sábado, 18 de março de 2017

Ambiente de Salvação (Atos 3.1-10)


A salvação estava alcançando milhares, em Jerusalém. Jesus, o Salvador, deixou aos seus apóstolos a missão de anunciar que a salvação havia chegado. Salvação que não era para todos, mas somente para aqueles que a desejassem de todo o coração.

A leitura desse parágrafo de Atos me lembrou uma parábola que Jesus contou em Lucas 14.15-24, onde certo homem deu uma grande ceia e convidou muitos, mas quando enviou o seu servo para reunir os convidados, estes começaram a dar desculpas. Um falou que comprou um campo e precisava vê-lo; outro disse que comprou cinco juntas de bois e tinha que experimentá-las; outro disse que não podia ir porque tinha acabado de se casar. Então, irado, ele mandou o seu servo sair depressa para as ruas e becos da cidade e trazer os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. É uma pena para quem rejeitou ir à festa daquele homem, porque o mesmo representa Deus chamando as pessoas para seu ambiente de salvação. Aqui em Atos nós encontramos uma possível aplicação daquela parábola, uma história real, contando a maneira como a salvação atingiu um homem, coxo de nascença. Ele foi avançando, adentrando num ambiente de salvação, como se estivesse entrando na festa da parábola de Jesus. A entrada do homem coxo nesse ambiente de salvação se deu através de pelo menos quatro passos:

Primeiro passo: Tornou-se candidato à salvação por estar cumprindo o seu dever (1,2)

Pedro e João estavam subindo ao templo para a reunião de oração da hora nona. O homem, coxo de nascença, era levado e posto diariamente à porta do templo conhecida como Formosa, e ali pedia esmola aos que entravam.

Os judeus zelosos costumavam reservar alguns momentos no decorrer do dia para se dedicarem à oração. Daniel, por exemplo, “três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus” (Daniel 6.10). O salmista já cantava em Salmos 55.17: “À tarde, pela manhã e ao meio-dia, farei as minhas queixas e lamentarei; e ele ouvirá a minha voz”. O Senhor Jesus, mesmo estando na cruz, clamou a Deus com a mais profunda dor do seu coração, por volta da preciosa hora nona, como podemos ler em Mateus 27.46.

Os dois apóstolos, zelosos judeus, estavam no cumprimento de seu dever, indo ao templo para a oração da hora nona, e pelo caminho encontravam outros que também estavam cumprindo o seu dever. Homens como o gentio Cornélio que, de acordo com Atos 10.30, tornou-se candidato a ouvir o evangelho da salvação quando observava a mesma hora nona de oração em sua casa. Homens como aquele coxo que era impedido de entrar no templo para orar, mas diariamente cumpria o seu dever de se assentar à porta para pedir esmolas. Devia estar orando em seu íntimo quando chamou a atenção de Pedro e João, que o identificaram como um legítimo candidato à salvação.

Segundo passo: Tornou-se aberto à salvação quando olhou para aquele que podia ajudá-lo (3-5)

Prestes a entrar no templo, os apóstolos ouviram a súplica daquele que lhes implorava uma esmola. “Pedro, fitando-o, juntamente com João, disse: Olha para nós” (v.4). Imagino o homem coxo olhando atentamente para Pedro e João, esperando receber alguma esmola, com uma atitude de humildade, de quem estava numa condição miserável, procurando quem pudesse lhe ajudar.

O gesto de olhar para os apóstolos era muito mais do que uma mera visualização. Sendo os apóstolos mensageiros da salvação em Cristo, o gesto de olhar para eles abriu o caminho daquele homem para a salvação. Jesus disse em Mateus 6.22 que os olhos são a “lâmpada do corpo”. Na conversa que teve com Nicodemos (João 3.14), o Mestre revelou que se tornaria como a serpente de bronze no deserto, pois na direção desta, levantada por Moisés para salvar os que eram picados por serpentes venenosas, deveria olhar todo o que se reconhecesse necessitado de salvação (Números 21.9). Assim os pecadores arrependidos devem olhar para Jesus, com uma fé semelhante à de Abraão que, quando Deus o mandou olhar para as estrelas do céu, creu que o Senhor faria igualmente numerosa a sua posteridade, e a sua fé lhe foi imputada para justiça (Gênesis 15.5; Romanos 4.3). Algumas pessoas, por outro lado, perdem a vida porque não conseguem controlar o seu olhar, como foi o caso da mulher de Ló, convertida numa estátua de sal (Gênesis 19.26). Samuel precisou reformular a maneira como olhava para as pessoas, e aprendeu isso quando foi à casa de Jessé para escolher um rei, e à primeira vista se encantou com a beleza do porte de Eliabe, ao que o Senhor lhe disse: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração” (Gênesis 16.6,7).

A maioria dos homens de hoje fecha os olhos para a realidade da presença de Deus, como criticou Isaías: “Liras e harpas, tamboris e flautas e vinho há nos seus banquetes; porém não consideram os feitos do SENHOR, nem olham para as obras das suas mãos” (Isaías 5.12). Eles deveriam orar como no Salmo 119.18: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei”. Deus anunciou em Zacarias 12.10 que algumas pessoas um dia “olharão para aquele a quem traspassaram” com “espírito de graça e de súplicas”, e “chorarão por ele como se chora amargamente pelo primogênito”.

Somos todos aconselhados pelo Senhor em Apocalipse 3.18 a tratar de nossa deficiência visual: “Aconselho-te que de mim compres [...] colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas”.

A maneira como olhamos a vida pode nos transformar em pessoas abertas ao recebimento da salvação.

Terceiro passo: tornou-se beneficiário da salvação quando creu e começou a caminhar em nome de Jesus (6-8)


Pedro lhe disse: “Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!” (v.6). Tomou o coxo pela mão direita e o levantou. Seus pés e tornozelos se firmaram instantaneamente. De pé num salto, “passou a andar e entrou com eles no templo, saltando e louvando a Deus”.

O que Pedro fez na realização da cura do homem foi o que Jesus costumava fazer: dava tarefas aos doentes que curava, talvez para que tivessem a oportunidade de demonstrar a sua fé, como em Marcos 2.11: “Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa”, em João 5.8: “Levanta-te, toma o teu leito e anda”, ou em João 9.7: “Vai, lava-te no tanque de Siloé”, e também em Lucas 17.12-14: “Ide e mostrai-vos aos sacerdotes”. Todos os que recebem a Salvação em Jesus devem corrigir o seu andar, conforme Colossenses 2.6: “Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele”, e em 1 João 2.6: “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou”.
Se o coxo não tivesse crido, se não tivesse levantado e começado a andar em nome de Jesus, não teria se tornado beneficiário da salvação. Notemos que sua primeira atividade como homem curado foi honrar a Deus, entrando no templo, saltando e louvando.

Quarto passo: Tornou-se proclamador da salvação quando tributou louvores a Deus (9,10)

Todo mundo que estava no templo viu o homem andando e louvando a Deus, e reconheceram todos que era o mesmo que antes esmolava assentado à Porta. Isso fez com que eles se enchessem de admiração e assombro.

