segunda-feira, 19 de março de 2018

Despertando Sentimentos (Atos 5.26-33)


Nos últimos dias, o assassinato da vereadora Marielle causou muita comoção da população, e houve manifestações populares em várias cidades do país e até no exterior. Muitas pessoas morrem assassinadas todos os dias, mas Marielle era uma mulher diferente, que representava uma ideologia amada por alguns, e odiada por outros. Da mesma forma a história deste parágrafo de Atos mostra que o comportamento e a pregação dos apóstolos despertavam sentimentos variados, especialmente entre os judeus, que tinham ciúmes do sucesso e da expansão da Igreja.

Respeito (26,27)

 Nisto, indo o capitão e os guardas, os trouxeram sem violência, porque temiam ser apedrejados pelo povo. Trouxeram-nos, apresentando-os ao Sinédrio. E o sumo sacerdote interrogou-os,

Um dos sentimentos despertados pelo comportamento e a pregação dos apóstolos entre o povo é o respeito. Os apóstolos faziam curas. Livraram-se da prisão de forma miraculosa, e eram praticamente venerados pelo povo, que ficaria revoltado caso os soldados os tratassem com violência na sua frente. Muitos líderes religiosos são respeitados pelas autoridades. Silas Malafaia, por exemplo, recebeu título de cidadão benemérito na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Eu tenho uma carteirinha de pastor, onde constam alguns direitos garantidos por lei, que me dão certos privilégios na hora de pedir entrada num hospital. As igrejas no Brasil estão isentas de impostos, pois o governo reconhece a importância dessa instituição na sociedade.

Um bom exemplo de que os cristãos, ao longo do tempo, foram conquistando respeito, inclusive pela mídia, é o caso dos cantores gospel, que ultimamente têm sido chamados para apresentações em programas de grande audiência, e para entrevistas em rede nacional.

Em seu livro A explosão gospel, Magali do Nascimento Cunha cita Sandro Baggio, para falar da trajetória dos cantores gospel desde os pioneiros até os mais modernos:

O primeiro cantor evangélico a inserir o violão como instrumento musical litúrgico foi Luiz de Carvalho, que ousou utilizá-lo ainda nos anos 60 para acompanhar composições religiosas de sua autoria que continham ritmos populares. Foi o primeiro a gravar um LP evangélico no Brasil.

A autora diz ainda que

A introdução dos “corinhos” começou por volta dos anos 1950-1960 no Brasil, especialmente por meio de organizações como Palavra da Vida, Jovens da Verdade, Mocidade para Cristo e Serviço de Evangelização para a América Latina (Sepal). Muitos dos corinhos mais antigos, cantamos até hoje em nossa Igreja, como “há momentos em que as palavras não resolvem, mas um gesto de Jesus demonstra amor por nós”. [...] Houve reação negativa das comunidades à nova experiência musical, em especial à tentativa de utilização de instrumentos considerados profanos, como o violão e o teclado. [...] Este quadro se alterou nos anos 70 pela influência do Movimento de Jesus e o surgimento dos conjuntos musicais jovens. O movimento de Jesus foi fruto de uma estratégia de evangelismo realizada nas ruas no final dos anos 60, nos EUA [...].  Começaram a surgir “iniciativas até então inovadoras como um nightclub e um café aberto 24 horas para a juventude”.

No Brasil, como parte desta influência, surgiram Vencedores por Cristo, Palavra da Vida e grupo Elo, gravando discos que eram distribuídos em livrarias evangélicas.

“Todo este processo que criou os corinhos dos anos 50 e 60, o Movimento de Jesus e a revolução musical jovem dos anos 70 faz parte da gênese do que é hoje denominado movimento gospel, cuja explosão acontece nos anos 1990. (...) A banda chamada Rebanhão, formada no Rio de Janeiro em 1985 ficou conhecida como a precursora do rock gospel brasileiro”. Depois veio a Igreja Renascer em Cristo, a Igreja Universal, a gravadora MK Music, que lançaram dezenas de cantores gospel, expandindo um conceito empreendedor ao estilo de empresas seculares.

Hoje os cantores gospel são respeitados por toda a sociedade, a ponto de aparecerem em programas nacionais de TV em pé de igualdade com os cantores seculares.

Tomando como exemplo a “Explosão Gospel”, nós podemos dizer que, assim como os primeiros discípulos, também nós, evangélicos do Brasil atual, inspiramos um certo sentimento de respeito diante das pessoas no meio em que vivemos.

Rancor (28,29)

 [...] dizendo: Expressamente vos ordenamos que não ensinásseis nesse nome; contudo, enchestes Jerusalém de vossa doutrina; e quereis lançar sobre nós o sangue desse homem. Então, Pedro e os demais apóstolos afirmaram: Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.

Um segundo sentimento despertado pelo comportamento e a pregação dos apóstolos entre o povo é o rancor. Os apóstolos, apesar de terem sido tratados com respeito, não estavam seguindo as instruções dos sacerdotes. Além disso, sua mensagem forçosamente lhes era ofensiva, pois era parte integrante da mensagem do evangelho a afirmação de que Jesus tinha morrido injustamente, sem ter nenhum pecado, deixando assim os acusadores e julgadores do Filho de Deus numa situação, no mínimo, delicada diante do povo, por terem condenado um inocente. A resposta dos apóstolos à repreensão dos sacerdotes derruba de vez a esperança que as autoridades poderiam ter de controlar a situação. Ficou claro para eles que os apóstolos não iam ceder às suas ameaças, pois alegavam ter recebido ordens diretas de Deus para continuar testificando.

Esse sentimento de rancor tem se reproduzido em pessoas que convivem com crentes. Um dos primeiros jovens que freqüentaram nossa igreja, um recém convertido, certa vez compartilhou que sua mãe ficou ressentida porque ele não quis mais ir à padaria comprar cigarros para ela, como era o costume antes de se converter. Uma outra jovem, alguns anos atrás, deu testemunho de que sua mãe brigou com ela porque recusou um emprego que a impediria de assistir aos cultos nos domingos. Quando eu e minha esposa nos convertemos, tivemos grandes dificuldades para explicar a um casal de amigos que não iríamos mais batizar o nosso filho na igreja católica, e eles tinham vindo de São Paulo especialmente para serem padrinhos. Ficaram muito chateados e nossa amizade se esfriou por algum tempo. Quase perdemos a amizade. Um jovem crente com uma carreira promissora deixou o patrão decepcionado porque não quis mentir a respeito de um sorteio a clientes num programa de rádio, como seu superior havia orientado. Histórias como essas são muito comuns para aqueles que se entregam a Jesus de todo o coração, procurando fazer a sua vontade. Aqueles que decidem obedecer a Deus estão sujeitos a despertar esse sentimento de rancor nas pessoas ao seu redor.

Gosto muito de uma música que aprendi nos primeiros dias de minha vida cristã, e que expressa muito bem o dilema enfrentado constantemente por um servo fiel a Deus: “Estou seguindo a Jesus Cristo, deste caminho, eu não desisto [...] Se me deixarem os pais e amigos, se me cercarem muitos perigos, atrás não volto, não volto mais (...).”

Ira (30-33)

O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro. Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados. Ora, nós somos testemunhas destes fatos, e bem assim o Espírito Santo, que Deus outorgou aos que lhe obedecem. Eles, porém, ouvindo, se enfureceram e queriam matá-los.

