domingo, 29 de março de 2020

E agora, pastores? (Atos 11.1-18)

Esta primeira semana de quarentena me pareceu como se fosse um mês, pois a ansiedade é muito grande para que as coisas possam voltar, logo, ao normal. Tenho procurado me manter em atividade, evitando o tédio. Com as igrejas impedidas ou limitadas na realização de cultos, o que pode fazer o pastor para não deixar suas ovelhas desamparadas?


Muitas são, pelas características de seu ofício, as funções que podem ser exercidas pelo pastor. Ele pode assumir a função de um conselheiro, de um amigo, de um irmão, de um pai. Já vi pastores assumindo funções as mais diversas, como a de médico, advogado, professor, mecânico, pedreiro, até mesmo de motorista de táxi. Mas uma das funções mais importantes do pastor é ser ministro da Palavra de Deus. Em Atos 11.1-18 podemos aprender um pouco mais sobre este assunto.


O pastor que assume a função de ministro da Palavra de Deus deve ser muito cuidadoso, pois a Palavra de Deus tem um valor inestimável. Podemos destacar neste texto pelo menos cinco cuidados que o pastor deve ter com relação à Palavra de Deus.


Primeiro cuidado: A Palavra de Deus deve ser exposta (1-4)


Chegou ao conhecimento dos apóstolos e dos irmãos que estavam na Judeia que também os gentios haviam recebido a palavra de Deus. Quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram da circuncisão o arguiram, dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles. Então, Pedro passou a fazer-lhes uma exposição por ordem, dizendo: [...]


Pedro foi questionado a respeito de seus procedimentos, e precisava expor suas razões. Era importante que a exposição fosse esclarecedora. Pedro justificou seu procedimento baseando-se na Palavra de Deus que, naquele momento, estava sendo preparada para ser escrita, antes de chegar ao ponto no qual nós a temos hoje. O pastor precisa aprender a expor com todo o cuidado a Palavra de Deus, porque é somente com base em seus princípios que podemos justificar nosso modo de viver. Com base na Palavra de Deus podemos dizer, com autoridade espiritual: “faça isto e não faça aquilo”.


Há muitas tradições na igreja, há muitos princípios óbvios que podemos e devemos proclamar no púlpito, mas isso deve ser feito com o cuidado de se provar que é isso mesmo a vontade de Deus. E qual é a melhor maneira de conhecermos a vontade de Deus, senão pela exposição de sua palavra revelada e escrita na Bíblia? Por isso o pastor deve ter o cuidado de expor cuidadosamente, zelosamente, a inestimável Palavra de Deus.


Em meados de 2004 eu tive um grande conflito dentro de mim, pois meu filho adolescente veio nos pedir (e o tom do pedido era meio desafiador) para que o deixasse ir ao cinema. Ora, ele sabia que em nossa igreja isso não era permitido. Desde que ele nasceu nós éramos membros daquela igreja, e ele cresceu recebendo orientação de evitar práticas que julgávamos nocivas à fé, entre elas a de ir ao cinema. Como ele ousava me fazer este pedido?


Acontece que ele tinha um “trunfo”: o filme ao qual ele queria assistir era “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. Aquele filme mexeu com as estruturas de muitas igrejas tradicionais, e se transformou em grande polêmica, alguns achando que ele era, senão profano, exagerado nos detalhes dos sofrimentos físicos suportados por nosso Senhor, na Via Dolorosa. Outros, porém, defendiam o filme como um poderoso instrumento de evangelização, justamente por ser tão realista.


Não adiantou eu argumentar que logo, logo, o filme estaria disponível em VHS, e então poderíamos assistir aquele filme até mesmo em um dos cultos em nossa própria igreja. Ele não suportaria esperar longos três meses, enquanto todos os seus colegas, inclusive cristãos de igrejas mais moderadas, estavam assistindo e comentando nas rodas de conversa. O pior era que eu não tinha nenhum argumento bíblico de última hora botar uma pedra em cima da discussão.


O que fazer? A sabedoria de Provérbios (11.14 e 24.6) me mostrou que era hora de buscar muitos conselhos. Pedi a meu filho um prazo e, buscando conselho com muitos anciãos, decidimos que, dessa vez, abriríamos uma exceção.


Nestes últimos dezesseis anos muita coisa mudou em nossa igreja, e a proibição de ir ao cinema hoje já não faz nenhum sentido. A Palavra de Deus mudou de lá para cá? É claro que não, o que mudou foram os costumes, e a nossa igreja continua acreditando que “todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1ª Coríntios 6.12).


O mesmo princípio, exposto pelos pastores com base na Palavra de Deus, até àquele tempo nos proibia, depois flexibilizava, e hoje nos torna praticamente indiferentes à prática de ir ao cinema. Por isto é tão importante que o pastor exponha por completo a Palavra de Deus escrita, contextualizando e propondo aplicações aos princípios nela aprendidos. Nada mais, nada menos.


Segundo cuidado: A Palavra de Deus deve ser aplicada (5-12)


Eu estava na cidade de Jope orando e, num êxtase, tive uma visão em que observei descer um objeto como se fosse um grande lençol baixado do céu pelas quatro pontas e vindo até perto de mim. E, fitando para dentro dele os olhos, vi quadrúpedes da terra, feras, répteis e aves do céu. Ouvi também uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro! Mata e come. Ao que eu respondi: de modo nenhum, Senhor; porque jamais entrou em minha boca qualquer coisa comum ou imunda. Segunda vez, falou a voz do céu: Ao que Deus purificou não consideres comum. Isto sucedeu por três vezes, e, de novo, tudo se recolheu para o céu. E eis que, na mesma hora, pararam junto da casa em que estávamos três homens enviados de Cesareia para se encontrarem comigo. Então, o Espírito me disse que eu fosse com eles, sem hesitar. Foram comigo também estes seis irmãos; e entramos na casa daquele homem.


Pedro explicou aos irmãos, que o questionavam, que se reunira com gentios por causa de uma ordem expressa de Deus, vinda diretamente do céu, acompanhada de uma impressionante visão. No princípio, Pedro pode não ter entendido o propósito de Deus, mas ao chegarem os três homens que Cornélio lhe enviara, o Espírito Santo lhe disse para ir com eles, e então começou a ligar uma coisa com a outra.


Acredito que os irmãos, que me leem agora, podem contar mais de uma ocasião em que Deus tenha lhe falado ao coração, seja no momento da oração silenciosa, seja através do conselho de outros irmãos, ou de acontecimentos inesperados.


Deus falou a Pedro de uma forma sobrenatural, mas, na maioria das vezes, Deus nos fala através de sua palavra escrita (o que não deixa de ser também sobrenatural). O pastor deve estar atento à voz de Deus, que lhe fala ao coração sobre como aplicar os princípios bíblicos revelados em seus estudos, e então exortar a congregação a pôr em prática. Esse processo é possível somente se o pastor se dedicar à oração perseverante e vigilância constante, para ouvir a voz do Espírito Santo como Pedro foi capaz de ouvir naquela ocasião.


Parafraseando Tiago 1.22, podemos dizer: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente PREGADORES, enganando-vos a vós mesmos”.


Terceiro cuidado: A Palavra de Deus deve ser divulgada (13,14)


“E ele nos contou como vira o anjo em pé em sua casa e que lhe dissera: Envia a Jope e manda chamar Simão, por sobrenome Pedro, o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa”.


A ordem do anjo a Cornélio ressalta a importância das palavras que seriam ditas por Pedro, a quem ele devia mandar chamar. Não eram quaisquer palavras, porque através delas é que poderiam ser salvos, tanto Cornélio quanto toda a sua casa. Palavras poderosas, palavras de salvação. O pastor é portador dessas palavras, que jamais devem ficar escondidas, pois “ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a põe debaixo de uma cama; pelo contrário, coloca-a sobre um velador, a fim de que os que entram vejam a luz” (Lucas 8.16).


Nós, os crentes, encontramos muita resistência, porque vivemos num mundo onde as pessoas que mais precisam não querem ouvir as palavras da salvação. Nós podemos e queremos falar, mas encontramos pessoas difíceis de ouvir, céticas, desinteressadas. Então o pastor, como ministro da palavra de Deus, e todos nós, na qualidade de discípulos de Cristo, precisamos criar situações e aproveitar oportunidades para, em nome do amor de Cristo, nos compadecermos dos que estão na dúvida, salvá-los, arrebatando-os do fogo, como diz Judas 1.23.


Para cumprir esta missão, temos utilizado inúmeros recursos como ações sociais, músicas, filmes, artes em geral, entre outros.


