(Leia Mc 12.1-12)
Outro dia li uma notícia que me deixou alarmado: "A Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que os ataques contra albinos, cujas partes dos corpos são altamente valorizados em rituais de bruxaria e podem alcançar altos preços, têm sido registrados desde agosto em seis países no sul e leste do continente africano. (...) Curandeiros chegam a pagar US$ 75 mil (R$ 285 mil) por um conjunto completo de órgãos de um albino, de acordo com um relatório da Cruz Vermelha, para usá-los em feitiços que acreditam trazer boa sorte, amor e riqueza. A ONU alertou em março que 2015 seria um ano perigoso para os albinos na Tanzânia, à medida que políticos recorrem a bruxos para aumentar suas chances de vencerem nas urnas." (Reuters - 15/10/2015 - Disponível em: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2015/10/15/ataques-contra-albinos-aumentam-com-proximidade-de-eleicoes-na-africa.htm - Acesso em: 21/10/2015). Pensei: Como é possível isto acontecer ainda hoje? Vivemos num tempo e cultura em que estes costumes pagãos antigos foram praticamente erradicados. O cristianismo conquistou a maior parte do mundo, influenciando as nações a abolirem práticas pagãs e criarem leis inspiradas nos padrões bíblicos. Os frutos de justiça que glorificam ao Senhor têm se multiplicado na história através da evangelização e conseqüentes ajustes dos costumes, para se adequarem ao mandamento de nos amarmos uns aos outros. A parábola dos lavradores maus nos mostram três verdades a respeito do plano de Deus para este mundo.
Primeira Verdade: DEUS PLANTOU UMA VINHA (1)
Deus estabeleceu Israel, investiu nesta nação, dando a eles tudo o que era necessário para frutificarem. Tirou-os do Egito com grandes manifestações de poder, conduziu-os pelo deserto, e expulsou diante deles os inimigos para possuírem a terra de Canaã. Deixou-os, então, para que se desenvolvessem e glorificassem o nome do seu criador.
Assim que atravessaram o Mar Vermelho, eles cantaram um cântico que dizia: "Ó SENHOR, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em feitos gloriosos, que operas maravilhas?" (Êxodo 15.11). As palavras deste cântico mostram como Senhor começou a ser engrandecido perante o povo, antes acostumado a valorizar também outros deuses.
Em Nm 24.5-9 vemos, através dos olhos de Balaão, um belo quadro da glória da nova nação que estava nascendo, para glorificar o Deus dos deuses: "Que boas são as tuas tendas, ó Jacó! Que boas são as tuas moradas, ó Israel! Como vales que se estendem, como jardins à beira dos rios, como árvores de sândalo que o SENHOR plantou, como cedros junto às águas. Águas manarão de seus baldes, e as suas sementeiras terão águas abundantes; o seu rei se levantará mais do que Agague, e o seu reino será exaltado. Deus tirou do Egito a Israel, cujas forças são como as do boi selvagem; consumirá as nações, seus inimigos, e quebrará seus ossos, e, com as suas setas, os atravessará. Este abaixou-se, deitou-se como leão e como leoa; quem o despertará? Benditos os que te abençoarem, e malditos os que te amaldiçoarem."
Nos seus tempos áureos, os salmistas de Israel cantavam: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra." (Sl 46.10); mas na sua decadência, foi advertida através do profeta Isaías (5.7): "Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do SENHOR; este desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor."
Segunda verdade: DEUS PÔS LAVRADORES PARA CUIDAR DA VINHA E LHE RENDER FRUTOS (2-9)
Os frutos que Deus esperava receber de Israel não lhe foram entregues. Os profetas, que agiram como uma espécie de cobradores de frutos espirituais, não foram bem recebidos, mas desprezados, presos, mortos. Finalmente veio Jesus, o Filho de Deus, o qual deveria ter sido honrado, na forma de arrependimento e de outorga dos frutos de justiça, mas então eles decidiram, ainda com mais firmeza, assassiná-lo; e Deus, o dono da vinha, resolveu julgar os lavradores maus, e dar a vinha a outro povo, a Igreja.
Jesus falou sobre os crimes contra os profetas, em Lc 11.49-52: "Por isso, também disse a sabedoria de Deus: Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, e a alguns deles matarão e a outros perseguirão, para que desta geração se peçam contas do sangue dos profetas, derramado desde a fundação do mundo; desde o sangue de Abel até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a casa de Deus. Sim, eu vos afirmo, contas serão pedidas a esta geração. Ai de vós, intérpretes da Lei! Porque tomastes a chave da ciência; contudo, vós mesmos não entrastes e impedistes os que estavam entrando."
