sábado, 27 de fevereiro de 2021

O jeito e o lugar certo para servir (Atos 15.36-41)


Parece que o mundo está cada vez pior. Além da pandemia, há muita violência, terremotos, erupção de vulcões, inundações e nevascas. Vemos através destas coisas que precisamos servir ao Senhor, porque só ele pode nos proteger de tantos infortúnios e, no final, nos dar a vida eterna. Mas, de que jeito e em que lugar devemos servir ao Senhor? Esta é uma decisão importante, que precisamos tomar com sabedoria. 

Podemos identificar, no texto bíblico indicado, pelo menos três indicadores que nos dão direção para decidir sobre onde e como servir ao Senhor. 

O desejo do coração (36-39) 

Alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Voltemos, agora, para visitar os irmãos por todas as cidades nas quais anunciamos a palavra do Senhor, para ver como passam. E Barnabé queria levar também a João, chamado Marcos. Mas Paulo não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho. Houve entre eles tal desavença, que vieram a separar-se. 

Paulo e Barnabé decidiram, segundo o desejo do seu coração, começar a segunda viagem missionária visitando os irmãos onde anteriormente tinham anunciado a palavra do Senhor. Segundo o seu coração, também, acabaram por tomar rumos diferentes, por divergirem a respeito de incluírem ou não João Marcos nesse ministério. 

Não podemos confiar somente em nosso coração, pois Jeremias 17.9 alerta que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto [...]” e, às vezes, servir o Senhor significa fazer justamente aquilo que nosso coração mais rejeita, conforme o exemplo do Senhor Jesus, que ensinou a orarmos: “venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6.10); e renunciou à sua própria vontade ao orar, na noite de sua prisão, na véspera de sua crucificação: “[...] Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua”. 

Não obstante, o desejo do coração deve ser o primeiro indicador que nos leva à decisão de servir ao Senhor. Não podemos servir ao Senhor plenamente, se não for de coração. Deuteronômio 6.5 ordena: “Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”, e Jesus reafirma esta citação em Marcos 12.30: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. 

Assim como está registrado em 2ª Coríntios 9.7 que Deus ama a quem dá com alegria, também podemos deduzir que Deus ama a quem serve com alegria, e nada melhor para a alegria do que fazer aquilo que o nosso coração deseja, desde que não seja contrário à vontade do Senhor. 

As circunstâncias favoráveis (39) 

Então, Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. 

Barnabé tomou a decisão de ir para a ilha de Chipre, região onde nasceu. De modo semelhante, quando fizeram a primeira viagem missionária, uma das regiões escolhidas foi a Cilícia, onde Paulo nasceu. Às vezes as circunstâncias favoráveis nos levam a tomar decisão sobre como e onde vamos servir o Senhor. O bairro onde eu moro, o local onde trabalho ou estudo, meu círculo de relacionamento social. Assim foram criados grupos como Atletas de Cristo, Clubes de Motociclistas, Gideões Internacionais, Adhonep (associação de homens de negócio do evangelho pleno). Esta última , por exemplo, é: 

[...] uma Instituição brasileira, não eclesiástica, fundada em 1977 pelo empresário Custódio Rangel Pires, do Rio de Janeiro, por incentivo e autorização de Demos Shakarian, um fazendeiro norte americano que, por sua vez, foi o fundador da FGBMFI, uma organização congênere, em 1952. [...] A ADHONEP tem como objetivos principais difundir e incentivar a observação e prática de princípios sociais, éticos, morais, a valorização da instituição familiar, bem como a difusão de princípios espirituais cristãos, fundados na bíblia sagrada (Disponível em: https://adhonep.org.br/ Acesso em 23 jan. 2018). 

No meu caso, estou motivado pelas circunstâncias a servir ao Senhor escrevendo artigos neste Blog, já que está disponível e é uma forma de divulgação de minhas ideias e de minha fé. 

A comunhão com Deus e com a igreja (40,41) 

Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor. E passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas. 

Paulo escolheu a Silas para o acompanhar no lugar de Barnabé, e partiram encomendados pelos irmãos à graça do Senhor, passando pelas igrejas da Síria e Cilícia.  

A comunhão com Deus e com a igreja é o maior, o mais seguroo mais confiável indicador de direção para que tomemos a decisão sobre como e onde servir ao Senhor. Estando em comunhão com Deus, através da leitura da Bíblia e da oração, seremos guiados num patamar superior ao das emoções e das circunstâncias. 

Deus nos mostra os melhores caminhos quando estamos buscando constantemente a sua presença, como diz Salmos 16.7: “Bendigo o SENHOR, que me aconselha; pois até durante a noite o meu coração me ensina. O nosso alvo deve ser “[...] conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento [...]”, para que sejamos “tomados de toda a plenitude de Deus” (Efésios 3.19). Desta forma, “[...] a paz de Deus, que excede todo o entendimento [...]” (Filipenses 4.7) guardará o nosso coração e a nossa mente em Cristo Jesus. 

Além disto, Deus nos fala através da igreja, da comunhão com os irmãos. Provérbios 11.14 diz que “não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança”; Provérbios 24.6 aconselha: “com medidas de prudência farás a guerra; na multidão de conselheiros está a vitória”; e Provérbios 27.17 reconhece que, “como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo”. Ora, “se o ferro está embotado, e não se lhe afia o corte, é preciso redobrar a força; mas a sabedoria resolve com bom êxito” (Eclesiastes 10.10). É por estes motivos e por muitos outros que Colossenses 3.16 recomenda: “habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”, pois a comunhão com Deus e com a igreja é um poderoso indicador de direção para decidirmos onde e de que maneira iremos servir ao Senhor. 

Conclusão 

Como é que você está servindo ao Senhor? Se você não está frequentando uma igreja, procure uma que agrade o seu coração, que seja perto de sua casa, mas especialmente que valorize a Palavra de Deus, ensinando e praticando os princípios bíblicos. 

Se você pretende se entregar completamente para o serviço do Senhor, não espere melhores circunstâncias. Sirva já, onde você está. No seu trabalho, no seu dia a dia. As pessoas em redor de você precisam ouvir o evangelho, e você pode dar a elas testemunho de um cristão que vive, de fato, o evangelho. Seja uma fiel testemunha de Cristo onde você está, fazendo sempre o que Cristo faria em seu lugar. 

Assim, dirigidos pelo nosso coração, pelas circunstâncias e pela comunhão, não deixemos de servir ao Senhor. 

Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, fevereiro de 2021. 

(*) Foto do cabeçalho disponível em: Но только не говори мне, что любишь меня! (b17.ru) Acesso em.27 fev. 2021. 