Existe ainda outro sentimento que foi despertado pelo comportamento e a pregação dos apóstolos entre o povo: a ira das autoridades. O testemunho dos apóstolos era, para os anciãos, um incômodo insuportável. Estavam se sentindo como feras acuadas, cuja reação natural é atacar quem as ameaça.

João Batista teve que enfrentar uma “fera” assim. Foi preso pelo rei Herodes quando repreendeu sua conduta pecaminosa.  Jesus advertiu seus discípulos em João 15.18,19: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia”. O apóstolo João nos exorta em sua primeira carta geral: “Irmãos, não vos maravilheis se o mundo vos odeia” (1 João 3.13). Ao afirmar isto, João talvez tivesse em mente uma consolação de Jesus no sermão da montanha: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós” (Mateus 5.11).

Em Atos 19.23-27 nós temos uma clara ilustração da verdade de que os efeitos de um testemunho e de uma pregação obediente a Deus podem atrair um sentimento de ira:

Por esse tempo, houve grande alvoroço acerca do Caminho. Pois um ourives, chamado Demétrio, que fazia, de prata, nichos de Diana e que dava muito lucro aos artífices, convocando-os juntamente com outros da mesma profissão, disse-lhes: Senhores, sabeis que deste ofício vem a nossa prosperidade e estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente, afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas. Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram.

Conclusão

Devemos dar testemunho de nossa salvação, e zelar pelos princípios da Palavra de Deus, sem temer a reação daqueles que podem nos fazer mal. Sabe qual é um claro sinal de que estamos fazendo bem a vontade de Deus? Quando o sentimento do mundo a nosso respeito passar do respeito ao rancor e ao ódio. Não nos deixemos abater pela resistência das pessoas ao nosso redor para com a mensagem do evangelho. Somos chamados para uma batalha na qual já temos a vitória garantida. Lembremo-nos da profecia proferida em Mateus 16.18 “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Os sentimentos do mundo são variados e, às vezes, imprevisíveis, diante de fatos como o assassinato da vereadora Marielle, ou de uma possível expansão do evangelho impulsionada por crentes que se tornem fiéis. Mas não é nossa atribuição gerenciar sentimentos, e sim obedecermos a Deus, venha o que vier.

Referências

Conheça o pastor Silas Malafaia. São Paulo: Último Segundo - iG  @, 11/09/2012. Disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2012-09-11/conheca-o-pastor-silas-malafaia.html Acesso em 18 mar. 2018.

CUNHA, Magali do Nascimento. A explosão gospel: um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X: Instituto Mysterium, 2007.

Semana começa com protestos contra a morte de Marielle no Brasil e na Europa. Folha de São Paulo (online), 17/03/2018. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/03/semana-comeca-com-protestos-contra-a-morte-de-marielle-no-brasil-e-na-europa.shtml Acesso em 19 mar. 2018.

Foto de Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/manifestantes-protestam-pelo-pais-contra-a-morte-de-marielle-franco.ghtml Acesso em 19 mar. 2018.

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Oração, perseverança e fé (Atos 12. 1-24)


Quando eu era recém-convertido, logo aprendi na Escola Dominical que Deus sempre responde à nossa oração, mas a resposta pode ser: sim, não, ou espere. Ninguém citou um versículo para apoiar essa tese, mas aceitei porque faz sentido. Ao ler este parágrafo de Atos, porém, saltou aos meus olhos uma tese semelhante, ainda que tenha escolhido nomes diferentes para identificar os tipos de resposta. Entendi pelo texto bíblico que, na oração, Deus espera que tenhamos fé e perseverança. À nossa oração, Deus pode nos dar pelo menos três tipos de resposta.

I - Resposta Velada (1-6)

Por aquele tempo, mandou o rei Herodes prender alguns da igreja para os maltratar, fazendo passar a fio de espada a Tiago, irmão de João. Vendo ser isto agradável aos judeus, prosseguiu, prendendo também a Pedro. E eram os dias dos pães asmos. Tendo-o feito prender, lançou-o no cárcere, entregando-o a quatro escoltas de quatro soldados cada uma, para o guardarem, tencionando apresentá-lo ao povo depois da Páscoa. Pedro, pois, estava guardado no cárcere; mas havia oração incessante a Deus por parte da igreja a favor dele. Quando Herodes estava para apresentá-lo, naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, acorrentado com duas cadeias, e sentinelas à porta guardavam o cárcere.

A igreja orava incessantemente por Pedro, quando ele foi preso por Herodes. Podemos deduzir disto que a igreja também orou pelos outros que foram presos anteriormente, inclusive por Tiago, que foi passado “ao fio da espada”. Veremos adiante que Deus tirou milagrosamente a Pedro do cárcere. Mas, e quanto a Tiago? Por que Deus não atendeu ao pedido da igreja e deixou que ele morresse? Bem, o fato é que Deus respondeu à oração, mas talvez não tenha sido do jeito que os irmãos esperavam. Digo que esse é um tipo de resposta velada de Deus, ou seja, uma resposta misteriosa, que não entendemos o motivo.

Embora não possamos entender plenamente o motivo, como dito acima, ainda assim podemos tentar. Tenho uma sugestão. No tempo de seu discipulado, os irmãos Tiago e João foram com sua mãe e fizeram uma “oração” a Jesus, onde a mãe “coruja” falou: “[...] Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda” (Mateus 20.21). Imagino Jesus balançando a cabeça ternamente, ao adverti-los: “Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que estou para beber?” E eles, certamente sem saber de que cálice Jesus falava, foram resolutos: “Podemos”. Ao que Jesus sentenciou: “Bebereis o meu cálice” (Mateus 20.22). Mas quis a misericórdia de Deus que, na hora do cálice mais amargo, outras personagens foram introduzidas para estar à direita e à esquerda de Jesus, pois “com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda” (Marcos 15.27). A resposta de Deus à oração da igreja por Tiago, quado preso por Herodes, no entanto, pode estar ligada àquela antiga oração da família de Zebedeu pois, como sabemos, Tiago foi o primeiro mártir dentre os apóstolos (à esquerda de Jesus?) e João, seu irmão, segundo a tradição, foi o último (à direita de Jesus?).

João 21.23 Então, se tornou corrente entre os irmãos o dito de que aquele discípulo não morreria. Ora, Jesus não dissera que tal discípulo não morreria, mas: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa?

Na igreja, em nossas orações, seguindo o exemplo de Jesus, costumamos acrescentar nos pedidos que o Senhor responda, se possível, de acordo com a nossa vontade, mas que a vontade de Deus prevaleça. Acredito que era assim também que a igreja primitiva orava. A vontade de Deus foi feita a respeito de Tiago, que acabou sendo passado “ao fio da espada”, portanto essa foi uma resposta velada de Deus, uma daquelas que não compreendemos o motivo.

