quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Endividados



(Leia Mc 12.13-17)

Cada brasileiro nasce devendo cerca de 13 mil reais, pois a dívida pública do Brasil, atualmente, é de 2,7 trilhões (*). Mas não é só isto que nós devemos. Devemos muito mais. A questão do tributo ao império romano, levantada pelos opositores de Jesus, nos ensina que há pelo menos três dívidas, as quais devemos pagar cabalmente:

A dívida pública (13,14)

13 ¶ E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra.14 Chegando, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens; antes, segundo a verdade, ensinas o caminho de Deus; é lícito pagar tributo a César ou não? Devemos ou não devemos pagar?

Quando falo de dívida pública, não me refiro à dívida de 2,7 trilhões de reais, mas à dívida que temos para com as pessoas ao nosso redor. Devemos a elas um bom testemunho. Os fariseus, em associação com os herodianos, queriam que Jesus tropeçasse neste testemunho público, por isto fizeram uma pergunta, cuja resposta pudesse comprometê-lo diante do povo. Jesus nos chama de "a luz do mundo", e quer que brilhe a nossa luz diante dos homens, para que vejam as nossas boas obras e glorifiquem a nosso Pai que está nos céus (Mateus 5.16). Paulo considerava que nós, os cristãos, "somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas coisas?” (2Co 2.15,16 ).

Hoje em dia, é quase impossível fazermos coisas no anonimato. Existem câmeras por toda parte. Nos estabelecimentos comerciais, nas ruas, nas residências, e até do céu existem satélites e drones espionando. Isto é um motivo a mais para nos abstermos de praticar tudo o que é mal, ou mesmo que só pareça mal, pois somos testemunhas de que Deus pode transformar vidas, e de que o Espírito de Deus habita nos homens, para fazê-los andar nos caminhos retos.

A dívida fiscal (15-17)

15 Mas Jesus, percebendo-lhes a hipocrisia, respondeu: Por que me experimentais? Trazei-me um denário para que eu o veja.16 E eles lho trouxeram. Perguntou-lhes: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César.17 Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César (...).

A célebre resposta de Jesus elimina totalmente qualquer dúvida quanto à questão levantada, mostrando o seu total desprendimento quanto às coisas deste mundo. Embora pudesse usar o dinheiro para as necessidades materiais, não considerava que o dinheiro em seu poder fosse seu. Bastava ler a efígie e visualizar a imagem gravada na moeda para constatar a sua propriedade. Se César quisesse exigir todo o seu dinheiro de volta, que se desse de volta a ele.

Nós usamos o dinheiro, mas ele (as cédulas e moedas) pertence ao governo. Usamos a infraestrutura, nos beneficiamos da segurança pública, do sistema público de saúde, das agências de proteção de direitos, do seguro-desemprego, do seguro social. Contamos com o poder público para manter as coisas em ordem, para que a sociedade em que vivemos não se transforme num caos.

Nós nos utilizamos de tudo isto, mas esta estrutura toda pertence ao governo constituído. Se o governo impõe taxas e tributos, devemos dar-lhe o que lhe pertence.

A dívida celestial (17)

17 Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E muito se admiraram dele.

A nossa maior dívida é para com o Criador. No dia do vencimento, havemos de lhe prestar contas.

Relaciono abaixo alguns versículos que falam de nossos deveres como pessoas que se beneficiaram da maravilhosa graça celestial:

Lucas 17.10 Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer.

João 13.14 Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros.

Romanos 13.8 A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei.

Romanos 15.1 Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos.

1Coríntios 7.3 O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a esposa, ao seu marido.

Efésios 5.28 Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama

1João 3.16 Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.

1João 4.11 Amados, se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros.

Não sejamos inadimplentes. Paguemos cabalmente e pontualmente nossas dívidas. Sejamos boas testemunhas diante das pessoas que nos cercam, honestos e submissos às autoridades seculares. Este “montante” faz parte de uma dívida maior, que temos para com Deus, nosso Criador e nosso Redentor.

(*) Fontes:
http://oglobo.globo.com/economia/divida-publica-federal-sobe-fecha-setembro-em-27-tri-17878596 - Acesso em: 28-10-2015; e http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/08/brasil-tem-204-milhoes-de-habitantes-segundo-o-ibge.html - Acesso em: 29-10-2015.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A videira


(Leia Mc 12.1-12)

Outro dia li uma notícia que me deixou alarmado: "A Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que os ataques contra albinos, cujas partes dos corpos são altamente valorizados em rituais de bruxaria e podem alcançar altos preços, têm sido registrados desde agosto em seis países no sul e leste do continente africano. (...) Curandeiros chegam a pagar US$ 75 mil (R$ 285 mil) por um conjunto completo de órgãos de um albino, de acordo com um relatório da Cruz Vermelha, para usá-los em feitiços que acreditam trazer boa sorte, amor e riqueza. A ONU alertou em março que 2015 seria um ano perigoso para os albinos na Tanzânia, à medida que políticos recorrem a bruxos para aumentar suas chances de vencerem nas urnas." (Reuters - 15/10/2015 - Disponível em: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2015/10/15/ataques-contra-albinos-aumentam-com-proximidade-de-eleicoes-na-africa.htm - Acesso em: 21/10/2015). Pensei: Como é possível isto acontecer ainda hoje? Vivemos num tempo e cultura em que estes costumes pagãos antigos foram praticamente erradicados. O cristianismo conquistou a maior parte do mundo, influenciando as nações a abolirem práticas pagãs e criarem leis inspiradas nos padrões bíblicos. Os frutos de justiça que glorificam ao Senhor têm se multiplicado na história através da evangelização e conseqüentes ajustes dos costumes, para se adequarem ao mandamento de nos amarmos uns aos outros. A parábola dos lavradores maus nos mostram três verdades a respeito do plano de Deus para este mundo.

Primeira Verdade: DEUS PLANTOU UMA VINHA (1)

Deus estabeleceu Israel, investiu nesta nação, dando a eles tudo o que era necessário para frutificarem. Tirou-os do Egito com grandes manifestações de poder, conduziu-os pelo deserto, e expulsou diante deles os inimigos para possuírem a terra de Canaã. Deixou-os, então, para que se desenvolvessem e glorificassem o nome do seu criador.

Assim que atravessaram o Mar Vermelho, eles cantaram um cântico que dizia: "Ó SENHOR, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em feitos gloriosos, que operas maravilhas?" (Êxodo 15.11). As palavras deste cântico mostram como Senhor começou a ser engrandecido perante o povo, antes acostumado a valorizar também outros deuses.