Um conceito interessante no ramo de administração de empresas é o conceito de networking. No site da PUC em Porto Alegre encontramos as seguintes orientações sobre como ampliar seus contatos profissionais:


Existem várias formas de fazer networking, e muitas dependem do local e da situação em que você se encontra. Contudo, algumas dicas são válidas para que você possa construir uma rede sólida e eficaz de relacionamento. Lembre-se de que esse processo acontece aos poucos e que durante toda a vida sua rede tende a crescer!


1- Estabeleça objetivos e defina o que você está buscando;


2- Faça uma lista de pessoas que você conhece e procure mantê-la atualizada;


3- Crie e promova seu perfil em redes de relacionamento profissionais;


4- Planeje a sua abordagem e, quando estiver em contato com as pessoas, faça com que elas se interessem por você;


5- Pense em seus principais contatos e descreva quais serão seus próximos passos e não se esqueça de colocá-los em prática.


Escritório de Carreiras. PUC-RS Disponível em: http://www.carreiraspucrs.com.br/alunos/comece-seu-network/ Acesso em 10 jun. 2017.


Podemos adaptar esses princípios e utilizá-los como um método de evangelização:


1- Estabeleça objetivos e defina o que você está buscando (por exemplo: alcançar almas para Cristo);


2- Faça uma lista de pessoas que você conhece e procure mantê-la atualizada (por exemplo, uma lista de oração);


3- Crie e promova seu perfil em redes de relacionamento profissionais (nossos perfis nas redes sociais podem se tornar em redes dignas de “pescadores de homens”, como diz em Mateus 4.19);


4- Planeje a sua abordagem e, quando estiver em contato com as pessoas, faça com que elas se interessem por você (por exemplo: andar com folhetos evangelísticos, desenvolver métodos de levar a conversa para assuntos espirituais, e nos esforçarmos para sermos agradáveis, como forma genuína de ganhar pessoas e dedicá-las a Cristo).


5- Pense em seus principais contatos e descreva quais serão seus próximos passos e não se esqueça de colocá-los em prática (por exemplo:orar pelos nossos principais contatos e fazer planos para conquistá-los, pedindo a Deus que nos ajude a colocar esses planos em prática).


A igreja universal de Cristo é, com certeza, o maior empreendimento de todos os séculos, e um dos motivos do seu sucesso é que sempre contou com os melhores administradores. Um bom pastor deve buscar sempre a excelência, principalmente quando se trata da divulgação da Palavra de Deus.


Quarto cuidado: A Palavra de Deus deve ser lembrada (15,16)


“Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio. Então, me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo”.


Quando a gente vai prestar um concurso público e sabe que “vai cair” direito constitucional, direito administrativo, conhecimentos específicos e conhecimentos gerais, o que a gente faz? Não existe atalho, precisamos ler, decorar, devorar os conhecimentos que, sabemos, serão exigidos nas provas, se quisermos passar numa boa classificação.


Assim é que um pastor deve se dedicar à leitura assídua das Escrituras, como um hábito diário e intenso, para que possa se lembrar das santas palavras nos momentos mais inusitados. Não deve achar que, porque já tem lido a Bíblia para preparar os sermões, está dispensado de fazer e refazer a leitura “capa-a-capa” como um programa contínuo de aprendizagem. É isto que Deus ordenou a Josué (1.8), quando ainda havia por escrito somente os livros da lei: “Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido”.


Se Josué vivesse nos tempos de hoje, eu tenho certeza de que a ordem seria para não cessar de falar, não apenas do livro da lei, mas também dos salmos e dos profetas, assim como dos livros do Novo Testamento.


Pedro disse aos seus pares que a lembrança das palavras de Jesus foi muito importante para que ele pudesse compreender o que estava acontecendo naquele momento, na casa do centurião Cornélio.


Enquanto escrevo este texto, estou vivendo, como quase todos em minha cidade, o confinamento exigido para evitarmos a propagação do novo Coronavírus. Esta situação está ocorrendo em todo o país e no mundo, e não tem faltado teorias de esquerda, de direita, de conspirações e de pacificações sem fim. Mas dentre essas mensagens que me chegam por Whatsapp ou pelo Facebook, algumas me chamaram mais a atenção, porque trazem a lembrança das palavras de Isaías 26.20: “Vai, pois, povo meu, entra nos teus quartos e fecha as tuas portas sobre ti; esconde-te só por um momento, até que passe a ira”.


Quinto cuidado: A Palavra de Deus deve ser aceita (17,18)


"Pois, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus? E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida".


Os irmãos que questionavam o "pastor" Pedro, tendo ouvido e compreendido sua esclarecedora exposição, se conformaram, se apaziguaram, e glorificaram a Deus. Muitas coisas acontecem em nossas vidas, e muitas coisas observamos à nossa volta, com as quais é difícil nos conformarmos. Às vezes, parece que nos tornamos juízes de Deus, e dizemos: “isto não é justo, Senhor...!” Gostaríamos que Deus fosse mais rigoroso com irmãos faltosos, ou que fosse mais misericordioso com irmãos zelosos.


Deus nos fala através da lógica, das experiências que vivemos, mas há situações em que nossa teoria não se encaixa com a realidade. Na verdade, isto acontece porque não entendemos claramente o que Deus quer dizer. Não obstante, uma coisa é clara: Deus tem o controle de tudo, conforme constatou amargamente o atribulado Jó, ao perder todos os seus bens e todos os seus filhos: “[...] Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21). Em meio ao processo doloroso e desesperador da doença pela qual passou, e dos não menos dolorosos debates e exercícios mentais para tentar compreender a estranha vontade de Deus, antes de receber alívio, afirmou com convicção: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2).


Já as vítimas desta atual epidemia, em números de hoje, chegam a quase 31 mil mortes, dentre os quase setecentos mil infectados em todo o mundo. Imaginem a frustração dos profissionais de saúde, que lutam para salvar essas vidas, mas vêm que elas vão se escoando por entre os seus dedos. Estes profissionais precisam se preparar para a morte. Num estudo sobre a importância do estudo da morte para profissionais de enfermagem, lemos que:


Para Penna, Nova e Barbosa (1999, p.20), os conteúdos que abordam a morte no currículo de enfermagem falam de questões éticas ou causa mortis da população, mas ao aprender a morte como um fenômeno ao qual se está exposto diariamente e com o qual se deveria saber lidar, não há referências. Esse aprendizado se dá no campo de prática quando o profissional começa a perder os pacientes sob seus cuidados. Alunos e professores demonstram não ter preparo para enfrentar a morte, e o que aprenderam, ainda insuficiente, passa pela experiência de vida de cada um, pela convivência eventual com o morrer do outro. Este aprendizado é solitário e vem da necessidade individual daquele profissional que, no seu cotidiano de trabalho, convive com a morte à qual não se habitua, pois lidar com ela é doloroso; vem acompanhado de muito sofrer e mecaniza as ações.


LIMA, Jorge Luiz. A importância do estudo da morte para profissionais de enfermagem. Disponível em: http://www.professores.uff.br/jorge/morte.pdf Acesso em: 10 jun. 2017.


Fonte das estatísticas sobre o Coronavírus citadas acima: Reuters, 29 de março de 2020, 14h52, disponível em: https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,coronavirus-italia-registra-novas-756-mortes-numero-de-obitos-chega-a-10779,70003252449 Acesso em 29 mar. 2020.


Os pastores, bem como todos os crentes atuantes, são profissionais da saúde espiritual do seu rebanho.


Muitas coisas da Palavra de Deus nós não entendemos. A Bíblia deixa claro que alguns ressuscitarão para a vida eterna, mas outros para vergonha e horror eterno (Daniel 12.2), e o que divide uns e outros é a fé em Jesus Cristo. João 3.18 diz: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”.


Há muitos amigos e familiares queridos que ainda não creem no nome de Jesus Cristo. Como sabemos? Eles não vêm à igreja, não manifestam sua fé, declarando Jesus como Senhor de suas vidas. Mas são pessoas boas, são pessoas que amamos. Deus os mandaria para o inferno? A Palavra de Deus, categoricamente, diz que sim. Só há um meio de escapar do inferno: é crer em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. Eles precisam aceitar. Nós também precisamos aceitar, e orar por eles, e criar oportunidades para que eles sejam aproximados de nosso Senhor, para também nele crerem.


Conclusão


Quando Pedro foi designado por Jesus como pastor, este perguntou-lhe: “Simão, filho de João, tu me amas?” e depois da resposta positiva, acrescentou: “Apascenta as minhas ovelhas” (João 21.17).