II - Resposta Inesperada (7-17 )

Eis, porém, que sobreveio um anjo do Senhor, e uma luz iluminou a prisão; e, tocando ele o lado de Pedro, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa! Então, as cadeias caíram-lhe das mãos. Disse-lhe o anjo: Cinge-te e calça as sandálias. E ele assim o fez. Disse-lhe mais: Põe a capa e segue-me. Então, saindo, o seguia, não sabendo que era real o que se fazia por meio do anjo; parecia-lhe, antes, uma visão. Depois de terem passado a primeira e a segunda sentinela, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade, o qual se lhes abriu automaticamente; e, saindo, enveredaram por uma rua, e logo adiante o anjo se apartou dele. Então, Pedro, caindo em si, disse: Agora, sei, verdadeiramente, que o Senhor enviou o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de toda a expectativa do povo judaico. Considerando ele a sua situação, resolveu ir à casa de Maria, mãe de João, cognominado Marcos, onde muitas pessoas estavam congregadas e oravam. Quando ele bateu ao postigo do portão, veio uma criada, chamada Rode, ver quem era; reconhecendo a voz de Pedro, tão alegre ficou, que nem o fez entrar, mas voltou correndo para anunciar que Pedro estava junto do portão. Eles lhe disseram: Estás louca. Ela, porém, persistia em afirmar que assim era. Então, disseram: É o seu anjo. Entretanto, Pedro continuava batendo; então, eles abriram, viram-no e ficaram atônitos. Ele, porém, fazendo-lhes sinal com a mão para que se calassem, contou-lhes como o Senhor o tirara da prisão e acrescentou: Anunciai isto a Tiago e aos irmãos. E, saindo, retirou-se para outro lugar.

Em seu livro “Oásis no Deserto” (p. 141), Jackson Garcia conta uma famosa história:

[…] havia vários meses que não chovia. O calor era intenso e mortes começaram a acontecer. Ele então convocou os irmãos para se reunirem em determinado lugar, com um único objetivo: Pedir a Deus que chovesse naquele mesmo dia. Compareceu quase toda a congregação. Quando se ajoelharam para orar, o Pastor perguntou: “Além de mim, alguém mais trouxe guarda-chuva?”

GARCIA, Jackson. Oásis no deserto: Alento para vidas sedentas. Joinville: Clube dos Autores, 2016.

Parece que, na casa de João Marcos, ninguém tinha levado o “guarda-chuvas” para o culto de oração. A Rode ficou desnorteada, os outros a chamaram de louca. Custaram acreditar que Deus lhes havia atendido a oração, de forma inesperada. O próprio Pedro, no começo, achou que tudo aquilo não passava de um sonho, uma visão.

Às vezes, Deus responde assim. Uma cura, um livramento, uma “luz no fim do túnel”. Quantas vezes já ouvimos, e quantas vezes ainda ouviremos, de púlpito, um pregador inflamado citar a grande promessa: “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito” (João 15.7). Podemos esperar sim que, em algum momento, Deus nos responda inesperadamente e fiquemos eufóricos como a Rode ficou. Só tomemos o cuidado de não nos esquecermos, e de não omitirmos a condição explícita: “se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós...”.

III - Resposta Agendada (18-24)

Sendo já dia, houve não pouco alvoroço entre os soldados sobre o que teria acontecido a Pedro. Herodes, tendo-o procurado e não o achando, submetendo as sentinelas a inquérito, ordenou que fossem justiçadas. E, descendo da Judeia para Cesareia, Herodes passou ali algum tempo. Ora, havia séria divergência entre Herodes e os habitantes de Tiro e de Sidom; porém estes, de comum acordo, se apresentaram a ele e, depois de alcançar o favor de Blasto, camarista do rei, pediram reconciliação, porque a sua terra se abastecia do país do rei. Em dia designado, Herodes, vestido de trajo real, assentado no trono, dirigiu-lhes a palavra; e o povo clamava: É voz de um deus, e não de homem! No mesmo instante, um anjo do Senhor o feriu, por ele não haver dado glória a Deus; e, comido de vermes, expirou. Entretanto, a palavra do Senhor crescia e se multiplicava.

As respostas às orações da igreja não vieram todas ao mesmo tempo. Parece-nos, pelo texto indicado, que Deus agendou uma parte para cumprimento em futuro próximo. Eu me imagino naquele culto de oração, junto com Rode, Maria, João Marcos, e os demais discípulos. Uma das coisas que eu pediria a Deus era para não permitir mais que Herodes continuasse fazendo aquelas injustiças. Que o Senhor impedisse o rei cruel de maltratar assim a amada igreja. Eu tenho quase certeza de que alguém ali fez esse pedido. É plausível. A resposta de Deus, porém, veio do jeito e no tempo certo. Foi naquele “dia designado”. Quando Herodes estava em sua maior exaltação, “vestido de trajo real, assentado no trono”, requerido e bajulado. Ele não sabia, não acreditava, não esperava, mas a resposta de Deus à oração dos que ele oprimira já estava agendada.

Às vezes, Deus responde assim, como respondeu também a Daniel, que foi informado pelo anjo, em duas ocasiões, sendo uma no primeiro ano de Dario: “No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado […]” (Daniel 9.23 ); e outra no terceiro ano de Ciro: “[…] Não temas, Daniel, porque, desde o primeiro dia em que aplicaste o coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras; e, por causa das tuas palavras, é que eu vim. Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; [...]” (Daniel 10.12,13).

Em nossos tempos tecnológicos, em que estamos acostumados a obter quase tudo instantaneamente, não podemos nos esquecer de que Deus é longânimo, e quer ver em nós o fruto da longanimidade.

Conclusão

Na oração, Deus espera que tenhamos fé e perseverança. À nossa oração, Deus pode nos dar pelo menos estes três tipos de resposta, segundo o seu propósito. Podemos receber uma resposta Velada, uma resposta Inesperada, ou uma resposta Agendada, mas Deus responderá. “[...] Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” (Lucas 18.8).

(*) Figura Perseverança na Oração:  disponível em http://www.aliancacrista.com/2016/08/15/perseveranca-na-oracao/ acesso em 15 fev. 2018.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Conflito de poderes (Atos 5.17-25)

Muitos falam, hoje em dia, sobre o perigo de haver uma crise entre poderes, no nosso país. Durante o processo de impeachment, em 2016, havia um presidente interino e uma presidente afastada. Grande parte das autoridades que julgavam a presidente eram também alvos de graves acusações. Nos vários processos em curso envolvendo políticos, observava-se que um juiz mandava prender, e outro mandava soltar; um juiz mandava bloquear bens e outro mandava desbloquear. Esses conflitos, porém, são considerados normais dentro de um país democrático. Há instâncias inferiores e instâncias superiores. Há delimitações na esfera de atuação entre os três poderes da república. Não haveria esses conflitos se hão houvesse democracia. Assim, podemos dizer que o conflito entre os poderes é como um “efeito colateral” da democracia. O texto indicado nos faz lembrar que Deus permitiu que os homens tivessem poderes espirituais, que muitas vezes geram conflito, mas também acabam contribuindo para o avanço do evangelho.


O poder da inveja (17,18)


“Levantando-se, porém, o sumo sacerdote e todos os que estavam com ele, isto é, a seita dos saduceus, tomaram-se de inveja, prenderam os apóstolos e os recolheram à prisão pública”.


 


O poder da inveja é muito grande para o mal. Tiago 3.16 diz que “onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins”. O poder da inveja é classificado como um dos mais nocivos em Provérbios 27.4: “Cruel é o furor, e impetuosa, a ira, mas quem pode resistir à inveja?”. Sabemos, por meio de Marcos 15.10 e Mateus 27.18, que foi por inveja que Cristo foi entregue a Pilatos para ser crucificado. 