Em Nm 24.5-9 vemos, através dos olhos de Balaão, um belo quadro da glória da nova nação que estava nascendo, para glorificar o Deus dos deuses: "Que boas são as tuas tendas, ó Jacó! Que boas são as tuas moradas, ó Israel! Como vales que se estendem, como jardins à beira dos rios, como árvores de sândalo que o SENHOR plantou, como cedros junto às águas. Águas manarão de seus baldes, e as suas sementeiras terão águas abundantes; o seu rei se levantará mais do que Agague, e o seu reino será exaltado. Deus tirou do Egito a Israel, cujas forças são como as do boi selvagem; consumirá as nações, seus inimigos, e quebrará seus ossos, e, com as suas setas, os atravessará. Este abaixou-se, deitou-se como leão e como leoa; quem o despertará? Benditos os que te abençoarem, e malditos os que te amaldiçoarem."

Nos seus tempos áureos, os salmistas de Israel cantavam: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra." (Sl 46.10); mas na sua decadência, foi advertida através do profeta Isaías (5.7): "Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do SENHOR; este desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor."

Segunda verdade: DEUS PÔS LAVRADORES PARA CUIDAR DA VINHA E LHE RENDER FRUTOS (2-9)

Os frutos que Deus esperava receber de Israel não lhe foram entregues. Os profetas, que agiram como uma espécie de cobradores de frutos espirituais, não foram bem recebidos, mas desprezados, presos, mortos. Finalmente veio Jesus, o Filho de Deus, o qual deveria ter sido honrado, na forma de arrependimento e de outorga dos frutos de justiça, mas então eles decidiram, ainda com mais firmeza, assassiná-lo; e Deus, o dono da vinha, resolveu julgar os lavradores maus, e dar a vinha a outro povo, a Igreja.

Jesus falou sobre os crimes contra os profetas, em Lc 11.49-52: "Por isso, também disse a sabedoria de Deus: Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, e a alguns deles matarão e a outros perseguirão, para que desta geração se peçam contas do sangue dos profetas, derramado desde a fundação do mundo; desde o sangue de Abel até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a casa de Deus. Sim, eu vos afirmo, contas serão pedidas a esta geração. Ai de vós, intérpretes da Lei! Porque tomastes a chave da ciência; contudo, vós mesmos não entrastes e impedistes os que estavam entrando."

Mas, e a Igreja! Tem dado a Deus os frutos que Israel falhou em dar? Assim como Israel começou a “dar trabalho” logo no início de seu estabelecimento, assim também a Igreja. Lemos em At 5.3-5 a história de Ananias e Safira: "Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus. Ouvindo estas palavras, Ananias caiu e expirou, sobrevindo grande temor a todos os ouvintes." Um conflito foi registrado em Atos 6.1: "Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária." E Paulo repreende os Gálatas (1.6): "Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho"

Os cristãos que perseveraram, porém, glorificaram a Deus, e em geral foram grandemente perseguidos nos três primeiros séculos de sua era, até que um imperador romano, Constantino, se converteu, e o quadro começou a mudar. A Igreja passou a influenciar e ser influenciada pelos poderes políticos, chegando, em alguns momentos, a governar com poder superior ao dos imperadores. A grande concentração de poder deu ensejo, naturalmente, à corrupção e disputas políticas, além de opressão aos que ameaçavam os intentos das autoridades eclesiásticas, e assim a Igreja também perseguiu e matou seus "profetas", sendo um dos casos mais notáveis, John Huss, condenado em 1415 a ser queimado vivo, por suas idéias reformadoras. A Igreja oficial, agindo assim, assemelhava-se aos maus lavradores, querendo apropriar-se da vinha do Senhor.

Terceira verdade: CRISTO É A NOVA VIDEIRA DE DEUS (10-12)

O Filho de Deus, que eles mataram, ressuscitou e tornou-se a principal pedra no templo dedicado à glória do Senhor. Ele também declara em Jo 15.1-8: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos."

A relação entre Igreja e poderes políticos é quase inevitável, neste mundo, mas não é essencial, nem mesmo desejável, dentro dos altos propósitos de Deus nesta era. No Brasil, os católicos é que foram os mais influentes e beneficiados nesta relação. Basta constatar que, na maioria das cidades antigas, há uma Igreja católica no centro, uma praça, e a partir daí a cidade se desenvolveu. Alderi Souza de Matos, historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil, nos conta que, “Com a vinda do primeiro governador-geral, Tomé de Souza, também chegaram os primeiros jesuítas, liderados pelo padre Manoel da Nóbrega (1549). Por 210 anos eles foram os principais missionários e educadores no Brasil. Alguns deles foram defensores dos índios, como o celebrado padre Antonio Vieira (1608-97). Ao mesmo tempo, os jesuítas tornaram-se os maiores proprietários de terras e senhores de escravos do Brasil colonial.” (IGREJA E ESTADO: UMA VISÃO PANORÂMICA – Disponível em: http://www.mackenzie.br/7113.html - Acesso em: 20-10-2015).

O Reino de Jesus, porém, não é deste mundo (Jo 18.36), e nós temos a missão de produzir bons frutos, ligados a Jesus, a videira verdadeira, ainda que, à margem e sob a opressão dos poderes políticos ou religiosos constituídos no meio em que vivemos. Um exemplo que me inspira é o de Robert Kally, médico escocês que se dedicou à obra missionária, primeiramente em Portugal, na Ilha de Madeira, e depois no Brasil. Lemos a seu respeito que "na época, a Madeira atravessava uma forte crise econômica. O comércio do vinho, base da economia da ilha, estava em declínio. Os desastres naturais levaram à fome, ao abandono de vinhedos e ao desemprego em massa. Para muitos, a emigração foi uma questão de sobrevivência. A situação foi agravada pela tensão religiosa entre o grupo de convertidos presbiterianos e a comunidade local, tradicionalmente católica. A nova igreja seria perseguida pelas autoridades madeirenses. A partir de 2 de agosto de 1846 intensificaram-se as injúrias e ações contra os "calvinistas". Em 9 de agosto de 1846, a casa dos Kalleys foi incendiada." Ele fugiu para os Estados Unidos, e depois veio para o Brasil. "No dia 11 de julho de 1858 organizou a Igreja Evangélica Fluminense, uma igreja evangélica brasileira sem nenhum vínculo com denominações até então existentes. Foi organizada com 14 membros, sendo batizado naquele dia o primeiro brasileiro Pedro Nolasco de Andrade. (...) Kalley foi também aquele que conseguiu plantar o Cristianismo Evangélico de forma definitiva no Brasil. Seu trabalho influenciou outros missionários a trabalharem no Brasil, contribuindo para a construção do protestantismo no país" (disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Kalley - Acesso em: 21/10/2015).

Missionários como Kalley e outros crentes fiéis, têm buscado fazer frutificar a Igreja, o corpo de Cristo, o qual é a videira verdadeira.

