabá. Esse reino tinha, no século II, direito de receber tributos de estados da Península Arábica e tinha inclusivamente conquistado o Reino de Cuche, no actual Sudão. Há indicações do carácter cosmopolita desse reino, com populações judaicas, núbias, cristãs e mesmo minorias budistas.


História da Etiópia. Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Eti%C3%B3pia  Acesso em 28 jan. 2017, citando a fonte: Ancient African History – Ancient Abyssinia. Sankofa Project Guide.


O interesse do tesoureiro etíope em conhecer a Deus poderia nos levar a meditarmos: como é o Deus que conhecemos? Quem nos influenciou durante a vida para criar um conceito sobre quem é Deus? Uma personalidade famosa, apresentadora de programas infantis, consumava chamar Deus de “o cara lá de cima”; alguns pais, ao falar com Deus na presença de seus filhinhos, o invocam como “papai do céu”. Um amigo crente, já falecido, compartilhou que tinha dificuldades psicológicas quando pensava em Deus como uma figura paterna, porque a ideia que ele tinha de um pai não era encorajadora. Seu pai era um homem rico, amante de sua mãe, que não lhe dava atenção, como dava para seus outros filhos, frutos do casamento legítimo que mantinha paralelamente. Se ele dependesse apenas desse conceito paterno para conhecer o Deus verdadeiro, provavelmente iria odiá-lo em vez de amá-lo. Mas, para sua felicidade, converteu-se a Jesus Cristo e passou a aprender qual é o verdadeiro caráter do Deus que se revelou na Bíblia Sagrada. O eunuco etíope seguiu pelo mesmo caminho. Tomou a grande decisão de conhecer o Deus das Escrituras.


Segunda grande decisão: Ocupou o seu tempo lendo as escrituras sagradas (28,29)


[...] estava de volta e, assentado no seu carro, vinha lendo o profeta Isaías. Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o.


De acordo com o Google Maps (1), a distância entre Jerusalém e a Etiópia moderna, via A1, é de 131 h (4.204,6 km). A Etiópia mencionada neste texto, porém, pode estar se referindo a um lugar mais próximo, como o Sudão, no sul do Egito, cuja distância, então, seria cerca de 106 h (2.549 km) via A1 (2).


(1) Disponível em: https://www.google.com.br/maps/dir/Jerusal%C3%A9m,+Israel/Eti%C3%B3pia/@20.1827035,26.4993529,5z/data=!3m1!4b1!4m14!4m13!1m5!1m1!1s0x1502d7d634c1fc4b:0xd96f623e456ee1cb!2m2!1d35.21371!2d31.768319!1m5!1m1!1s0x1635d0cedd6cfd2b:0x7bf6a67f5348c55a!2m2!1d40.489673!2d9.145!3e0 Acesso em: 28 jan. 2017.


(2) Disponível em: https://www.google.com.br/maps/dir/Jerusal%C3%A9m,+Israel/Cartum,+Khartoum,+Sud%C3%A3o/@23.419318,23.8635836,5z/am=t/data=!3m1!4b1!4m13!4m12!1m5!1m1!1s0x1502d7d634c1fc4b:0xd96f623e456ee1cb!2m2!1d35.21371!2d31.768319!1m5!1m1!1s0x168e8fde9837cabf:0x191f55de7e67db40!2m2!1d32.5598994!2d15.5006544 Acesso em: 28 jan. 2017.


Os viajantes de hoje têm recursos extraordinários. Um dia minha esposa e eu viajamos para Ribeirão Preto numa van alugada. O motorista acionou o ar condicionado e ligou a TV, que passava um filme de comédia. O tempo passou tão rápido, que nem percebemos quando chegou no destino. Se você não é um escravo do trabalho, como muitos acabam se tornando nestes tempos modernos, talvez tenha alguns momentos durante o dia para relaxar. Nestes momentos, como você aproveita o tempo? Alguns gostam de jogar “games”, outros, de ver televisão, outros gostam de sair, mas os que amam o Senhor sempre reservam um pouco de tempo para a leitura da Bíblia, diariamente. O eunuco estava assentado confortavelmente em seu carro, enquanto o condutor e sua escolta o dirigiam naquela longa viagem. Que fazer durante todo o tempo do trajeto? Ele veio prevenido. Tinha consigo um rolo do profeta Isaías, para passar o tempo. O eunuco etíope tomou a grande decisão de ocupar seu tempo lendo as escrituras sagradas.


Terceira grande decisão: Procurou compreender melhor as escrituras sagradas (30-34)


Correndo Filipe, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: Compreendes o que vens lendo? Ele respondeu: Como poderei entender, se alguém não me explicar? E convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele. Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca. Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porque da terra a sua vida é tirada. Então, o eunuco disse a Filipe: Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?


A leitura da Bíblia às vezes nos traz momentos de grande esclarecimento, às vezes nos deixa com muitas dúvidas. Há passagens difíceis de se compreender. O motivo de ficarmos em dúvida a respeito de algumas passagens bíblicas pode ser falta de experiência, falta de persistência, até mesmo falta de fé. Quando eu era jovem, descobri que a Escola Dominical era grande fonte de conhecimento. Costumava dizer que mais da metade do conhecimento que tinha adquirido da Bíblia vinha de minha perseverança em assistir às aulas aos domingos de manhã. É que, às vezes, precisamos da ajuda de irmãos para que possamos abrir nossas mentes para alguns detalhes. Às vezes o professor, ou até mesmo outros alunos, têm informações que são a chave para a compreensão dos textos difíceis.


O pastor e escritor Tim Lahaye, em seu livro intitulado “Como estudar a Bíblia Sozinho” (3), na página 82, aconselha os leitores a adquirirem bons livros para auxiliarem seus estudos, e até sugere alguns que foram muito úteis para ele mesmo: Manual Bíblico – Halley; concordância, baseada na edição ''Revista e Atualizada".; Dicionário da Bíblia de John D. Davis e o "Novo Dicionário da Bíblia", Edições Vida Nova; Novo Comentário da Bíblia – Edições Vida Nova; Harmonia dos Evangelhos de S. L. Watson e W. E. Allen; Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, de Myer Pearlman; Mais que um Carpinteiro, de Josh McDowell.


(3) LAHAYE, Tim. Como Estudar a Bíblia Sozinho. Venda Nova (MG): Editora Betânia,1984.


Mas, espere um pouco, por que Lahaye indica tantos livros auxiliares, se disse que era para estudar a Bíblia sozinho?! Sim, mas não tão sozinho, conforme a própria Bíblia dá a entender nos versículos abaixo:


  • Provérbios 1.8 Filho meu, ouve o ensino de teu pai e não deixes a instrução de tua mãe.
  • Provérbios 13.14 O ensino do sábio é fonte de vida, para que se evitem os laços da morte.
  • 1 Coríntios 4.17 Por esta causa, vos mandei Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja.
  • 1 Timóteo 4.13 Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino.
  • 1 Timóteo 5.17 Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino.

O eunuco tomou a grande decisão de conhecer melhor as Escrituras, e, que bom que tinha Filipe por perto!


Quarta grande decisão: Converteu-se ao Caminho revelado nas escrituras sagradas (36-40)


Seguindo eles caminho fora, chegando a certo lugar onde havia água, disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que seja eu batizado? Filipe respondeu: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. Então, mandou parar o carro, ambos desceram à água, e Filipe batizou o eunuco. Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, não o vendo mais o eunuco; e este foi seguindo o seu caminho, cheio de júbilo. Mas Filipe veio a achar-se em Azoto; e, passando além, evangelizava todas as cidades até chegar a Cesareia.