Mas o poder da inveja pode ser revertido para o bem. Eclesiastes 4.4 diz que “todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo”. Já vi muitos automóveis com adesivos dizendo: “Não tenha inveja. Faça como eu: trabalhe”. A inveja acaba trazendo coisas boas se, por causa dela, os homens se tornam mais produtivos. Até mesmo quando se fala de evangelização, pois Paulo disse em Filipenses 1.15, que “alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; (...)”;


Quando aconteceu a reforma protestante, a Igreja Católica foi abalada, e um dos resultados foi que ela se viu obrigada a apressar algumas reformas que já vinham sendo amadurecidas há décadas ou séculos antes. Nós podemos dizer, de certa forma, que a inveja do sucesso do movimento protestante levou a Igreja Católica a apressar sua própria reforma, e alguns historiadores chamam essa reação de “contrarreforma”. Um dos resultados mais significantes dessa reforma católica foi o surgimento da “Companhia de Jesus”, cujos membros eram chamados de Jesuítas. Para nós, brasileiros, isto é ainda mais relevante, pois foram os jesuítas os maiores responsáveis pela evangelização do Brasil, desde os primórdios do “descobrimento”. Lemos na Wikipédia que


“Desde 1549 chegara ao Brasil (Bahia) o primeiro grupo de seis missionários liderados por Manuel da Nóbrega, trazidos pelo governador-geral Tomé de Sousa. Certamente a maior obra jesuítica em terras brasileira consistiu na fundação de São Paulo de Piratininga em torno do seu famoso colégio, ponto de origem da expansão territorial e da colonização do interior do país. As missões jesuítas na América Latina foram controversas na Europa, especialmente na Espanha e em Portugal, onde eram vistas como interferência na ação dos reinos governantes. Os jesuítas opuseram-se várias vezes à escravidão indígena. Eles fundaram uma série de aldeamentos missionários - chamados missões ou misiones no sul do Brasil, ou ainda reducciones, no Paraguai - organizados de acordo com o ideal católico, que, mais tarde, acabaram sendo destruídos por espanhóis, e principalmente por portugueses, à cata de escravos”.


 


O poder da inveja dos sacerdotes e dos demais saduceus lançou os apóstolos na prisão, mas esse conflito somente atiçou mais ainda o desejo deles de continuar sua obra de evangelização e de promoção do Reio de Deus.


O poder da obediência (19-24)


Mas, de noite, um anjo do Senhor abriu as portas do cárcere e, conduzindo-os para fora, lhes disse: Ide e, apresentando-vos no templo, dizei ao povo todas as palavras desta Vida. Tendo ouvido isto, logo ao romper do dia, entraram no templo e ensinavam. Chegando, porém, o sumo sacerdote e os que com ele estavam, convocaram o Sinédrio e todo o senado dos filhos de Israel e mandaram buscá-los no cárcere. Mas os guardas, indo, não os acharam no cárcere; e, tendo voltado, relataram, dizendo: Achamos o cárcere fechado com toda a segurança e as sentinelas nos seus postos junto às portas; mas, abrindo-as, a ninguém encontramos dentro. Quando o capitão do templo e os principais sacerdotes ouviram estas informações, ficaram perplexos a respeito deles e do que viria a ser isto.


Um anjo foi enviado para resolver o problema que se formava na terra. Já imaginou se os anjos não obedecessem ao Senhor? E se os apóstolos não obedecessem? Eles podiam questionar: “Mas como eu vou pregar no templo, se as autoridades nos prenderam por causa disso”?


A obediência cega levou os jesuítas ao sucesso. Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, disse: “Acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado”. Sua obediência era louvável, o problema é que estava direcionada a mortais falhos e potencialmente corruptos.


Às vezes, obedecer é difícil. Parece que a ordem não faz sentido. Acho que Filipe sentiu-se assim, quando Deus o mandou ir à estrada de Jerusalém a Gaza (Atos 8.26). O discípulo Ananias, mesmo sendo obediente, quando o Senhor lhe mandou ir visitar Saulo, respondeu: “Senhor, de muitos tenho ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém” (Atos 9.13). Paulo e os companheiros provavelmente não entenderam porque o Espírito os impediu de pregar em Bitínia (Atos 16.7), mas atenderam prontamente quando entenderam que deviam partir para a Macedônia.


A obediência aos mandamentos de Deus e à fé em Jesus podem nos colocar em muitas situações de conflito, seja com autoridades, seja com familiares, com melhores amigos, com pessoas amadas, e até com nossos íntimos desejos, mas Jesus nos ensinou a orar ao Pai: “faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6.10). Ele mesmo, em grande conflito, no Monte das Oliveiras, orou ao Pai: “não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lucas 22.42).


 


O poder da vida (25)


Nesse ínterim, alguém chegou e lhes comunicou: Eis que os homens que recolhestes no cárcere, estão no templo ensinando o povo.


Os discípulos ainda estavam vivos. Foi inútil a tentativa dos sacerdotes, de intimidá-los. Libertados do cárcere, eram como brotos renascendo, provando a força recebida de sua raiz.


O poder da vida é dado por Deus, a princípio, sem distinção. Prova disso é que o mundo contemporâneo tem lutado para combater o terrorismo, mas parece que não consegue vencê-lo. Por mais que incrementem os aparatos de segurança, os atentados vão surgindo de onde menos se espera. O terrorismo trabalha para impor o medo, e tendo recebido, de Deus, o poder da vida, pretendem impor sua vontade pelo terror da morte.


A vontade de Deus, porém, é que a vida espiritual seja multiplicada por meio de sua palavra, como diz Isaías 55.10,11:


Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei.


Enquanto tivessem o poder da vida, não haveria conflitos que impedissem os apóstolos de anunciarem a Palavra de Deus, conforme já haviam declarado Pedro e João: “[...] Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (Atos 4.19,20).


Conclusão:


A inveja não é um bom guia, e a vida, sem orientação correta, pode nos dar forças para ofender o seu próprio Autor. Por isso, se pudéssemos mensurar esses três poderes, o maior seria o poder da obediência. Não a obediência cega, mas uma obediência iluminada pela Palavra de Deus. Assim orientados, caminharemos para o equilíbrio, em vez de conflito entre poderes.


Referências


Companhia de Jesus. Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_de_Jesus. Acesso em: 28 jul. 2016.

 


Figura: Revolução Francesa. Disponível em: https://library.brown.edu/haitihistory/3.html. Acesso em: 11 fev. 2018.

 

sábado, 9 de dezembro de 2017

A congregação do Senhor (Atos 5.12-16)



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Os apóstolos faziam milagres, e todos os crentes comportavam-se de forma peculiar, de forma que agradasse a população. Mas ninguém ousava ajuntar-se a eles. Podemos comparar a atitude da população do tempo apostólico com os dias de hoje, pois vemos que, da mesma forma, há grandes ajuntamentos em jogos de futebol, shows, bares e boates, e das pessoas que se ajuntam nesses ou noutros lugares para a prática de coisas que lhes dão prazer, poucos há que ousariam se ajuntar para fazer o que fazem, estando numa igreja. Apesar de ser comum ouvirmos que “o mundo está perdido”, ainda existe certo pudor que faz o povo distinguir o que é um ambiente santo e o que é um ambiente profano. Reunindo-se numa igreja, as pessoas não ousariam se comportar como se estivessem num estádio de futebol ou num bar. Não ousam ajuntar-se aos crentes. Ainda bem! Outro dia, brincamos numa aula de Escola Dominical, sugerindo que podíamos chamar um grande astro pop para fazer um show e assim encher a igreja. Porque não colocamos essa ideia em prática? Porque é inconcebível, tanto para nós quanto para os fãs do astro pop.