A videira está sob nossa responsabilidade. Que tipo de lavradores nós temos sido? Vamos nos consagrar ao trabalho nesta vinha do Senhor, para que possamos, com nosso testemunho de fé, transformar o meio em que vivemos, e chegar a alcançar os povos que ainda não reconhecem o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que precisam sair das trevas, e aproximar-se da luz.

Talvez você esteja se perguntando que coisas grandiosas precisa fazer, mas às vezes não é disto que se trata. Quando pessoas arrependidas, que atenderam ao apelo de João Batista, perguntaram o que deviam fazer (que frutos de arrependimento deveriam mostrar), ele respondeu: "Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. Foram também publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos de fazer? Respondeu-lhes: Não cobreis mais do que o estipulado. Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo" (Lc 3.10-14). A simples obediência a preceitos elementares são muito bons frutos. É destes ramos produtivos que o Senhor separa alguns para obras grandiosas, como é o caso, por exemplo, de missões transculturais.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Autoridade


(Leia Mc 11.27-33)

Numa roda de amigos, é comum surgir de vez em quando, em tom de zombaria, o questionamento: quem é que manda em sua casa? O homem sente-se na obrigação de responder: "É claro que sou eu". Mas todos nós sabemos que não é bem assim. A questão de autoridade está sempre presente em nossas vidas. No texto deste parágrafo, podemos notar a presença de pelo menos três autoridades, concorrentes entre si.

I - Autoridade civil (27,28)

27 ¶ Então, regressaram para Jerusalém. E, andando ele pelo templo, vieram ao seu encontro os principais sacerdotes, os escribas e os anciãos 28 e lhe perguntaram: Com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem te deu tal autoridade para as fazeres?

Os principais sacerdotes, escribas e anciãos, apesar de serem religiosos, acabavam exercendo, também, autoridade civil sobre o povo. Tinham poder de prender, julgar e condenar.

Obedecer às autoridades civis, como os governantes, os juízes, os legisladores e seus delegados, é compatível com a vontade de Deus. Em quase tudo devemos obedecer tais autoridades, a menos que seja uma questão em que se possa dizer: "Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens." (At 5.29)

Anne van der Bijl (Sint Pancras, Países Baixos, 11 de maio de 1928), também conhecido como Irmão André, fundador da missão "Portas Aberbas", teve grande conflito com as autoridades civis, desafiando-as para poder levar Bíblias e mensagens evangelísticas ao povo dentro da antiga "cortina de ferro" comunista. Ele escreve, em conjunto com seus biógrafos, no seu livro O contrabandista de Deus (*), sobre as restrições impostas pelo Estado à realização de atividades religiosas. Numa de suas experiências, em uma pequena aldeia da Macedônia, que então pertencia à Iugoslávia, "Era proibido realizar cultos em casas particulares, por isso, Ana simplesmente separara um cômodo, e pendurara uma tabueta na frente, que dizia: Molitven Dom (Casa de Oração)" (pag. 143). Durante o culto, conforme seu relato, estavam "cantando outro hino, quando, de repente, ouviu-se uma batida forte na porta. Todos pararam de cantar. Ana abriu a porta, e ali estavam dois homens uniformizados. Foram até a frente da sala. Durante muito tempo, eles simplesmente ficaram ali de pé, correndo os olhos pela congregação. Então de dirigiram a um canto da sala, para dar uma olhada naqueles rostos assustados. Finalmente, sacaram cadernetas e começaram a anotar o nome dos presentes. Quando terminaram, fizeram algumas perguntas a respeito de Nikola e de mim, e depois saíram tão abruptamente como haviam chegado. (...) Porque o governo escolhera aquela igreja isolada para atacar enquanto deixava outras à vontade, nem Nikola nem eu jamais compreendemos." (pag. 144,145)

Os governos comunistas, porém, não usavam sempre a repressão e ameaças, mas "o esforço parecia ser centralizado nas crianças. Deixem os velhos, mas desmamem os jovens da igreja, parecia ser a ordem" (pag 140). Os jovens também eram vítimas de pressão psicológica. Num evento na Hungria André notou que "Cada jovem estava usando um lenço vermelho vivo que era (...) o símbolo da boa cidadania. Uma das requisições para poder usar aquele lenço, era uma atitude apropriada em relação às superstições religiosas dos seus pais (...). Milagres, a história da criação, o pecado original, a queda do homem, coisas desse tipo" (Pag. 162).

O trabalho do missionário irmão André e de outros crentes corajosos em fazer chegar a Bíblia a estes países, com certeza contribuiu para fazer com que o cristianismo prosperasse, apesar das restrições.

II - Autoridade do céu (eclesiástica) (29,30)

29 Jesus lhes respondeu: Eu vos farei uma pergunta; respondei-me, e eu vos direi com que autoridade faço estas coisas. 30 O batismo de João era do céu ou dos homens? Respondei!

Para muitos de nós, a autoridade dos céus acaba se traduzindo em autoridade eclesiástica, uma vez que confiamos na igreja para interpretar as Escrituras e nos orientar em matéria de fé e de bons costumes.

Dia 31 de outubro comemoramos o início da reforma protestante, quando mudanças estruturais importantes começaram a ser implantadas nas igrejas oficiais, até então monopolizadas pelo catolicismo romano. Os cristãos que aderiram ao movimento reafirmavam que a autoridade dos céus, para os homens, está determinada na Bíblia, a Palavra de Deus, e é comum dizer que a reforma tem como fundamento os "cinco solas": Sola fide (somente a fé); Sola scriptura (somente a Escritura); Solus Christus (somente Cristo); Sola gratia (somente a graça); Soli Deo gloria (glória somente a Deus).

Com a liberdade de pensamento, porém, surgiram conflitos entre os próprios protestantes, pois alguns intérpretes importantes divergiram entre si a respeito de algumas doutrinas, mesmo tendo como base a mesma fonte de autoridade, as Escrituras.

Algumas doutrinas calvinistas foram contestadas por arminianos, e por isto os calvinistas as reiteraram no Sínodo de Dort, em 1619, através dos famosos 5 pontos do calvinismo, que são: T - Total Depravity; Depravação Total; U - Unconditional Election; Eleição Incondicional; L - Limited Atonement; Expiação Limitada I - Irresistible Grace; Graça Irresistível; P - Perseverance of the Saints; Perseverança dos Santos.

Uma vez um pastor me perguntou se eu sou calvinista ou arminiano. Foi difícil eu responder, principalmente porque eu não sabia quem era Armínio. Não pretendo entrar no meio deste duelo de gigantes, mas de uma coisa eu tenho certeza: Armínio, Calvino e eu (e provavelmente você) concordamos que a Bíblia é a única autoridade confiável dada a nós, homens, em matéria de fé e prática.