Quem é salvo pela graça de Deus, como foi o caso do homem coxo, não pode deixar de proclamar o que lhe aconteceu. Hebreus 13.15 nos exorta para que, “por meio de Jesus, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome”. Podemos fazer como o salmista que resolveu: “Bendirei o SENHOR em todo o tempo, o seu louvor estará sempre nos meus lábios” (Salmos 34.1). Adotando essa atitude, segundo Salmos 40.3, “muitos verão essas coisas, temerão e confiarão no SENHOR”. Antes que o louvor cheque à nossa boca, ele passa pelo nosso coração, e por isso Filipenses 4.8 insiste: “[...] se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”.

Há outras formas de louvar além de cantar e orar, como sugere Filipenses 1.11, quando Paulo ora para que a igreja fique cheia “do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus”. Por essa declaração entendemos que os frutos de justiça, as boas obras praticadas por aqueles que são salvos pela graça de Deus, o glorificam e o louvam. Uma vida de fé, superando em Cristo todas as dificuldades que envolvem o ato de viver, pode louvar a Deus, como deseja 1 Pedro 1.7 a seus leitores, “para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo”.

Conclusão

Você já entrou nesse ambiente de salvação que Deus lhe preparou? Se você é um cumpridor de seus deveres, se está procurando fazer a sua parte, se não está desprezando o chamado de Deus, como fizeram os homens da parábola daquela festa, então você é um candidato à salvação e precisa tornar-se aberto, olhar para Jesus, tal qual se revela na Bíblia, porque ele é o único que pode te dar salvação. Se você crê e recebe, se torna beneficiário da salvação e passa a caminhar nos passos de Jesus. Você vai se alegrar com a salvação que lhe foi dada, e em meio aos louvores se tornará num proclamador da salvação, pelo seu modo de viver, e pelas suas palavras.

terça-feira, 7 de março de 2017

Uma Igreja de Sucesso (At 2.42-47)


Você já deve ter ouvido a história de alguém que fez sucesso na sua carreira. Todos os que eu conheço têm uma história empolgante para contar. Muitos tiveram uma vida muito sofrida, mas conseguiram vencer por causa de sua persistência. A Igreja de Cristo é o exemplo supremo de uma história de persistência. A Igreja inicial, conhecida como a Igreja Primitiva, era uma comunidade persistente, perseverante nas boas práticas. Nesse parágrafo podemos identificar pelo menos três boas práticas nas quais a igreja perseverava, e que são o segredo do seu sucesso: Perseverança no culto; perseverança no amor; perseverança no testemunho.

Primeira boa prática: Perseverança no culto (42,43)

Os discípulos que se converteram no dia de Pentecostes adotaram um estilo de vida que lhes fazia bem e que agradava a Deus. Dentre as boas práticas que adotaram, estava a perseverança nos cultos. Isso significa que perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão (seguramente uma referência à ceia do Senhor) e nas orações. Tudo isso porque em cada alma havia temor, e em reverência prestavam culto regularmente, com todos os elementos litúrgicos, e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Esse modelo de culto aqui revelado nos faz refletir sobre a importância da presença de cada um desses elementos litúrgicos mencionados:

a) A doutrina dos apóstolos

Todo culto deve ter doutrina, deve ter ensino da Palavra de Deus. Às vezes queremos fazer um culto diferente, só com músicas, só com testemunhos, só com oração, só com teatros e jograis. Acredito que isso seja aceitável uma vez ou outra, de preferência num culto extra, que não seja no principal, do domingo. Porque o ensino da Palavra é essencial para que sejamos exortados a viver de modo agradável ao Senhor. O tempo em que a palavra é pregada nos cultos é tão pequeno, comparado com a quantidade de horas de outras atividades na semana, que por isso mesmo deve ser muito bem aproveitado. O pregador deve certificar-se de que está realmente pregando a Palavra, uma vez que o tempo é precioso e não deve ser desperdiçado com discursos vazios, mesmo que sejam interessantes.

b) A comunhão

A comunhão é inerente aos cultos. Quando nos ajuntamos, trocamos cumprimentos, contamos as novidades, compartilhamos experiências. É fácil ter comunhão nos cultos. É natural. Mas não devemos nos esquecer que a comunhão deve ser praticada entre todos, e não somente com as pessoas com as quais temos maior afinidade. É necessário maior esforço para conversar e mostrar interesse para com as pessoas que não conhecemos, que estão visitando a igreja pela primeira vez, que são de difícil relacionamento, seja por causa da timidez, seja por causa da altivez.

c) O partir do pão (a Ceia do Senhor)

O partir do pão, termo que designa também a Ceia do Senhor, é uma ordem expressa de Jesus, para que nos lembrássemos da nova aliança selada com o seu corpo e com o seu sangue. Parece que a Ceia era celebrada em todos os ajuntamentos, mas por muitos motivos, no decorrer da história, as igrejas têm variado a frequência dessa celebração para uma vez na semana, uma vez ao mês, quinzena ou ano. Jesus apenas mandou que fizéssemos isso “todas as vezes” (1 Coríntios 11.25) em memória dele.

d) A oração

A oração, é óbvio, não pode faltar no culto. Afinal, é a maneira de nos comunicarmos com Deus, a quem prestamos culto. Uma oração pública é diferente de uma oração particular, assim como uma conversa particular é diferente de uma manifestação em uma reunião. Quando oramos publicamente, devemos considerar que estamos falando com Deus na presença de outros irmãos e, assim, é necessário sermos educados, medir as palavras, pronunciar de forma alta e clara de forma que todos possam avaliar o que dissemos e dar o seu “amém”, caso concordem.

O Senhor fazia muitos prodígios e sinais por intermédio dos apóstolos. Hoje nós não os temos conosco e Deus poderá fazer o mesmo por intermédio de quem julgar conveniente e necessário. Nesse ponto um alerta se faz apropriado: são os frutos de um profeta que o identificam como verdadeiro servo do Senhor, e não os prodígios e sinais. Muitos milagres são feitos por pessoas que praticam a iniquidade, conforme Mateus 7.22,23.

Segunda boa prática: Perseverança no amor (44,45)


Os primeiros crentes procuravam estar sempre juntos e, para que isso fosse possível na prática, consideravam tudo o que tinham como bens comuns. De maneira especial, os que ficaram em Jerusalém abandonaram suas terras e suas fontes de renda e até que se readaptassem à vida urbana era necessário grande apoio. Por isso, emprestavam suas casas, suas camas, seus jumentos, suas ferramentas de trabalho, repartiam o alimento. Se precisassem de dinheiro, não hesitavam em vender as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos. Era uma nova comunidade, unida por sua fé no Messias ressuscitado.

Essa boa prática do amor tem sido exercitada tradicionalmente em todas as comunidades cristãs. Quer saber se uma comunidade é verdadeiramente cristã? A fórmula foi ensinada pelo Senhor Jesus: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13.35). E o próprio João, que anotou essas palavras do Mestre, ensina em sua primeira carta geral: “Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1 João 3.18).

Terceira boa prática: Perseverança no testemunho (46,47)

A população testemunhava que os primeiros discípulos perseveravam diariamente e unânimes em cerimônias no templo, bem como “partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus”. Essa prática devota dos novos discípulos era um bom testemunho, de maneira que contavam com a simpatia de todo o povo. Muitos dos que testemunhavam sua boa prática foram atraídos, queriam também ser participantes dessa humilde e alegre comunidade, pelo que o Senhor acrescentava-lhes, dia a dia, os que iam sendo salvos.