De nada valeriam as grandes decisões anteriores, se o eunuco etíope não tivesse tomado esta última grande decisão. Depois do batismo, cada um seguiu o seu caminho, mas o eunuco já não era mais o mesmo homem. Agora ele estava cheio de júbilo, um dos frutos do Espírito Santo, que certamente agora nele habitava. Se ele não tivesse decidido naquela hora, será que haveria nova oportunidade?  Será que, noutra estrada deserta, O Espírito iria enviar outra vez um Filipe para lhe explicar de novo o evangelho? Improvável. Paulo exorta os Coríntios a não perderem oportunidades como estas, em 2ª Coríntios 6.1,2  “E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus  (porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação)”;


O Eunuco teve uma grande oportunidade, e tomou a grande decisão de obedecer ao evangelho, pedindo para ser batizado, dando seu testemunho diante de todos os seus servos que faziam parte da comitiva, e de quem mais quisesse presenciar a cerimônia, que demonstrava sua nova fé em Jesus, o Filho de Deus.


Conclusão


Este parágrafo de Atos nos falou de grandes decisões, que levaram um homem a encontrar o seu maior tesouro. Ele também fala da importância da obediência (Filipe obedeceu e ganhou uma alma); da alegria motivada pela obediência (o eunuco obedeceu e ficou alegre); e da recompensa da obediência (Filipe foi honrado por ter sido arrebatado para uma nova missão). Pode ser que você tenha gostado deste artigo. Talvez Deus tenha tocado no seu coração para você começar a mudar alguns hábitos. Talvez você ainda não tenha tomado a maior decisão de sua vida, a de aceitar a Jesus como seu Senhor e Salvador, entregar sua vida a ele, confessando e se arrependendo dos seus pecados. Faça como o eunuco etíope. Seu interesse por ler este artigo pode indicar que está buscando o Deus revelado na Bíblia Sagrada. Você decidiu dedicar algum tempo para a leitura, e prestou atenção na explicação da Palavra de Deus. Agora, eu te convido a “parar o carro”, olhar para as águas da oportunidade que estão à sua volta, e se fazer também a mesma pergunta: “que impede que seja eu batizado?” Ou, “que impede que eu me torne um filho de Deus pela fé em Jesus Cristo”? ou, “que impede que eu atravesse a ponte sobre o abismo do pecado que me separa de Deus, o Pai?” Ou, “que impede que eu abandone hoje mesmo todos os meus vícios, toda a minha amargura, todo o meu orgulho, ou o que quer que seja, e me renda à vontade do Senhor para minha vida?” Que impede?... Neste momento eu estou orando por você, amado leitor.


(*) Foto do cabeçalho: A escultura da coruja em pleno voo, feita pelo artista Michel Becker Foto: Reprodução. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/a-caca-ao-tesouro-mais-longa-do-mundo-intriga-franca-ha-25-anos-22973888 Acesso em 03 mar. 2019.


Este e outros artigos deste Blog fazem parte do livro "A Igreja em Expansão (Atos 6 a 14)", disponível em um dos links abaixo:

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domingo, 24 de fevereiro de 2019

O cristão de qualidade (Atos 8.14-25)

Vivemos num tempo em que as pessoas estão mais exigentes com a qualidade dos produtos. Fala-se muito em produtos naturais, orgânicos, alimentação sadia, qualidade de vida. Mas você já pensou alguma vez a respeito da qualidade de nossa devoção a Deus? Na continuação da história da conversão dos samaritanos, podemos perceber que havia essa preocupação. Eles creram no evangelho pregado por Filipe, mas para que se tornassem cristãos de qualidade, ainda faltava cumprir algumas exigências. O bom cristão precisa ser bem qualificado, e podemos dizer que há, pelo menos, quatro exigências para alguém se tornar um cristão de qualidade.


Não basta ser batizado, é preciso receber o Espírito Santo (14-17)


Ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João; os quais, descendo para lá, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo; porquanto não havia ainda descido sobre nenhum deles, mas somente haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus. Então, lhes impunham as mãos, e recebiam estes o Espírito Santo”.


Os apóstolos enviaram a Samaria Pedro e João, os quais oraram e impuseram as mãos para que os samaritanos recebessem o Espírito Santo, sem o que estariam incompletos. Poderiam ser batizados na água, para testemunhar a todos sua nova fé, mas o testemunho só tem valor quando expressa uma verdade, a de que o Espírito Santo veio habitar em seus corações. Foi assim que Jesus instruiu Nicodemos, um homem piedoso, ilustre entre os líderes religiosos de seu tempo, mas que não compreendia o que era nascer de novo, conforme João 3.3-5: "[...] Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus".


Em outra ocasião Jesus falou com seus discípulos, comparando-os aos ramos de uma videira, de quem precisavam receber a seiva para poder dar frutos: “Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (João 15.5). É através do Espírito Santo que nos unimos a Cristo, “[...] E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Romanos 8.9).


Mas, por que os samaritanos não receberam o Espírito Santo no momento em que creram? Talvez porque fosse necessário que Pedro, que tinha as “chaves do reino dos céus” (Mateus 16.19), abrisse o caminho do Espírito Santo a eles, assim como abriu aos judeus no dia de Pentecostes (Atos 2.14-38) e abriria, mais tarde, aos gentios, na casa de Cornélio (Atos 10.44,45).


Não adianta ter dinheiro, é preciso comprar aquilo que não se pode pagar (18-23)


Vendo, porém, Simão que, pelo fato de imporem os apóstolos as mãos, era concedido o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, propondo: Concedei-me também a mim este poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo. Pedro, porém, lhe respondeu: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom de Deus. Não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, da tua maldade e roga ao Senhor; talvez te seja perdoado o intento do coração; pois vejo que estás em fel de amargura e laço de iniqüidade.


Simão ofereceu dinheiro para que lhe fosse dado o poder de conceder o Espírito Santo pela imposição das mãos. Sua concepção é estranha para nós, que conhecemos o dom de Deus. Para o mágico, porém, parecia-lhe natural. Ele devia estar acostumado com o fato de que, no mundo, o dinheiro pode comprar tudo. “O dinheiro não compra a felicidade”, dizem, “manda buscar”.


Mas o dinheiro, na verdade, corrompe. No Brasil, alguns estados chegaram a ficar em situação de calamidade, sem dinheiro para honrar seus compromissos, e até para pagar seus servidores, porque houve corrupção na gestão de suas finanças. Rebeliões estouraram em presídios, com muitos mortos, porque corruptos permitiram que entrassem armas e celulares para alguns presos privilegiados, que podiam pagar. Neste momento, o Brasil inteiro, e também outros países, estão sofrendo amargas consequências do amor do dinheiro, por parte dos governantes e de representantes que deveriam servir ao povo, mas em vez disso, agem como se fossem donos do patrimônio público, especialmente do dinheiro que entra nos seus tesouros.


Mas no reino de Deus não é assim. O dinheiro não pode comprar poder. Por isso, Pedro repreendeu Simão: “O teu dinheiro seja contigo para perdição [...]. Não tens parte nem sorte neste ministério [...] estás em fel de amargura e laço de iniquidade”.


Deus faz questão de que seus dons sejam gratuitos, conforme Isaías 55.1-3, 6,7:


Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares. Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; [...] Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao SENHOR, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar.