III - Autoridade social (31-33)

31 E eles discorriam entre si: Se dissermos: Do céu, dirá: Então, por que não acreditastes nele? 32 Se, porém, dissermos: dos homens, é de temer o povo. Porque todos consideravam a João como profeta. 33 Então, responderam a Jesus: Não sabemos. E Jesus, por sua vez, lhes disse: Nem eu tampouco vos digo com que autoridade faço estas coisas.

O povo, ou, em linguagem mais moderna, a sociedade, exerce sobre nós influência tão grande que acaba sendo uma verdadeira autoridade.

O rei Saul temia mais o povo do que a Deus. Em pelo menos três ocasiões na história de Saul, vemos que ele era muito sensível à vontade do povo, o que pode ser bom em alguns momentos, mas ruim em outros. Ele usurpou a posição de sacerdote, oferecendo sacrifícios, para impedir que o povo se dispersasse (1Sm 13.8,11,12); desistiu de executar sua precipitada sentença contra o próprio filho, Jônatas, pela intervenção do povo (1Sm 14.45); desobedeceu ordens expressas de Deus para agradar o povo, e mostrou exagerado interesse em ser honrado diante do povo, quando já havia sido reprovado por Deus (1Sm 15.9,15,21,24,30).

Uma famosa música antiga diz os seguintes versos: "Vivo condenado a fazer o que eu não quero; então bem comportado às vezes eu me desespero. Se faço alguma coisa sempre alguém vem me dizer que isso ou aquilo não se deve fazer. Restam meus botões... já não sei mais o que é certo. E como vou saber o que eu devo fazer? Que culpa tenho eu, me diga amigo meu. Será que tudo o que eu gosto é imoral, é ilegal ou engorda? (...)" (Roberto e Erasmo Carlos). É uma situação engraçada, mas mostra o quanto sofremos a influência das pessoas ao nosso redor, para o bem ou para o mal.

O médico Dráuzio Varela, falando sobre o problema do alcoolismo entre os adolescentes, diz que "Para essa reviravolta em relação ao uso de álcool entre os adolescentes, que ocorreu bruscamente de uma geração para outra, concorreram diversos fatores de risco. O primeiro é que o consumo de bebida alcoólica é aceito e até estimulado pela sociedade. Pais que entram em pânico quando descobrem que o filho ou a filha fumou maconha ou tomou um comprimido de ecstasy numa festa, acham normal que eles bebam porque, afinal, todos bebem. (...) Não é raro o problema começar em casa, com a hesitação paterna na hora de permitir ou não que o adolescente faça uso do álcool ou com o mau exemplo que alguns pais dão vangloriando-se de serem capazes de beber uma garrafa de uísque ou dez cervejas num final de semana." (http://drauziovarella.com.br/dependencia-quimica/alcoolismo-na-adolescencia/ - Acesso em: 17/10/2015)

A Bíblia nos adverte que a pessoa realmente feliz é a que "não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores" (Sl 1.1), e nos aconselha: "Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela)" (Mt 7.13). Portanto, aceitemos a autoridade social somente naquilo em que ela está concordando com os bons princípios da Palavra de Deus.

Quantas autoridades mais podemos citar como decisivas em nossas vidas? Podem ser nossos desejos, nosso orgulho, nossos prazeres, que estão "mandando" em nós e definindo nossos passos. Como temos reagido às autoridades que estão sobre nós? Autoridades civis, eclesiásticas e sociais têm o seu papel, mas não podem sobrepor-se à autoridade das Escrituras, e muito menos do Senhor das Escrituras, em nossa busca de fazer o que agrada a Deus.

(*) O contrabandista de Deus / Irmão André, John e Elizabeth Sherrili; tradução de Adiel Almeida de Oliveira - 3ª ed. - Belo Horizonte: Betânia, 2008

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Decepção


(Leia Mc 11.12-26)

A DECEPÇÃO PELA FALTA DOS FRUTOS (12-14)

No dia seguinte ao da entrada triunfal, quando saíram de Betânia, Jesus teve fome. "E, vendo de longe uma figueira com folhas, foi ver se nela, porventura, acharia alguma coisa. Aproximando-se dela, nada achou, senão folhas; porque não era tempo de figos. Então, lhe disse Jesus: Nunca jamais coma alguém fruto de ti!" O Rei ficou decepcionado com a figueira, figura que representava bem o povo de Israel, sobre quem ele fora proclamado rei no dia anterior. O Rei espera que os seus súditos lhe tributem dos seus frutos. Neste texto podemos ver que há pelo menos três frutos, esperados de Israel, os quais nós também devemos tributar ao nosso Rei Jesus:

I - TEMOR A DEUS E RESPEITO ÀS COISAS SAGRADAS (15-18)

Quando entrou no templo, "passou a expulsar os que ali vendiam e compravam; derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Não permitia que alguém conduzisse qualquer utensílio pelo templo;" porque os comerciantes usavam o seu pátio como um simples atalho, sem considerar que pisavam num local sagrado. Jesus os repreendeu: "Não está escrito: A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações? Vós, porém, a tendes transformado em covil de salteadores." Quando os principais sacerdotes e escribas ouviram o que estava acontecendo, procuravam um modo de lhe tirar a vida. Em vez de atender à repreensão, mostrando temor a Deus, apenas se preocupavam com a manutenção da "ordem" e dos negócios lucrativos dos comerciantes que lhes pagavam seu devido quinhão.

Há uma música que, para cantamos na igreja, precisamos modificar uma frase. Originalmente, ela dizia: "(...) Hoje sirvo a ele sem temor (...)". O motivo de mudarmos a frase é que, se a tomarmos "ao pé da letra", ela estará em desacordo com as Escrituras, como, por exemplo: Salmos 2.11: "Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos nele com tremor.", e Filipenses 2.12: "Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor".

Uma maneira de tributarmos ao Rei o fruto do temor, é nos lembrarmos que a Bíblia é sagrada. Não é um livro qualquer. Não devemos ler a Bíblia como qualquer outro livro, mas com reverência, com oração, com respeito, esperando que ela nos fale algo importante, algo que vai nos purificar, nos edificar, nos tornar mais capazes de agradarmos a Deus. Deve ser lida antes do jornal da manhã; antes, até mesmo, do texto "devocional". Outra maneira, é nos lembrarmos de que o templo em que nos reunimos para os cultos é sagrado. Até a nossa casa deve ser um lugar santo, para que o Senhor não veja ali abominação. O nosso corpo é sagrado, é o santuário do Espírito Santo, conforme 1Co 3.16,17: "Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado" . A nossa própria vida é sagrada, por isso devemos começar e terminar o dia sempre com oração. Também devemos orar durante o dia, reconhecendo sempre a presença do Senhor, e que a sua misericórdia é a causa de não sermos consumidos, conforme Lm 3.22,23: "As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade."