Antigamente, no Brasil, era mais fácil identificar um crente. Ele era aquela figura que passava todos os domingos em frente à nossa casa, com um livro de capa preta debaixo dos braços, acompanhado de sua família. Hoje é um pouco mais difícil reconhecê-los, porque os crentes deixam uma bíblia na igreja e outra em casa, isso quando não a carregam em arquivo digital no seu celular. Mas ainda assim a comunidade cristã pode ser facilmente identificada, porque não são ícones como um livro de capa preta seus distintivos mais importantes, e sim o seu testemunho, seu modo de viver diante das pessoas que estão ao seu redor. Às vezes fico pensando se não foi uma comunidade de crentes que comoveu tanto o coração de um homem ateu que escreveu uma linda poesia, manifestando sua comoção diante de um testemunho de simplicidade e perseverança mesmo numa sociedade injusta e cruel:

“Tem certos dias em que eu penso em minha gente; E sinto assim todo o meu peito se apertar; Porque parece que acontece de repente; Como um desejo de eu viver sem me notar; Igual a como quando eu passo no subúrbio; Eu muito bem, vindo de trem de algum lugar; E aí me dá como uma inveja dessa gente; Que vai em frente sem nem ter com quem contar; São casas simples com cadeiras na calçada; E na fachada escrito em cima que é um lar; Pela varanda, flores tristes e baldias; Como a alegria que não tem onde encostar; E aí me dá uma tristeza no meu peito; Feito um despeito de eu não ter como lutar; E eu que não creio, peço a Deus por minha gente; É gente humilde, que vontade de chorar”.
(Gente Humilde – música. Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque. 1969)

Entretanto a comunidade cristã, humilde e alegre mesmo diante das provações, é poderosa para convencer, por meio do Espírito que nela habita, este mundo “do pecado, da justiça e do juízo” (João 16.8).

Conclusão

A igreja primitiva era persistente, perseverante nas boas práticas. E a igreja atual? Será que anda se esquecendo de práticas que jamais deveriam ter sido abandonadas? Não seja assim entre nós! Façamos grande esforço para perseverar nos cultos, com todos os seus elementos essenciais. Seguindo a ordem de Hebreus 10.24, “consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras”. E sejamos perseverantes no bom testemunho de tal forma que, caso falem mal contra nós, “fiquem envergonhados os que difamam” o nosso “bom procedimento em Cristo” (1 Pedro 3.16). Nossa esperança é o Senhor. Vamos perseverar em todas as boas práticas para que, colaborando assim com o Senhor, ele nos acrescente mais pessoas salvas, e nos dê a graça de sermos uma igreja de sucesso.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Aliança Premiada (Atos 2.37-41)


Outro dia fomos buscar minha cunhada e meu sobrinho na rodoviária. Eles vieram a Rio Preto para comprar um automóvel. Concluído o negócio, receberam do vendedor, como brinde, cupons para concorrerem a carros novos, e nos deram alguns. É bom receber brindes. Às vezes eles nos incentivam a fechar negócios. Neste parágrafo de Atos, vamos perceber que Deus nos dá não apenas brindes, mas verdadeiros “prêmios” que nos incentivam a “assinar o contrato” da sua aliança.

As pessoas presentes à festa do Pentecostes entenderam a pregação evangelizadora de Pedro, o seu coração ficou compungido, tanto que perguntaram o que deviam fazer para reparar seu pecado. A resposta do apóstolo revelou que Deus propõe aos homens um acordo, uma aliança. Essa aliança seria formalizada por meio do arrependimento e do batismo em nome de Jesus Cristo. Deus ainda ofereceu prêmios para quem aceitasse fazer parte dessa aliança.

Primeiro Prêmio: A remissão dos pecados (37,38)

“Ouvindo eles estas coisas, compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos? Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados (...)”

Pedro anunciou aos compungidos de coração que, aceitando fazer uma aliança com Deus, receberiam também a remissão dos seus pecados. Para entendermos bem o que isso significa, vamos comparar duas palavras homófonas: remição e remissão. O site do Projeto JurisWay nos ensina o seguinte:

“‘Remição’ (com ç), significa ‘resgate, reaquisição, libertação, quitação’. Ex.: O direito de remição é transferível e cabe, primeiramente, ao próprio devedor. ‘Remissão’ (com ss), significa ‘indulto, perdão, referência, envio’. Ex.: ‘Concedei-nos a remissão de nossos pecadores...’.”

(http://www.jurisway.org.br/v2/pergunta.asp?idmodelo=5622 – Acesso em 20/03/2016)

Num material de estudo do Centro Universitário Unisalesiano, encontramos um comentário sobre o código 385 do Código Civil brasileiro:

“REMISSÃO DE DÍVIDAS ‘- Conceito de remissão: é o perdão da dívida. Consiste na liberalidade do credor em dispensar o devedor do cumprimento da obrigação, renunciando o seu direito ao crédito. Traz como conseqüência a exoneração (liberação) do devedor do cumprimento da prestação por ele assumida (art. 385, CC).’ ‘Art. 385. A remissão da dívida, aceita pelo devedor, extingue a obrigação, mas sem prejuízo de terceiro’.”

(http://www.unisalesiano.edu.br/salaEstudo/materiais/p293184d7504/material4.pdf – Acesso em: 20/03/2016)

Agora que entendemos esses conceitos, podemos entender que o homem não podia remir (pagar) seus pecados, por isso Deus ofereceu-se para remitir (perdoar), como também já dizia o Salmo 49.7,8: “Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode remir, nem pagar por ele a Deus o seu resgate (Pois a redenção da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre.)”

Quer fazer uma aliança com Deus? Leve como “prêmio” a remissão dos seus pecados, e não fique mais ansioso quanto à sua remição.

Segundo Prêmio: O dom do Espírito Santo (38,39)

“(…) e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar.”

Temos a presença constante de Deus conosco. Por isso podemos dizer: Vai com Deus! Enquanto o outro responde: Fica com Deus! Então um vai com Ele e outro fica com Ele. A presença de Deus conosco é como o ar que respiramos. O Espírito de Deus está conosco, habitando nos verdadeiros crentes, e muitas vezes não percebemos, porque é como o ar que respiramos, mas se nos fosse tirado, ficaríamos apavorados. Segundo os médicos Roberto Kalil (cardiologista) e Rafael Stelmach (pneumologista, em entrevista à seção “Bem Estar” do portal G1 (Globo),

“Nos pulmões cabem 4 a 6 litros de ar, dependendo do tamanho da pessoa e do sexo. A cada vez que alguém respira, 0,5 litro de ar é renovado. Como a frequência normal é de 12 a 20 respirações por minuto, respira-se pelo menos 360 litros de ar em uma hora; 8.640 por dia e 3.153.600 em um ano”

(Bem Estar – PORTAL G1 05/04/2011 10h30 - Atualizado em 25/04/2012 16h32 – Disponível em: http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2011/04/tres-em-cada-dez-brasileiros-sentem-falta-de-ar-com-frequencia-diz-medico.html – acesso em 20/03/2016)

Aquele que aceita fazer uma aliança com Deus recebe como “Prêmio”, além da remissão de seus pecados, o dom do Espírito Santo. Recebe fôlego, vida espiritual em abundância, muito mais preciosa do que os três milhões de litros que recebemos por ano.