(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O novo normal e as velhas práticas (Atos 15.22-35)

O ano de 2020 foi difícil. Iniciamos uma quarentena de 15 dias que foi se prorrogando indefinidamente, e já se arrasta por quase um ano. A chegada das vacinas é bem-vinda, e estamos ansiosos para que a nossa vida possa voltar ao normal. Talvez não tanto, porque já nos conformamos com a expectativa de que haverá, na verdade, um “novo normal” depois desta pandemia.

O trabalho e o estudo remotos, e muito do que aprendemos nos últimos meses, como evitar contatos físicos com desconhecidos, utilizar máscaras e muito álcool em gel, deverão fazer parte do nosso cotidiano, para evitar contaminações. Muitas práticas antigas talvez sejam abandonadas. Existem, porém, práticas do “velho normal” que são sadias, e que seria bom se as conservássemos.

Neste parágrafo de Atos 15.22-35 observamos que, para os judeus e para os gentios, estava iniciando uma nova vida pela fé no Senhor Jesus, e uma dúvida doutrinária exigiu que eles se reunissem para tomar uma decisão. Os irmãos judeus, mais experientes, julgaram a questão e enviaram representantes aos irmãos gentios, com uma carta de recomendação.

A maneira como os irmãos judeus trataram os irmãos gentios mostra que há pelo menos três práticas, velhas conhecidas dos judeus, que foram mantidas pela igreja de Cristo, e que nós não devemos jamais abandonar.

Amor (22-27)

Então, pareceu bem aos apóstolos e aos presbíteros, com toda a igreja, tendo elegido homens dentre eles, enviá-los, juntamente com Paulo e Barnabé, a Antioquia: foram Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens notáveis entre os irmãos, escrevendo, por mão deles: Os irmãos, tanto os apóstolos como os presbíteros, aos irmãos de entre os gentios em Antioquia, Síria e Cilícia, saudações. Visto sabermos que alguns que saíram de entre nós, sem nenhuma autorização, vos têm perturbado com palavras, transtornando a vossa alma, pareceu-nos bem, chegados a pleno acordo, eleger alguns homens e enviá-los a vós outros com os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que têm exposto a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, portanto, Judas e Silas, os quais pessoalmente vos dirão também estas coisas.

Uma das práticas antigas, mantida pela igreja de Cristo, e que não devemos abandonar, é a prática do amor de uns para com os outros. Os líderes de Jerusalém enviaram os seus melhores homens, demonstrando um cuidado amoroso e o reconhecimento do valor dos missionários Barnabé e Paulo em sua obra, na qual arriscaram suas vidas. Fica evidente também, na carta enviada por meio daqueles homens, a sua manifestação de amor, visto que os apóstolos não queriam que os irmãos gentios sequer fossem perturbados com palavras que pudessem transtornar suas almas.

O amor aos pobres e estrangeiros já era um costume desde os tempos antigos, conforme os versículos abaixo:

Êxodo 23.10,11

Seis anos semearás a tua terra e recolherás os seus frutos; porém, no sétimo ano, a deixarás descansar e não a cultivarás, para que os pobres do teu povo achem o que comer, e do sobejo comam os animais do campo. Assim farás com a tua vinha e com o teu olival.

Levítico 19.9,10

Quando também segares a messe da tua terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua messe. Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.

Estes princípios foram, claramente, praticados por Boaz, conforme nos revela a história de Rute que, aliás, era “gentia”.

Embora os gentios retratados no livro de Atos estivessem em situação financeira muito mais confortável do que os judeus, naquele tempo, o mesmo não se podia dizer com respeito à sua situação espiritual, que era de alguém “miserável, pobre, cego e nu” (Apocalipse 3.17), antes de sua conversão. Agora, como novos na fé, dependiam de todo amor e cuidado, tal qual uma criança recém-nascida, que necessitava do genuíno leite espiritual (1ª Pedro 2.2).

Deus faz questão de demonstrar que nos ama, inclusive porque, necessariamente, teremos que passar por múltiplas aflições em nossa vida. Uma das mais belas e alentadoras promessas que evidenciam o amor de Deus para conosco, foi feita por Jesus aos discípulos num momento extremamente crítico, horas antes da sua prisão, condenação no sinédrio e crucificação: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (João 14.1-3).

Deus estava preparando seus filhos para as aflições, pelas quais inevitavelmente iriam passar em breve, e por isso reafirmou o seu amor, para que eles não desfalecessem na fé. A prática do amor é antiga e deve ser conservada, assim como Deus nos tem amado com tanta fidelidade.

Santificação (28-29)

“Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas; destas coisas fareis bem se vos guardardes. Saúde”.

Outra prática antiga, mantida pela igreja de Cristo, e que não devemos abandonar, é a prática da Santificação. Pensando nisto, foi ordenado que os gentios se abstivessem das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas.

O pastor Douglas Baptista[1], da Assembleia de Deus em Brasília, ensina em seu artigo “O concílio de Jerusalém e os quatro decretos apostólicos” que:

[...] a chamada lei cerimonial exigia que os judeus valorizassem o sacrifício e não banalizassem o sangue (Lv. 17.14). Esta prática, evidentemente, não era comum entre os gentios. Por isso, essas regras eram o mínimo que se pedia dos gentios, para não escandalizarem os judeus cristãos.

No site da “Hora Luterana”[2] encontramos também orientações a respeito da questão de comer sangue, carne sufocada, e coisas sacrificadas aos ídolos:

Note-se que a recomendação em relação a esses três pontos tem as mesmas características: não são revestidos de proibição ou ordenança e têm caráter de liberdade cristã. Os cristãos gentílicos não foram obrigados a se deixarem circuncidar (mas podiam fazê-lo, se o quisessem), como também eram convidados a se absterem de comer sangue e carne de animais sufocados (mas não eram proibidos de consumir esses elementos) [...]. Acontecia que os cristãos gentílicos procediam de ambientes em que praticar essas coisas era absolutamente normal. Esse costume, porém, poderia pôr em risco a fé dos cristãos procedentes de ambientes judaicos. [...] A decisão dos apóstolos em Atos 15 conclama os cristãos a viverem no amor e, em nome desse amor, não escandalizarem cristãos fracos, nem com atitudes que, em si, não sejam pecado, nem com coisas francamente proibidas. Essa decisão tornou possível a convivência entre cristãos de origem judaica e cristãos de origem gentílica [...].

Mário Persona[3], autor do site e da coleção de livros chamada “O que respondi...”, ensina sobre o tema prostituição e impureza sexual, dizendo que

[...] este problema, que era generalizado entre os gentios daquela época, volta a ter a mesma dimensão hoje em um mundo cada vez menos interessado nos valores cristãos. Quem estuda os costumes no império romano descobre que algumas coisas eram bem aceitas na sociedade da época: sexo fora do casamento, adultério, prostituição, pornografia (inclusive decorando as paredes das casas de família), homossexualismo, pedofilia (permitia-se aos homens casados terem meninos escravos para este fim), aborto e infanticídio (bebês indesejados eram simplesmente abandonados à beira das estradas para morrerem e serem comidos por cães). Lembre-se de que a sociedade que aceitava essas coisas não era nenhum grupo de bárbaros, mas o império mais desenvolvido que existiu até então, e que nos legou coisas como o direito romano e a privada com água encanada e descarga, que só foi "redescoberta" há 200 ou 300 anos.