II - FÉ (19-24)

Quando chegou a tarde a tarde, voltaram para Betânia. E, passando eles na manhã seguinte, viram que a figueira secara. Ao ser avisado por Pedro, Jesus lhes disse: "Tende fé em Deus; porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele. Por isso, vos digo que tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco."

Sem fé é impossível agradar a Deus; ele responde as nossas orações, e espera que nós confiemos nele como conseqüência desta certeza. Em Lc 18.1-8, Jesus conta uma parábola sobre oração, em que uma viúva pede a um juiz iníquo para julgar a sua causa contra o seu adversário. De tanto insistir, ela conseguiu convencer o juiz a ajudá-la. Então faz a aplicação: "Considerai no que diz este juiz iníquo. Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?"

Deus tem dado, na história, grandes respostas de oração, como a libertação de Pedro da prisão, em At 12.5-16, e a resposta com fogo à oração de Elias em 1Rs 18.36-38; Nestes dois casos, curiosamente, logo após a grande resposta, há demonstrações de falta de fé. Os que oravam pela libertação de Pedro, custaram a acreditar que era ele batendo no seu portão, e Elias, logo depois de receber os milagres, foge com medo da rainha Jezabel.

Quem crê nas respostas de Deus às orações, pode fazer grandes coisas, e dar testemunho ao mundo, como fez, por exemplo, George Müller (1805-1898). Ele sensibilizou-se com a triste condição dos muitos órfãos abandonados, na Inglaterra de seus dias, e creu que podia acolhê-las em orfanatos, confiando somente na provisão de Deus através da oração. Na Wikipedia lemos a seu respeito, que, até o dia em que morreu, em 1898, Müller recebeu £ 1.500.000 (US$ 2,3 milhões, R$ 9 milhões) por meio da oração, e teve mais de 10.000 crianças sob seus cuidados (disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Ashley_Down - acesso em: 13/10/2015).

Um jornal de Liverpool, comentando sobre a sua vida e obra, escreveu: " Müller disse ao mundo que (sua obra) foi resultado de oração. O racionalismo de hoje zombará desta declaração. Mas os fatos permanecem, e permanecem para serem explicados. Não seria científico desdenhar das ocorrências históricas quando elas são difíceis de esclarecer. E seria necessário muito truque para fazer os orfanatos em Ashley Down sumirem da vista." (Disponível em: http://www.gilsonsantos.com.br/pdfs/george_muller.pdf - Acesso em: 13/10/2015)

Charles Dickens, autor do livro "Oliver Twist", visitou o seu orfanato e fez um relatório favorável, em 1857. Sua impressão sobre este homem de fé foi a de que "George Müller se preocupa com o órfão, e tem realizado em sua própria maneira um substancial trabalho que deve assegurar-lhe o respeito de todos os homens de bem, qualquer que seja a forma de sua fé religiosa." (Household words - BUCKINGHAM LIBRARY - UNIVERSITY OF BUCKINGHAM disponível em: http://www.archive.org/stream/householdwords16dick/householdwords16dick_djvu.txt - Acesso em: 13/10/2015 - tradução minha).

Se temos recebido respostas de oração, grandes e pequenas, porque não tributarmos ao Rei o nosso fruto da fé, de confiança, de fidelidade?

III - INDULGÊNCIA (disposição para perdoar culpas ou erros; clemência, misericórdia) (25-26)

Deixando de lado a figueira seca, que não era importante naquele momento, Jesus falou aos discípulos sobre a importância de orar com fé, e acrescentou: "quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas. Mas, se não perdoardes, também vosso Pai celestial não vos perdoará as vossas ofensas."

Segundo os psicoterapeutas, a prática do perdão é essencial para a saúde do indivíduo, pois quem perdoa, se liberta de uma auto-tortura. Num artigo de Abílio Diniz, ele cita a psicoterapeuta Olga Tessari, dizendo que "não há força de vontade que possa eliminar as lembranças da vida, já que todos os acontecimentos ficam gravados no inconsciente. Por outro lado, com o perdão, é possível se livrar da angústia causada pelas mágoas passadas. “Não esquecemos os fatos que nos feriram, mas podemos parar de sofrer por causa deles. A pessoa que realmente perdoa, para de se torturar pelo ocorrido e o considera apenas um capítulo da sua história.” (disponível em: http://abiliodiniz.com.br/qualidade-de-vida/amor/o-poder-do-perdao/ - Acesso em: 13/10/2015)

A indulgência, neste contexto, vai além do conceito tradicional que temos de perdão. Você já deve ter ouvido ou até mesmo usado a expressão "não deixem que montem em cima de você", significando que temos que nos proteger daqueles que querem se aproveitar de nossa bondade. Mas o sentido do perdão, neste contexto, é justamente isto. A mesma palavra grega traduzida como "perdoai" no versículo 25, e como "permitia" no versículo 16, foi traduzida como "deixa-lhe" em Mateus 5.40: "e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa." Podemos parafrasear este versículo, usando uma linguagem coloquial de nossos dias, dizendo: "se alguém quiser se aproveitar de você, deixe logo que monte em cima". Certamente isto não vale para todas as situações, mas vale para muitas situações em que estamos brigando, fazendo questão de certos direitos, perdendo a paz com o próximo e, junto com isto, o perdão e a comunhão com Deus. Em vez disto, deveríamos estar pagando o tributo de indulgência, para a glória do Reino de nosso Senhor Jesus Cristo.

Será que nós temos causado decepção ao nosso Rei, por deixarmos de tributar a ele os frutos de temor, desrespeitando as coisas sagradas? Será que temos nos comportado como homens e mulheres de pequena fé, andando ansiosos em vez de confiarmos em seu amor e poder através da oração? Temos deixado de ser indulgentes, de perdoar e deixar de lado as ofensas que sofremos, pela causa maior do Reino de Deus? Que o Senhor nos ajude a sermos bons súditos, tributando a ele tempestivamente os devidos frutos.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Servidores do rei


(Leia Mc 11.1-11)

Este texto narra o episódio que nós conhecemos como a entrada triunfal. Jesus entra, aclamado como rei, em Jerusalém, cumprindo a profecia de Zc 9.9: "Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta." A entrada triunfal, segundo a teoria dispensacionalista, marca o final da 69ª semana de Daniel, e abre os parêntesis para a era da igreja. Para os amilenistas e pós milenistas, porém, este evento ocorre próximo ao fim da primeira metade da septuagésima semana. Para maiores detalhes sobre este assunto, existem muitos livros que podem ser lidos, e também muito material na Internet, entre os quais compartilho, aqui, o link de dois artigos cujos autores defendem pontos de vista opostos, em: http://www.chamada.com.br/mensagens/calvinismo_dispensacionalismo.html e:
http://www.monergismo.com/textos/dispensacionalismo/setenta-semanas-posmilenismo_keith-mathison.pdf.
Discussões teológicas à parte, entretanto, vejo neste texto que Jesus, agora aclamado como Rei, tinha pelo menos três categorias de servidores:

I - Missionários (Os dois que foram enviados para a missão específica de buscar o jumentinho)

Há pessoas a quem o Senhor designou para uma missão específica, como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Paulo, e outros, que receberam um chamado inequívoco, para o cumprimento dos propósitos do Reino. É assim que alguns servem o Senhor ainda hoje, sendo missionários transculturais, pastores, líderes de movimentos ou de trabalhos com grupos selecionados (presidiários, enfermos, viciados, moradores de rua, crianças...).