Terceiro Prêmio: Uma vida abençoada (ajuste de percurso) (40,41)


“Com muitas outras palavras deu testemunho e exortava-os, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa. Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas.”

Uma coisa perversa dá a ideia de uma coisa deformada, curva em vez de reta. A vida perversa é de muito sofrimento, e o Senhor nos oferece oportunidade de acertar nossos caminhos para uma vida abençoada, como a vida do homem bem-aventurado descrita no salmo número um:

“Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa”(Salmo 1.1-4).

Quando lemos os jornais ou assistimos aos noticiários, é inevitável que fiquemos chocados com tanta violência, com tanta criminalidade que domina este mundo. Numa linguagem popular, costuma-se dizer que tudo isso acontece por que “falta Deus no coração das pessoas”. Existem também tentativas mais acadêmicas de se explicar esse fenômeno, como na monografia de Tânia Braga de Paula, apresentada no curso de Direito da UNORP em 2013, o qual diz o seguinte:

“Dentre outros fatores externos que influenciam na criminalidade, o mais importante, é sem duvida nenhuma o fator econômico. Não existem somente esses fatores externos, existem também fatores internos que estão no íntimo do ser humano e que são fatores que influenciam também na criminalidade como, por exemplo, uma infância abandonada, pais separados, crianças órfãs, lares desfeitos e que afetam o subjetivismo do ser humano”

(Criminologia: Estudo das escolas sociológicas do crime e da prática de infrações penais. Unorp, São José do Rio Preto, 2013 – pag. 30 – disponível em: https://www.anadep.org.br/wtksite/cms/conteudo/19308/Monografia.pdf - Acesso em 20/03/2016)

Quem faz uma aliança com Deus recebe como “prêmio”, além da remissão dos pecados e do dom do Espírito Santo, uma vida abençoada, reta, e não perversa. Tendo o alívio de saber que é perdoado de seus pecados e contando com a presença constante de Deus em seu Espírito, o “homem bem-aventurado” tem poder para ajustar o percurso de sua vida, de maneira que “os fatores internos” que estão no seu íntimo não vão influenciá-lo a uma vida criminosa, mas a uma vida que glorifica a Deus e abençoa os seus semelhantes. Ele não vai abandonar as suas crianças, não vai desfazer o seu lar, e vai afetar positivamente o “subjetivismo do ser humano” que dele depende. Em outras palavras: terá Deus no seu coração.

Conclusão

Façamos uma aliança com Deus por meio do arrependimento de nossos pecados e do batismo em nome de seu Filho Jesus Cristo. Precisamos de Deus em nossas vidas, ele é o nosso Criador e somente ele sabe o que é melhor para nós. Recebamos como prêmios a remissão dos pecados, o dom do Espírito Santo, e uma vida abençoada já neste mundo. No porvir, a vida eterna.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

As Promessas de Deus (Atos 2.14-36)


Nós vivemos numa época em que as notícias são instantâneas. Os acontecimentos mais importantes são divulgados instantaneamente em todo o mundo, e logo todos ficam sabendo. Eu gosto de acompanhar as notícias pela TV e pela Internet. Fico às vezes muito ávido, procurando notícias a toda hora, como se eu quisesse que noticiassem logo aquilo que eu gostaria que acontecesse. Que a justiça seja feita, que os malfeitores sejam punidos, que um mundo melhor esteja despontando no horizonte. Notícias importantes e urgentes costumam ser inseridas abruptamente, interrompendo-se a programação com uma música de grande impacto. Neste parágrafo do livro de Atos, Pedro “interrompe a programação” da festa do Pentecostes para fazer um anúncio à multidão presente em Jerusalém. Ele anuncia uma boa notícia, que era de interesse universal, que afetaria o mundo até ao final dos tempos. Tratava-se do anúncio do cumprimento de preciosíssimas promessas de Deus.

Primeira promessa: o derramamento do Espírito (14-21)

Pedro se levantou e começou a advertir os judeus, junto com todos os habitantes de Jerusalém ali presentes, que aqueles homens não estavam embriagados, mas o que ocorria era o cumprimento da profecia do profeta Joel:

“E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.

Ao mundo, que parecia totalmente perdido, sem solução, Deus enviou o seu Espírito para produzir seus frutos restauradores (Gálatas 5.22). Alguém poderia imaginar o mundo sem a presença do Espírito Santo? Fica difícil para nós, que estamos tão acostumados. Mas podemos comparar a ausência do Espírito Santo com a ausência de ar para respirar. Ninguém sobreviveria. Antes do Pentecostes já havia a atuação do Espírito Santo, mas não de forma tão intensa e perene.

A presença do Espírito Santo é manifesta na presença de cristãos, do evangelho, da Igreja. Alguns já se aventuraram, e tentaram banir a Igreja e, conseqüentemente, preceitos bíblicos da sociedade. São obviamente tentativas fracassadas. Everton Fernando Alves, em um artigo publicado no site “Criacionismo”, citando Zerubavel, afirma que:

“[...] A França (1793-1805) mudou a semana de sete dias para uma semana de dez dias, e a União Soviética (1929-1940) a mudou para uma semana de cinco dias, ambos os países acreditando que os sete dias fossem mera influência religiosa. A experiência da mudança terminou em fracasso completo em ambos os países, e a semana voltou ao seu modelo original”.

(Alves, Everton Fernando. O design inteligente e o ciclo semanal de sete dias. Disponível em: http://www.criacionismo.com.br/2015/04/o-design-inteligente-e-o-ciclo-semanal.html Acesso em: 02/02/2017. citando Zerubavel E. The Seven Day Circle. Chicago: Univ. of Chicago Press, 1985)

Na introdução de seu livro “A idade média”, Hilário Franco Júnior destaca que a Igreja foi muito criticada com o surgimento do iluminismo:

"Denis Diderot (1713-1784) afirmava que 'sem religião seríamos um pouco mais felizes', Para o marquês de Condorcet (1743-1794), a humanidade sempre marchou em direção ao progresso, com exceção do período no qual predominou o cristianismo, isto é, a Idade Média. Para Voltaire (1694-1778), os papas eram símbolos do fanatismo e do atraso daquela fase histórica, por isso afirmava, irônico, que 'é uma prova da divindade de seus caracteres terem subsistido a tantos crimes'".

(Franco Júnior, Hilário. A Idade média: Nascimento do ocidente. 2ª edição Revista e Ampliada. São Paulo: Brasiliense, 2001. Pag. 10)

Essas críticas, com certeza, estavam direcionadas à igreja oficial, de maneira generalizada. De um certo ponto de vista, poderíamos até concordar com Voltaire, quando afirmava de forma irônica que a subsistência da Igreja em meio a tantos crimes é uma prova de que Deus estava agindo. Estava de fato agindo, mas não nos falsos cristãos, e sim nos verdadeiros, os quais se tornaram templos do Espírito Santo, fazendo o bem e preservando o mundo segundo os propósitos de Deus.