Os cultos a ídolos entre os povos antigos comumente incluíam relações sexuais ilícitas, apelo que também está presente nas “baladas” modernas das quais, obviamente, também devemos nos guardar. Seguindo o princípio das restrições alimentares, é importante que nos guardemos dos vícios em geral. Enfim, de tudo o que não se harmoniza com uma vida cristã digna, coisas que o Espírito Santo nos ajuda a discernir, convém que nos guardemos, conservando assim a antiga prática da santificação.

Exortação (30-35)

Os que foram enviados desceram logo para Antioquia e, tendo reunido a comunidade, entregaram a epístola. Quando a leram, sobremaneira se alegraram pelo conforto recebido. Judas e Silas, que eram também profetas, consolaram os irmãos com muitos conselhos e os fortaleceram. Tendo-se demorado ali por algum tempo, os irmãos os deixaram voltar em paz aos que os enviaram. Mas pareceu bem a Silas permanecer ali. Paulo e Barnabé demoraram-se em Antioquia, ensinando e pregando, com muitos outros, a palavra do Senhor.

Os que foram enviados para lá eram profetas, que não se limitaram a entregar a carta do concílio, mas ainda se demoraram ali para ensinar e exortar os irmãos. Paulo e Barnabé também ensinavam, junto com “muitos outros”. Esta atitude reforçava entre eles a prática antiga da exortação, que também foi mantida pela igreja de Cristo, e que não devemos abandonar.

O historiador Alderi Matos[4], num artigo para a revista Ultimato, conta que

Os primeiros cristãos eram judeus e por isso o culto da igreja primitiva inspirou-se na liturgia das sinagogas. Nestas, após uma invocação inicial, eram recitados o “Shema” (credo baseado em Dt 6.4-9 e outros textos) e o “Tephilah” (conjunto de orações). A seguir, eram lidas passagens do Pentateuco e dos Profetas, seguindo-se uma exposição do texto. Também eram cantados salmos, especialmente o “Hallel” (113-118). Seguindo esse modelo, o culto cristão original foi extremamente simples, constando de orações, cânticos, leituras do Antigo Testamento e das “memórias dos apóstolos”, exortações pelo dirigente, coletas em prol dos carentes e celebração dos sacramentos, em especial a Ceia do Senhor, ou Eucaristia.

Ele também informa que, lamentavelmente,

[...] Na Idade Média, o culto cristão tornou-se ritualístico e aparatoso, perdendo a simplicidade original. Surgiram práticas desconhecidas dos primeiros cristãos, como o uso de incenso, velas, orações pelos mortos e invocação dos santos e de Maria. A língua utilizada era o latim e o celebrante dava as costas para o povo, o que dificultava a comunicação e a compreensão do culto. O impacto sensorial e emocional da missa era profundo, sendo intensificado pela rica arquitetura e decoração dos templos. No entanto, havia pouca instrução bíblica e limitada edificação espiritual.

O Pr. Alan Kleber[5], da Igreja Presbiteriana de Aracajú, fala do papel fundamental da reforma protestante no retorno e intensificação da prática da exortação nos cultos cristãos:

Martinho Lutero considerava a pregação como a parte central do culto público e colocava a pregação da Palavra até mesmo acima da sua leitura¹. Timothy George descreve assim a contribuição de Lutero para a pregação: Lutero recuperou a doutrina paulina da proclamação: a fé vem pelo ouvir, o ouvir pela palavra de Deus… (Rm 10.17). Lutero não inventou a pregação, mas a elevou a um novo status dentro do culto cristão… O sermão era a melhor e mais necessária parte da missa.

A melhor e mais eficaz maneira de se praticar a exortação é através de reuniões periódicas, e por isso a realização dos cultos semanais é tão importante. Nos cultos semanais nós praticamos a adoração, a comunhão e, de um modo especial, a exortação, pela leitura, interpretação e aplicação da Palavra de Deus.

Hebreus 10.25 diz que não devemos deixar de “[...] congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima”. Isto é, nunca devemos abandonar a antiga prática da exortação.

Conclusão

Estas três práticas antigas: o Amor, a Santificação e a Exortação, eram bem conhecidas dos judeus, e foram mantidas pela igreja de Cristo, que se tornou um instrumento de Deus para espalhar o seu amor pelo mundo, ensinar que todos devem se abster de coisas ilícitas, perseverando na doutrina em constante exortação de uns para com os outros.

Portanto, mesmo que um “novo normal” se estabeleça, conforme a nossa expectativa, conservemos as boas práticas do “velho normal”, de forma que o amor, a santificação e a exortação permitam que a igreja continue a ser a luz do mundo e o sal da terra, até que o Senhor Jesus retorne para nos levar consigo, conforme a sua promessa.

Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, fevereiro de 2021.

(*) Foto do cabeçalho disponível em: Acesso em. https://www.oki.com/pt/printing/about-us/news-room/blog/2020/life_post_pandemic/index.html Acesso em 08 fev. 2021.

(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p

 

[1] BAPTISTA, Douglas Roberto de Almeida. O concílio de Jerusalém e os quatro decretos apostólicos. Disponível em: http://www.cpadnews.com.br/blog/douglasbaptista/o-cristao-e-o-mundo/124/o-concilio-de-jerusalem-e-os-quatro-decretos-apostolicos.html Acesso em 30 dez. 2017. Citando WILLIAMS, David J. Atos. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, p.267.

[2] Dúvidas Espirituais. Disponível em: http://horaluterana.org.br/duvida-espiritual/a-base-da-decisao-dos-apostolos-tomada-no-primeiro-concilio-apostolico-da-igreja-crista-conforme-atos-dos-apostolos-15-pergunto-como-a-igreja-encara-1-comer-sangue-carne-de-animais-sufocados-e-c/ Acesso em 30 dez. 2017.

[3] PERSONA, Mário. O cristão não deve comer sangue? Disponível em: http://www.respondi.com.br/2010/08/o-cristao-nao-deve-comer-sangue.html Acesso em 30 dez. 2017.

[4] MATOS, Alderi Souza de. Liturgia e culto: reflexões à luz das Escrituras e da história cristã. Disponível em: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/322/liturgia-e-culto-reflexoes-a-luz-das-escrituras-e-da-historia-crista Acesso em 31 dez. 2017.

[5] KLEBER, Alan. A Importância da Pregação no Culto Congregacional, citando GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1993, 91-92. Disponível em: http://www.iparacaju.org/2015/08/02/a-importancia-da-pregacao-no-culto-congregacional/ Acesso em 30 dez. 2017.