O Espírito dá dons específicos para serviços específicos, conforme lemos em 1Co 12.28-30 e Ef 4.11,12. Você acha que Deus o tem chamado para alguma função específica? Se Deus chamou, e você está andando em comunhão com ele, o seu chamado será confirmado, e o exercício do seu dom será aceito na igreja de Deus. Os dons, porém, deverão ser desenvolvidos, pois o Senhor faz questão da participação humana no trabalho, assim como aconteceu com os escritores da Bíblia, que, embora seja reconhecida como a Palavra de Deus, não deixa de revelar o caráter e o estilo de seus escritores, inspirados, mas humanos. Por isto é tão importante a preparação acadêmica e treinamentos específicos. Seu chamado é para trabalhar com crianças? Estude pedagogia. É para trabalhar com índios? Estude lingüística. Trabalhar com enfermos? Um curso de enfermagem seria extremamente útil. Mas, acima de tudo, devemos estudar a Palavra de Deus e a teologia em geral, porque o nosso principal objetivo, afinal, é formar discípulos de Cristo.

II - Provedores (Os donos do jumentinho)

O jumentinho, naquele contexto, é como o automóvel de hoje. Você aceitaria entregar as chaves do seu carro a dois estranhos que viessem à sua porta dizendo: “O Senhor precisa dele”? Só se o Senhor tivesse telefonado para você antes! Mas você pode usar o seu carro para o serviço do Senhor. Ele precisa do seu carro. Precisa também da sua casa, do seu instrumento musical, das suas ferramentas, do seu dinheiro... Você pode administrar todos os seus bens de forma que sejam úteis ao reino de Deus. Devemos nos apropriar, com as devidas adaptações, da advertência dada por Mordecai a Ester, em Et 4.14: "(...) E quem sabe se para conjuntura como esta é que (...)" fomos abençoados com os nossos bens?

Gosto de uma poesia, adaptada de Isaac Nicolau Salum, chamada “A cruz de Cristo”, que diz: "Prá viver entre nós, numa cama emprestada, ele humilde nasceu. E em jumento emprestado, Ele andou toda estrada. Da montanha à cidade e à cidade desceu. Mas a cruz dolorosa e a coroa espinhosa eram suas, bem suas, a ninguém as deveu! (...)”. Gióia Junior, em poesia semelhante, escreveu: "(...) O berço, o jumentinho e o suave pão, eram dele a partir da criação, ele os criou – assim diz a escritura ... mas a cruz que ele usou, a rude cruz, a cruz negra e mesquinha, onde meus crimes todos expiou, essa não era sua – essa cruz era minha!"

III - Adoradores (O povo que estendeu suas vestes e ramos pelo caminho, e proclamou Jesus como rei)

Um rei precisa de súditos. Um presidente precisa de um povo. Até os ídolos precisam dos fãs. Não pense que você não é importante, só porque não é um missionário e tem poucos recursos para ser considerado um provedor. Muitos "crentes comuns" são, freqüentemente, ofendidos dos púlpitos, sendo chamados de “esquenta-bancos”. Mas estes crentes são o motivo de existirem os pregadores. Se um pastor não tiver ovelhas, a quem é que vai pastorear? E se as ovelhas todas deixassem de ser imaturas para serem "auto-suficientes" como seus pastores? E se todas elas atendessem unânimes ao apelo emocionado do conferencista e se tornassem missionárias transculturais?

Nossa Igreja, alguns anos atrás, resolveu fazer um coral. Foi um esforço muito grande, todos se dedicaram bastante e treinaram a sua voz, para que a apresentação fosse brilhante. No grande dia, o dirigente anunciou: “agora vamos ouvir a apresentação do coral da Igreja Bíblica de Rio Preto”. Então, meio aflito, observou enquanto todos se levantaram e vieram para a frente. Todos mesmo! Os bancos ficaram vazios, pois todos os que vieram para o culto naquele dia faziam parte do coral.

Se alguém acha que os "esquenta-bancos" não fazem falta nas reuniões da Igreja, está enganado. Se alguém acha que seu testemunho não faz diferença, que não é impactante como o dos pastores e missionários, está enganado. Eles também são importantes servidores do Rei Jesus, tanto quanto os demais.

Que tipo de servidores somos nós? Missionários, provedores, ou simplesmente adoradores? Podemos ser os três, mas todos devemos ser pelo menos adoradores. Cuidemos, porém, para não nos deixarmos levar pela pura emoção, como é a tendência da massa de adoradores. Aquela multidão que proclamava Jesus como Rei, dias depois também pedia ao governador Pilatos a sua crucificação. Sejamos adoradores, em primeiro lugar. Procuremos, porém, progredir, e tenhamos o coração sincero para com o nosso Senhor e Rei Jesus Cristo, atentos à sua lei e aos seus ensinamentos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O segredo da felicidade


(Leia Mc 10.46-52)

Embora estivesse assentado, pedindo esmolas, Bartimeu era um homem que o mundo, na linguagem de hoje, chamaria de "ambicioso". Ele não queria somente esmolas, queria a atenção do "Filho de Davi", e queria voltar a ver, voltar à condição que tinha antes de se tornar cego. Ele buscava a felicidade, e a conquistou através dos passos a seguir:

Primeiro passo: Reconheceu a sua necessidade

Bartimeu não era um cego qualquer. Ele tinha um nome, uma família. A Bíblia não revela quem ele era antes de se tornar cego, mas dá uma indicação, ao diferenciar a narração de sua cura, citando-lhe o nome, e o nome de seu pai. Em algum momento de sua história, este homem poderia ter sido bem posicionado na sociedade, mas agora mendigava. Encarava o fato de que dependia da caridade de outros para sobreviver.

Quando falamos aos outros sobre a salvação, começamos com este passo. Ninguém poderá ser salvo se primeiro não reconhecer que é um pecador, e que necessita da glória de Deus (Rm 3.23).

Segundo passo: Atendeu ao chamado

Jesus chamou Bartimeu. Era quase certo que seu pedido tinha sido atendido. Chegara a sua vez de estar frente a frente com o Mestre, e pedir-lhe o que estava em seu coração. A grande alegria de Bartimeu, quando se lhe abriu a oportunidade de falar pessoalmente com Jesus, pode reproduzir-se em nós, se reconhecermos a porta aberta da oração, pois através dela podemos ter uma "tele" conferência diária, constante, com o Senhor da Glória.