Apesar de a população não ousar ajuntar-se aos discípulos, as pessoas lhes tributavam grande admiração. A expressão original poderia ser traduzida como: "eles engrandeciam os crentes". Se eles engrandeciam os crentes é porque acreditavam que eram especiais, que realmente tinham uma aliança com Deus, o que lhes dava privilégios dignos de quem é amigo do Deus Poderoso. O povo acreditava nisto, mas não queria se ajuntar a eles. Pode ser que batessem palmas, que os incentivassem a viverem uma vida de fé, mas não queriam se ajuntar a eles. Encontramos entre o povo de hoje muitos que têm esse tipo de fé. Uma fé assim, no entanto, não pode salvar suas almas. Para ser salvo desta geração perversa, é preciso mais do que admirar, engrandecer a Deus e aos seus filhos. É preciso ter um tipo de fé que ousa ajuntar-se a eles, colocar-se em posição de evidência, pegar a Bíblia e caminhar até a igreja, ir para o culto enquanto os colegas e conhecidos ficam em casa, vão para os bares ou para o estádio de futebol.

O resultado visível daquele movimento histórico era que crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, e eles estavam frequentemente congregados. Podemos notar, pela narração do texto indicado, que havia pelo menos três motivos para eles se congregarem frequentemente.

Adoração (12)

“[...] E costumavam todos reunir-se, de comum acordo, no Pórtico de Salomão”.

A palavra adoração não aparece neste texto, mas a ideia de adoração encontra-se no fato de que eles se reuniam periodicamente no templo, especificamente no Pórtico de Salomão. O templo, todos sabem, é um lugar de adoração. Foi idealizado e edificado para promover a adoração.

Deus quer que nós o adoremos, porque este é um dos motivos pelos quais ele nos criou. Jesus, ao responder às tentações de Satanás, citou o antigo testamento no trecho em que diz: “[…] Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto” (Mateus 4.10; Lucas 4.8; Êxodo 23.24; Deuteronômio 5.9).

Todos os domingos, em nossa igreja, nos reunimos para celebrar o que chamamos de “culto de adoração”. Mas nós estamos, de fato, adorando? Adorar significa prostrar-se de forma humilhante. Já fui a mais de uma igreja onde, em dado momento do culto, fomos dirigidos a nos ajoelharmos no chão. Isto já aconteceu também aqui em nossa igreja, algumas vezes, mas não é um hábito. Se nós não nos prostramos literalmente, então o que estamos fazendo em substituição a isso? Temos uma forma melhor de adorar do que literalmente nos prostrarmos fisicamente até o chão?

O publicano de Lucas 18.13 tinha uma forma melhor de adorar, pois ele ficou “em pé, longe” e “não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador!”.

Ana, mãe de Samuel, também tinha uma forma melhor de adorar, “porquanto Ana só no coração falava; seus lábios se moviam, porém não se lhe ouvia voz nenhuma;” (1ª Samuel 1.13). Ana e o publicano se humilharam perante o Senhor. Mesmo que não estivessem fisicamente prostrados, estavam prostrados na atitude do seu coração.

Em algumas igrejas, as mulheres ainda são orientadas a usar o véu, por causa de 1ª Coríntios 11.5-15. O ato de cobrir a cabeça simbolizava humildade por parte da mulher. No mundo existe outras situações em que cobrir a cabeça simboliza humildade. Por exemplo, há muito tempo atrás, nas escolas, os professores costumavam colocar os alunos problemáticos num canto da sala, e colocavam em suas cabeças um “chapeuzinho de burro”. Existe também uma expressão que usamos quando alguém se sente ofendido com algum comentário que fizemos, achando que era uma indireta para ele. Nós dizemos: “se a carapuça serviu...” Em nossa igreja, não temos o hábito de exigir o uso do véu, porque temos uma forma melhor de mostrar submissão. Oramos para que as mulheres de nossa igreja aprendam a se comportar como Pedro orientou em 1ª Pedro 3.3-5:

Não seja o adorno da esposa o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário; seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus. Pois foi assim também que a si mesmas se ataviaram, outrora, as santas mulheres que esperavam em Deus, estando submissas a seu próprio marido.

Nós, homens e mulheres, nos congregamos para nos humilharmos diante de Deus. Isto é o cerne da adoração. Ninguém deve se congregar para se ostentar, mas para se humilhar. Somos ensinados em Filipenses 2.3 que cada um deve considerar os outros superiores a si mesmo. Se nós conseguirmos praticar isto, vão acabar quase todos os nossos problemas de relacionamento. Você já viu um escravo reclamar porque o seu senhor não notou a sua presença, porque não o cumprimentou, porque foi indelicado com ele? Jesus quer que nós nos tornemos escravos (servos) uns dos outros por amor (Gálatas 5.13). Isto sim é que é uma boa adoração.

Comprometimento (14)

“[…] E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor”

A palavra traduzida para “agregados”, de acordo com Strong (1999), é a palavra grega prostithemi, que tem o significado de juntar-se a uma companhia. Muitas vezes alguém me pergunta: “por qual time você torce?”. Às vezes eu digo que é o Internacional, às vezes digo que é o Curitiba, às vezes o Palmeiras, e ás vezes eu digo que não torço por nenhum time. Mas eu gostaria muito de dizer que jogo no time de Jesus, que “visto a camisa”, mesmo. Para que isto seja verdade, eu preciso mostrar-me comprometido com o seu reino. Era assim que a igreja primitiva se mostrava. Se houvesse uma camisa de uniforme, eles iam querer ter uma. Se tivesse um álbum de figurinhas, iam querer colecionar. Iam colar adesivos em seus violões e em suas motos e carros, porque eles queriam estar praticamente grudados com o Senhor e tudo o que se relacionava com ele. Por isso se congregavam frequentemente, para ouvir dos apóstolos tudo o que Jesus falava e fazia. Nós devíamos ser assim também na igreja, devíamos grudar nos estudos, agarrar nas promessas de Deus, decorar versículos, nos agregar à companhia de Jesus.

Minha avó paterna não tinha muitos luxos, se contentava com pouco e não me lembro de ouvir, de sua parte, uma reclamação sequer. Só uma coisa a deixava transtornada, era quando perdia o seu pequeno rádio de pilhas. Ela amava muito o seu rádio. Era pequenino, cabia na palma de sua mão, e ela se deitava sempre com ele ligado, bem pertinho do seu ouvido, para escutar, de madrugada, o seu programa favorito, o programa do “Zé Bettio”. Quando ela procurava o rádio e não o encontrava, saía pela casa perguntando: “Alguém viu o meu Zé Bettio”? Era o nome do seu rádio de pilhas. Nós devíamos ser zelosos assim para ouvir, na congregação, tudo o que se relaciona com o nosso Senhor Jesus. Devíamos ser como Maria, irmã de Marta que, segundo Lucas 10.38-42, não perdia por nada neste mundo uma oportunidade de ouvir o que Jesus tinha para dizer. Ela se desligava de tudo para ouvir o Mestre quando ele falava, assim como os homens fazem hoje para assistir a um jogo de final de campeonato.