Apelo semelhante ao de Isaías é feito em meio às palavras finais da Bíblia. Embora Jesus diga em Apocalipse 3.18: “Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas”, ele anuncia em 21.6: “[...] Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida”, e em 22.17: “O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida”.


Não basta uma simples oração, é preciso ter um relacionamento com Deus (24)


Respondendo, porém, Simão lhes pediu: Rogai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes sobrevenha a mim”.


Simão pede que os apóstolos orem por ele. Achava que, se ele mesmo orasse, Deus não ia ouvir. Não conhecia o Deus de Davi, que diz: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus” (Salmos 51.17).


É comum que as pessoas insistam para que um pastor vá orar em sua casa, porque entendem que a oração do pastor tem um poder especial. Acham que há poder em certas orações, quando proferidas por determinadas pessoas, ou quando verbalizadas de acordo com determinados modelos. Existe um site chamado “Orações Poderosas”. Lá encontramos a “Oração de Santa Sara Kali”; a “Oração para Engravidar”; as “Orações a Nossa Senhora Desatadora dos Nós”; a “Oração do Divino Pai Eterno”; a “Oração pelos Filhos”; as “Orações de Santa Luzia” (deve ser para os que têm problemas de visão); entre outras.


Disponível em: http://oracoespoderosas.info/ Acesso em 07 jan. 2017.


Nós, evangélicos, ficamos escandalizados com esse tipo de pensamento. Mas será que não existe essa atitude também entre nós? Num livro chamado “A oração de Jabez”, o escritor evangélico Bruce Wilkinson dá a impressão de que está sugerindo esse tipo de prática, conforme o trecho nas páginas 42 e 43:


Quero desafiá-lo a fazer da oração de Jabez parte integrante de seu dia a dia. Para tanto quero encoraja-lo a seguir firmemente durante os próximos 30 dias o plano aqui descrito. No final deste período, você perceberá mudanças significativas em sua vida e a oração estará prestes a se tornar um valoroso e contínuo hábito. 1) Faça a oração de Jabez todas as manhãs e registre um diário, marcando num calendário ou num quadro que você separou especificamente para este propósito; 2) Escreva a oração e cole-a em sua Bíblia, na geladeira, no espelho do banheiro ou em qualquer outro lugar que o faça se lembrar de sua nova visão; 3) Releia este livro uma vez por semana durante o próximo mês, pedindo a Deus que lhe mostre as ideias importantes que você possa ter perdido; 4) Conte a alguém que você assumiu o compromisso de um novo hábito de oração, e peça a esta pessoa que lhe cobre o seu cumprimento; 5) Comece a registrar em sua vida, especialmente os compromissos marcados por Deus e as novas oportunidades que você pode relacionar diretamente à oração de Jabez; 6) Comece a fazer a oração de Jabez por sua família, seus amigos e sua Igreja local. [...] Quando você age, está dando um passo rumo às melhores coisas que Deus tem para você. Sou uma prova viva disso.


WILKINSON, Bruce. A Oração de Jabez: Alcançando a bênção de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.


Essa técnica sugerida por Wilkinson é estranha aos princípios bíblicos de oração, e mostrou-se ineficaz até mesmo na vida do seu inventor. Como ele disse que era uma prova viva de que seu método funciona, vamos olhar de relance seu próprio testemunho, conforme sua editora, Mundo Cristão, e a Revista Christianity Today:


O livro o catapultou ao status de celebridade e fez história na aclamada lista de livros mais vendidos do The New York Times ao se tornar o "livro que vendeu mais rápido em todos os tempos", segundo avaliação da Publishers Weekly. Com o sucesso, no entanto, surgiram interpretações absolutamente equivocadas, ou mesmo maliciosas, sobre o conteúdo do best-seller. Entre os críticos não faltou quem o associasse à teologia da prosperidade, ou visse em seu texto um incentivo à superstição. Wilkinson foi desconstruído pela mesma literatura que o ascendeu como popstar evangélico. Após reexaminar sua vida, partiu para o continente africano. 


Disponível em: http://www.mundocristao.com.br/autor/4/Bruce-Wilkinson Acesso em 07 jan. 2017.


Wilkinson tem uma história de voltas e reviravoltas dramáticas. Quando seus livros se tornaram bestsellers, ele desistiu do ministério Walk Thru The Bible, que ele fundou. Ele decidiu mudar-se para Hollywood para fazer filmes, mas depois recuou. Mudou-se para Joanesburgo, mas ficou menos de dois anos. Ele se mudou para a Suazilândia. Permaneceu lá aproximadamente 18 meses antes de retornar a Geórgia. Wilkinson também adiou a conclusão de seu próximo livro para Multnomah Press. E no final de setembro de 2005, ele estava para lançar a "Rede de Treinamento do Doador de Sonhos" para ser aliada à Associação Americana de Conselheiros Cristãos. Mas ele "puxou o plug em todo o empreendimento", uma fonte estreitamente associada com Wilkinson disse ao CT: "Bruce estava muito quebrantado neste momento. [O Ministério Sonho para a África] tinha fisicamente, emocionalmente, espiritualmente e financeiramente se tornado um fardo pesado para Bruce."


MORGAN, Timothy C. Jabez Author Quits Africa. Christianity Today, 01/02/2006. Disponível em:http://www.christianitytoday.com/ct/2006/february/8.76.html http://www.christianitytoday.com/ct/2006/february/8.76.html Acesso em 07 jan. 2017.


Desde a infância tenho ouvido falar de orações milagrosas, mas, lendo a Bíblia, aprendi que a verdadeira oração não é como uma reza mágica, e sim um diálogo com Deus, uma conversa entre um filho e seu pai celestial. Esse relacionamento só será possível para quem tornar-se filho de Deus por meio da fé em Jesus Cristo, e, com certeza, isto não acontece simplesmente por repetir uma oração pronta.


Não adianta ter um bom nome, é preciso evangelizar (25)


Eles, porém, havendo testificado e falado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém e evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos”.


Os apóstolos, tão honrados que foram chamados de Jerusalém para orar pelos samaritanos, sem o que eles não receberiam o Espírito Santo, voltaram para casa, mas, pelo caminho, foram evangelizando. Não perderam tempo. A evangelização corria em suas veias, era esse o seu trabalho. Nós também devemos seguir esse exemplo. Um dos principais motivos de Deus não nos levar para o céu imediatamente após recebermos Jesus, é que precisamos fazer o trabalho de evangelistas. Como, porém, realizamos esse trabalho? De que maneiras evangelizamos em nosso contexto hoje em dia?


Um método clássico de evangelização é a distribuição de folhetos, os quais são uma ferramenta eficaz de propaganda. Igrejas grandes usam também técnicas modernas de divulgação como jornais, televisão, redes sociais, eventos artísticos. Mas não devemos pensar que evangelizar é apenas fazer propaganda, conforme alerta J.I. Packer:


Por mais que apresentemos o evangelho de forma clara e convincente, não temos qualquer esperança de convencer ou converter quem quer que seja. Poderíamos o prezado leitor e eu, mediante nossas palavras mais intensas, quebrar o poder que Satanás exerce sobre a vida de um homem? Não. Poderíamos proporcionar vida aos espiritualmente mortos? Não. Poderíamos nutrir a esperança de convencer os pecadores sobre a verdade do evangelho mediante as mais pacientes explicações? Não. Poderíamos esperar levar os homens a obedecerem ao evangelho através de quaisquer palavras de exortação que porventura disséssemos? Não. Nossa maneira de evangelizar não será realista enquanto não tivermos enfrentado esse fato esmagador, permitindo que ele exerça o devido impacto sobre nós. [...] Considerada como um empreendimento humano, a evangelização é uma tarefa inútil. Em princípio não pode produzir o efeito desejado. Podemos pregar, e pregar de modo claro, fluente e atrativo; podemos falar a indivíduos da maneira mais apropriada e desafiadora; podemos organizar cultos especiais, distribuir folhetos, exibir cartazes e encher a terra de publicidade - mas não há a mais remota esperança de que toda essa queima de esforços será capaz de conduzir qualquer alma a Deus. A não ser que algum outro fator interfira nessa situação, nossos próprios desempenhos, todas as atividades evangelísticas estarão condenadas de antemão ao fracasso. Esta é a verdade, nua e crua que temos de enfrentar.