Bartimeu não hesitou, ao ouvir que Jesus o chamara. Foi ao seu encontro, resoluto. Nem se importou mais com a capa que usava. Uma capa era uma vestimenta importante, que certamente lhe faria falta, nas noites frias. Mas a urgência era tão grande que nada mais importava senão atender ao chamado de Jesus. A maneira como ele se levantou faz-me lembrar do filho pródigo, quando caiu em si, e resolveu voltar para o pai (Lucas 15.20).

Hoje nós também temos sido chamados, como diz Apocalipse 22.17: "O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida."

Terceiro passo: Declarou a sua necessidade

Imagino o que se passava no seu íntimo, enquanto estava à beira do caminho, esperando esmolas, ouvindo atentamente todos passarem. "Se eu voltasse a ver...", pensava, e sonhava com muitos projetos. Quantos de nós estamos como Bartimeu, à beira do caminho, esperando alguma dádiva, algum alívio? Jesus está passando agora mesmo em nossas vidas. Antes dele partir para o céu, disse que mandaria o Espírito Consolador para substituí-lo, possibilitando sua presença constante e em todos os lugares ao mesmo tempo. Jesus está aqui, passando bem na nossa frente, por meio do Espírito Santo. Podemos clamar: "Jesus, tem compaixão de mim!". E ele ouvirá. Aliás, ele já está nos chamando; está parado, esperando que nos levantemos de um salto, lancemos fora a nossa capa, e declaremos o que queremos que ele nos faça. Tenhamos bom ânimo, tenhamos coragem para pedir aquilo que, sabemos, ele não vai nos negar; aquilo que, sabemos, é conforme à sua vontade. A nossa maior necessidade é de salvação, mas temos que pedir antes que seja tarde demais, como aconteceu com o homem rico, conhecido de Lázaro, em Lucas 16.24: "Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama."

Pensando um pouco mais sobre o assunto: se eu pedir para ser curado de um defeito físico, ou de uma enfermidade grave, Jesus vai me curar? Jesus sempre responde sim, como respondeu a Bartimeu? A própria Bíblia nos responde.

Muitos há que se revoltam contra Deus e o mundo, porque a sua esperança foi frustrada. Buscaram a Deus num momento de desespero, esforçaram-se para crer, e andar nos seus caminhos; apegaram-se a promessas mal entendidas, como Jo 15.7 e 1Jo 5.14,15, e nada do que esperavam aconteceu, como se Deus não estivesse se importando, como se ele nem existisse. É natural que Deus não atenda todos os pedidos, por mais necessitados que estejamos. Nós é que temos dificuldade para entender que Deus é soberano, e que a sua sabedoria é infinita. Bem pertinho deste texto, Jesus negou habilmente um pedido dos filhos de Zebedeu, porque eles não sabiam o que pediam. O piedoso Paulo também teve um importante pedido negado, conforme ele mesmo revela em 2Co 12.7-9. O cego de Jericó foi curado, mas o que dizer dos cegos de Betel, de Belém, de Hebrom, de Berseba? Até onde sabemos, Jesus não passou por lá, enquanto estava na terra, para curar os seus enfermos.

Quarto passo: Seguiu Jesus

Quaisquer que tenham sido os projetos de Bartimeu, tudo foi lançado fora, junto com a sua capa. Bartimeu não voltou à vida antiga, como talvez planejasse, caso fosse curado. Não somente a cura, em si, mas a maneira como foi curado, o autor da sua cura, as palavras de Jesus: " Vai, a tua fé te salvou", libertando-o para fazer o que quisesse, deixando-o à vontade para enfim se lançar aos seus projetos, tudo isto operou nele uma transformação. Não foi só a visão física que lhe foi restaurada, mas a visão de sua vida, como um todo. Foi-se embora, seguindo Jesus estrada fora, para onde quer que Jesus o guiasse.

O que é que nos falta para sermos felizes? Um emprego? Um emprego melhor? Uma saúde melhor? O segredo da felicidade não está na mudança das circunstâncias, mas no resultado de encararmos quaisquer circunstâncias com os olhos da fé. Bartimeu podia pensar que a sua felicidade estava em voltar a enxergar, mas não estava. Jesus podia ter-lhe negado o milagre, e dado ao cego somente o espírito de alegria. Bartimeu o seguiria estrada fora, com a mesma felicidade.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O líder cristão


(Leia Mc 10.32-45)

Quem não quer ser o chefe? É bom mandar, não é? A gente fica imaginando como é boa a vida do nosso chefe. Ele nem precisa trabalhar. Só manda e as pessoas fazem, depois ele recebe todo o mérito. Há lideranças que são naturais, como a do marido sobre a mulher, dos pais sobre os filhos, do irmão mais velho sobre o mais novo, do professor sobre as crianças que ensina. E há também lideranças especiais, cujo líder é alguém que se destacou na sua comunidade, no seu país ou mesmo no mundo, como os prefeitos, governadores, e presidentes. Jesus é o maior líder do mundo. O Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Seu modo de liderar é um exemplo a ser seguido.

O líder cristão se comporta conforme o exemplo de Cristo. Neste texto estão destacados três exemplos de liderança, que devem ser seguidos pelos líderes cristãos.

I - Exemplo de Coragem (determinação) (32-34)

Estando de caminho, subindo para Jerusalém, Jesus ia adiante dos discípulos. Eles se admiravam e o seguiam tomados de apreensões. Jesus passou a revelar-lhes as coisas que lhe deviam sobrevir, que seria entregue aos principais sacerdotes e aos escribas; condenado à morte e o entregue aos gentios; seria escarnecido, açoitado e assassinado; mas, depois de três dias, ressuscitaria.

a) ia adiante - liderava

À frente dos discípulos, Jesus ia resoluto, mesmo sabendo dos perigos e dos sofrimentos que ia enfrentar. Não podia ser diferente. Alguém tinha que fazer isto, e Jesus sabia que este alguém era ele.

Um dos exemplos mais comuns de liderança natural é o caso do marido no lar. O marido que é, de fato, cristão, lidera a esposa e os filhos corajosamente, tomando para si as responsabilidades. A mulher jovem, que pretende se casar, não deve escolher um pretendente pelo porte físico ou pela condição social somente, mas sobretudo pelo caráter, observando como ele se comporta diante de situações em que tenha que assumir a liderança.

b) tomados de apreensões

Os discípulos estavam tomados de apreensões. Sabiam que estavam entrando cada vez mais fundo em terreno perigoso, mas seguiam o Mestre. Nós temos que nos submeter à liderança, quando acreditamos que o líder é guiado por Deus. A maioria de nós está pronta para se arriscar, para avançar numa tarefa difícil, se tiver um líder que vá à frente. Mas precisamos escolher bem nossos líderes, para não cairmos em armadilhas. Há muitos líderes, no mundo, como Jim Jones, que guiou mais de 900 pessoas ao suicídio, uma grande tragédia (1).