Mostrar-nos comprometidos, agregados ao Senhor Jesus, eis um bom motivo para estarmos congregados.

Busca de curas (15,16)

“[...] e todos eram curados”.

Todos os que se congregavam pedindo curas, eram curados. Por que isto não acontece hoje? Por que muitos vêm à igreja pedindo cura, mas não são curados? Vamos analisar com mais calma esta questão. Será que, de fato, não existem mais milagres?

Eu me lembro de um acontecimento que, para mim, foi muito marcante, uma postagem de um irmão, no grupo da igreja, quando ele foi curado do câncer na garganta. Ele tirou uma foto de seus joelhos no chão, dizendo que esta era a posição que ele prontamente assumiu ao sair do consultório, depois de receber a notícia de que o tratamento havia tido um excelente resultado, e que havia sido curado de um câncer na garganta. Foi um milagre! Todos sabem que as pessoas não se curam de câncer assim, facilmente. Quem conheceu esse irmão, e sabe de quem estou falando, talvez me dissesse: “você não sabe que esse irmão morreu de câncer?” De fato ele morreu de câncer, porque havia outro câncer atingindo o seu pulmão, e desse outro ele não foi curado. Mas a alegria que ele sentiu e a glória que ele deu a Deus na cura do primeiro câncer foram legítimas e o acontecimento foi reconhecido, de fato, como um milagre.

Outra irmã, esposa de pastor, muito querida em nossa igreja, certa vez escapou da morte por um milagre. Se você soubesse de quem estou falando, certamente protestaria em seu íntimo: “você não sabe que essa irmã morreu por causa de um terrível câncer? Que oramos fervorosamente, mas não fomos atendidos quanto à sua cura?” Mas eu estou me referindo ao que aconteceu 20 anos antes de sua morte, quando ela tinha cerca de 54 anos, e escapou da morte num acidente extremamente grave, no caminho para o seminário onde lecionava. Segundo o testemunho do pastor, seu marido, ela chegou a morrer e ressuscitar várias vezes, deitada na beira da estrada, enquanto o pastor orava pedindo a Deus que ela não morresse. Ela milagrosamente sobreviveu, voltou a dirigir, e exerceu diligentemente o seu ministério até os 74 anos, quando o Senhor a tomou para si. Isto foi um dos muitos milagres que a nossa igreja já presenciou.

“Mas espere um pouco!”, diria um irmão de coração inflamado. “Não force a barra! O novo testamento narra milagres excepcionais. Paralíticos andando, cegos enxergando, mortos ressuscitando. É disto que estamos falando quando dizemos que na igreja primitiva se operavam milagres”. Aqueles milagres eram mesmo excepcionais. Lázaro, por exemplo, irmão de Marta e Maria, foi ressuscitado depois de quatro dias, quando seu corpo já estava em decomposição. Mas desviemos um pouco o nosso olhar para além desse acontecimento extraordinário. Vamos olhar mais em redor. Alguém porventura acha que, depois desse milagre, Lázaro e suas irmãs viveram felizes para sempre? Quando um pregador muito empolgado narra eloquentemente esse milagre, ele pode levar a congregação ao delírio. Mas um pregador honesto deve admitir que este não foi o final da história. Basta ler João 12. 10, 11, e ficaremos sabendo que “[...] os principais sacerdotes resolveram matar também Lázaro; porque muitos dos judeus, por causa dele, voltavam crendo em Jesus”. É isto! Lázaro não deve ter aproveitado por muito tempo sua vida ressurreta. É quase certo que os judeus logo o assassinaram.

Você vai à sua igreja em busca de um milagre? Você não está errado, nem querendo demais. Você precisa mesmo ter fé. Sem fé é impossível agradar a Deus; “[…] é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hebreus 11.6). Tenha fé, e Deus lhe fará milagres. As irmãs de Lázaro, provavelmente, tiveram que suportar a tristeza e a angústia da perseguição e possível assassinato de seu irmão querido, mas antes tiveram a maravilhosa experiência de que o Senhor é bondoso, pois receberam seu milagre.

O irmão e a irmã de nossa igreja, dos quais falei acima, partiram precocemente, nos deixando angustiados e com saudades, mas antes também tiveram a experiência de que o Senhor é bondoso, e receberam os seus milagres.

Reflexão

Quando estivermos congregados em nossa igreja, vamos nos lembrar de que estamos reunidos para a verdadeira adoração, para nos mostrarmos comprometidos com o Senhor, querendo aprender e nos apropriar de tudo o que lhe diz respeito. E tenhamos fé, porque ele é poderoso para atender os nossos pedidos, nos dar paz em meio às tribulações. Ele ainda é, e sempre será, o Deus que faz milagres. Contemos com isso.

Gostaria de deixar também uma palavra a você, que ainda não se juntou a nós. Oro para que, um dia, você tenha a “ousadia” de fazê-lo. Que Deus, por sua graça e misericórdia, nos reúna e nos conserve sempre como a Congregação do Senhor.

Referências

As citações da Bíblia seguem a versão Almeida Revista e Atualizada, SBB.

STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong. Sociedade Bíblica do Brasil (Bíblia Online). São Paulo, 1999

Foto: Muro das Lamentações. Autor: Richard Nowitz.  História - Galeria de Fotos, Judéia Antiga. National Geografic, 08 ago. 2017. Disponível em: <https://origin-br.ngeo.com/photography/2017/08/galeria-de-fotos-judeia-antiga?image=24928>. Acesso em 10 dez. 2017.

 



quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Os pecados de Ananias e Safira (Atos 5.1-11)



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Um belo casal. O nome dele, de acordo com o Léxico Strong (SBB, 1999) significa: "graciosamente dado pelo SENHOR". O nome dela é uma pedra preciosa, mencionada várias vezes na Bíblia, como em Êxodo 24.9,10: “E subiram Moisés, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia uma como pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade”.

Seus pais, ao lhes darem estes nomes, certamente almejavam que protagonizassem uma bela história, mas Ananias e Safira ficaram famosos, infelizmente, por causa do seu pecado. Venderam uma propriedade, entraram em acordo, retiveram parte do valor, depositaram o restante aos pés dos apóstolos. Foram repreendidos por tentarem mentir ao Espírito Santo. Caíram, expiraram, foram sepultados.