PACKER, J.I. Evangelização e Soberania de Deus, p. 74-75. Citado por Hermisten Maia Pereira da Costa em Teologia da Evangelização. Palestra ministrada durante a 2ª Semana Teológica de 2007 (1 a 5 de outubro) do Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, São Paulo, Capital, no dia 1 de outubro de 2007. Disponível em: http://www.mackenzie.com.br/fileadmin/Graduacao/EST/DIRETOR/Teologia_da_Evangelizacao__Semana_Teologica_-_JMC_1.10.pdf Acesso em 08 jan. 2017.


É comum denominarem as propagandas de grandes igrejas como “marketing evangélico”. Quem entende o significado da palavra marketing, sabe que é um erro utilizá-la como sinônimo de propaganda, pois marketing é muito mais do que isto. Conhecidos como “Quatro P’s”, os elementos básicos de uma estratégia de marketing são Produto, Preço, Praça e Promoção. Se fôssemos aplicar isto à igreja, poderíamos fazer a seguinte relação:


  • Produto: a palavra de Deus, a adoração, a comunhão;
  • Preço: de graça (as ofertas são voluntárias);
  • Praça: Um prédio confortável, uma boa localização (no mínimo tem que ter lugar para sentar, banheiro, água para beber, proteção contra chuva ou sol).
  • Promoção: Propaganda (folhetos, etc.)

Veja que a propaganda, seja formal, seja “boca a boca”, é uma parte importante na estratégia de evangelização, mas não devemos negligenciar os demais “P’s”, e muito menos pensar que o resultado depende unicamente de nossas estratégias, porque, como diz Jonas 2.9: “[...] ao SENHOR pertence a salvação”.


Conclusão


Assim como os samaritanos, precisamos ser cristãos de qualidade. Nós não estamos aqui para agradar o mundo, mas, se obedecermos ao que diz Colossenses 3.23: “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens”, então o mundo notará.


Assim, por amor a Deus, e por amor aos eleitos, busquemos a qualidade. Isto não será possível se não nascermos de novo, recebendo o Espírito Santo; se não comprarmos do Senhor Jesus aquilo que o dinheiro não pode pagar; se não tivermos um relacionamento íntimo e intenso com Deus, e se não nos empenharmos na evangelização.


 


(*) Imagem do cabeçalho disponível em:  https://pt.depositphotos.com/20012533/stock-photo-premium-quality-gold-certificate.html Acesso em 24 fev. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.


 


 

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Por que vamos à igreja? (Atos 8.4-13)

Nós vamos à igreja toda semana, temos isto como um hábito saudável, que faz parte de nossa devoção a Deus, do qual esperamos misericórdia e graça. Não imaginamos que a igreja possa ser um lugar de perigo. Por isto, ficamos perplexos quando ouvimos sobre o atentado ocorrido em uma missa na Catedral Metropolitana de Campinas, em 11 de dezembro de 2018. A esposa de uma das vítimas,


A dona de casa Damiana Francisco Leandro Alves, 76 anos, não consegue se conformar com a sequência de fatos que resultaram na morte do marido, o aposentado Heleno Severo Alves, 84 anos, a quinta vítima da chacina da Catedral, em Campinas. "Logo cedo, ele pegou o rosário, o livro de orações e disse que ia rezar, mas perdeu o circular. Eu falei que era para não ir, que tem coisa que vem por bem, é um aviso. Falei, vai descansar, homem. Mas ele, 'não, eu tenho que ir'. Pegou outro ônibus e foi."


'Eu pedi não vá, é um aviso', diz esposa de vítima de atirador. São Paulo: Agência Estado, 12/12/2018. Disponível em: https://noticias.r7.com/sao-paulo/eu-pedi-nao-va-e-um-aviso-diz-esposa-de-vitima-de-atirador-12122018 Acesso em 17 fev. 2019.


A nossa perplexidade, porém, é atenuada no consolo das palavras do Senhor: “[...] Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (João 11.25).


As pessoas não deixarão de buscar a Deus na igreja, mesmo que forças hajam em contráro, pois há uma força maior que os impulsiona. Quais são as suas motivações? Por que, afinal, as pessoas vão à igreja?


O texto de Atos indicado no título deste artigo dá a entender que há, pelo menos, três motivos.


Procurando alegria


“Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra. Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo. As multidões atendiam, unânimes, às coisas que Filipe dizia, ouvindo-as e vendo os sinais que ele operava. Pois os espíritos imundos de muitos possessos saíam gritando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos foram curados. E houve grande alegria naquela cidade”.


Em primeiro lugar, podemos dizer que as pessoas vão à igreja porque procuram alegria. É interessante notar que Filipe curou muitos coxos, paralíticos e endemoninhados. Parece que essas doenças eram muito comuns entre o povo, e eles queriam tornar-se sadios. Ao serem curados, tiveram grande alegria. A saúde e a alegria certamente caminham juntas. Por outro lado, as doenças físicas estão associadas à depressão. Um exemplo disto é uma doença que hoje em dia é chamada de artrite reumatoide. De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR),


[...] a artrite reumatoide atinge cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil. E, entre todo esse pessoal, não é incomum que a depressão acabe dando as caras. Só que a tristeza profunda, além de consequência, pode ser um gatilho para essa doença autoimune que atinge as articulações. Em um estudo da Universidade de Calgary, no Canadá, pesquisadores analisaram dados de 403.932 indivíduos com depressão e de 5.339.399 sem a enfermidade, que passaram pelo sistema de saúde do Reino Unido entre 1986 e 2012. Eles concluíram, então, que 0,54% dos pacientes depressivos (2.192) desenvolveram artrite reumatoide ao longo desse tempo. Por outro lado, 0,45% do grupo sem o transtorno psiquiátrico (24.021) manifestou o problema nas juntas. Dito de outra de forma, a depressão aumentou em 38% a probabilidade de a artrite reumatoide aparecer. Mas veja só: o uso de antidepressivos minimizou esse risco, sugerindo que, de fato, há uma relação de causa e efeito. Por que a depressão pode se tornar um gatilho. Esse quadro psiquiátrico gera várias alterações no organismo. Uma é aumentar a concentração de uma substância inflamatória batizada de fator de necrose tumoral alfa, que desempenha um importante papel no desenvolvimento da artrite reumatoide.


SANTOS, Maria Tereza. Estudo aponta que depressão pode desencadear artrite reumatoide. Site Abril.com/Saúde, 22 jul. 2018. Disponível em: https://saude.abril.com.br/medicina/estudo-aponta-que-depressao-pode-desencadear-artrite-reumatoide/ Acesso em 02 fev. 2019.