 

 

sábado, 30 de janeiro de 2021

Certeza da salvação (Atos 15.6-21)

No final de ano de 2020 não pudemos festejar plenamente o Natal e o Ano Novo, por causa da quarentena. Alguns lamentaram, outros comemoraram, alegando que, nesta época de festas, em que se deveriam dar graças e glórias a Deus, o mundo expõe sua pecaminosidade num grau ainda mais elevado. Comem e bebem sem lembrar de orar para dar graças, se embriagam e brigam, se matam no trânsito, fazem festas barulhentas até altas horas, sem considerar os vizinhos. Sim, muitos suspiram nessa hora: “o mundo está mesmo perdido”.

Mas Deus reservou para si um povo que dá graças, que sabe comemorar as bênçãos com alegria santa, que glorifica o seu nome. Como é que podemos identificar quem faz parte do povo de Deus? Como é que podemos saber quem é salvo pela graça?

Esta era a questão que os apóstolos e presbíteros, reunidos em Jerusalém naquele primeiro século da era cristã, examinaram, ao discutirem se os gentios eram salvos pela graça de Deus, ou se precisariam se tornar como judeus, guardando os preceitos de Moisés.

Os argumentos apresentados em favor da salvação pela graça venceram, tendo eles aceitado como evidências as manifestações do Espírito Santo, os sinais e prodígios, e as profecias das Escrituras.

As manifestações do Espírito Santo (6-11)

Então, se reuniram os apóstolos e os presbíteros para examinar a questão. Havendo grande debate, Pedro tomou a palavra e lhes disse: Irmãos, vós sabeis que, desde há muito, Deus me escolheu dentre vós para que, por meu intermédio, ouvissem os gentios a palavra do evangelho e cressem. Ora, Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, concedendo o Espírito Santo a eles, como também a nós nos concedera. E não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé o coração. Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós? Mas cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles o foram.

Pedro defende, em seu discurso, que Deus salvou os gentios independentemente de guardarem os preceitos de Moisés, e apresentou como argumento a manifestação do Espírito Santo, quando pregou, pela primeira vez, aos gentios, na casa de Cornélio.

Alguns acham que a manifestação do Espírito Santo é sempre visível, geralmente através do falar em línguas. Existe um estudo bem aprofundado sobre este assunto disponível no artigo de Sueli Carvalhaes[1] para a revista Estudos da Religião, da PUC SP, destacando momentos da história em que houve manifestações deste tipo:

Jividen (1973:55) registra que as manifestações do falar em línguas extático não se iniciaram com cristãos, mas sim no ano de 1.100 a.C. Após ter oferecido sacrifícios, um jovem adorador do deus Amon ficou possesso e começou a falar freneticamente. Platão também demonstra conhecer o falar em línguas ao descrevê-lo em vários de seus diálogos. A essa "loucura" religiosa ele chamou dádiva divina. A profetisa de Delphos, quando fora de si, podia exercer grande influência benéfica sobre certos indivíduos.

[...] A partir do segundo século, as informações sobre o aparecimento do dom de línguas são vagas. Cabe a Irineu (150 d.C.) o primeiro registro, descrevendo experiências de outras pessoas. Posteriormente aparece o movimento montanista, visando o despertar espiritual da igreja e conquistando inúmeros seguidores como Tertuliano, um dos maiores pensadores do período patrístico.

[...] Depois destes casos, só a partir do século XII surgem outras referências às línguas estranhas. O primeiro relato é o de Pedro Valdo, rico comerciante francês, que reúne os fiéis dispostos a lutar a favor dele, contra o luxo e a opulência do clero romanista. [...] Zuinglio reconheceu a manifestação glossolálica e a interpretou como um dom dado para o crente como um sinal para os não-crentes (JIVIDEN 1973:61). No movimento pietista, nascido na Alemanha em 1666, também existem registros de línguas estranhas. [...] Em 1830 na Escócia, uma jovem de Fernicarry chamada Mary Campbell começou a orar e sentiu poderosamente a presença divina, começando assim a falar em um idioma que não conhecia.

[...] Foi com Charles Parham que a doutrina do batismo do Espírito Santo passou a ser entendida como é hoje, [...] William Joseph Seymour, aluno de Parham, viajou pelos Estados Unidos, ensinando a doutrina do batismo com o Espírito Santo com evidência externa de falar em outras línguas. Apesar de rejeitado pela igreja em que pregava, continuou realizando reuniões nas casas de alguns membros, até o grupo descobrir um prédio disponível na Azuza Street número 312, onde milhares de pessoas tomaram conhecimento do avivamento e foram atraídos para os cultos. (SHERRILL 1969:62-65).

Em nossa igreja, porém, acreditamos, com base em nossa experiência e em minuciosa comparação de textos bíblicos, que a manifestação do Espírito Santo se dá muito mais de forma serena, através do “[...] amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio [...]”, conforme Gálatas 5.22. Ao contrário do falar em línguas, que gera tantas controvérsias, estas manifestações são inequívocas, destacando, entre todos, aqueles que Deus chamou segundo o seu propósito, e os salvou por sua maravilhosa graça.

Os sinais e prodígios (12)

“E toda a multidão silenciou, passando a ouvir a Barnabé e a Paulo, que contavam quantos sinais e prodígios Deus fizera por meio deles entre os gentios.”

Na fala de Barnabé e Paulo, eles enfatizaram que Deus fez por meio deles muitos sinais e prodígios. Isto certamente autenticava a sua pregação, que levou os gentios a crerem em Jesus e serem salvos por sua graça.

Alguns acham que os sinais e prodígios deveriam acontecer, e que acontecem, exatamente como naqueles tempos. Entendemos, porém, em nossa igreja, que a manifestação de sinais e prodígios se deu (e se dará, conforme algumas profecias que ainda hão de se cumprir) em temporadas específicas, como durante o ministério de Jesus e dos apóstolos e, antes disto, no ministério de Moisés, Josué e alguns dos profetas. Naqueles momentos, os milagres eram tão notórios que atraíam grandes multidões, e até desestabilizavam governos.

Argumentando também sobre a sazonalidade dos sinais e prodígios, Cornelius Stam[2] escreveu, num estudo disponível no site da Igreja Quinta do Conde (Portugal), que

[...] Quando estes dons estavam em vigor, os próprios inimigos do Senhor reconheciam a evidência clara dos milagres realizados. Hoje, com as actuais imitações, até os crentes questionam-nos, quanto mais os perdidos! [...] Primeiramente deve ser notado o facto geral de que na história do Velho Testamento as demonstrações miraculosas prevaleceram e predominaram em tempos de grande crise, como por exemplo nos casos de Moisés e Arão e Elias e Eliseu. Sem dúvida que a chamada de Israel ao arrependimento, desde o tempo de João Baptista até Pentecostes, e a oferta de Cristo a Israel para que O aceitassem foi a maior crise na história de Israel até então.