Assim como Pedro, um pastor dedicado, que apascentava as ovelhas porque amava Jesus, muitos de nós somos, de certa forma, pastores, mesmo se não tivermos tal título de reconhecimento. Nós temos sob nossa responsabilidade pessoas que precisam ser apascentadas. Falo dos pais de família, das mães, dos tios e das tias, dos jovens que, como diz 1ª Timóteo 3.1, aspiram a excelente obra do episcopado.


Nossas igrejas não têm o costume de ordenar mulheres como pastoras, mas há muitas missionárias mulheres que atuam em diversos campos como verdadeiras líderes espirituais, seguindo o exemplo de Débora, Lídia, Dorcas, Priscila, e tantas outras.


Deus permita que os pastores de todas as igrejas, e os que aspiram ao episcopado, e os que exercem funções de pastores, mesmo sem terem tal título, valorizem a Palavra de Deus, tendo o cuidado de expor, aplicar, divulgar, lembrar e aceitar o que Deus nos comunica através de sua Palavra.


Falo estas palavras, não com a pretensão de ensinar os pastores que me leem, porque certamente estão cientes de seu papel e o têm desempenhado com todas as forças que nosso Senhor lhes supre, mas falo para animá-los, relembrando o seu valor diante de Deus e dos homens.


Falo na presença de toda a igreja, pois assim podemos entender melhor a responsabilidade e a preocupação que pesa sobre o pastor, para podermos lhes ser gratos, porque a Bíblia diz: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hebreus 13.17).


Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, março de 2020.


(*) Foto do cabeçalho disponível em: https://www.acn.org.br/uma-igreja-fechada-em-si-mesma-trai-sua-propria-identidade/ Acesso em. 29 mar. 2020.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

Este e outros artigos deste Blog fazem parte do livro "A Igreja em Expansão (Atos 6 a 14)", disponível em um dos links abaixo:

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domingo, 22 de março de 2020

O Espírito não está de quarentena (Atos 10.44-48)

Eles estavam fazendo algo proibido. Segundo a lei de sua nação, não deveriam estar reunidos em casa de Cornélio. Era uma aglomeração que, por motivos religiosos (ou até sanitários) não deveria estar acontecendo. Porém, diante da ordem recebida do próprio Deus, por meio de visão, ali estavam, judeus e gentios, e algo espantoso estava para acontecer, pela primeira vez na história.


Em tempos de quarentena como a que estamos vivendo no estado de São Paulo, neste mês de março de 2020, isto é muito significativo. Até as igrejas cancelaram os cultos, e nunca se incentivou tanto o isolamento social como agora. O “Coronavírus”, no entanto, está solto nas ruas, um inimigo mortal e invisível, que pode contaminar até o ar que respiramos.


O contexto de Atos 10.44-48 mostra o Espírito soprando através de verdadeiros canais abertos pelo o fervor e obediência de um grupo de irmãos liderados pelo apóstolo Pedro. O Espírito Santo “contagia”, de repente, os que participavam da reunião na casa de Cornélio. Desde esse tempo é reconhecido, então, que entre nós, os gentios, este mesmo Espírito tem estado presente, não para fazer adoecer ou para matar, mas para dar vida, e para convencer o mundo de que o pecado exige juízo, segundo a justiça de Deus.


Como instrumento para a propagação de seu Espírito Santo, ele tem se utilizado de homens como Pedro e os demais discípulos que, com atitudes certas, garantem a sua fluidez.


Evangelização (44)


"Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra".


A primeira atitude que notamos nos discípulos é a disposição para a Evangelização. Pedro obedeceu à ordem de Deus e foi à casa de Cornélio para evangelizá-lo. Se ficasse inerte, e não buscasse oportunidades de evangelizar, estaria colocando obstáculos ao Espírito Santo, porque para recebê-lo, as pessoas precisam ouvir a Palavra. Foi isto o que Paulo deu a entender, falando aos Gálatas (3.2): “Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” e aos Romanos (10.14): “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” Nós, cristãos entre os gentios, também não podemos ficar inertes, para não bloquearmos o Espírito Santo, mas precisamos pregar a Palavra.


Mas que palavra? Quando examinamos a Bíblia, vemos que a pregação, tanto de João Batista quanto a de Jesus eram resumidas nas seguintes palavras:


Mateus 3.2  Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.


Mateus 4.17  Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.


Marcos 1.15 dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.


Pedro seguiu o mesmo exemplo, em suas primeiras pregações:


Atos 2.38 Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.


Atos 3.19  Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados,


Já na pregação que fez a Cornélio e seus familiares, seguiu um padrão diferente:


Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos. Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judéia, tendo começado desde a Galileia, depois do batismo que João pregou, como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele; e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro. A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto, não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos; e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos. Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados (Atos 10.36-43).


Encontraremos outros modelos de pregação no Novo Testamento, como, por exemplo, o célebre discurso de Paulo aos atenienses (Atos 17.16-19).


Podemos deduzir, dos exemplos encontrados na Bíblia, que a essência da pregação é bem simples: Jesus Cristo é Senhor e Salvador, que foi morto por nossos pecados e ressuscitou. Devemos crer nele e nos arrepender de nossos pecados. A forma e demais componentes da pregação, porém, devem ser adaptados com criatividade para alcançar as pessoas. Que o Espírito Santo nos dê sabedoria. Vivemos num meio em que as pessoas conhecem bem o cristianismo, mas precisam se converter de verdade. Não querem ouvir o evangelho, são como doentes que não admitem sua doença. Mas não podemos desistir de evangelizar. Com sabedoria e criatividade, precisamos achar caminhos para comunicar sempre o evangelho, até que alguns se convertam, e também recebam o Espírito Santo.


Inclusão (45,46)


"E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo; pois os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus".


A segunda atitude necessária a Pedro e aos demais discípulos é o que costumamos chamar, hoje, de Inclusão. Eles não esperavam que os gentios, a quem antes consideravam impuros e inferiores aos judeus, pudessem receber o Espírito Santo, mas tiveram que aprender, na prática, que Deus salva a quem quer, não apenas aqueles que nós achamos que são dignos de salvação.


Faço parte de uma igreja local que tem o nome de Igreja Bíblica. Ora, se acreditamos que nossa igreja é bíblica, e escolhemos esse nome, não é porque queremos nos distinguir de outras igrejas que não são bíblicas? Acreditamos que há igrejas que não são bíblicas? Acreditamos. Mas, será que o Espírito Santo foi derramado também sobre essas igrejas, a respeito das quais afirmamos que não são bíblicas? Sim. Deus derrama seu Espírito sobre quem ele quiser derramar. Foi isso o que disse Jesus:


O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito. [...] Pois assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim também o Filho vivifica aqueles a quem quer (João 3.8; 5:21).


Paulo também nos faz lembrar que, já no Antigo Testamento (Êxodo 33.19), Deus fazia questão de deixar isto bem claro:


Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. [...] Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz.(Romanos 9.15,16,18)


Quando estivermos no céu, provavelmente ficaremos surpresos com algumas pessoas que lá estarão. É como começar a frequentar uma igreja e, surpreendentemente, encontrar alguém que já foi um “desafeto”, ou que, por sua fama, era a última pessoa que esperavávamos encontrar num lugar como este.


Assisti a um vídeo de um culto numa igreja em Moçambique, onde vi pessoas bem diferentes de nós, de forma que eu não me sentiria bem no meio deles, mas a pergunta que nós devemos fazer é: o Espírito Santo também desceu no meio deles? Sim, é possível. Por isso, quando as pessoas são diferentes de nós, não significa necessariamente que são inferiores ou superiores, e Deus pode incluí-las entre os que recebem o Espírito Santo.


(O vídeo da igreja de Moçambique está disponível em: https://youtu.be/6VXhJTyGXtc Acesso em: 22 mar. 2020)


Comunhão (46-48)


"Então, perguntou Pedro: Porventura, pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo? E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então, lhe pediram que permanecesse com eles por alguns dias".


A terceira atitude, notada neste texto bíblico, que garante a fluidez do Espírito, é a prática da Comunhão. O Espírito Santo une todos os crentes em um só corpo, pelo batismo, conforme 1 Coríntios 12.13 e Efésios 4.4:


Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito. [...] há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação;


Deus quer que todos nós vivamos unidos, conforme Filipenses 1.27:


Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica;


Isso significa que nós devemos estar unidos a todos os crentes, mesmo os que são de outras correntes teológicas? Vejamos a opinião de um autor neopentecostal que escreveu o seguinte:


O Espírito Santo foi enviado prioritariamente à Igreja, que é a única agência do reino de Deus neste mundo. Ele não se dispõe a uso individual, nem é propriedade deste ou daquele grupo. [...] Todas as ações do Espírito visam a edificar, consolar, guiar e fortalecer a ação dos cristãos no sentido de constituírem a Igreja, que é o verdadeiro corpo do Senhor Jesus Cristo, do qual fazemos parte na condição de membros.