Vamos analisar, a seguir, os possíveis pecados de Ananias e Safira, que provocaram a ira de Deus, e que são tão comuns em nossos dias:

O pecado do desvio de donativo

Eles podem ter se aproveitando da situação favorável para vender um bem por um bom preço, convencendo o comprador a pagar um valor mais alto, alegando que era para caridade. Esse tipo de pecado pode estar ocorrendo, também, em nossos dias. Cito como exemplo uma reportagem da revista VEJA, veiculada em 2012, a qual diz o seguinte, a respeito da Cruz Vermelha:

A organização [...] firmou sólida reputação de neutralidade [...] completa 100 anos de atividade justamente em 2012. Um aniversário, infelizmente, tisnado por um triste revés [...], investigação das contas misteriosas, que vinha ocorrendo em sindicâncias internas, extrapolou o âmbito da organização em fevereiro, [...] Letícia Del Ciampo [...] entrou com duas ações no Ministério Público estadual [...] além de constatar que Petrópolis não recebeu um tostão do dinheiro que foi parar nas contas secretas do Maranhão, ela descobriu desvios em outras áreas. Ambulâncias novas que deveriam estar servindo a região nunca apareceram, e as antigas estão sem manutenção há muito tempo, o que praticamente inutilizou a frota. Há sinais de problemas também em um convênio feito com o governo do Distrito Federal com o objetivo de passar à Cruz Vermelha a gestão de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Brasília. Em 2010, a Cruz Vermelha-Petrópolis recebeu 3,7 milhões de reais adiantados, mas ela nunca prestou serviço algum e está sendo cobrada na Justiça pela devolução do dinheiro. "A Cruz Vermelha brasileira está cometendo crimes contra a humanidade. Desde que assumi o cargo, o que mais ouvi foram pessoas dizendo que catástrofes são ótima oportunidade para ganhar dinheiro", dispara Letícia.

Também o site G1, mencionando o Jornal Nacional em 2014, afirma:

Cruz Vermelha: R$ 17 milhões em doações foram desviados para ONG Dinheiro teria sido doado para ajudar em quatro campanhas humanitárias. Segundo auditoria, valores foram repassados para instituto no Maranhão.. A Cruz Vermelha brasileira anunciou nesta sexta-feira (25) que R$ 17 milhões em doações foram desviados para uma ONG no Maranhão, entre os anos de 2010 e 2012. O dinheiro teria sido doado para ajudar em quatro campanhas humanitárias: para vítimas da chuva na Região Serrana do Rio, combate à dengue no Brasil, tsunami no Japão e para a Somália, que sofreu uma crise alimentar por causa da seca.

É abominável aproveitar-se da miséria de outros para se enriquecer. Provérbios 17.5 diz: “O que escarnece do pobre insulta ao que o criou; o que se alegra da calamidade não ficará impune”.

O pecado da religiosidade como pretexto

Outro pecado que Ananias e Safira podem ter cometido, que provocou a ira de Deus, e que é tão comum em nossos dias, é o de se aproveitar da religiosidade para realizar seus propósitos obscuros.

Cito como exemplo a questão do “mercado gospel”, que é muito cobiçado por seu potencial. Lemos no site Terra, em 2015, que

[...] A fé têm sido a tábua de salvação para muitos negócios. Em certos casos, literalmente. Com 42,2 milhões de potenciais consumidores, segundo dados do Censo 2010 do IBGE, o mercado evangélico tem gerado cada vez mais oportunidades para quem busca empreender [...].

Segundo a revista “Pequenas Empresas, Grandes Negócios” (2015),

Para muitos, é preciso ser evangélico para fazer negócios nesse segmento. Outros duvidam: 'Não necessariamente', diz o empresário Elias de Carvalho, do Bompastor. 'Basta entender os códigos ou ter alguém em sua equipe com esse conhecimento', completa.

O site “O Fuxico Gospel” (2014) dá umas dicas para se ter sucesso no mercado gospel: “1 - criar uma grife de roupas; 2 – Escrever uma biografia; 3 – Uma linha de cadernos; 4 – Criar uma gravadora; 5 – Tornar-se um pastor”.

Há muitos empreendimentos que podem ser desenvolvidos sem más intenções, mas sempre existe o perigo de se esquecer o verdadeiro propósito da vida cristã. Paulo já advertia, em 1ª Timóteo 6.5,6,10:

“[...] altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro.  De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. [...] Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores”.

Um fato curioso nesta história é que Ananias e Safira sofreram uma punição muito severa, enquanto a gente vê tantas barbaridades maiores sendo cometidas por outras pessoas, sem que Deus lhes trate da mesma maneira. Isso reforça a tese de que a intervenção divina nos caminhos da humanidade tem sido a mínima possível, como um pai que dá instruções aos filhos e fica observando de longe, para ver como se saem no desenvolvimento de suas responsabilidades. No final, sim, seremos todos chamados em juízo e daremos explicações de todos os nossos atos, recebendo a sentença.

A história fala de outros momentos em que a desaprovação de Deus se mostrou devastadora e instantânea. Vejamos abaixo alguns casos:

Nadabe e Abiú

Levíticos 10.1-3 conta que

Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara. Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR. E falou Moisés a Arão: Isto é o que o SENHOR disse: Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo. Porém Arão se calou. 

Acã

Lemos em Josué 7.1, que “prevaricaram os filhos de Israel nas coisas condenadas; porque Acã, filho de Carmi, filho de Zabdi, filho de Zera, da tribo de Judá, tomou das coisas condenadas. A ira do SENHOR se acendeu contra os filhos de Israel”. Então Acã, pego em seu pecado, confessou, em Josué 7.21: “Quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma barra de ouro do peso de cinqüenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda, e a prata, por baixo”. Finalmente, nos versículos 24 a 26, lemos horrorizados a severa punição que Acã sofreu:

Então, Josué e todo o Israel com ele tomaram Acã, filho de Zera, e a prata, e a capa, e a barra de ouro, e seus filhos, e suas filhas, e seus bois, e seus jumentos, e suas ovelhas, e sua tenda, e tudo quanto tinha e levaram-nos ao vale de Acor. Disse Josué: Por que nos conturbaste? O SENHOR, hoje, te conturbará. E todo o Israel o apedrejou; e, depois de apedrejá-los, queimou-os. E levantaram sobre ele um montão de pedras [...].

Punição esperada

Poderíamos ainda citar os casos de Uzá (2º Samuel 6.6,7), e de Geazi (2º Reis 5.20-27), mas o que é mais importante, agora, é olharmos para o futuro. Lemos em Atos 17.30,31, que

Não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos.

Jesus advertiu em Mateus 12.36: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo”.

Deus puniu exemplarmente Ananias e Safira, assim como outros personagens ao longo da história bíblica, e devemos ter isto como um aviso. Não caiamos nos mesmos pecados, tentando a Deus. Não sejamos meio-cristãos, não amemos o mundo, nem as coisas que há no mundo, pois Ananias e Safira receberam severa punição, mas, e quanto a nós? Será que não temos cometido piores pecados? Que a graça e a misericórdia de Deus, em Cristo Jesus, possa nos redimir.

Referências

Cruz Vermelha: R$ 17 milhões em doações foram desviados para ONG. Jornal Nacional (Online). São Paulo, 25 jul. 2014. Disponível em: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/07/cruz-vermelha-r-17-milhoes-em-doacoes-foram-desviados-para-ong.html. Acesso em: 1º jul. 2016.

Dicas para ganhar muito dinheiro. Site O Fuxico Gospel, 2014. Disponível em: http://www.ofuxicogospel.com/2014/03/5-dicas-para-ganhar-muito-dinheiro-no.html. Acesso em 03 jul. 2016

Figura da Safira disponível em: https://ninabruni.wordpress.com/2013/01/28/safira-a-pedra-mais-procurada-para-joias/. Acesso em 04 dez. 2017.