O derramamento do Espírito possibilitou que pessoas simples, e não somente os reis, sacerdotes e profetas, fossem instrumentos de Deus para fazer a sua obra. Chamaríamos isto, em nossa linguagem moderna, de “democratização da religião”. Homens de Deus, através da história, resistiram à elitização da religião, e mesmo que pagassem caro pela “rebeldia”, foram usados por Deus para manterem viva a chama da “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Judas 3).

Um dia, cremos os dispensacionalistas, a Igreja será arrebatada e este mundo terá a amarga experiência de um mundo sem a presença (intensa e perene) do Espírito de Deus. Será como sufocar pela falta de oxigênio (espiritual).

Segunda promessa: A ressurreição dos mortos (22-32)

Pedro continua seu discurso dizendo que Jesus, o Nazareno, por intermédio de quem Deus realizou muitos milagres, prodígios e sinais, foi morto pelos judeus, que o crucificaram por mãos de iníquos. Porém, Deus o ressuscitou, “rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela”. Neste ponto de sua pregação, cita Davi no salmo 16:

“Diante de mim via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja abalado. Por isso, se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; além disto, também a minha própria carne repousará em esperança, porque não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria na tua presença”.

Pedro faz a devida aplicação do texto citado, afirmando que o salmista não estava se referindo a si mesmo, mas à ressurreição de Cristo, “que nem foi deixado na morte, nem o seu corpo experimentou corrupção”. Declara então, abertamente, que “este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas”.

A morte sempre foi o grande problema do homem. Costuma-se dizer, quando se quer enfatizar habilidades em resolver problemas: “só não damos jeito para a morte”. De fato, a morte não tem jeito para o homem, mas Deus resolveu o problema, e deixou isso evidente quando ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Desde então, todos os que morrem em Cristo têm esperança. Seus familiares e amigos não precisam se entristecer em demasia. Em cada funeral de um crente, ainda neste terceiro milênio, essa esperança é reafirmada, e é por isso que a vida continua.

Mas se Deus não tivesse cumprido a sua promessa, cumprimento que se inicia com a ressurreição de Jesus, onde estaria a nossa esperança? Qual a motivação de vivermos e realizarmos grandes ou pequenas obras? Nossa motivação seria focalizada meramente no tempo presente, como quem diz: “Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1Coríntios 15.32). Philip Yancey, em seu livro “O Jesus que eu Nunca Conheci”, faz a seguinte observação a respeito da ressurreição:

“Cheguei à conclusão de que há duas maneiras de olhar para a história humana. Uma é focalizando as guerras e a violência, a esqualidez, a dor, a tragédia e a morte. Dessa perspectiva, a Páscoa parece uma exceção de conto de fadas, uma contradição atordoante em nome de Deus. [...] Há outro jeito de olhar para o mundo. Se tomo a Páscoa como ponto de partida, o único fato incontestável acerca de como Deus trata aqueles a quem ama, então a história humana se transforma na contradição e a Páscoa é uma pré-estréia da realidade final. A esperança então flui como lava por baixo da crosta da vida cotidiana. Isso, talvez, descreva a mudança na perspectiva dos discípulos quando estavam sentados nos quartos trancados discutindo os incompreensíveis acontecimentos do Domingo de Páscoa. Num sentido nada havia mudado: Roma ainda ocupava a Palestina, as autoridades religiosas ainda ofereciam um prêmio por suas cabeças, a morte e o mal ainda reinavam do lado de fora. Entretanto, gradualmente, o choque do reconhecimento deu lugar a uma longa e lenta contracorrente de alegria. Se Deus podia fazer isso...”

(Yancey, Philip. O Jesus Que Eu Nunca Conheci. Tradução: Yolanda M. Krievin. Editora Vida, 2002. Pag. 178).

A Igreja subsiste e os crentes continuam sendo o sal da terra e a luz do mundo, porque Deus cumpriu a sua promessa de ressurreição, sinalizando que cumprirá cabalmente todas as suas promessas, inclusive a vitória sobre a morte, o último inimigo a ser destruído (1Coríntios 15.26).

Terceira promessa: O estabelecimento do reino (33-36)

“Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis. Porque Davi não subiu aos céus, mas ele mesmo declara: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés. Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”.


Cristo reina, mesmo que todas as forças do mundo pareçam se mostrar desfavoráveis. Seu reino, entretanto, não está totalmente firmado, uma vez que ainda há rebeldes a serem convertidos ou neutralizados. Quando todo joelho se dobrar a Jesus, então é que ele reinará de direito e de fato. Romanos 14.11 diz: “Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus”. Sobre esse assunto, conhecido como a tensão entre o “já” e o “ainda não”, escrevem muitos teólogos e, dentre eles, John Stott:

"Que Jesus considerava e descreveu o reino como um fenômeno presente, disso não há dúvida. Ele ensinou que o tempo do cumprimento havia chegado; [8] que agora o 'valente' estava amarrado e desarmado, facilitando que lhe saqueassem os bens, como era evidente a partir de seus exorcismos; [9] que o reino já estava ou 'dentro' ou 'entre' as pessoas; [10] que agora se podia 'entrar' nele ou 'recebê-lo'; [11] e que, desde o tempo de João Batista, seu precursor, que havia anunciado sua chegada iminente, o reino de Deus vinha sendo 'tomado por esforço' e que 'aqueles que se esforçam' se haviam 'apoderado dele'.[12] Na perspectiva de Jesus, porém, o reino era também uma expectativa futura. Ele só seria aperfeiçoado no último dia. Assim ele olhava em direção ao fim, e ensinou seus discípulos a fazerem o mesmo. Eles deviam orar 'Venha o teu reino' [13] e 'buscá-lo primeiro', [14] dando prioridade a sua expansão. Às vezes ele se referia ao estado final de seus seguidores em termos de 'entrar' no reino [15] ou 'recebê-lo'. [16] Suas parábolas, principalmente as rurais (p. ex. a parábola da semente que crescia secretamente, a do grão de mostarda, a do trigo e do joio), [17] conciliam os processos de plantar, crescer e colher. Como semente, o reino já tinha sido plantado no mundo; agora, através da invisível atividade divina, ele iria crescer até o fim. [...]

A essência do período intermediário entre o 'já' e o 'ainda não', entre o reino que veio e o reino que virá, é a presença do Espírito Santo no povo de Deus. Por um lado, a dádiva do Espírito é a bênção que distingue o reino de Deus e é, portanto, o principal sinal de que a nova era se aproxima. [43] Por outro lado, já que o fato de o Espírito habitar em nós é apenas o princípio da nossa herança no reino, ele é também a garantia de que um dia o resto haverá de ser nosso. O Novo Testamento usa três metáforas para ilustrar isso. O Espírito Santo é 'as primícias', garantindo assim que virá a plena colheita; [44] ele é o 'penhor', ou a primeira parcela do pagamento, garantindo com isso que haverá o pagamento completo; [45] e é o antegosto, garantia de que o banquete completo será desfrutado um dia. [46] Assim, o Espírito Santo é 'tanto o cumprimento da promessa como a promessa do cumprimento: ele é a garantia de que o novo mundo de Deus já começou, e também um sinal de que esse novo mundo ainda há de vir'." [47]

[8] P. ex Mc 1.14; Mt 13.16-17 [9] Mt 12.28-29; cf. Lc 10.17-18 [10] Lc 17.20-21 [11] P. ex. Mc 10.15 [12] Mt 11.12; Lc 16.16 [13] Mt 6.10[14] Mt 6.33 [15] Mc 9.47; cf. Mt 8.11 [16] Mt 25.34 [17] Mc 4.26-29; Mt 13.31-32, 24-29,36-42 [...] [43] P. ex. Is 32.15; 44.3; Ez 39.29; Jo 2.28; Mc 1.8; Hb 6.4-5 [44] Rm 8.23 [45] 2 Co 5.5; Ef 1.14 [46] Hb 6.4-5 [47] Johannes Blauw, The Missionary Nature of the Church (1962; Eerdmans,1974).