O conhecimento de que a depressão e doenças físicas estão associados é antigo. No Salmo 31.10, escrito há cerca de três mil anos atrás, nós já líamos o seguinte: “Gasta-se a minha vida na tristeza, e os meus anos, em gemidos; debilita-se a minha força, por causa da minha iniquidade, e os meus ossos se consomem”.


A depressão é um mal antigo, e tem aumentado muito nestes tempos modernos. Para não cairmos em depressão, buscamos coisas que nos deixem alegres, entusiasmados. Talvez você sofra ou já tenha sofrido do mal da depressão, como naqueles dias em que acorda e deseja não sair da cama, não conversar com ninguém, mas ficar isolado num canto, sem forças para executar o seu trabalho, deixando tudo para depois. Talvez você tenha ido em alguma igreja crendo que encontraria a cura e, quem sabe, a encontrou, saindo de lá jubilando, cantando lindas músicas de louvor. No entanto, não é apenas por alegria que buscamos. Precisamos de algo mais.


Procurando um mestre


Ora, havia certo homem, chamado Simão, que ali praticava a mágica, iludindo o povo de Samaria, insinuando ser ele grande vulto; ao qual todos davam ouvidos, do menor ao maior, dizendo: Este homem é o poder de Deus, chamado o Grande Poder. Aderiam a ele porque havia muito os iludira com mágicas.


Nós também vamos à igreja porque sentimos a necessidade de seguir um mestre. Queremos alguém que nos anime a seguir firmes no caminho de Deus. Mas os mestres não sabem todas as coisas, e às vezes sabem menos do que deveriam, como é o caso de Nicodemos, de quem Jesus se admirou em João 3.10: “Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas”?


O escritor de Hebreus 5.12 insinua que os discípulos mais antigos deveriam se tornar mestres, e lamentava que eles tivessem necessidade de que alguém lhes ensinasse, de novo, os “princípios elementares dos oráculos de Deus”, como crianças que precisam de leite e não podem receber alimento sólido. Quem sabe eles tivessem medo do alerta de Tiago 3.1: “Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo”. Ou então fossem, como os discípulos de Lucas 24.25, “[...] néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!


Quando escolhemos um líder, dependendo de onde queremos chegar, pensamos no mais forte, no mais inteligente, no mais sábio, ou no mais treinado. Mas devemos tomar muito cuidado nessa escolha. Os samaritanos escolheram Simão porque acreditavam que ele era o poder de Deus, mas estavam apenas se deixando iludir. Nós também corremos este risco. A Bíblia adverte continuamente sobre a existência prolífera de falsos mestres, como em Mateus 23.2-7:


Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem. Atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas. Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens.


Nem sempre, porém, o problema está no mestre. Jesus, por exemplo, é o Mestre dos mestres, mas nem isso garante que os seus conselhos sejam seguidos. Veja o caso do jovem rico mencionado em Marcos 10.17-24, que tinha Jesus na mais alta estima, tanto que o chamou de Bom Mestre e que, mesmo assim, não seguiu a sua orientação, por confiar demais nas próprias riquezas.


Existe ainda, pelo menos, um terceiro motivo pelo qual as pessoas vão à igreja.


Procurando a verdade


Quando, porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, assim homens como mulheres. O próprio Simão abraçou a fé; e, tendo sido batizado, acompanhava a Filipe de perto, observando extasiado os sinais e grandes milagres praticados.


A verdade sempre prevalece, no final, porque, no fundo todos querem saber a verdade. Até mesmo Simão percebeu que Filipe não iludia o povo, e quis chegar mais perto para entender melhor o que estava acontecendo.


A missionária Sophie Muller, que trabalhou na Amazônia colombiana em meados do século vinte, conta, em seu livro, o conflito que havia no íntimo de um jovem filho de pagé, e sua busca pela verdade:


Nós nos reuníamos numa grande cabana à noite, silenciosamente esperando que o fogo diminuísse. As portas eram fechadas. Havia um cesto de alimentos ao lado do fogo. Ninguém falava, nem se movia. Finalmente tudo ficava escuro [...] O Pagé começava a cantar do lado de fora da casa [...] O espírito do morto chegava a um dos assistentes agitados. “Eu sou sua mãe”, dizia numa voz aguda em falsete. “A casa do Grande Espírito é linda, muito agradável”. Às vezes o espírito aconselhava acerca de algum problema, mas sempre pedia alimento. “Delicioso, delicioso”, dizia, enquanto comia um pedaço de carne ou uma banana”. [...] Quando não cabia mais alimento no estômago do Page a sessão terminava [...]. Este era o ambiente em que Pablo crescera, mas algo dentro dele não permitia que seguisse a profissão bem paga do seu pai. Mesmo assim, aqueles rituais atraíram sua atenção para o mundo invisível e criaram nele um forte desejo de conhecer a resposta à antiga interrogação: “Se um homem morrer, viverá outra vez?” (Muller 2003, p. 91).


MULLER, Sophie. Sua voz ecoa nas selvas. Tradução Delbert Denelsbeck. Anápolis: Transcultural Editora e Livraria, 2003.


Depois do milagre da multiplicação dos pães, Jesus pregou à multidão um duro discurso, criticando-os pelo fato de que o procuravam, não pelas coisas espirituais, mas para se fartarem do pão que podia lhes dar. Decepcionados, muitos os abandonaram, e Jesus perguntou aos doze se não queriam abandoná-lo também, ao que Simão Pedro respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (João 6.68).


Não podemos viver sem a verdade. Ainda que seja dura, ela precisa ser revelada e aceita.


Conclusão


Porque o Sr. Heleno, de Campinas, foi à igreja, apesar do apelo profético de sua esposa? Estava à procura de alegria? Estava seguindo alguém que considerava um bom líder? Ou foi à procura da verdade? Os três motivos são legítimos, e ainda outros poderiam ser enumerados. Quando vamos à igreja, porém, devemos ter como prioridade a busca da verdade. É a verdade que nos liberta. Jesus Cristo é a Verdade. Quem andar na verdade, vai ter alegria. Quem andar na verdade, escolherá bem que líder seguir, e não se deixará enganar por falsos mestres. Precisamos conhecer a Palavra de Deus, para a nossa própria edificação, e para podermos oferecer sempre a verdade às pessoas que estão à nossa volta. Deus permita que o Sr. Heleno, as outras vítimas fatais, eu e você, estejamos guardados pela fé naquele que ressuscita os mortos. Nós que, vivos, ainda temos oportunidade, atendamos ao apelo: “não deixemos de congregar-nos, [...] tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hebreus 10.25).


(*) Foto do cabeçalho: Fachada da Catedral Metropolitana de Campinas. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ataque_na_Catedral_Metropolitana_de_Campinas_em_2018 Acesso em 17 fev. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

sábado, 12 de janeiro de 2019

A tribulação e o copo transbordante (Atos 8.1-3)

Quando escrevi, originalmente, este texto, estava em oração pelo povo da Síria, especialmente os da cidade de Alepo, onde cerca de 50 mil civis estavam encurralados, esperando ajuda para saírem das áreas de conflito entre o Estado Islâmico e as forças que defendiam o governo. Hoje, em 2019, oramos pelo povo da Venezuela, que enfrenta grande crise política e econômica, a ponto de provocar a emigração de milhões de cidadãos.