Mas, e a Igreja! Tem dado a Deus os frutos que Israel falhou em dar? Assim como Israel começou a “dar trabalho” logo no início de seu estabelecimento, assim também a Igreja. Lemos em At 5.3-5 a história de Ananias e Safira: "Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus. Ouvindo estas palavras, Ananias caiu e expirou, sobrevindo grande temor a todos os ouvintes." Um conflito foi registrado em Atos 6.1: "Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária." E Paulo repreende os Gálatas (1.6): "Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho"
Os cristãos que perseveraram, porém, glorificaram a Deus, e em geral foram grandemente perseguidos nos três primeiros séculos de sua era, até que um imperador romano, Constantino, se converteu, e o quadro começou a mudar. A Igreja passou a influenciar e ser influenciada pelos poderes políticos, chegando, em alguns momentos, a governar com poder superior ao dos imperadores. A grande concentração de poder deu ensejo, naturalmente, à corrupção e disputas políticas, além de opressão aos que ameaçavam os intentos das autoridades eclesiásticas, e assim a Igreja também perseguiu e matou seus "profetas", sendo um dos casos mais notáveis, John Huss, condenado em 1415 a ser queimado vivo, por suas idéias reformadoras. A Igreja oficial, agindo assim, assemelhava-se aos maus lavradores, querendo apropriar-se da vinha do Senhor.
Terceira verdade: CRISTO É A NOVA VIDEIRA DE DEUS (10-12)
O Filho de Deus, que eles mataram, ressuscitou e tornou-se a principal pedra no templo dedicado à glória do Senhor. Ele também declara em Jo 15.1-8: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos."
A relação entre Igreja e poderes políticos é quase inevitável, neste mundo, mas não é essencial, nem mesmo desejável, dentro dos altos propósitos de Deus nesta era. No Brasil, os católicos é que foram os mais influentes e beneficiados nesta relação. Basta constatar que, na maioria das cidades antigas, há uma Igreja católica no centro, uma praça, e a partir daí a cidade se desenvolveu. Alderi Souza de Matos, historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil, nos conta que, “Com a vinda do primeiro governador-geral, Tomé de Souza, também chegaram os primeiros jesuítas, liderados pelo padre Manoel da Nóbrega (1549). Por 210 anos eles foram os principais missionários e educadores no Brasil. Alguns deles foram defensores dos índios, como o celebrado padre Antonio Vieira (1608-97). Ao mesmo tempo, os jesuítas tornaram-se os maiores proprietários de terras e senhores de escravos do Brasil colonial.” (IGREJA E ESTADO: UMA VISÃO PANORÂMICA – Disponível em: http://www.mackenzie.br/7113.html - Acesso em: 20-10-2015).
O Reino de Jesus, porém, não é deste mundo (Jo 18.36), e nós temos a missão de produzir bons frutos, ligados a Jesus, a videira verdadeira, ainda que, à margem e sob a opressão dos poderes políticos ou religiosos constituídos no meio em que vivemos. Um exemplo que me inspira é o de Robert Kally, médico escocês que se dedicou à obra missionária, primeiramente em Portugal, na Ilha de Madeira, e depois no Brasil. Lemos a seu respeito que "na época, a Madeira atravessava uma forte crise econômica. O comércio do vinho, base da economia da ilha, estava em declínio. Os desastres naturais levaram à fome, ao abandono de vinhedos e ao desemprego em massa. Para muitos, a emigração foi uma questão de sobrevivência. A situação foi agravada pela tensão religiosa entre o grupo de convertidos presbiterianos e a comunidade local, tradicionalmente católica. A nova igreja seria perseguida pelas autoridades madeirenses. A partir de 2 de agosto de 1846 intensificaram-se as injúrias e ações contra os "calvinistas". Em 9 de agosto de 1846, a casa dos Kalleys foi incendiada." Ele fugiu para os Estados Unidos, e depois veio para o Brasil. "No dia 11 de julho de 1858 organizou a Igreja Evangélica Fluminense, uma igreja evangélica brasileira sem nenhum vínculo com denominações até então existentes. Foi organizada com 14 membros, sendo batizado naquele dia o primeiro brasileiro Pedro Nolasco de Andrade. (...) Kalley foi também aquele que conseguiu plantar o Cristianismo Evangélico de forma definitiva no Brasil. Seu trabalho influenciou outros missionários a trabalharem no Brasil, contribuindo para a construção do protestantismo no país" (disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Kalley - Acesso em: 21/10/2015).
Missionários como Kalley e outros crentes fiéis, têm buscado fazer frutificar a Igreja, o corpo de Cristo, o qual é a videira verdadeira.
A videira está sob nossa responsabilidade. Que tipo de lavradores nós temos sido? Vamos nos consagrar ao trabalho nesta vinha do Senhor, para que possamos, com nosso testemunho de fé, transformar o meio em que vivemos, e chegar a alcançar os povos que ainda não reconhecem o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que precisam sair das trevas, e aproximar-se da luz.
Talvez você esteja se perguntando que coisas grandiosas precisa fazer, mas às vezes não é disto que se trata. Quando pessoas arrependidas, que atenderam ao apelo de João Batista, perguntaram o que deviam fazer (que frutos de arrependimento deveriam mostrar), ele respondeu: "Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. Foram também publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos de fazer? Respondeu-lhes: Não cobreis mais do que o estipulado. Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo" (Lc 3.10-14). A simples obediência a preceitos elementares são muito bons frutos. É destes ramos produtivos que o Senhor separa alguns para obras grandiosas, como é o caso, por exemplo, de missões transculturais.