(Stott, John R. W. - O "Já" e o " Ainda Não". Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/51557203/O-Ja-e-o-Ainda-Nao-John-Stott acesso em: 08/02/2017)

Conclusão:

Deus cumpre suas promessas, mas isso não acontece no tempo e do jeito que nós queremos. Assim como ele cumpriu suas promessas do derramamento do Espírito, da ressurreição dos mortos e do estabelecimento do reino, também cumprirá a promessa do juízo vindouro. Só escaparão aqueles que invocarem o nome do Senhor.

Este e outros artigos deste Blog fazem parte do livro "Por que estais olhando para as alturas?", disponível no link abaixo:

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Pentecostes (Atos 2.1-13)


(Leia Atos 2.1-13)

A festa do Pentecostes começou num tempo em que Israel era uma comunidade agrícola. A época da colheita era motivo de grande alegria e de gratidão a Deus, que concedia fartura na produção dos grãos. Faziam-se festas para comemorar. Deus queria que essas festas fossem dedicadas a ele, e não a outros deuses. Naquele tempo a vida era bem simples. A alegria do povo era participar dessas festas, com fartura de comida e de bebida. Hoje, mais da metade da população vive em áreas urbanas, onde o modo de viver é bem sofisticado, e a maioria nem se dá conta de onde vem seu alimento, pois o têm com fartura.

Aquele feriado de Pentecostes, o primeiro depois da morte e ressurreição de Jesus, tornou-se célebre, pois Deus se manifestou maravilhosamente através dos discípulos reunidos em Jerusalém, inaugurando uma nova era em que o Espírito Santo veio para ficar.

Como um espírito pode se fazer notar? Ele precisa assumir uma forma em que os homens possam senti-lo. Foi assim que o Espírito de Deus se manifestou naquele dia. Ouviu-se o som de um vento impetuoso, viu-se línguas semelhantes a fogo, pousando sobre cada um dos discípulos, que começaram a verbalizar a mensagem espiritual.

Vento (1,2)

Quando Jesus tentava explicar a Nicodemos a nova ordem que estava para instituir, através de um povo renascido espiritualmente, em, João 3.3-8, ele disse:

“(...) Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. 4 Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? 5 Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. 6 O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. 7 Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. 8 O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”.

Fogo (3)

Quando Deus iniciou um projeto através de Israel, ele começou a revelar-se ao povo que iria divulgá-lo por todo o mundo. Lemos em Êxodo 24.17 que “o aspecto da glória do SENHOR era como um fogo consumidor no cimo do monte, aos olhos dos filhos de Israel”.

Quando Deus instituiu o ritual de adoração, manifestou-se também com fogo, como vemos em Lv 9.24-10.2

“E eis que, saindo fogo de diante do SENHOR, consumiu o holocausto e a gordura sobre o altar; o que vendo o povo, jubilou e prostrou-se sobre o rosto. Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara. Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR.”

Palavra (4-13)

Era com palavras bem claras que Deus queria verbalizar sua mensagem. Um novo momento na história da humanidade começava. Uma nova nação, desta vez espiritual, começaria a divulgar o nome de Deus para todo o mundo.

Quando Deus se revelou a Elias, em 1Rs 19.11-13,

“Disse-lhe Deus: Sai e põe-te neste monte perante o SENHOR. Eis que passava o SENHOR; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do SENHOR, porém o SENHOR não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo; e, depois do fogo, um cicio tranqüilo e suave. Ouvindo-o Elias, envolveu o rosto no seu manto e, saindo, pôs-se à entrada da caverna. Eis que lhe veio uma voz e lhe disse: Que fazes aqui, Elias?”

Aconteceu fenômeno semelhante no Pentecostes: Ouviu-se o som de um vento impetuoso, mas era apenas um prelúdio. Viu-se fogo, mas Deus não falou através do fogo. Então começaram a discursar sobre as grandezas de Deus, falando em outras línguas, mas ainda não era nessa manifestação sobrenatural que Deus queria falar plenamente, naquele momento. Quando Pedro começou a pregar, ousada mas serenamente, ali é que Deus manifestou-se plenamente.

Eles estavam simplesmente reunidos

Quando pensamos no momento do derramamento do Espírito Santo, podemos nos deixar levar pela impressão de que eles foram cheios porque pediam isto intensamente em oração. Pediam orando com todas as suas forças, até que Deus, finalmente, como se fosse num êxtase coletivo, lhes concedeu o que pediram. Mas, será que de fato foi assim? O texto que lemos não diz que eles estavam, necessariamente, orando. Provavelmente, sim, mas não necessariamente. O derramamento do Espírito foi um ato soberano de Deus para cumprir um propósito específico.

Naquele dia de Pentecostes o espírito Santo batizou e ao mesmo tempo “encheu” os discípulos.

Há diferença entre ser batizado com o Espírito Santo e ser cheio do Espírito Santo. Todos os crentes são batizados em um corpo, pelo Espírito Santo (1Co 12.13). Mas o ser cheio do Espírito Santo depende da vontade e dos propósitos específicos de Deus.

Deus pode apoderar-se de quem quer para, através dessa pessoa, fazer a sua vontade. Ele escolheu João Batista para ser cheio do Espírito Santo, antes dele nascer (Lc 1.15). O Espírito do Senhor apossou-se também de Sansão (Jz 14.6,19; 15.14) e de Saul (1Sm 10.6,10; 16.13), várias vezes, mesmo que não fossem pessoas tão exemplares.

Se nós também quisermos ser cheios do Espírito Santo, precisamos deixar o coração aberto e preparado, conforme Efésios capítulos 5 e 6 nos orientam, mas não devemos esperar que isto nos garanta que Deus vai nos honrar, usando-nos para falar em outras línguas, fazer milagres, falar ousadamente. Não podemos cobrar isto de Deus, pois a sua vontade é soberana. Devemos fazer a nossa parte, nos qualificando, como fazem os que procuram uma vaga de emprego. Devemos dizer ao Senhor: “eis-me aqui", e ficarmos alertas para o caso de sermos escolhidos para uma missão importante.