No texto deste parágrafo de Atos, a igreja estava passando por um momento assim angustiante porque, depois do apedrejamento de Estêvão, levantou-se grande perseguição. Uma grande tribulação, um período de intensa provação, para o povo escolhido. Deus permitiu que sobreviessem tribulações, porque é um dos instrumentos que levam à obediência e ao cumprimento dos seus propósitos. Quando somos provados por meio da tribulação, reagimos de diversas formas, conforme o nosso coração nos guia, no momento. Entre as diversas formas possíveis de reação á tribulação, podemos citar pelo menos três.


Reagindo conforme o instinto (1)


E Saulo consentia na sua morte. Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria.


Uma das formas de reação muito comum, diante de tribulações, é agir conforme o nosso instinto. Aqui, no caso, o instinto de sobrevivência. A perseguição levou a comunidade, menos os apóstolos, a se dispersarem, a fugirem pelas regiões da Judeia e Samaria. Fugiram para evitar a perseguição e morte, num instinto de sobrevivência.


A reação por instinto é a mais comum, pois ocorre naturalmente, sem planejamento. Aliás, o instinto é tão forte que nos leva a agir até mesmo contra o nosso planejamento. Planejamos falar a verdade, mas na hora falta a coragem. Planejamos ficar calmos, mas uma palavra ou um gesto de alguém nos faz “perder as estribeiras”.


Achamos que Deus permitiu essa grande perseguição justamente para que o povo, se dispersando, levasse junto a mensagem do evangelho, e assim a reação conforme o instinto fez com que o propósito de Deus fosse cumprido. Deus nos criou assim, e nos deu instintos para nos proteger e para cumprimento de alguns dos seus propósitos.


O professor Márcio Amaral, da UFRJ e UFF, em um artigo sobre psicologia, escreve o seguinte:


"Se o laço dos instintos, esse laço protetor, não fosse tão mais poderoso do que a consciência; se não desempenhasse, no conjunto, um papel de regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso de seus juízos absurdos...de suas frivolidades, sua credulidade, isto é, seu consciente" (Nietzsche: "A Gaia Ciência" ou "O Alegre Saber", aforismo 11) Quem duvidar dessas palavras, precisa saber, ou se lembrar, de que os médicos já contraindicaram, por exemplo, a amamentação. Assim surgiram as amas de leite e as amas-secas. É possível imaginar uma violência maior, e mais simbólica, contra os instintos?


AMARAL, Márcio. Os instintos: contrapondo Nietzsche a Freud-I. Disponível em: http://www.ipub.ufrj.br/portal/ensino-e-pesquisa/ensino/residencia-medica/blog/item/171-os-instintos-contrapondo-nietzsche-a-freud-i Acesso em: 09/12/2016)


Mas não é correto pensar que devemos reagir sempre às provações da vida conforme os nossos instintos. O instinto é apenas a primeira e mais natural reação, mas para que possamos ficar dentro da vontade de Deus, precisamos aprender a controlar nosso ímpeto para, com calma, ver o que realmente Deus requer de nós. Pode ser que ele queira de nós outra forma de reação.


Agindo conforme a piedade (2)


Alguns homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grande pranto sobre ele.


A piedade, que é semelhante à religiosidade, leva as pessoas a fazerem o que é correto segundo o seu entendimento. Homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grande pranto sobre ele. Estes homens piedosos possivelmente estavam no sinédrio que o julgava, mas não tiveram forças para impedir seu apedrejamento. O que lhes restou foi dar ao jovem pelo menos um enterro digno.


Nós agimos, muitas vezes, de acordo com a piedade. Fazemos muitas coisas motivados pela religiosidade, conforme nosso entendimento do que é a vontade de Deus. Mas nem sempre piedade ou religiosidade, da maneira como as praticamos, representa de fato a vontade de Deus. Tiago contestou a religiosidade de alguns, alertando que poderiam estar praticando uma religião vã, conforme Tiago 1.26,27: “Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã. A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo”. Em 1ª Timóteo 6.5 é a vez de Paulo criticar as “altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro”.


As instituições conhecidas como “Santas Casas de Misericórdias” foram criadas para ajudar os necessitados. No site da Santa Casa da Bahia encontramos as seguintes informações:


O Compromisso da Misericórdia de Lisboa é um conjunto de quatorze obras de misericórdia, baseadas nos ensinamentos de São Tomás de Aquino. Sete delas são espirituais: ensinar os simples, dar bons conselhos, castigar os que erram, consolar os tristes, perdoar as ofensas, sofrer com paciência, orar pelos vivos e pelos mortos. As outras sete são corporais: visitar os enfermos e os presos, remir os cativos, vestir os nus, dar de comer aos famintos e de beber aos sedentos, abrigar os viajantes e enterrar os mortos. Inspirada e orientada por estes conceitos, as Santas Casas de Misericórdia foram fundadas a partir de 1498, sendo a primeira em Lisboa (Portugal), em um período da história lembrado por tragédias, guerras e pelas grandes navegações. Nesse cenário, o surgimento das Santas Casas ficou marcado pela retomada de sentimentos como a fraternidade e a solidariedade. Prova disso é que, muitas vezes, a Irmandade não precisou de uma instituição física: ela foi ao encontro dos enfermos e inválidos, onde quer que eles estivessem. Assim, chegou à Ásia, África, se espalhou pela Europa e, claro, pelas Américas. No Brasil, a Santa Casa chegou durante o período colonial e as suas unidades foram instaladas em diversos locais do país. A primeira foi em Santos, São Paulo; a segunda, em Olinda, Pernambuco; e a terceira em Salvador, Bahia, no ano de 1549.


A história das Santas Casas de Misericórdia e seus ideais de caridade e filantropia. Disponível em: http://www.santacasaba.org.br/historia Acesso em: 10 dez. 2016.


Hoje em dia, porém, as Santas Casas não trabalham somente por caridade, já que o governo é quem paga os tratamentos dos pobres. Além disso, as Santas Casas oferecem, à parte, serviços diferenciados para quem puder pagar por maior urgência e conforto.


Quando decidimos que vamos servir a Deus e de fato nos esforçamos para andar nos seus caminhos, as pessoas notam e comentam que somos pessoas religiosas. Mas se queremos, de fato, agradar a Deus, precisamos submeter nossa religiosidade e nossa piedade ao teste de pureza dos verdadeiros desígnios do Senhor.


Reagindo conforme as convicções (3)


Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere.


Saulo tinha convicção de que estava fazendo o que era correto, senão, não o faria. Ele era sincero, mas sinceramente errado em suas convicções. Ele dá o seu testemunho sobre estes fatos em Atos 26.9-11:


Na verdade, a mim me parecia que muitas coisas devia eu praticar contra o nome de Jesus, o Nazareno; e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os matavam. Muitas vezes, os castiguei por todas as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido contra eles, mesmo por cidades estranhas os perseguia.


Fidel Castro, o ex-presidente cubano, que morreu em novembro de 2016, é odiado por alguns e idolatrado por outros. Ele tem a seu favor o mérito de ter tirado do poder um ditador, Fulgêncio Batista, em 1959, e de ter proporcionado, em seu governo, consideráveis melhorias sociais, principalmente nos campos da saúde e da educação. Porém tornou-se, ele mesmo, um ditador que ficou 49 anos no poder. O jornalista Duda Teixeira, da revista veja, comenta que:


Ao longo dessas quase seis décadas, o rebelde pertinaz inseriu Cuba no mapa do mundo, despertou sonhos planetários de igualdade e justiça, incendiou a imaginação de toda uma geração de esquerda, mas acabou criando sua própria ditadura e converteu-se em um tirano turrão, que insistia em condenar seu povo a viver sob um modelo econômico e político abandonado pela maior parte da humanidade há 25 anos [...].