MACEDO, Bispo. O Espírito Santo. São Paulo: Universal Produções, 1998.


Sua teologia, pelo menos quanto ao trecho citado, coincide com a nossa. Isso pode nos levar a perguntas como: Será que o Espírito Santo cai, de fato, sobre os irmãos pentecostais? Será que o Espírito Santo cai, de fato, sobre os irmãos Carismáticos Católicos? Será que ele está presente nas igrejas super tradicionais e com liturgias muito rígidas como as católicas romanas, as ortodoxas, as anglicanas, as luteranas? Será que as denominações, as quais chamamos de seitas, têm membros que nasceram de novo pelo Espírito Santo?


Uma irmã compartilhou, aqui nesta igreja, há alguns anos, como foi abençoada por uma outra irmã, membro da igreja Universal, que lhe telefonou para falar de um outro assunto, mas percebeu por sua voz que precisava de oração e de uma palavra de consolo. E foi assim que essa irmã neopentecostal, tendo sido usada por Deus, consolou nossa distinta irmã da Igreja Bíblica. A pergunta que devemos nos fazer é: Será que o Espírito Santo nos uniu também a essa irmã neopentecostal e a muitos outros que frequentam igrejas dessa mesma corrente teológica?


Estamos, de certa forma, impedidos de nos reunir com irmãos de outras igrejas para o culto, por causa de nossas divergências. Mas até que ponto podemos deixar de aplicar o princípio bíblico de estarmos “firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica” (Filipenses 1.27)? Deus nos dê sabedoria.


Conclusão


Em tempos de quarentena, em que até as igrejas cancelaram os cultos, e o “Coronavírus” está solto nas ruas, um inimigo mortal e invisível, vamos nos lembrar de que o Espírito de Deus ainda está livre, e pode fluir através de nós, ainda que, no momento, estejamos isolados socialmente. Isto vai depender de nossas atitudes.


O apóstolo Paulo faz um apelo em 1ª Tessalonicenses 5.19: “Não apagueis o Espírito”. Sejamos cuidadosos como o grande mestre fariseu, que, num relance de sobriedade, alertou seus colegas para que não fossem “porventura, achados lutando contra Deus” (Atos 5.39). Não criemos resistência ao derramamento do Espírito Santo por causa de inércia em lugar da evangelização, preconceito em lugar da inclusão, ou sectarismo em lugar da comunhão.


 


(*) Foto do cabeçalho disponível em: https://conexaoplaneta.com.br/blog/tag/quarentena/ Acesso em. 22 mar.2020.


(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.


 

sábado, 30 de novembro de 2019

O evangelho e a pedra lapidada (Atos 10.34-43)

Quando eu era adolescente, queria muito cantar uma música, cuja melodia e rimas eram perfeitas, mas eu não a cantava, porque a ideia que a letra transmitia muito me incomodava. Ainda que eu não fosse, à época, convertido ao cristianismo, não conseguia aceitar sua posição, especificamente numa frase que dizia: “Eu quero crer na solução dos evangelhos, obrigando os nossos moços ao poder dos nossos velhos” (música “Cordilheira”, de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro). Não era assim que eu via o evangelho pois, embora ainda não tivesse me entregado totalmente a ele, eu o via pelo menos com simpatia. Como é que você vê o evangelho? Assim como uma pedra lapidada, dependendo do ângulo pelo qual você o observa, ele pode se apresentar em diversas facetas.


Pedro apresentou a Cornélio o evangelho no qual deveria crer para ser salvo, para entrar no Reino de Deus e ter a vida eterna. O discurso de Pedro destaca algumas facetas pelas quais o evangelho de Jesus Cristo pode ser percebido.


O Evangelho da paz (34-36)


Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável. Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos.


Primeiramente, Pedro apresenta a Cornélio o evangelho como o anúncio da paz entre judeus e gentios, e destes com Deus. Uma relação que antes de Jesus não era possível.


Hoje, nós sonhamos com a paz entre as nações. Isto é um tema constante entre os chefes de governo no mundo. Exemplo disso foram as tentativas de se achar solução para o conflito da Síria no ano de 2017, conforme nos informou, no início de maio daquele ano, o jornal O Estado de São Paulo:


Rússia, Irã e Turquia assinaram um acordo para criar zonas de exclusão na Síria e, assim, isolar grupos terroristas no país afetado pela guerra. Moscou propõe colocar países não envolvidos diretamente no conflito para fazer parte de operações de paz e o Brasil foi mencionado como alternativa, uma vez que a missão do País no Haiti está chegando ao fim. [...] As Forças Armadas brasileiras mantêm cerca de 1.500 militares em dez diferentes missões da ONU. O maior grupo, com cerca de 850 soldados, está no Haiti. Equipes menores atuam em Chipre, Libéria, Timor Leste, Saara Ocidental, Costa do Marfim, Líbano, Colômbia, Equador e Peru. Ao longo dos últimos 70 anos, a participação do Brasil em mandatos armados das Nações Unidas mobilizou cerca de 68 mil homens e mulheres.


Rússia propõe que Brasil integre missão de paz na Síria. Reportagem de Jamil Chade, Correspondente / Genebra e Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo 04 Maio 2017. Disponível em: http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,russia-propoe-que-brasil-integre-missao-de-paz-na-siria,70001764077 Acesso em 31 maio 2017.


A paz foi profetizada desde os tempos antigos, como uma bênção a ser trazida pelo Messias de Israel, conforme os seguintes versículos:


Eis que te nascerá um filho, que será homem sereno, porque lhe darei descanso de todos os seus inimigos em redor; portanto, Salomão será o seu nome; paz e tranquilidade darei a Israel nos seus dias. (1º Crônicas 22.9).


Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz (Isaías 9.6).


Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. (Isaías 53.5)


A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o SENHOR dos Exércitos; e, neste lugar, darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos (Ageu 2.9).


Destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações; o seu domínio se estenderá de mar a mar e desde o Eufrates até às extremidades da terra (Zacarias 9.10).


E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto (Efésios 2,17).


Vindo, porém, o Messias, foi rejeitado por Israel, e a paz não se instalou, antes foi adiada, e ainda estamos na vigência da profecia de Jesus, que diz em Mateus 10.34: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada”.


Evangelho da libertação (37-39)


Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judéia, tendo começado desde a Galileia, depois do batismo que João pregou, como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele; e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro.


Outra faceta do evangelho apresentada por Pedro é a da libertação. As opressões do diabo, especialmente as doenças e as possessões demoníacas, não prevaleciam na presença do Senhor Jesus, mas desapareciam instantaneamente. A fé no evangelho de Jesus Cristo dá aos crentes oportunidade de libertação dessas opressões. Longe do evangelho, porém, o mundo “jaz no maligno”, como ilustra o último relatório da OMS concluído em 2011 e divulgado em maio de 2015:


[...] afirma o relatório Estatísticas Mundiais de Saúde 2011 divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) hoje (13/05) [...] Doenças não-transmissíveis como as doenças cardíacas, os derrames, a diabetes e o câncer, agora compõem dois terços de todas as mortes no mundo, devido ao envelhecimento da população e à propagação de fatores de risco associados à globalização e à urbanização. O controle dos fatores de risco como o tabagismo, o sedentarismo, a má alimentação e o uso excessivo de álcool se torna mais crítico. Os números mais recentes da OMS mostram que cerca de quatro em cada dez homens e uma em cada onze mulheres estão usando tabaco e cerca de um em cada oito adultos são obesos.


Novo relatório da OMS traz informações sobre estatísticas de saúde em todo o mundo. Nações Unidas no Brasil, 13/05/2011. Disponível em: https://nacoesunidas.org/novo-relatorio-da-oms-traz-informacoes-sobre-estatisticas-de-saude-em-todo-o-mundo/  Acesso em: 31 maio 2017.


A cura física trazida por Jesus era por graça e misericórdia, mas limitada àqueles que nele criam, e com a finalidade maior de mostrar que ele realmente falava sério, ao afirmar que era o filho de Deus que veio salvar o mundo. Lucas 6.19 diz que “[...] todos da multidão procuravam tocá-lo, porque dele saía poder; e curava todos”.


Mesmo assim a maioria não creu na sua pregação para que pudessem receber a libertação completa oferecida por Deus, como demonstram os versículos abaixo:


E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles (Mateus 13.58).