Hoje em dia, assim como nas histórias bíblicas, fora daqueles tempos de crise, os sinais e prodígios de Deus se dão de uma forma mais particular e discreta, em resposta às orações, nos fazendo sentir seguros de que ele nos ama e que vai nos salvar, por sua maravilhosa graça.

As profecias das Escrituras (13-21)

Depois que eles terminaram, falou Tiago, dizendo: Irmãos, atentai nas minhas palavras: expôs Simão como Deus, primeiramente, visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome. Conferem com isto as palavras dos profetas, como está escrito:

Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei. Para que os demais homens busquem o Senhor, e também todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome, diz o Senhor, que faz estas coisas conhecidas desde séculos.

Pelo que, julgo eu, não devemos perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus, mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue. Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados.

Em suas considerações finais no concílio, Tiago argumenta que a salvação pela graça aos gentios confere com as profecias das Escrituras, e associa a conversão dos gentios à profecia de Amós 9.11,12, da qual faz citação.

Uma das coisas que mais aprecio no método de evangelização conhecido como “os sete passos”, é a sua ênfase em que a certeza da salvação deve se basear não nos sentimentos, mas na Palavra de Deus. Esse método tem várias argumentações a respeito da certeza da salvação, com base em versículos como Ap 3.20; Jo 6.37; Jo 5.24 e 1a Jo 5.13.

A dinâmica de Apocalipse 3.20 é impressionante, ao garantir que o simples gesto de abrir a porta para Jesus, que está batendo, possibilita uma comunhão tão íntima com ele, quanto a comunhão que temos com nossos melhores amigos, com quem costumamos compartilhar alegremente as refeições, revezando a hospitalidade.

João 6.37 é um porto seguro para o crente, por causa da afirmação de Jesus de que “todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”

João 5.24 fala da vida eterna como “favas contadas”, com Jesus garantindo: “em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida”

Em 1ª João 5.13 o “discípulo amado” explica por que foi tão importante ele ter escrito aquela carta, com as seguintes palavras: “estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus”.

É verdade que também há muitas passagens bíblicas que poderiam nos deixar inseguros a respeito da salvação, mas isto acontece porque não entendemos e não confiamos em nosso próprio coração, ao respondermos à questão crucial: “eu creio, de verdade?”

No final das contas, tudo está nas mãos do soberano Deus. É assim que Tiago demonstrava crer, ao deixar subentendida a certeza da salvação dos gentios pela graça de Deus, mediante a fé que manifestaram em resposta à pregação dos apóstolos, concordando com Pedro que não havia motivos para perturbá-los, colocando sobre a cerviz dos discípulos gentios um jugo que, historicamente, nem mesmo os judeus podiam suportar.

Apenas por bom senso, Tiago recomendou que se abstivessem “das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue”, porque a sua salvação já estava garantida, com base nas profecias das Escrituras.

Conclusão

O concílio chegou à conclusão de que os gentios eram salvos pela graça do Senhor Jesus, independente de guardarem eles os preceitos de Moisés, aceitando como argumentos as manifestações do Espírito Santo, os sinais e prodígios, e as profecias das Escrituras.

Quanto à lista de quatro recomendações feitas por Tiago, eu creio que ela não deve ser tomada como exaustiva, mas como ilustrativa de que o crente, judeu ou gentio, deve ser criterioso no seu viver, para que seja digno de quem professa ser salvo pela graça do Senhor Jesus. Aqueles que quisessem guardar os preceitos de Moisés, ainda que não fossem obrigatórios para a salvação, que os continuassem aprendendo nas pregações das sinagogas, todos os sábados.

Os sinais que poderiam dar certeza da salvação, os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, e domínio próprio, são aparentemente manifestados também por pessoas que não identificamos como crentes em Jesus Cristo. Então, como poderíamos separar joio de trigo? A salvação não depende de uma vinculação a nenhuma denominação de igreja, nem a nenhuma linha de teologia sistemática, nem mesmo ao cumprimento de determinados preceitos ou ética.

Quer ter certeza da salvação? Nada melhor do que perseverar na graça de nosso Senhor Jesus Cristo, pois não há controvérsias quanto ao fato de que, “aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mateus 24.13).

Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, janeiro de 2021.

(*) Foto do cabeçalho disponível em: https://reacaoadventista.com/2018/12/22/o-que-o-concilio-de-jerusalem-atos-15-nos-ensina/ Acesso em. 30 jan. 2021.

(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

[1] CARVALHAES, Sueli Aparecida Cardozo. Glossolalia: O dom includente do Espírito Santo. Revista de Estudos da Religião junho / 2010 / pp. 42-61. Disponível em: http://www.pucsp.br/rever/rv2_2010/t_carvalhaes.pdf  Acesso em 25 dez. 2017, citando: HOEKEMA, Anthony. 2002. Salvos Pela Graça. São Paulo: Cultura Cristã; JIVIDEN, Jimmy. 1973. Glossolalia: De Deus ou de Homem?. Ft. Worth: TX, Star Bible Publications; SHERRILL, John L. 1969. Eles Falam em Outras Línguas. Tradução de João Marques Bentes, revisão Gordon Chown, São Paulo, Sociedade Evangélica Betania.

[2] STAM, Cornelius R. A falácia do pentecostalismo. Disponível em: http://www.iqc.pt/edificacao/ensino/dispensacional/6605-a-falacia-do-pentecostalismo Acesso em 26 dez. 2017.

 

domingo, 20 de dezembro de 2020

Qual é a sua vocação? (Atos 15.1-5)


Quando um jovem vai escolher qual faculdade cursar, aconselha-se fazer, antes, um teste vocacional, para diminuir o risco de escolher um curso com o qual não se dê muito bem. Assim como os indivíduos, as instituições também têm suas vocações, que têm como base o ideal dos fundadores e dos seus próprios membros.

Jesus Cristo é o fundador da igreja, e seus membros que, não à toa, são chamados de cristãos[1], procuram imitar o seu Mestre. Se fôssemos aplicar, então, um teste vocacional à igreja hoje, qual seria o resultado?

Este parágrafo de Atos 15.1-5 mostra o andar de uma igreja jovem, que caminhava para o amadurecimento. Suas vocações, porém, são as mesmas que identificam as igrejas de um modo geral, ainda hoje.

Uma igreja vigilante (1,2)

Alguns indivíduos que desceram da Judeia ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos. Tendo havido, da parte de Paulo e Barnabé, contenda e não pequena discussão com eles, resolveram que esses dois e alguns outros dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, com respeito a esta questão.

A primeira vocação vista neste parágrafo é a que identifica a igreja como vigilante, atenta ao que está sendo ensinado, se está de acordo com a sã doutrina, repelindo aproveitadores que desejam explorar a boa fé, ou que distorcem a Palavra por motivo de ignorância.