TEIXEIRA, Duda. Fidel Castro e seu tempo. Revista Veja, 3 dez 2016. Disponível em: http://veja.abril.com.br/mundo/fidel-castro-e-seu-tempo/ Acesso em 10 dez. 2016.


A escritora Marta Harnecker, no prefácio de seu livro sobre Fidel, anuncia que “[...] aqui, pode descobrir como um grupo de jovens movidos por grandes ideais e decididos a lutar por seu povo, podem ser protagonistas da história”.


HARNECKER, Marta. Fidel: A estratégia política da vitória. Tradução Ana Corbisier. São Paulo: Expressão Popular, 2000, P. 23. Disponível em:  http://www.consultapopular.org.br/sites/default/files/fidel.pdf Acesso em 10 dez. 2016.


Um desses jovens de grandes ideais, imprescindível para a vitória da revolução de Fidel, foi o médico Ernesto Che Guevara.


Eduardo Szklarz, num artigo sobre Che, diz que:


O que fascinava mesmo o rapaz eram os livros e as viagens. (...) E gostava de enfiar o pé na estrada: antes de terminar a faculdade, acoplou um motor numa bicicleta e rodou pelo seu país. Assim Ernesto cresceu na Argentina como um cara qualquer. Che ainda estava adormecido lá dentro. E só começaria a acordar quando ele saiu de moto pela América do Sul com o amigo Alberto Granado.


SZKLARZ, Eduardo. A verdade sobre Che. Super Interessante, 15 jan. 2011. Disponível em: http://super.abril.com.br/historia/a-verdade-sobre-che/ Acesso em 10 dez. 2016.


É irônico, mas o jovem médico que gostava de viajar, de ser livre, que formou uma firme convicção e entregou sua vida por ela, talvez não imaginasse como seus futuros colegas, médicos cubanos, lamentariam hoje justamente sua falta da liberdade. Uma reportagem da jornalista Cláudia Collucci, da Folha de São Paulo, em 2015, revela as dificuldades pelas quais passavam os médicos cubanos em serviço no Brasil:


As regras para viagens de cubanos ao exterior foram flexibilizadas pelo governo da ilha desde janeiro de 2013, não sendo mais preciso autorização prévia. Elas mantiveram em aberto, no entanto, a possibilidade de vetar pesquisadores, médicos, atletas e opositores ao regime. A presença de cônjuges e filhos no Brasil, na prática, facilita a fixação desses médicos cubanos no país, agravando os riscos de fuga de uma mão de obra qualificada, que gera dinheiro para a ilha. No sábado (7), a vice-ministra da saúde de Cuba esteve no município de Jandira (SP). Entre 13h E 16h conversou com médicos e disse que há 530 profissionais na ilha à espera de vaga no programa. “O recado foi claro. Se os familiares não voltarem, seremos substituídos”, diz um médico que pede anonimato. Há casos em que marido e mulher são do programa e têm filhos pequenos. “Temos dois casais de amigos que têm filhos de três e seis anos e que estão sendo pressionados para mandar as crianças de volta, sozinhas”, relata outro. “Querem que meu marido volte. Ele está há quatro meses empregado, com carteira assinada. Não é justo”, afirma uma médica cubana que atua na Grande SP. Outra teme se separar do marido e do filho de sete anos – já matriculado numa escola. “Se eles forem obrigados a voltar, irei junto.”


COLLUCCI, Cláudia. Cuba pressiona profissionais do Mais Médicos por volta de parentes à ilha. Folha de São Paulo/Cotidiano, 13/03/2015. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/03/1602220-cuba-pressiona-profissionais-do-mais-medicos-por-volta-de-parentes-a-ilha.shtml Acesso em 10 dez. 2016.


Talita Bedinelli e Flávia Marreiro, colaboradoras do jornal El país, em julho de 2016, reproduziram depoimentos de médicos cubanos que cogitavam até mesmo desertar do seu país:


A insatisfação é total. Estou cansada de que decidam minha vida sem a minha opinião", queixa-se H. K., uma das médicas cubanas frustradas pela decisão do Governo de seu país de não prorrogar a permanência dos profissionais que estão no Brasil pelo Mais Médicos desde o início do programa, há três anos. Havana oficializou, por meio dos coordenadores regionais nos últimos dias, que todos que chegaram em 2013 deveriam voltar a Cuba até novembro. O Governo comunista diz que eles devem ser substituídos, mas ainda não há cronograma claro para essa reposição, em meio à petição de Havana para renegociar o valor pago pelo convênio fechado com Brasília. [...] No Brasil, os médicos recebem 2.700 reais dos 10.000 reais pagos pelo Governo federal - o restante vai para o Governo cubano. Ainda com os cortes, a maioria quer permanecer do país pelo contraste em relação à remuneração em Cuba (cerca de 50 dólares) e pelas vantagens na comparação com o trabalho em outros países. Além da verba, ganham das prefeituras moradia e aqui consideram ter mais liberdades. Na Venezuela, por exemplo, precisam voltar para a casa até as 18h e são impedidos até de dirigir.


BEDINELLI, Talita; MARREIRO, Flávia. A frustração de médicos cubanos por deixar o Brasil: “Muitos vão desertar”. El País. São Paulo 19 jul. 2016. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/19/politica/1468888708_417274.html Acesso em 10 dez. 2016.


As convicções do médico Che Guevara eram muito fortes, mas não, necessariamente, sábias, a julgar pela situação atual de seus então futuros colegas. Nós precisamos ter convicções, porque se não, viveremos como folhas impelidas pelo vento, para lá e para cá, mas devemos, antes de tudo, submeter nossas convicções ao teste do conhecimento e submissão à real vontade de Deus.


Por sua misericórdia, Deus impediu Paulo de continuar em sua convicção equivocada, e deu a ele outra convicção, que se submetia aos propósitos do Senhor.


Conclusão


Deus nos livre de passarmos por tribulações. Se tivermos que passar por elas, a tendência é que nossa reação seja conforme nossos instintos, ou conforme a piedade, ou ainda de acordo com as nossas firmes convicções. Mas podemos nos preparar de antemão. De certa forma, podemos dizer que o nosso coração, centro de nossas decisões, é como um copo espiritual, que enchemos constantemente de coisas boas e ruins. Caso ele seja abalado, irá transbordar o seu conteúdo, e afetar tudo o que está à sua volta. Seja com coisas boas, seja com coisas ruins. Nada melhor, portanto, do que enchermos este copo de coisas boas, como o conhecimento e a meditação bíblica, a oração constante e perseverante, a compaixão, o amor que vem de Deus. Se tiver que transbordar, que seja para o bem de todos em redor.


(*) Imagem do cabeçalho disponível em http://joaopaulo-mendes.blogspot.com/2008/05/o-meu-clice-transborda.html Acesso em 12 jan. 2019.


 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A hora da nossa morte (Atos 7.54-60)


A última palavra do piloto do avião que caiu com o time da Chapecoense foi: “Jesus”, conforme gravação da conversa entre ele e uma controladora de tráfego aéreo do aeroporto de Medellín.