E ele lhes respondeu: Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível (Mateus 17.20).


Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados (Mateus 13.15).


Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados (João 12.40).


Os apóstolos, que deram continuidade à obra de Jesus (pelo menos a uma parte dela), também receberam poder para curar, para libertar os oprimidos do diabo. Mas, no final do livro de Atos, após todas as intensas atividades missionárias dos apóstolos, nós lemos, como se fosse numa sentença judicial, as mesmas palavras proféticas proferidas por Paulo, dirigida aos judeus incrédulos:


Porquanto o coração deste povo se tornou endurecido; com os ouvidos ouviram tardiamente e fecharam os olhos, para que jamais vejam com os olhos, nem ouçam com os ouvidos, para que não entendam com o coração, e se convertam, e por mim sejam curados (Atos 28.27).


Ainda hoje o evangelho é apresentado pela faceta da libertação, e ainda hoje é rara a fé genuína, que poderia abrir o canal pelo qual costuma fluir o poder libertador.


Evangelho do perdão (40-43)


A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto, não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos; e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos. Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados.


Dentre as facetas do evangelho apresentadas, creio que a mais importante é a faceta do perdão. É a nossa maior bênção, pois, sendo perdoados de nossos pecados, escapamos da condenação eterna. Podemos até enfrentar guerras, em vez de paz, sofrer com as opressões do inimigo neste mundo, enquanto aguardamos a libertação, mas, crendo no evangelho de Jesus Cristo, temos a bendita esperança de que estaremos com ele no paraíso, uma vez que recebemos o perdão dos nossos pecados. Antes de ouvirmos e crermos no evangelho, estávamos perdidos, iludidos pelas mentiras de satanás.


Há algum tempo, li a respeito de um jovem alemão que se declarou iludido pelo Estado Islâmico. Seu nome é Ebrahim B., o qual


[...] havia sido recrutado pelos radicais, mas foi acusado de espionagem em agosto do ano passado e quase foi decapitado pelo grupo. Atraído para a Síria com a promessa de um carro e quatro mulheres, o jovem de 26 anos deixou seu país e trabalhou durante alguns meses para o EI, segundo informações do jornal The Independent. Quando foi acusado de ser espião, Ebrahim B. foi trancado em uma cela [...] O destino de Ebrahim B. também era a morte, mas, milagrosamente, ele escapou. O jovem recebeu ordens de levar um combatente ferido a um hospital e, no caminho, conseguiu fugir.


Ex-membro do Estado Islâmico, homem conta como escapou de ser decapitado pelo grupo. Notícias R7, 4/8/2015. Disponível em: http://noticias.r7.com/internacional/ex-membro-do-estado-islamico-homem-conta-como-escapou-de-ser-decapitado-pelo-grupo-04082015 Acesso em 31 maio 2017.


Podemos dizer que Ebrahim B., o jovem iludido e condenado pelo Estado Islâmico, recebeu o perdão quando lhe foi permitido levar um ferido ao hospital, dando ensejo à sua fuga. Sorte diferente tem aquele que não crê no evangelho, pois não escapa da morte eterna, conforme os versículos abaixo:


Todo aquele que proferir uma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; mas, para o que blasfemar contra o Espírito Santo, não haverá perdão (Lucas 12:10).


[...] para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles (Marcos 4.12).


Conclusão


Para alguns, o evangelho é apenas para “obrigar os nossos moços ao poder dos nossos velhos”. E você, amado leitor, qual faceta do evangelho está contemplando neste momento? Deus te ilumine, para que possa vê-lo também como o evangelho da paz, da libertação e do perdão. É a nossa única chance de salvação.


(*) Foto do cabeçalho disponível em: https://br.pinterest.com/pin/562809284680911858/ Acesso em 01 dez. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.


 

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Feedback (Atos 10.21-33)

Já participei de muitos processos seletivos, em alguns deles fui aprovado, mas em outros, não. Uma prática importante que adotei, por orientação dos coachers, é pedir sempre um feedback aos recrutadores, para saber onde, sob o seu ponto de vista, eu poderia melhorar na próxima vez. Você se importa em saber como as pessoas estão te avaliando?


Não sei se Cornélio se importava, mas podemos observar, neste parágrafo de Atos 10.21-33, algo parecido com um feedback, em que ele foi avaliado sob pelo menos três pontos de vista.


Ponto de vista dos homens comuns: um homem bom (21-24)


E, descendo Pedro para junto dos homens, disse: Aqui me tendes; sou eu a quem buscais? A que viestes? Então, disseram: O centurião Cornélio, homem reto e temente a Deus e tendo bom testemunho de toda a nação judaica, foi instruído por um santo anjo para chamar-te a sua casa e ouvir as tuas palavras. Pedro, pois, convidando-os a entrar, hospedou-os. No dia seguinte, levantou-se e partiu com eles; também alguns irmãos dos que habitavam em Jope foram em sua companhia. No dia imediato, entrou em Cesaréia. Cornélio estava esperando por eles, tendo reunido seus parentes e amigos íntimos.


Os homens enviados por Cornélio precisavam convencer Pedro de que o centurião merecia uma atenção especial. Que melhor argumento, pois, do que dizer que ele tinha um bom testemunho de toda a nação judaica? Se muitos do povo consideravam que um homem era bom, é porque devia ser mesmo. Em épocas e culturas diferentes, o povo pode ter opiniões variadas de quem sejam “homens bons”. Na cidade de Porto Alegre, no século dezoito, por exemplo,


As Câmaras tinham seus cargos ocupados por indivíduos denominados homens bons. Essa designação vaga se referia aos integrantes das elites sócio-econômicas locais, que deveriam atender a uma série de requisitos. Ser maior de 25 anos, casado ou emancipado, católico e sem nenhuma “impureza de sangue”, isto é, nenhum tipo de mestiçagem racial. Era necessário que fossem homens de cabedal, o que significava, geralmente, serem proprietários de terra. Esses indivíduos de reconhecida posição social eram coletivamente chamados de homens bons, ou mais vagamente, povo.


BOXER, Charles R. O império marítimo português 1415-1825, São Paulo, Companhia das Letras, 2002. Pg. 287. Citado por COMISSOLI, Adriano, no artigo: Os “homens bons” e a Câmara de Porto Alegre (1767-1808). Niterói: 2006. Disponível em: http://www.bdtd.ndc.uff.br/tde_arquivos/6/TDE-2008-02-13T110421Z-1282/Publico/Dissert_COMISSOLI_Adriano.pdf Acesso em 28 maio 2017.


Jesus, porém, nos ensinou a provarmos os homens pelos seus frutos, conforme a metáfora de Mateus 7.17,18: “Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons”.


Jesus dá a entender, em Mateus 25.21, que alguns homens serão considerados bons, quando o Senhor lhes disser: “[...] Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. [...]”.


Apesar disto, nós não podemos alegar merecimento nenhum diante de Deus, pois somente poderemos produzir algum bom fruto se ele, na sua graça, nos possibilitar.


Ponto de vista de Pedro: um homem impuro (25-29)


Aconteceu que, indo Pedro a entrar, lhe saiu Cornélio ao encontro e, prostrando-se-lhe aos pés, o adorou. Mas Pedro o levantou, dizendo: Ergue-te, que eu também sou homem. Falando com ele, entrou, encontrando muitos reunidos ali, a quem se dirigiu, dizendo: Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo; por isso, uma vez chamado, vim sem vacilar. Pergunto, pois: por que razão me mandastes chamar?


Existem, no meio evangélico, muitos jargões, mas se fôssemos bem criteriosos na definição de certos termos, quem seriam os puros, e quem seriam os impuros, de acordo com os conceitos atuais? Haveria separação segura entre o que é “secular” e o que é “espiritual”? O que seria “viver para Cristo” e “viver para o mundo”? Como distinguiríamos “coisas materiais” e “coisas espirituais”? É possível que algumas pessoas se dediquem tanto a Deus, de forma que estejam em um nível mais elevado de santidade? Jesus mesmo, com seus discípulos, foi taxado de impuro, quando os fariseus e escribas o interpelaram: “[...] Por que não andam os teus discípulos de conformidade com a tradição dos anciãos, mas comem com as mãos por lavar?” Mas lhes rebateu a crítica:


[...] Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina. [...] Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem (Marcos 7.5,15, 21-23).


Paulo advertiu os Coríntios para não andarem com impuros, mas para deixar claro, se explica dizendo:


Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora, porém, Deus os julgará. Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor (1ª Coríntios 5.9-13).