Foi por causa desta vocação de vigilância que Paulo e Barnabé contestaram os indivíduos que desceram da Judeia, os quais, com ensinos supostamente bíblicos, mas fora do contexto da Nova Aliança estabelecida em Cristo, acabaram gerando grande discussão que precisou ser tratada com disciplina, até ao ponto de terem que subir a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, para tratar da questão.

É comum, ainda hoje, nas igrejas, a atuação de pregadores que, por má fé ou por ignorância, levantam-se para trazer doutrinas e aplicações equivocadas, ignorando total ou parcialmente o contexto dos versículos bíblicos, os quais citam com tanta veemência.

Quando falamos de ignorância, na visão do escritor português Arménio Miranda[2], ela pode ser classificada em três tipos:

Ignorância positiva

[...] é a ignorância dos sábios. A Ignorância daqueles que sabem que pouco sabem daquilo que podem saber, porque sabem que entre o mundo absoluto e inatingível de Deus e o mundo efémero dos homens ainda existe outro mundo ao seu alcance – o mundo ignorado, o mundo ignoto. [...] têm a humildade de ostentar a sua Ignorância e de se questionar, questionar os outros e gostar de ser questionado [...]

Ignorância negativa

[...] A Ignorância daqueles que têm uma necessidade paranoica de ter sempre razão. [...] A nossa Ignorância é Negativa quando não assumimos que somos ignorantes e a ostentamos com prepotência, recusando-nos a questionarmo-nos, a questionar os outros e irritando-nos quando somos questionados. Quando temos poder, impomo-la. [...] A sua especialidade está em criar problemas para as soluções [...].

Santa Ignorância

A ignorância dos mais conformados e felizes. Desconhecem os perigos mais iminentes que estão nas mãos dos seus semelhantes. [...] É a Ignorância dos felizes. [...] Como é bom desconhecer que um dia o nosso planeta pode ficar estéril com uma catástrofe provocada pelo Homem. A Santa Ignorância é aquela que faz as pessoas mais felizes: não sabem, não procuram saber e admiram-se ou não se importam com quem sabe.

Paulo sempre incentivou a igreja a ser vigilante e lutar contra a ignorância, alertando sobre estas coisas em suas cartas, como nos trechos de Colossenses 2.4-18 reproduzidos abaixo:

[...] ninguém vos engane com raciocínios falazes [...], conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo; [...] Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo [...].  Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, [...] Ninguém se faça árbitro contra vós outros, pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado, sem motivo algum, na sua mente carnal [...].

Se a igreja se mantiver vigilante, examinando as Escrituras a exemplo dos bereanos (Atos 17.11), se protegerá da ignorância e se edificará de forma sadia para a glória de Deus.

Uma igreja alegre (3)

Enviados, pois, e até certo ponto acompanhados pela igreja, atravessaram as províncias da Fenícia e Samaria e, narrando a conversão dos gentios, causaram grande alegria a todos os irmãos.

O melhor caminho da Síria para a Judeia passava pela Fenícia e Samaria, mas o trecho que passa por Samaria era evitado pela maioria, já que os judeus não se davam com os samaritanos, conforme é dito em João 4.9. Para aqueles discípulos, porém, as fronteiras entre a Judeia, Samaria e Gentios estavam revogadas em Cristo. Chegara o dia, mencionado pelo Senhor, em que os verdadeiros adoradores adorariam a Deus em espírito e em verdade (João 4.23).

E eles verdadeiramente adoraram a Deus, tanto na província da Fenícia como em Samaria, demonstrando a vocação de uma igreja alegre, onde não havia mais lugar para o preconceito. Todos podiam se alegrar juntos pela conversão dos gentios, unidos agora com judeus e samaritanos.

A alegria às vezes vem facilmente, mas outras vezes precisa ser, digamos, meio “forçada”. Foi o que aconteceu com os exilados que voltaram para sua terra no tempo de Esdras e Neemias, quando se reuniram para ouvir a Palavra de Deus:

Neemias, que era o governador, e Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas que ensinavam todo o povo lhe disseram: Este dia é consagrado ao SENHOR, vosso Deus, pelo que não pranteeis, nem choreis. Porque todo o povo chorava, ouvindo as palavras da Lei. Disse-lhes mais: ide, comei carnes gordas, tomai bebidas doces e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do SENHOR é a vossa força. Os levitas fizeram calar todo o povo, dizendo: Calai-vos, porque este dia é santo; e não estejais contristados. Então, todo o povo se foi a comer, a beber, a enviar porções e a regozijar-se grandemente, porque tinham entendido as palavras que lhes foram explicadas (Neemias 8.9-12).

Este cenário até se parece com nossas celebrações de Natal, não é mesmo? Às vezes é difícil ser alegre quando temos tantas lembranças tristes. Mas na igreja, seja de maneira espontânea, seja com um pouco de esforço, é preciso que nos ajustemos a esta vocação, e nos alegremos na presença daquele que nos concedeu salvação.

Uma igreja conciliadora (4,5)

Tendo eles chegado a Jerusalém, foram bem recebidos pela igreja, pelos apóstolos e pelos presbíteros e relataram tudo o que Deus fizera com eles. Insurgiram-se, entretanto, alguns da seita dos fariseus que haviam crido, dizendo: É necessário circuncidá-los e determinar-lhes que observem a lei de Moisés.

Este evento em Jerusalém é considerado o primeiro concílio da Igreja. Este e outros concílios na história foram promovidos como uma forma de se resolverem dúvidas doutrinárias importantes como, por exemplo, os livros que deveriam compor o cânon da Bíblia, a divindade de Cristo, e a Santíssima Trindade.

Mas os concílios, cujos objetivos são estabelecer doutrinas para o bem da união, não são capazes de impedir as divisões. Nestes cerca de dois mil anos, houve pelo menos duas grandes divisões, que foram o Cisma, em 1054, e a reforma protestante em 1517.

Entre os que seguiram o movimento da Reforma foram evidenciadas outras subdivisões, entre Zuínglio e Lutero, calvinistas e arminianos, Batistas e Presbiterianos, Anglicanos e Puritanos, Metodistas, pentecostais e tradicionais, e nos tempos atuais o fracionamento é praticamente a regra.

Já ouvi um jovem de uma igreja pentecostal se referindo aos irmãos das demais igrejas como “samaritanos”. E já ouvi muitos jovens de igrejas chamadas reformadas se dirigindo aos irmãos de igrejas pentecostais como hereges. Um grande debate, hoje, divide os crentes evangélicos em arminianos e calvinistas. Há também irmãos que nunca ouviram falar nada disto.