II - Exemplo de Ponderação (35-40)

Inacreditavelmente, num momento tão inoportuno, se aproximaram dele Tiago e João, pedindo-lhe que, na sua glória, se assentassem um à sua direita e o outro à sua esquerda. Mas Jesus disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado? Eles achavam que sim. Jesus advertiu: "Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado; quanto, porém, ao assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado. "

A resposta de Jesus mostrou ponderação, que, segundo os dicionários, é reflexão, consideração, tino, prudência, juízo, bom senso. Equilíbrio apresentado entre forças que se opõem entre si. É como se fosse colocar ideias numa balança, "pesando" os prós e os contras.

a) que quereis que eu vos faça? (Saber ouvir, deixar que falem)

Os melhores líderes, no mundo, sabem que o exemplo de Cristo deve ser seguido. Um líder empresarial nacionalmente reconhecido, chamado Villela da Matta, aconselha os líderes em formação, com as seguintes palavras: "Tenha consideração pelas opiniões de seu interlocutor e demonstre respeito por ele. Crie condições favoráveis para a outra pessoa expressar livremente suas convicções e não deixe que a discussão seja levada para o lado pessoal. Compreenda de fato o que o outro transmitiu para então questioná-lo. Dessa forma, você evitará interpretações infundadas. O importante, além de saber ouvir com atenção, é ter a capacidade de aceitar as pessoas como elas são." (2)

Waleska Farias, autora do livro "O líder Integral" em entrevista à revista Exame, diz o seguinte: "Não é difícil perceber que para liderar pessoas, antes, é necessário compreendê-las. A premissa básica do líder é desenvolver seus colaboradores e, para que isso seja possível, é preciso haver o entendimento, na condição humana do profissional, da sua integralidade, e dispor-se a acolher suas necessidades e expectativas pelo viés pessoal e profissional." (3)

b) não sabeis o que pedis

O chefe não precisa ser autoritário. É certo que o chefe deve ser o mais informado, sensato, sábio. Mas os liderados têm anseios, e às vezes têm ideias que à primeira vista parecem insanas. Mas quando ouvimos, podemos identificar o que está por trás daquele anseio, e assim ajudá-los a mudar de pensamento. Jesus não reprovou os filhos de Zebedeu por terem feito um pedido tão inadequado. Ele ouviu, levou-os a ponderar na implicação de almejar uma posição tão elevada no reino, e finalmente esclareceu que não cabia a ele, mas a uma autoridade superior (ao Pai), escolher os que iam ocupar este lugar de honra no Reino de Deus.

III - Exemplo de Dedicação (41-45)

"Ouvindo isto, indignaram-se os dez contra Tiago e João. Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos."

a) o líder cristão não é dominador

O bispo do Conselho geral da Igreja Metodista Livre do Brasil - José Ildo Swartele de Mello, acredita que "Um líder verdadeiramente cristão não tem o desejo de liderar, mas é pressionado a aceitar uma posição de liderança pelo chamado interno do Espírito Santo e pela pressão das circunstâncias externas. Pois aquele que tem a ambição de liderar está desqualificado para ser líder. O verdadeiro líder cristão não tem o mínimo desejo de mandar na herança de Deus, mas é humilde, gentil, possui espírito sacrificial, pronto para liderar como para ser liderado, quando se deparar com alguém mais capacitado que ele ou em posição de comando. Pois, só quem sabe ser submisso, pode também liderar com excelência." (4)

O chefe de família, por exemplo, é um líder no seu lar, mas ele não pode ser um dominador. O marido não tem poder nem sobre o seu próprio corpo, conforme 1Coríntios 7.4: "A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e também, semelhantemente, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim a mulher."

b) para ser o maior no reino de Deus tem que ser o menor aqui na terra

A Bíblia nos conta uma história importante sobre submissão com sabedoria, em 1Sm 25.2-34. Abigail era submissa ao seu marido, Nabal, mas também era autoridade sobre os servos de sua casa. Ela agiu com sabedoria, liderando seus servos, e indo se humilhar diante de uma autoridade maior, Davi, que estava prestes a se tornar rei de toda a nação. Agindo assim, ela poupou seu marido, sua família, seus servos, e o próprio futuro rei de uma grande tragédia. Ela soube ser submissa e líder ao mesmo tempo, dentro do seu campo possível de atuação.

Tão importante quanto ser um líder, é aprender a ser submisso com sabedoria. Olhando mais atentamente para o texto, vimos um outro herói, anônimo: o empregado que, vendo que seu senhor Nabal agia errado, falou com a segunda autoridade da casa, Abigail. Imagino o que deve ter se passado na mente daquele homem, humilde, sem poder nenhum para mudar o rumo da iminente tragédia que estava para sobrevir aos habitantes da fazenda onde habitava. Possivelmente orou, pedindo a Deus proteção, e, num lampejo, lhe veio a Ideia: "vou falar com a dona Abigail. Quem sabe ela poderá fazer alguma coisa?". Esta simples decisão mudou toda a história.

Nós, que temos sido colocados por Deus em posição de liderança, saibamos seguir o exemplo do Senhor Jesus, sendo corajosos para tomar a iniciativa, ponderados quanto à nossa posição e autoridade, e dedicados a servir em primeiro lugar. Nós que estamos sob autoridade, sejamos sábios para escolher nossos líderes, quando isto é possível. Quando não é possível, e quando os que nos lideram estiverem errados, peçamos a Deus sabedoria, e façamos o que estiver ao nosso alcance para manter a paz. E acima de tudo, vamos nos render ao que é o Senhor dos senhores, Jesus Cristo, e deixar que ele nos guie para a vida eterna.

(1) Disponível em: http://pasdemasque.blogspot.com.br/2010/02/james-warren-jim-jones-templo-do-povo.html - Acesso em: 25/09/2015.
(2) Villela da Matta - A Arte de Saber Ouvir - Disponível em: https://www.sbcoaching.com.br/blog/comportamento/arte-de-saber-ouvir/ - Acesso em: 26/09/2015.
(3) Waleska Farias - autora do livro O líder Integral, em entrevista à revista Exame - disponível em: http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/sidnei-oliveira/2014/10/31/o-lider-integral/ - acesso em: 26/09/2015
(4) O líder cristão, um humilde servo - Bispo José Ildo Swartele de Mello - disponível em: http://reformados.com.br/o-lider-cristao-um-humilde-servo/ - Acesso em: 26/09/2015