O fato é que todos somos humanos, todos somos pecadores. Não podemos nos esconder atrás de títulos como o de pastor, presbítero, diácono, pois são apenas títulos que, embora normalmente conquistados por mérito honroso, afetam apenas a vida na terra. Estamos no mesmo barco, somos sujeitos às mesmas paixões, temos todos as mesmas lutas contra a nossa natureza humana e contra o pecado. Por isso, sob o nosso ponto de vista, a salvação de Cristo pode alcançar o pior dos pecadores. Há esperança para todos, em toda parte, caso se arrependam.


Ponto de vista de Deus: um homem aceitável (30-33)


Respondeu-lhe Cornélio: Faz, hoje, quatro dias que, por volta desta hora, estava eu observando em minha casa a hora nona de oração, e eis que se apresentou diante de mim um varão de vestes resplandecentes e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas, lembradas na presença de Deus. Manda, pois, alguém a Jope a chamar Simão, por sobrenome Pedro; acha-se este hospedado em casa de Simão, curtidor, à beira-mar. Portanto, sem demora, mandei chamar-te, e fizeste bem em vir. Agora, pois, estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor.


Alguns crentes, ao serem ajudados por não crentes, às vezes dizem: “e nem crente ele é...!”. Não esperavam de um incrédulo um ato de bondade. Ao mesmo tempo, esperavam que os crentes fossem mais bondosos. Condenam assim os crentes e exaltam os incrédulos que praticaram atos de bondade. Mas os atos de bondade, ou atos de justiça, embora sejam nossa obrigação, nem por isso serão aceitos. Deus deixou isso claro desde o início da revelação, como no caso das ofertas de Abel e de Caim (Gênesis 4.3-5). O Profeta Isaías (64.6) chega a tratar alguns tipos de “justiças” como verdadeiros “trapos de imundícia”.


Ainda assim, os atos de bondade não devem ser considerados exclusividade de crentes, nem se deve esperar deles que sejam sempre bondosos. Todo ato de bondade é dom de Deus, e deve ser sempre reconhecido como tal. Se veio por meio de uma pessoa que não crê na salvação por meio do Senhor Jesus Cristo, o “obrigado” passa a ter maior responsabilidade, mormente a de orar pela salvação do benfeitor, porque a salvação não vem por meio da justiça humana, mas por meio da justiça cumprida em Jesus, o Cordeiro de Deus. Oremos por todos os “aceitáveis”, para que eles reconheçam em Jesus o único e suficiente Salvador, para que seus pecados sejam cobertos pelo sangue de Jesus, e assim estejam aptos para entrar no Reino de Deus, porque, para ele, não é questão de ser considerado pelos homens como bom, ou de ser considerado por outros como impuro. O que importa é ser aceitável. Porque a impureza do homem pode ser purificada pelo sangue de Jesus.


Por outro lado, “[...] o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face (Salmos 11.7). Ezequiel escreveu longos trechos falando do reconhecimento de Deus quando o homem pratica a justiça (vide versísulos 3.20; 14.14,20; 18.5,19-22,24,26,27; 33.12-14,16,18,19). Até o apóstolo Paulo, que defendeu veementemente a salvação somente pela graça de Deus, em Cristo, independentemente das obras de justiça, não nega o valor de um homem andar em justiça, conforme destaca no início de seu grande tratado teológico (vide Romanos 2.7,10-24).


Conclusão


Se você pedisse um feedback às pessoas de sua influência, como elas iriam te classificar? Uma pessoa boa, uma pessoa impura, uma pessoa aceitável?


Mas para Deus, quem você é? Como é que Deus, que lá do alto te observa, enxerga a maneira como você tem se comportado? Não podemos nos enganar, não podemos zombar de Deus. Devemos reconhecer a Jesus como nosso único e suficiente Salvador e Senhor e, ainda que as boas obras, por si só, não possam salvar, devemos nos esforçar para ser aceitáveis àquele a quem pertence a salvação.


(*) Foto do cabeçalho disponível em: https://www.napratica.org.br/como-pedir-feedback-e-usar/ Acesso em. 26 nov. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

domingo, 9 de junho de 2019

O cristão de plantão (Atos 10.9-20)

Você já sentiu um certo desânimo (para não falar preguiça), quando tem algum tempo livre, e não sabe o que fazer com ele? Especialmente perto do meio dia, quando o sol está mais quente, é difícil decidir fazer algo que seja útil. Mas se nós fôssemos bombeiros de plantão, ao soar do alarme, estaríamos sempre prontos para assumir nossa missão de resgate. O cristão que verdadeiramente deseja servir a Cristo deve ter esta mesma postura. E podemos dizer, baseados neste parágrafo de Atos 10.9-20, que existem pelo menos três maneiras pelas quais Deus direciona os cristãos que se dispuserem a ficar de plantão, para que façam a sua vontade em determinado momento.


Primeira maneira: Deus direciona através da oração (9)


“No dia seguinte, indo eles de caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado, por volta da hora sexta, a fim de orar.”


Era por volta de meio-dia (é o que significa “hora sexta” no texto bíblico). O almoço ainda não estava pronto. O que fazer? Ficar sentado em frente à praia de Jope, observando as ondas e as pessoas que passam? Procurar alguém que também está à toa para bater um papo? Parece que Pedro tomou a melhor decisão para o momento: procurou um lugar isolado para orar. Podia muito bem, naquele momento, estar se perguntando: “O que é que eu estou fazendo aqui, na casa de um curtidor?”. Deus tinha usado grandemente o apóstolo para curar Enéias e ressuscitar Dorcas, mas agora tudo parecia monótono, nada acontecia, nada fazia sentido. Então ele pode ter pensado: “vou orar a respeito disso”.


Orar sempre é uma boa opção. Às vezes, até, é a única opção, especialmente quando nos vemos impotentes diante de poderes malignos que nos cercam. Foi assim que aconteceu com o rei Ezequias, que ficou muito angustiado quando recebeu uma carta ameaçadora do rei da Assíria e, sem saber o que fazer a respeito, foi à casa do Senhor e estendeu a carta diante do altar, como se estivesse pedindo que o Senhor lesse a carta e desse a sua opinião, conforme lemos em 2º Reis 19. 14-20:


Tendo Ezequias recebido a carta das mãos dos mensageiros, leu-a; então, subiu à Casa do SENHOR, estendeu-a perante o SENHOR e orou perante o SENHOR, dizendo: Ó SENHOR, Deus de Israel, que estás entronizado acima dos querubins, tu somente és o Deus de todos os reinos da terra; tu fizeste os céus e a terra. Inclina, ó SENHOR, o ouvido e ouve; abre, SENHOR, os olhos e vê; ouve todas as palavras de Senaqueribe, as quais ele enviou para afrontar o Deus vivo. Verdade é, SENHOR, que os reis da Assíria assolaram todas as nações e suas terras e lançaram no fogo os deuses deles, porque deuses não eram, senão obra de mãos de homens, madeira e pedra; por isso, os destruíram. Agora, pois, ó SENHOR, nosso Deus, livra-nos das suas mãos, para que todos os reinos da terra saibam que só tu és o SENHOR Deus.


Lemos nos versículos seguintes que Deus, por meio do profeta Isaías, deu a resposta que Ezequias buscava. Quando nós, cristãos de plantão, estivermos em dúvida sobre o que fazer, podemos fazer como Pedro ou como o rei de Israel, buscando uma luz através da oração.


Segunda maneira: Deus direciona através de visões (das Escrituras) (10-16)


Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase; então, viu o céu aberto e descendo um objeto como se fosse um grande lençol, o qual era baixado à terra pelas quatro pontas, contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: Levanta-te, Pedro! Mata e come. Mas Pedro replicou: De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda. Segunda vez, a voz lhe falou: Ao que Deus purificou não consideres comum. Sucedeu isto por três vezes, e, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu.


Deus nos fala diretamente através das Escrituras. Esta visão, por exemplo, pela qual Pedro foi orientado a não discriminar os gentios, não foi só ele quem teve, pois está escrita na Bíblia, portanto, todos nós que a lemos, recebemos a mensagem que veio pelo êxtase do apóstolo. Nós, que temos em nossas mãos as Escrituras, “vimos” Deus criando o mundo e os seres viventes, “vimos” o Êxodo com as manifestações de poder divino que o acompanharam. Tomamos conhecimento das profecias, e “testemunhamos” o cumprimento de todas elas. Jesus foi exposto como crucificado diante de nossos olhos (Gálatas 3.1), e nos maravilhamos diante das evidências de sua ressurreição.