As igrejas precisam constantemente ser lembradas de que podemos debater nossas ideias sem sermos preconceituosos, considerando que os irmãos que defendem o outro ponto de vista merecem nosso respeito, principalmente ao reconhecermos que os concílios não conseguem conciliar tudo.

Batistas e Presbiterianos, por exemplo, apesar de serem bem próximos na forma de culto e de doutrina, trazem em suas origens profundas diferenças, como ressalta Vernon C. Lyons[3]:

Um evento de grande importância, mas muitas vezes não lembrado, é o Segundo Concilio de Speier no dia 25 de abril de 1529. [...] Phillip Schaaf, em sua "História da Igreja Cristã," Tomo VII, p. 692 afirma que "A partir deste protesto e apelo os Luteranos foram chamados ‘Protestantes.’[...]." Os Batistas de então não fizeram parte deste protesto e consequentemente não podem levar o nome "Protestante" [...] Além disso, o credo dos Batistas não é a Confissão de Augsburg, os Canons de Dort, ou a Confissão de Westminster, mas a simples Palavra de Deus. Assim é impossível identificar os Batistas como Protestantes.

Estas diferenças entre as várias vertentes de doutrinas cristãs, no entanto, não anulam a possibilidade do amor e da comunhão, numa igreja que é conciliadora.

Conclusão

Apesar de existirem problemas, a igreja atual ainda mantém estas vocações, sendo vigilante, alegre e conciliadora. As divisões que existem, em parte, se devem ao fato de termos uma liberdade em Cristo, a qual não permitimos que seja sequer sondada. Por isto somos vigilantes, não aceitando que sufoquem a nossa alegria da salvação, querendo impor regras humanas como condicionantes para o favor de Deus. Cremos no Senhor Jesus, e por isto somos salvos.

Neste Natal, vamos nos alegrar, porque Jesus nasceu, morreu na cruz e ressuscitou. O Filho de Deus veio ao mundo e, pela sua graça, nos salvou. O Espírito Santo habita em nós, ele garante a nossa conciliação, primeiro com Deus e, consequentemente, com todos os que o amam. E sejamos vigilantes, tanto para evitar falsos ensinos, quanto para nos vermos livres das “ciladas do diabo” (como diz em Efésios 6.11).

Quando se trata da escolha de uma profissão, somos aconselhados a seguirmos a indicação do teste vocacional. Quanto ao chamado de Deus, porém, vamos seguir o conselho de São Pedro: “[...] procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum” (2ª Pedro 1.10).

Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, dezembro de 2020.

(*) Foto do cabeçalho disponível em: https://www.zedge.net/wallpaper/c57ea0d5-49e9-3c12-847b-66306e60d730 Acesso em. 20 dez. 2020.

(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

[1] Na época em que o termo “cristãos” foi criado, era como contemporâneo termo “minions” que se atribui hoje, pejorativamente, aos seguidores de algum líder a quem se quer criticar.

[2] MIRANDA, Arménio. Ignorância – Apologia da Ignorância Positiva. Portugal: Liríope Editora, 2012 P. 25-29.

[3] LYONS, Vernon C.Tradução por MONTGOMERY, Steve. Batistas não são protestantes. Igreja Batista Independente de Ourinhos, SP, nov. 2000. Disponível em: http://solascriptura-tt.org/EclesiologiaEBatistas/BatistasNaoSaoProtestantes-Lyons.html Acesso em 24 dez. 2017.

 

domingo, 13 de dezembro de 2020

A porta da fé (Atos 14.19-28)

 


Nossa vida pode se transformar quando uma porta se abre. Pode ser a porta de um emprego, de um curso superior, de uma amizade... 

Paulo, Barnabé, e toda a igreja se regozijaram porque o Senhor havia aberto a porta da fé aos gentios. Alegraram-se mais ainda porque Deus fez isso através deles, dando-lhes as chaves. 

Podemos dizer que foram três as chaves usadas pelos apóstolos para abrirem a porta da fé aos gentios.

Chave da coragem (19-21)

Sobrevieram, porém, judeus de Antioquia e Icônio e, instigando as multidões e apedrejando a Paulo, arrastaram-no para fora da cidade, dando-o por morto. Rodeando-o, porém, os discípulos, levantou-se e entrou na cidade. No dia seguinte, partiu, com Barnabé, para Derbe. E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia, [...]

Barnabé presenciou, impotente e atônito, seu companheiro de ministério ser apedrejado por uma multidão enfurecida, até que, dando-o por morto, o arrastaram para fora da cidade. Não sabemos se foi um erro de avaliação por parte dos executores, ou se Paulo, de fato, morreu, tendo ressuscitado quando os discípulos o rodearam. Há teorias que afirmam ser este o momento em que ele foi ao “terceiro céu” e “ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir” (2ª Coríntios 12.2,4).

Como é que Paulo e Barnabé tinham tanta coragem, a ponto de tornarem a entrar nas cidades onde sofreram tamanha violência? É verdade que, quanto mais próximos de Deus, tanto mais corajosos os homens costumam ser. Não é só uma questão de ter presenciado eventos milagrosos, porque nós somos muito rápidos em esquecê-los. Somos parecidos com os discípulos, que assistiram uns dos maiores milagres da história, como os narrados em Marcos 6. 44-52:

Os que comeram dos pães eram cinco mil homens. Logo a seguir, compeliu Jesus os seus discípulos a embarcar e passar adiante para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidão. E, tendo-os despedido, subiu ao monte para orar. Ao cair da tarde, estava o barco no meio do mar, e ele, sozinho em terra. E, vendo-os em dificuldade a remar, porque o vento lhes era contrário, por volta da quarta vigília da noite, veio ter com eles, andando por sobre o mar; e queria tomar-lhes a dianteira. Eles, porém, vendo-o andar sobre o mar, pensaram tratar-se de um fantasma e gritaram. Pois todos ficaram aterrados à vista dele. Mas logo lhes falou e disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais! E subiu para o barco para estar com eles, e o vento cessou. Ficaram entre si atônitos, porque não haviam compreendido o milagre dos pães; antes, o seu coração estava endurecido.

Eles viram os milagres, mas não os compreenderam, e por isto lhes faltou a coragem, tantas vezes! Sabedor destas coisas, Jesus lhes falou palavras encorajadoras, na véspera de sua crucificação: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16.33). A coragem dos discípulos, embora não tenha se mostrado nos terríveis momentos que se seguiram, veio mais tarde, testemunhada pelas próprias autoridades que, “ao verem a intrepidez de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, admiraram-se; e reconheceram que haviam eles estado com Jesus” (Atos 4.13).