Fonte: MOURA, Marcelo. As últimas palavras do avião da Chapecoense para a torre de controle. Revista Época/esporte (online), 30/11/2016. Disponível em: http://epoca.globo.com/esporte/noticia/2016/11/ultimas-palavras-do-aviao-da-chapecoense-com-torre-de-controle.html  Acesso em 04 dez. 2016.


Notícias trágicas como esta podem nos despertar para o fato de que a nossa hora um dia também vai chegar, quer seja de maneira trágica, como um acidente de avião, quer seja de maneira natural. Quando alguém se vê diante da angústia da morte, naturalmente se lembra dos filhos, dos pais, das pessoas queridas. Lembra-se de Deus, com quem espera se encontrar. Um pastor, meu amigo, costuma dizer para as pessoas que, na hora da morte, elas devem ter certeza de que a única coisa que lhes falta, a única coisa pendente, realmente, é morrer.


Neste parágrafo de Atos nós vemos que Estêvão morreu tragicamente, de forma injusta e cruel, mas ele estava bem preparado. Na hora de sua morte, pode-se dizer que ele estava seguro, pois tinha pelo menos três certezas.


A certeza de que estava olhando para o céu (54-56)


“Ouvindo eles isto, enfureciam-se no seu coração e rilhavam os dentes contra ele. Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus e Jesus, que estava à sua direita, e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus”.


Se Estêvão estivesse olhando ao seu redor, só veria pessoas enfurecidas, com pedras nas mãos, prontas para atacar. Mas ele não olhou ao redor, e sim para o céu, onde viu a glória de Deus.


Outro dia achei à venda, na internet, um tal “óculos da fé”. Ele estava em oferta, de R$ 62,00 por R$ 48,00. Estes óculos podem te ajudar a enxergar de modo mais agradável, já que têm “fator de proteção UVB/UVA 400”.


Fonte: Site Fé pra todo lado. Disponível em: http://www.fepratodolado.com/produtos/todos/listar/q=%C3%B3culos  Acesso em 04 dez. 2016.


Mas, se você está querendo uma proteção extra, a Bíblia te oferece óculos muito melhores, óculos que te farão um vencedor. Leia, por exemplo, Hebreus 12.2:olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus”.


Devemos ter um alvo, um objetivo. Quem coloca a mão no arado, não pode olhar para trás. Tem que olhar para o horizonte, seu objetivo está nesse caminho, conforme Lucas 9.62:Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus”. Às vezes a questão não é tanto a direção para onde olhamos, mas a maneira de enxergarmos as coisas, conforme Lucas 11.34:São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas”;  e Mateus 5.28:Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela”.


Na hora da nossa morte, talvez vamos nos lembrar destas coisas, e ficaremos mais consolados, caso tenhamos a certeza de que estivemos olhando para o céu, vendo as coisas do modo como Deus quer que as vejamos, com as “lentes espirituais” da Bíblia.


Certeza de que dedicou seu espírito ao Senhor (57-59)


“Eles, porém, clamando em alta voz, taparam os ouvidos e, unânimes, arremeteram contra ele. E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo. E apedrejavam Estêvão, que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito!”


Na época do natal, costumamos comprar presentes antecipadamente, e o guardamos para dar na data da festa.  Eu, pessoalmente, tomo muito cuidado com os presentes, enquanto ainda estão em minha posse, para que não se quebre, e que nem a embalagem seja amassada.


No meio jurídico existe a figura do “fiel depositário”. Uma vez, eu e minha esposa fomos licenciar um carro que havíamos comprado, mas a documentação estava irregular e, conforme a lei, o carro tinha que ser apreendido. O delegado, porém, teve compaixão de nós e achou uma boa solução, que foi me nomear como “fiel depositário”. Eu podia utilizar o automóvel livremente, mas devia cuidar bem dele porque a qualquer momento o governo poderia pedi-lo de volta.


Nossa alma, nosso espírito, nosso coração, e até mesmo o nosso corpo não nos pertencem mais, desde o dia em que nos dedicamos ao Senhor, se é que um dia chegamos a tomar essa decisão de fé. Temos ainda, porém, a posse dessas coisas, somos “fiéis depositários” de nossa própria vida, como mordomos, cuidando do que não é nosso. Na hora de nossa morte, o Senhor vai pedir tudo de volta. Que consolo não será para nós, se, naquele momento, tivermos a certeza de que cuidamos bem do nosso espírito, encomendando-o à obediência da Palavra de Deus, e agora podemos dedica-lo com toda segurança ao autor da nossa fé para salvação!


A certeza de que perdoou os seus devedores (60)


“Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu”.


A oração modelo de Mateus 6.12 nos ensina a pedir para Deus perdoar “as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”. Romanos 12.20 repete um provérbio do velho testamento: “se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça”. Exemplificando este antigo conceito bíblico, José perdoou seus irmãos, e Davi perdoou Saul.


O perdão é uma questão muito séria. Sabemos que, quando chegar o dia do julgamento, Jesus dirá a alguns: “nunca vos conheci”, embora eles argumentem “Senhor, mas nós profetizamos e fizemos milagres em teu nome...” (Mateus 7.22,23).


Será que, naquele dia, alguns também dirão: “Senhor, mas eu aceitei Jesus no coração dia tal, do ano tal, olha aqui, está escrito na capa da minha Bíblia!”? Se essa pessoa não perdoou os seus devedores, aqueles contra quem tinha justificadas queixas, o que o Senhor diria a ela? Talvez Mateus 18.21-35 tenha a resposta:


Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Por isso, o reino dos céus é semelhante a um rei que resolveu ajustar contas com os seus servos. E, passando a fazê-lo, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo ele, porém, com que pagar, ordenou o senhor que fosse vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possuía e que a dívida fosse paga. Então, o servo, prostrando-se reverente, rogou: Sê paciente comigo, e tudo te pagarei. E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos que lhe devia cem denários; e, agarrando-o, o sufocava, dizendo: Paga-me o que me deves. Então, o seu conservo, caindo-lhe aos pés, lhe implorava: Sê paciente comigo, e te pagarei. Ele, entretanto, não quis; antes, indo-se, o lançou na prisão, até que saldasse a dívida. Vendo os seus companheiros o que se havia passado, entristeceram-se muito e foram relatar ao seu senhor tudo que acontecera. Então, o seu senhor, chamando-o, lhe disse: Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti? E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida. Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão.


Na hora da nossa morte, tenhamos a certeza de que andamos perdoando os nossos devedores, os nossos ofensores. 


Conclusão


Estêvão devia estar em grande angústia, a sua morte foi resultado de grande injustiça e crueldade. Mas ele estava milagrosamente sereno, seguro. Ele olhou para o céu, dedicou seu espírito ao Senhor, e perdoou os seus inimigos. Certamente ele não aprendeu estas coisas de uma hora para outra, mas agiu conforme o seu costume, morreu como havia vivido.


Não podemos saber o que se passava na mente dos que estavam no avião da Chapecoense, a não ser pelo testemunho dos seis sobreviventes. Um dia, porém, vai chegar a nossa hora, seja de maneira trágica, seja de maneira natural. Por que esperar a hora de nossa morte? Hoje é o dia em que podemos e devemos estar preparados, tendo pelo menos estas três certezas, de que estamos olhando para o céu, dedicando nosso espírito ao Senhor, e perdoando aqueles contra os quais temos alguma queixa. Que o Senhor nos capacite.


(*) Imagem do cabeçalho - Luis Benavides/AP. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/11/aviao-com-equipe-da-chapecoense-sofre-acidente-na-colombia.html  Acesso em 03 dez. 2018.