As Escrituras, assim como as visões diretas que alguns personagens bíblicos receberam, nos dão esclarecimentos a respeito de decisões que normalmente são contrárias ao nosso querer, à nossa tendência pecaminosa. Há coisas que só fazemos porque as Escrituras nos orientam neste sentido. Hebreus 4.12 nos diz que “[...] a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.”


Quem, naturalmente, amaria os seus inimigos, se as Escrituras não tivessem ordenado? Quantos casais, que perseveram em meio às dificuldades inerentes ao matrimônio, não se separariam por “incompatibilidade de gênios” se as Escrituras não dissessem que a união matrimonial é “até que a morte os separe”?


Quando estamos em dúvida sobre o que fazer, nós, cristãos de plantão, podemos buscar uma luz através das “visões”, que temos ricamente através das Escrituras.


Terceira maneira: Deus direciona através de necessidades prementes (17-20)


Enquanto Pedro estava perplexo sobre qual seria o significado da visão, eis que os homens enviados da parte de Cornélio, tendo perguntado pela casa de Simão, pararam junto à porta; e, chamando, indagavam se estava ali hospedado Simão, por sobrenome Pedro. Enquanto meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te procuram; levanta-te, pois, desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei.


Assim como Josué tinha que parar de orar e começar a agir (Josué 7.10), assim também Pedro tinha que parar de meditar e atender aos homens que o procuravam. Às vezes temos que nos dedicar a coisas menos “nobres”, “botar a mão na massa”, atender às necessidades das pessoas que estão ao nosso redor. Uma criança que requer atenção, um conflito se formando no íntimo da esposa, atarefada por causa do serviço doméstico, um incidente que se interpõe para desviá-lo e atrasá-lo em seu apressado caminho.


O pastor Jaime Kemp, certa vez, em um de seus vídeos sobre relacionamento familiar, contou a história de um pai que perguntou ao filho:


“– Filho,você sabe que eu te amo?


– Sim, papai.


– Como você sabe que eu te amo?


– Não sei, papai... Ah! Eu sei sim. Você me ama porque aquele dia, quando saía correndo para o trabalho, eu pedi que antes consertasse a minha bicicleta e você fez o que eu te pedi, mesmo que estivesse com muita pressa.”


Gosto muito de uma música que cantamos, que diz: “Bem de manhã, embora o céu sereno pareça um dia calmo anunciar, vigia e ora o coração pequeno: um temporal pode abrigar”. Às vezes acordamos e tudo está bem, tudo no seu lugar, nos preparamos para mais um dia de trabalho, para cumprirmos a nossa rotina. Mas de repente começa a tocar o telefone, três pessoas ao mesmo tempo querem falar com você, cada um com um problema diferente, e você se vê obrigado a deixar tudo o que estava fazendo, mudar toda a sua rotina do dia para tentar acudir aos que te pedem ajuda.


Quando fazemos uma lista de prioridades, e entre os itens estão “pessoas” e “coisas”, quem nós vamos colocar em primeiro lugar? A despeito de estejamos cientes do nosso dever, somos constantemente tentados a dar maior valor a coisas, em detrimento das pessoas.


Imaginemos um casal em seu leito, numa noite fria, acomodado, pronto para uma boa noite de descanso, e o bebê no outro quarto começa a chorar. Um dos dois terá que se levantar e ver o que está acontecendo. Mas, e se a criança já não for mais um bebê, e de algum modo também pedir sua atenção, por motivo de insegurança ou até mesmo de “manha”? A motivação do pai ou da mãe já não será tão forte para atendê-la. Ainda menos quando se tratar de um filho adulto, pedindo um favor qualquer. Mas, mesmo que a motivação já não seja tão forte, o bom pai e a boa mãe sempre acabam fazendo sacrifícios para atender ao chamado de um filho, porque a missão de pai e de mãe, assim como de avós, dura a vida inteira.


Às vezes, porém, Deus quer que demos atenção a pessoas com as quais não temos laços fraternos assim tão fortes. São, talvez, os “pequeninos” dos quais falou Jesus, alertando para que tomássemos cuidado para não escandalizá-los, sob a pena de castigos piores do que ser lançado ao fundo do mar com uma pedra amarrada no pescoço (Marcos 9.42). Se os “pequeninos” clamarem a Deus se queixando de nós, que demos maior valor a outras coisas do que às suas reais necessidades, não é assim que nos veremos escandalizando os “pequeninos” de Jesus?


Quando estamos em dúvida sobre o que fazer, nós, os cristãos de plantão, podemos ser orientados pelas circunstâncias das necessidades prementes das pessoas ao nosso alcance.


Conclusão


Como é que você está se sentindo hoje? Desanimado, com preguiça, em dúvida sobre o que fazer para ocupar o seu tempo? Vamos assumir a postura de plantonistas cristãos, recorrendo à oração, às revelações das Escrituras, estando também atentos aos alertas que se dão ao nosso redor, como bombeiros que estão sempre prontos para ajudar quem tiver necessidade.


(*) Foto do cabeçalho disponível em: https://www.cbm.df.gov.br/2012-11-12-17-42-33/2012-11-13-16-14-57?task=document.viewdoc&id=10993 Acesso em 10 jun. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.


domingo, 19 de maio de 2019

Aceitável (Atos 10.1-8)

Alguns anos atrás, a população ficou alarmada com rumores de que um jogo muito popular entre crianças e adolescentes, chamado Baleia Azul, os estava levando a cometerem suicídio. De fato, o risco é real, não só pelo fenômeno do jogo em questão, mas também por outros estímulos, quando a ansiedade por ser aceitável em seu grupo de relacionamento acaba levando as pessoas a cometerem loucuras. Um grande problema entre nós, seres humanos, é o medo de não sermos aceitos pela sociedade. Mas, será que as pessoas se preocupam também com a possibilidade de não estarem sendo aceitas por Deus? Cornélio é o exemplo de um homem que se tornou aceitável, ou seja, se tornou um candidato a ser aceito por Deus. Neste parágrafo de Atos 10.1-8, encontramos pelo menos três virtudes de Cornélio que o tornaram aceitável para Deus.


Primeira virtude: Piedade (1,2)


“Morava em Cesaréia um homem de nome Cornélio, centurião da coorte chamada Italiana, piedoso e temente a Deus com toda a sua casa e que fazia muitas esmolas ao povo [...]”


Um homem piedoso tem vantagens quando se trata de aceitação, pois é visto por Deus de um jeito especial, conforme 2ª Pedro 2.9, que diz: “[...] o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia de Juízo”.


Mas não é qualquer tipo de piedade que comove a Deus. Jesus, inclusive, adverte em Mateus 6.2 que, quando “[...] deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita”. E Paulo vai mais longe em 1ª Coríntios 13.3, ao dizer: “[...] ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará”.


A pesquisadora Maria da Conceição Meireles Pereira, num estudo sobre as publicações que sucederam o terremoto de Andaluzia, em 1885, analisa a diferença entre os conceitos de caridade e filantropia e, citando uma das publicações analisadas, observa que um correspondente chamado “[...] Lúcio Fazenda recusa os vocábulos caridade e filantropia porque identifica a primeira com hipocrisia e a segunda com egoísmo; propõe, em sua substituição, os conceitos que elege para título do seu texto: Reciprocidade ou Solidariedade”


PEREIRA , Maria da Conceição Meireles. Caridade Versus Filantropia - Sentimento e Ideologia: A Propósito dos Terramotos da Andaluzia (1885). Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal, 2004. Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/5016.pdf Acesso em: 23 abr. 2017.


Este ceticismo das pessoas com respeito à suposta piedade de alguns pode se justificar em casos como o mencionado numa reportagem da Gazeta do Povo de 17/05/2009, onde lemos que


“[...] Cerca de 330 mil peças de roupas e alimentos doadas para os atingidos das enchentes em novembro e dezembro do ano passado, em Santa Catarina, foram apreendidas em um galpão, anexo a um brechó, na cidade de Rio Negrinho, no Planalto Norte do estado. O empresário e dono do brechó, Ismael Evelson Ratzkob, 37 anos, foi preso em flagrante. Em depoimento, ele informou para a polícia que pegava os produtos em Ilhota, uma das cidades mais atingidas pela tragédia, e os levava para um depósito particular onde vendia peças para a população por até R$ 1. Ismael teve prisão temporária decretada”.


Doações a SC eram vendidas em brechó. Folhapress, em Gazeta do Povo, 17/05/2009. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/doacoes-a-sc-eram-vendidas-em-brecho-bl0ovwxbqt2uytmglwgq0vbda Acesso em 23 abr. 2017.