Um dos sinais de que os crentes estavam cheios do Espírito Santo, no início da Igreja, era que falavam em outras línguas. Estando já amadurecida, um pouco mais tarde, os sinais poderiam ser outros. Nos tempos do ministério consolidado de Tiago e Pedro, alguém cheio do Espírito Santo poderia mostrar sinais fazendo justamente o contrário. Em vez de falar, controlar a sua língua. Ouçamos as sentenças de Tiago e Pedro, a seguir:

“A língua <1100>, porém, nenhum dos homens é capaz de domar; é mal incontido, carregado de veneno mortífero” (Tiago 3.8).

“Pois quem quer amar a vida e ver dias felizes refreie a língua <1100> do mal e evite que os seus lábios falem dolosamente” (1Pedro 3.10).

Nós somos frágeis, e corremos o risco de nos enchermos, não do Espírito de Deus, mas de um espírito estranho. Em 1Coríntios 14.23, Paulo chama a igreja à sensatez, dizendo: “Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas <1100>, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos”?

O propósito de Deus, naquele momento, de falarem em línguas, era chamar a atenção. Era um espetáculo, uma introdução à pregação que Pedro estava prestes a realizar.

Devemos tomar cuidado. Satanás não quer que nós sejamos cheios do Espírito Santo, mas quer, ele mesmo, controlar as nossas vidas. Ele frequentemente se utiliza da artifícios para nos enganar, imitando os dons de Deus. Mas o seu fruto é abominável ao Senhor. É o caso de Nadabe e Abiú, que tentaram levar fogo estranho diante do Senhor, e foram exterminados instantaneamente; é o caso também de Ananias e Safira, que tentarem imitar o espírito voluntário com que Barnabé ofertava à Igreja, e espiraram ali mesmo, aos pés dos apóstolos (At 5.3,4).

Se Deus quiser agir por meio de nós, ele agirá no seu tempo e da sua própria maneira, produzindo em nós bons frutos. Haverão, porém, pessoas que não gostam destes frutos. Nós vemos no último versículo do parágrafo que algumas pessoas achavam que os discípulos estavam simplesmente embriagados.

Quando crentes em Cristo decidem ser batizados na água, como Jesus ordenou, presume-se que eles já tenham recebido o Batismo do Espírito Santo, no momento em que se arrependeram dos seus pecados e entregaram sua vida a Jesus. Nasceram de novo, pela fé em Jesus. Vão às águas, conduzidos por um vento que não sabem de onde vem nem para onde vai. Foram e ainda serão purificados das impurezas deste mundo, pelo fogo que procede do altar de Deus, e comunicam a todos os presentes que estão decididos a Servir o Senhor que os resgatou dos caminhos do pecado, trazendo-os para a luz. O fato de eles estarem obedecendo, os tornam fortes candidatos a serem cheios do Espírito Santo. Oremos para que o Senhor possa usar esses pequeninos para fazer grandes coisas.
E você? Já foi batizado? Você tem se qualificado para que Deus possa utilizá-lo? Paulo foi qualificado, ainda antes da sua conversão. Estudou na melhor “faculdade”, com os mestres mais rigorosos; Lucas qualificou-se como médico e pesquisador, antes de ser usado pelo Espírito de Deus para escrever o evangelho e o livro de Atos.

Apêndice


Os irmãos pentecostais nos exortam a não sermos frios, pois por causa de nossa frieza, não manifestarmos o poder do Espírito. Pode ser. Se um crente é frio, ele estará mais longe de ser um instrumento de Deus, quando ele quiser manifestar o seu poder. Nós, porém, costumamos nos defender, dizendo que não somos frios, mas sensatos. Pode ser. Um crente sensato, ligado em obediência e oração ao Senhor, dificilmente será enganado por qualquer espírito, ainda que ele se apresente como vindo da parte de Deus. Nós exortamos os irmãos pentecostais a não serem muito emotivos, que por quererem tanto ser controlados pelo Espírito de Deus, pode acontecer de descuidarem do domínio próprio, e acabarem se tornando vulneráveis a outros espíritos.

Quem está com a verdade? Deus. Se nós nos colocarmos na posição de observadores, procuraremos evidências. Haveremos de concordar que, se Deus agir, os frutos serão bons, excelentes, perfeitos. Se Deus agir por meio de espetáculos, ou discretamente, os frutos serão os mesmos, pois é o mesmo Deus que está agindo.

Referências

(*) “Dois terços da população mundial estará concentrada em áreas urbanas no ano de 2050, indicou a ONU após a revisão anual do relatório Perspectivas de Urbanização Mundial divulgado hoje” (10/07/2014) (Disponível em: http://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2014/07/onu-2-3-da-populacao-mundial-se-concentrara-em-areas-urbanas-ate-2050-1990.html acesso em: 18-02-2016)

Zacarias 13.8: Em toda a terra, diz o SENHOR, dois terços dela serão eliminados e perecerão; mas a terceira parte restará nela.

Apocalipse 9.15: Foram, então, soltos os quatro anjos que se achavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano, para que matassem a terça parte dos homens.

<1100> Grego: glossa

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O Décimo Segundo (Atos 1.15-26)


(Leia Atos 1.15-26)

Quando um crente fiel toma uma decisão importante, como mudar de ministério, mudar de cidade, mudar de igreja, geralmente ele dá o testemunho dizendo que está fazendo o que entende ser a vontade de Deus para sua vida. Mas um crente fiel sempre faz a vontade de Deus? Como é que ele pode ter certeza de que não está fazendo, em vez disso, a sua própria vontade? Alguns parâmetros podem nos ajudar a decidir qual é a vontade de Deus em uma determinada situação.

1º parâmetro: AS ESCRITURAS (15-22)

“15 Naqueles dias, levantou-se Pedro no meio dos irmãos (ora, compunha-se a assembléia de umas cento e vinte pessoas) e disse: 16 Irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo proferiu anteriormente por boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus, 17 porque ele era contado entre nós e teve parte neste ministério. 18 (Ora, este homem adquiriu um campo com o preço da iniqüidade; e, precipitando-se, rompeu-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram; 19 e isto chegou ao conhecimento de todos os habitantes de Jerusalém, de maneira que em sua própria língua esse campo era chamado Aceldama, isto é, Campo de Sangue.) 20 Porque está escrito no Livro dos Salmos: Fique deserta a sua morada; e não haja quem nela habite; e: Tome outro o seu encargo. 21 É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, 22 começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição”.

Pedro identificou um problema a ser resolvido, e buscou sabedoria para a solução. Faltava o décimo segundo apóstolo. Ele se levanta no meio da assembléia, cita Salmos 69.25 e 109.8, e aplica esse texto à situação em que estavam vivendo. Era uma “pregação expositiva”.

Nós também, quando queremos saber a vontade de Deus para nossas vidas, temos que ler as Escrituras. Salmos 119.9 pergunta: “De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho?” e ele mesmo responde: “Observando-o segundo a tua palavra”.

Quando eu assumi o emprego no Banco do Brasil na cidade de Macaubal, tive que tomar decisões difíceis. Uma delas foi se eu devia mudar para lá ou ficar em Rio Preto. Algumas pessoas me aconselharam a ficar lá durante a semana, e voltar para casa nos fins de semana. Mas eu descartei logo essa possibilidade, pois ficaria longos períodos longe de minha esposa, e a Bíblia diz em 1 Coríntios 7.5: “Não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para vos dedicardes à oração e, novamente, vos ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência”. Além disso, ficar longe a semana inteira prejudicaria o cumprimento de meu dever como pai. Dever esse declarado, por exemplo, em Dt 6.6,7 “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” Então decidi que deveria ficar em Rio Preto e viajar diariamente para o trabalho.