Abrir a porta da fé, para que outros a conheçam, exige coragem. Este é um dos motivos pelos quais pouquíssimos crentes escolhem ser missionários. Não é o caso de se dizer que os missionários sejam isentos quanto aos temores que todos nós temos. A diferença entre os que decidem atender ou não ao chamado missionário é tão pequena quanto o alcance de um passo apenas. O pastor e missionário Cássio Silva[1] compartilha sua experiência de que

Nosso maior desafio no campo missionário não é aprender línguas complexas, compreender culturas exóticas, nos adaptar a ambientes para nós desconfortáveis, mudar hábitos e gostos alimentares, morar em palhoças ou casebres, embrenhar por florestas traiçoeiras, navegar por rios inóspitos ou peregrinar por desertos causticantes. Também não é encontrar espaço em sociedades pós-modernas, comunicar uma mensagem religiosa para mentes secularizadas, sermos rechaçados como retrógrados, tidos como inconvenientes e discriminados como supersticiosos. Nosso maior desafio no campo missionário é, sim, enfrentar as mazelas da nossa alma, encarar a feiura do nosso próprio coração, romper com as amarras que nos prendem, guardar o coração da vaidade frente aos elogios, do abatimento frente às críticas, do descontentamento frente às frustrações, amar o colega de equipe, amar o povo ao qual servimos, sermos mais servos e menos senhores, mais amigos e menos patrões, mais tolerantes e menos exigentes. Sem a graça, esse é um desafio inatingível e talvez por isso mesmo o Senhor nos chama para estar com Ele.

A coragem não costuma ser inflexível, mas oscilante. Até mesmo Paulo, o herói de nossa história, precisava de alguma exortação, de vez em quando, como a de Atos 23.11, em que “[...] o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma”.

Sem a chave da coragem, não é possível abrir aos outros porta da fé.

Chave do amor (22-25)

[...] fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus. E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido. Atravessando a Pisídia, dirigiram-se a Panfília. E, tendo anunciado a palavra em Perge, desceram a Atália [...]

Além da coragem, o que levou os apóstolos a voltarem àquelas cidades, expondo-se ao risco de serem novamente tratados com violência, foi o amor pela alma dos discípulos, que precisava ser fortalecida, ainda depois de assistirem o linchamento de Paulo, por estar propagando o evangelho. Não era tempo de se lamentar, mas de pôr em prática o amor paternal, deixando tudo em ordem antes da partida para a próxima missão.

O amor aqui exemplificado foi, certamente, uma das chaves que abriu a porta da fé aos gentios. Paulo revela, numa carta emocionada aos coríntios, o quanto um amor como este amor é capaz de suportar:

Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez. Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas. Quem enfraquece, que também eu não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me inflame? (2ª Coríntios 11.24-29).

Ele mesmo explica, em 2ª Coríntios 5.14, a motivação desse amor: “[...] Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram”. E não podia ser diferente, “porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). E, no final das contas, “nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1ª João 4.19).

Deste modo, fica claro que o amor é uma das chaves que abriu a porta da fé aos gentios, e a tem mantida aberta para todo o que crê no Filho unigênito de Deus.

Chave da oração (26-28)

[...] e dali navegaram para Antioquia, onde tinham sido recomendados à graça de Deus para a obra que haviam já cumprido. Ali chegados, reunida a igreja, relataram quantas coisas fizera Deus com eles e como abrira aos gentios a porta da fé. E permaneceram não pouco tempo com os discípulos.

Finalizando a primeira viagem, os apóstolos dos gentios voltaram à sua base, que era Antioquia da Síria, “onde tinham sido recomendados à graça de Deus para a obra que haviam já cumprido”, e onde, com toda a certeza, oravam insistentemente pelo seu ministério. Paulo sabia que a oração era uma das chaves que abriria a porta da fé aos gentios, e por isto pedia frequentemente que orassem, como em Efésios 6.18-22:

[...] com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo. E, para que saibais também a meu respeito e o que faço, de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor. Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito, e ele console o vosso coração.

Quando um missionário volta para sua base, tem a oportunidade de renovar as suas forças, receber encorajamento e atualizar pessoalmente as informações para que os intercessores possam orar com maior entendimento.

O missionário e professor Thiago Ishy, num artigo publicado no site do Instituto Bíblico Peniel[2], situa a questão da oração da seguinte forma:

[...] Frequentemente me deparo com pessoas que gostariam de investir mais em Missões. A maioria destas associa seu investimento apenas com o suporte financeiro por meio de ofertas missionárias. É claro que este tipo de investimento também faz parte da obra de evangelização dos povos. Entretanto, quando estudamos a Palavra de Deus percebemos que além dos recursos financeiros a obra missionária depende primordialmente da oração. [...] Ore, preferencialmente, de maneira específica, ou seja, lembre-se dos missionários por seus nomes pessoais e de toda a sua família. Sei que é uma tarefa árdua lembrar-se de tantos missionários conhecidos, mas não se esqueça de que a oração exige compromisso. Alguns anos atrás eu notei na mesa de refeição de um casal uma pequena caixa com vários cartões de oração dos vários missionários que eles conheciam. Toda refeição eles retiravam um desses cartões e oravam por aquele missionário ou família. Essa pode ser uma boa ideia. [...] Orar por Missões é também orar por nossa igreja local. Orar acima de tudo por um reavivamento na Palavra. Que as Escrituras possam ensinar, exortar e educar cada membro para a glória de Deus!

Conclusão

A coragem, o amor e a oração foram as chaves que abriram a porta da fé aos gentios. Estas chaves foram utilizadas por Paulo, Barnabé e ainda têm sido utilizadas por toda a igreja, que tem se multiplicado no decorrer de milênios, no poder do Espírito Santo.

A porta da fé ainda está aberta para quem quiser entrar. A fé no Senhor Jesus Cristo nos dá a certeza da vida eterna, e de uma vida melhor ainda neste mundo, na medida em que nos dá sabedoria e fortalecimento no meio das aflições do presente, comuns a todos os homens. Quando entramos pela porta da fé, entendemos que também precisamos abrir uma porta em nosso próprio coração, para que Jesus, por intermédio do Espírito Santo, esteja conosco todos os dias, em todos os momentos.

Ele diz em Apocalipse 3.20: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo”.

Artigo elaborado por: Arildo Louzano da Silveira. São José do Rio Preto, dezembro de 2020.

(*) Foto do cabeçalho: Dominic Walter. disponível em: https://www.idealista.pt/news/imobiliario/internacional/2018/05/23/36321-as-20-portas-mais-impressionantes-do-mundo Acesso em. 13 dez. 2020.

(**) Citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

 


[1] SILVA, Cácio. O chamado missionário. Grupo Povos e Línguas (originalmente publicado na Revista Alcance, da APMT). Disponível em: https://portal.povoselinguas.com.br/artigos/vida-missionaria/o-chamado-missionario/ Acesso em 08 dez. 2020.

[2] ISHY, Thiago. Como orar por missões. Site do Instituto Bíblico Peniel, 07/03/2016. Disponível em: http://institutobiblicopeniel.org.br/como-orar-por-missoes/ Acesso em 29 nov. 2017.