Às vezes é difícil decidir sobre como vamos praticar a nossa piedade. A prática mais comum é a de dar esmolas, mas existem controvérsias como as que são expostas no artigo de Nathália Braga, da Revista Super Interessante que, em 18/02/2011, compila algumas respostas à pergunta: “Devemos dar esmolas?”:


“A indiferença é a forma contemporânea da barbárie. É preferível dar porque, às vezes, o que você dá é a diferença entre ter ou não uma oportunidade. Ainda que seja só a oportunidade de comer.”


Rita Amaral, doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo.


“Acho errado. Esmola vicia e leva a pessoa a viver na condição de se acomodar com o pouco que recebe.”


Içami Tiba, Psiquiatra, educador e autor de quem ama educa.


“Depende. Nunca dou dinheiro, mas pago uma refeição. Solidariedade é um dever ético – repartir uma porção do que tem com um amigo em dificuldade é o princípio bíblico do dízimo.”


Frei Betto, Teólogo e escritor.


“Não. A esmola pode aliviar situações de extrema necessidade, mas não contribui para transformar a condição de miserabilidade dos pedintes.”


Waldir Mafra, da care Brasil, Ong que combate a pobreza.


“As pessoas acham que mendigo gosta de pedir, mas eu não gosto. Sei que esse não é o único jeito de viver, mas ainda não vejo outra saída. Se mais gente me ajudasse, talvez eu saísse dessa situação.”


Carla, moradora de rua.


BRAGA, Nathália. Devemos dar esmolas? Revista Super Interessante, 18/02/2011. Disponível em: http://super.abril.com.br/comportamento/devemos-dar-esmolas/ Acesso em: 23 abr. 2017.


O fato é que Cornélio já havia tomado a decisão de ser piedoso, e a maneira principal de praticar sua piedade era fazer “muitas esmolas ao povo”, pelo que se tornou aceitável, tanto pelos homens quanto por Deus.


Segunda Virtude: Fidelidade (2-6)


[...] e, de contínuo, orava a Deus. Esse homem observou claramente durante uma visão, cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que se aproximou dele e lhe disse: Cornélio! Este, fixando nele os olhos e possuído de temor, perguntou: Que é, Senhor? E o anjo lhe disse: As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus. Agora, envia mensageiros a Jope e manda chamar Simão, que tem por sobrenome Pedro. Ele está hospedado com Simão, curtidor, cuja residência está situada à beira-mar.


A fidelidade de Cornélio pode ser notada pelo fato de ele orar continuamente a Deus, e foi justamente nesta prática, na oração da “hora nona” (15 horas, em nosso modelo de nomenclatura atual), é que recebeu a visita do anjo de Deus. Somos exortados pela Bíblia a andarmos na mesma prática fiel, pois a oração é tida por Deus como “sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13.15).


A fidelidade é o que nós esperamos uns dos outros. Ao nos casarmos, diante de Deus e das testemunhas, prometemos fidelidade. No nosso trabalho, o patrão espera que sejamos fiéis, tanto para chegar nos horários combinados, quanto para executar adequadamente as nossas tarefas. Os trabalhadores, por sua vez, esperam que o transporte coletivo seja fiel em passar nos horários determinados, e em levá-los para os locais programados. A sociedade, em geral, enaltece aqueles que são fiéis, mas rejeita os infiéis.


Quando um cristão decide ser fiel, é porque quer se assemelhar ao seu Pai, pois, “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1ª João 1.9). A fidelidade de Deus também não deixa que sejamos tentados além de nossas forças (1ª Coríntios 10.13). Gosto muito do Salmo 19 (1-6), que exalta, entre outros atributos, a fidelidade de Deus, ao cantar que


Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor.


A terra gira em torno do seu próprio eixo a uma velocidade aproximada de 1700 km/h, e muitos se perguntam: “e se um dia a terra parar?”. É certo que haveria muitas catástrofes, e possivelmente a extinção da vida. Mas todos os dias acordamos e lá está o sol, revelando a glória e a fidelidade de Deus, em manter a terra em movimento, para que continuemos a vida.


A segunda parte do Salmo 19 (7-14) fala da Palavra de Deus (a lei, os preceitos, o temor) e do desejo do salmista de, em contrapartida, também ser fiel ao seu Redentor, o que nós todos, igualmente, deveríamos buscar para que, como Davi ou Cornélio, nos tornemos aceitáveis a Deus.


Terceira virtude: Humildade (7-8)


“Logo que se retirou o anjo que lhe falava, chamou dois dos seus domésticos e um soldado piedoso dos que estavam a seu serviço e, havendo-lhes contado tudo, enviou-os a Jope”.


Cornélio, sendo um importante centurião da coorte, não se deixou dominar pela arrogância. Antes, humildemente, enviou três dos seus servos, cuidadosamente escolhidos, para solicitar a presença do apóstolo Pedro, conforme orientado pelo anjo.


A humildade é requerida dos cristãos em Romanos 12.16, que diz: “Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos”, e é uma virtude ensinada pelo exemplo do próprio Senhor Jesus que, certa vez, declarou : “[...] sou manso e humilde de coração [...]” (Mateus 11:29).


São muitos, porém, os que escolhem o caminho da arrogância. Talvez o maior exemplo disto, na história, seja a do partido Nazista de Hitler, que popularizou e fez sua própria aplicação macabra da teoria da “Raça Ariana”. Numa matéria da revista Mundo estranho, em abril de 2011, lemos que este


É um conceito surgido no século 19 e que hoje está desacreditado. “A raça ariana seria supostamente a linhagem ‘mais pura’ dos seres humanos, constituída apenas por indivíduos altos, fortes, claros e inteligentes, representando assim, de acordo com critérios arbitrários, uma raça superior às demais”, afirma o biólogo Danilo Vicensotto, da Universidade de São Paulo (USP). A palavra “ariano” deriva de arya (“nobre”, em sânscrito) e serviu para denominar um povo de origem controversa. “Na verdade, os arianos não são uma raça, e sim um grupo lingüístico, mais conhecido como indo-europeu”, diz o historiador Robert Rozett, da biblioteca Yad Vashem, em Israel.


Em meados do século 19, o diplomata e escritor francês conde de Gobineau propôs o conceito de ‘raça ariana’, defendendo a superioridade dos brancos sobre negros, amarelos e semitas. Gobineau classificava como ‘arianos’ os povos nórdicos e germânicos, que para ele representavam o ápice da civilização, sendo responsáveis por todo o progresso da humanidade ao longo da história. As idéias do conde francês tiveram aceitação na Europa da época, em especial entre intelectuais alemães. Na Alemanha do século 20, o conceito foi assimilado pelo Partido Nazista e por seu líder Adolf Hitler, servindo de base para a política de extermínio de judeus e de outros ‘povos não-arianos’.”


O que é a Raça Ariana? Por “Redação Mundo Estranho”, Site Super Interessante ,18/04/2011. Disponível em: http://mundoestranho.abril.com.br/historia/o-que-e-a-raca-ariana/ Acesso em: 23 abr. 2017.


Talvez alguns cristãos achem que somos uma espécie de “Raça Ariana”, e que somos superiores aos demais pecadores. Mas não é isto o que a Bíblia ensina. Tiago (4.6) alerta para o fato de que “[...] Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes”. O apóstolo Pedro, em sua primeira carta (5.5), também faz um apelo à humildade: “[...] outrossim, no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça”. Portanto não devemos, nunca, nos jugarmos melhores do que ninguém, se quisermos estar entre aqueles que recebem a graça de Deus, a qual Cornélio, tendo sido julgado aceitável, humildemente recebeu.


Conclusão


Você tem o desejo de ser aceitável no seu grupo de relacionamento? E quanto a Deus, você se considera aceitável para ele? Ser aceitável não significa ser, necessariamente, aceito. Cornélio podia ser aceitável, mas um anjo lhe foi enviado, para avisar que chamasse Simão Pedro, para que ouvisse a mensagem do evangelho, para que, crendo, fosse finalmente aceito por Deus. Você já foi aceito por Deus? Pode ser que você não tenha sido piedoso em sua vida, como deveria; não tenha sido fiel em ler a Bíblia e orar, ou não tenha se tornado aceitável por meio da humildade, reconhecendo que é um pecador, arrependendo-se e convertendo-se pela fé no evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas hoje pode ser o tempo “sobremodo oportuno”, e o “dia da salvação” (2ª Coríntios 6.2).


Quanto aos que têm consciência de que já foram aceitos por Deus, continuem dignos da vocação a que foram chamados, buscando o que é aceitável para Deus, exercitando a piedade, a fidelidade e a humildade.


(*) Imagem do cabeçalho disponível em: http://www.psicologoroberte.com.br/aceitacao/ Acesso em 19 maio 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.