2º parâmetro: A OPINIÃO DOS CONSELHEIROS (18,19,23)

“18 (Ora, este homem adquiriu um campo com o preço da iniquidade; e, precipitando-se, rompeu-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram; 19 e isto chegou ao conhecimento de todos os habitantes de Jerusalém, de maneira que em sua própria língua esse campo era chamado Aceldama, isto é, Campo de Sangue.) (…) 23 Então, propuseram dois: José, chamado Barsabás, cognominado Justo, e Matias”.

Para descobrir a vontade de Deus a respeito do décimo segundo apóstolo, Pedro buscou, além das Escrituras, o conhecimento das pessoas ao seu redor.

Pedro tinha segurança ao associar o cumprimento das Escrituras a fatos publicamente reconhecidos. Todos os habitantes de Jerusalém sabiam que um campo foi comprado com o dinheiro da traição de Judas, e todos testemunharam que a sua morte foi trágica, por meio do suicídio. Os discípulos também concordaram com sua tese, de que Judas cumprira aquelas profecias e era necessário substituí-lo no apostolado. Todos concordaram também que os candidatos mais indicados para a vaga eram José e Matias.

Provérbios 11.14 diz: “Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança”. Algumas vezes, estamos prontos para tomar uma decisão importante, e as pessoas vêm conversar conosco, dando o seu parecer a respeito do assunto. Devemos ouvi-las. Não temos, necessariamente, que seguir seus conselhos, mas devemos ouvir e ponderar. Se as pessoas são mais velhas, e notadamente sábias, devemos atribuir aos seus conselhos um peso maior.

Em 1Reis 12.1-19 lemos que Roboão, ao assumir o reino no lugar de seu pai, Salomão, precisou de muita sabedoria para responder ao povo que pedia alívio de encargos. Ouviu primeiro o conselho dos mais velhos, e depois dos mais jovens. O conselho dos idosos era mais sensato, mas ele preferiu o conselho dos mais jovens, que resultou numa guerra civil e divisão do país em dois reinos rivais.

Existem alguns conceitos que são óbvios, e que nem precisamos parar para pensar se quisermos fazer o que é certo. Todos sabem que não se deve roubar, nem matar. Devemos ser honestos, não devemos mentir, não devemos ser egoístas nem hipócritas. Estas coisas fazem parte do que chamamos de “senso comum”.

De acordo com Michel Paty (2003), podemos dizer que “o senso comum é uma disposição geral de todos os seres humanos para se adaptar às circunstâncias da existência e da vida ordinária” (Michel Paty. A ciência e as idas e voltas do senso comum. Sci. stud. vol.1 no.1 São Paulo Mar. 2003. disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662003000100002 acesso em: 17-02-2016).

O senso comum, isoladamente, não deve servir como parâmetro para nossas decisões, mas pode ser muito útil orientar-se por ele em questões que não contrariem nenhum princípio das Escrituras.

Voltando ao assunto do meu trabalho em Macaubal, eu tinha outra decisão importante para tomar: não tinha ônibus disponíveis nos horários que eu precisava, e ir de carro era muito caro. A solução seria comprar uma motocicleta. Pedi opinião para muitas pessoas. Eu mesmo achava a motocicleta um meio de transporte muito perigoso, principalmente na rodovia. Muitos procuraram me desencorajar, mas alguns que tinham experiência com motocicletas achavam que não tinha problema, se eu tomasse os devidos cuidados. O que pesou mais, porém, na decisão de eu comprar a moto, foi o fato de que, embora a maioria das pessoas ache que a motocicleta é um veículo muito perigoso, ele é aceito com naturalidade pela maior parte da sociedade como um meio de transporte viável. Assim, o “senso comum” me ajudou a tomar minha decisão.
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3º parâmetro: A ORAÇÃO (24-26)

“24 E, orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido 25 para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se transviou, indo para o seu próprio lugar. 26 E os lançaram em sortes, vindo a sorte recair sobre Matias, sendo-lhe, então, votado lugar com os onze apóstolos”.

Era a primeira vez que os discípulos se comunicavam com Jesus através da oração. A comunicação deixou de ser direta, porém agora era mais acessível. O Senhor podia falar, ao mesmo tempo, com cada um dos 120 ou mais discípulos.

As decisões importantes em nossas vidas sempre devem ser precedidas de oração. Jesus passou a noite inteira orando antes de escolher seus 12 apóstolos. Ele orou intensamente no jardim do Getsâmani, e pediu que seus discípulos orassem com ele, pois tinha que decidir seguir adiante ou passar o cálice angustiante que completava a sua obra redentora.

Se você puder adiar uma decisão difícil, espere pelo menos passar uma noite, para que você tenha oportunidade de orar sobre o assunto. De preferência, espere até que passe pelo menos por um culto de oração, assim você poderá pedir que outros também orem junto.

Cantamos um hino que diz: “Oh, que paz perdemos sempre; Oh, que dor no coração, só porque nós não levamos tudo a Deus, em oração!”

A oração pode mudar tudo. Pode fazer você se acalmar, pode fazer você se lembrar de algo importante, pode fazer você se curvar perante a vontade soberana de Deus. Por mais que você esteja firme num propósito, não é prudente “bater o martelo” sem antes falar com Deus. Este foi o erro de Josué, quando fez um acordo precipitado com o povo de Gibeão, sem pedir conselho ao Senhor (Josué 9.14), e depois descobriu que havia sido enganado.

Os discípulos parecem ter tomado todo o cuidado em sua decisão de escolher o substituto de Judas. Mas será que eles ouviram bem a voz de Deus? Alguns acham que, na verdade, o décimo segundo apóstolo foi Paulo, e não Matias. Não é tão fácil definir a vontade de Deus para nossas vidas. As Escrituras nos dão princípios, mas não todos os detalhes. Deus fala conosco através das pessoas, mas as pessoas erram e discordam muito.

Quando um pastor amigo meu, um homem muito sábio, homem de oração, teve que decidir sobre seguir ou não algumas orientações médicas, enfrentou oposição de parentes e amigos, também homens muito sábios, homens de oração, porque decidiu não confiar totalmente no que os médicos diziam. É óbvio que alguém estava enganado, mas quem? Os médicos, que teoricamente sabiam o que diziam? Meu amigo, o sábio pastor? Ou seus amigos e parentes, todos homens acostumados a tomar decisões importantes sempre dependendo de Deus através de orações? Acho que só saberemos a resposta quando estivermos no céu.

Através da oração obtemos respostas a muitas dúvidas, mas é muito comum nós deixarmos a inclinação do nosso coração interferir na mensagem de Deus para nós.

Quando buscamos a vontade de Deus para nossas vidas, é prudente associarmos o conhecimento das Escrituras, o conselho de pessoas notadamente sábias e muita oração. Assim, teremos maior chance de acertar nas escolhas mais importantes.

Este e outros artigos deste Blog fazem parte do livro "Por que estais olhando para as alturas?", disponível no link abaixo:

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