LEITÃO, Leslie. MP detecta desvio milionário de doações à Cruz Vermelha. Revista Veja (On Line). São Paulo, 06 ago. 2012.  Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/mp-aponta-desvio-milionario-de-doacoes-a-cruz-vermelha. . Acesso em 1º  jul. 2016.

Mercado evangélico cresce ao apostar em consumidor fiel. Site Terra, 07 dez. 2015. Disponível em:  https://www.terra.com.br/economia/vida-de-empresario/mercado-evangelico-cresce-ao-apostar-em-consumidor-fiel,ccccff10d0f6156d00846f3f517978c3mgqxuxdu.html;. Acesso em: 04 dez. 2017.

SOUZA, Lázaro Evair de. A fé alavanca as vendas. Pequenas Empresas, Grandes Negócios (Online), 2015. Disponível em: http://revistapegn.globo.com/Empresasenegocios/0,19125,ERA455486-2482,00.html. Acesso em 03 jul. 2016.

STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong. Sociedade Bíblica do Brasil (Bíblia Online). São Paulo, 1999.



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

José, um homem de procedência (Atos 4.36,37)

“José, a quem os apóstolos deram o sobrenome de Barnabé, que quer dizer filho de exortação, levita, natural de Chipre, como tivesse um campo, vendendo-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos apóstolos”.


*Figura disponível em: http://cantinhodashistoriasbiblicas.blogspot.com.br/2016/03/ananias-e-safira-mentira-tem-as-suas.html

Introdução

Existe uma estratégia de mercado muito utilizada em todo o mundo, que é a marcação do produto com um selo de procedência. Um dos produtos que se beneficiam dessa estratégia, no Brasil, é a carne bovina. O Sebrae Nacional publicou no seu site um artigo dizendo que

O Pampa Gaúcho é conhecido como a “terra do churrasco”. Os produtores da região querem ser identificados não somente pelo sabor da carne preparada, mas também pela boa procedência do que vai para a churrasqueira. Desde 2006, mais de 70 deles usam o registro de Indicação Geográfica fornecido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). O selo certifica a qualidade da carne local. Juntos, os criadores da região reúnem um rebanho bovino de mais de cem mil cabeças. O selo garante valorização de até 40% no preço da carne, segundo o secretário-executivo da Associação dos Produtores de Carne do Pampa Gaúcho da Campanha Meridional (ProPampa), Rogério Jaworski. Só os cortes mais nobres recebem a etiqueta.

Selo de procedência valoriza carne em até 40%. Sebrae Nacional, 2014. Disponível em: http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/selo-de-procedencia-valoriza-carne-em-ate-40,45089e665b182410VgnVCM100000b272010aRCRD – acesso em: 12/06/2016)

Embora nem toda carne procedente dos Pampas tenha o selo de qualidade, é inegável que a região adquiriu boa fama pela tradicional qualidade de seus produtos.
Podemos falar de um conceito semelhante quando o assunto é o caráter de alguém. Muitas vezes, ao comentarmos o comportamento de certas pessoas, repetimos ditados como: “tal pai, tal filho”, “filho de peixe, peixinho é”. Temos esse costume por reconhecermos que, muitas vezes, o caráter de um homem está ligado à sua procedência. É o caso de um homem chamado José, apresentado no texto bíblico, o qual foi “selado”, pelos seus conhecidos, com pelo menos três identidades de procedência.

Filho da exortação

A primeira identidade de procedência, com a qual José foi selado, é a de “filho da exortação”, cuja pronúncia na língua aramaica, Barnabas (português Barnabé), tornou-se o nome pelo qual ele ficou mais conhecido. A palavra grega que foi traduzida por “exortação”, é a palavra “paraklesis”, também traduzida por “consolação” em Lucas 2.25, numa referência ao Messias que acabara de nascer. Em Romanos 15.5, Paulo se refere ao Pai como o Deus da paciência e da consolação [paraklesis]”. Já o evangelista João registra que Jesus apontava o Espírito Santo como o portador da consolação, após a sua partida. Usando a palavra grega “parakletos”, traduzida em nossa versão como “consolador”, ele se refere várias vezes ao Espírito, conforme os versículos abaixo:

E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco (João 14.16); Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito (João 14.26); Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim (João 15.26); Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei (João 16.7).

Jesus também ensina o mestre Nicodemos, dizendo: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito [...]. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (João 3.6,8).

É certo que José havia passado por essa experiência descrita por Jesus, a do novo nascimento, o nascimento do Espírito; então era apropriado que passasse a ser reconhecido como Barnabé, o “filho da exortação”, ou melhor, o “filho da consolação” (paraklesis). Certamente não foi o seu novo nascimento somente, que o levou ao apelido, mas o que dele se podia perceber, a sua bondade, humildade, a sua prontidão em ajudar. Quem quiser receber também a mesma identidade de procedência, precisa nascer de novo, nascer do Espírito Santo, e portar-se como um verdadeiro filho de Deus, tal qual José Barnabé.

Filho de levi (levita)

A segunda identidade de procedência, com a qual Barnabé foi selado, é a de “filho de Levi”. Barnabé era um levita, portanto, um filho de Levi. Havia outro levita famoso, mencionado por Jesus na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10.32). Será que Barnabé, um dia, foi um levita como aquele, que passou de largo para evitar um homem ferido na beira da estrada? Pelo sim ou pelo não, o fato é que neste caso ele aproveitou a oportunidade de mostrar compaixão pelos necessitados, doando voluntariamente o dinheiro da venda de uma propriedade. Todos os que se consideram religiosos, cedo ou tarde terão oportunidades de mostrar compaixão condizente com a fé que propagam. Se você é daqueles que carregam o nome de crente em qualquer lugar onde estejam, as pessoas vão esperar que você aja como crente, que tenha atitudes compatíveis. Não podemos fugir à responsabilidade de nos comportarmos conforme o exemplo de Jesus. Tiago (1.26) faz um alerta para o fato de que,

Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã. A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.

José soube exercer bem a sua religiosidade, honrando e fazendo ser honrado o título de “filho de Levi”.

Filho de Chipre (natural de Chipre)

A terceira identidade de procedência, com a qual José Barnabé foi selado, é a de filho de Chipre (natural de Chipre). Essa ilha do Mediterrâneo, localizada entre a Cilícia e a Síria, era fértil e encantadora. Existem outras duas passagens, na Bíblia, onde se menciona que alguém é procedente de Chipre. Em uma dessas passagens, fala de discípulos inovadores, que não se contentaram em pregar somente aos judeus, mas pregaram também aos gregos (Atos 11.20). Em outra, fala de um velho discípulo chamado Mnasom, que hospedou Paulo e sua equipe na fatídica jornada até Jerusalém (Atos 21.16).

Será que essas três passagens revelam que os habitantes da ilha tinham a fama de serem boas pessoas? Levar a fama de fazer parte de uma determinada comunidade pode ser uma grande responsabilidade. Como será que as pessoas reagem, ao dizermos o nome da igreja que freqüentamos? Qual será a nossa fama?

Há uma música de Erasmo Carlos, onde ele brinca com a preocupação em manter sua fama. Diz assim um trecho da letra:

Meu bem, chora, chora, e diz que vai embora. Exige que eu lhe peça desculpas, sem demora. E digo não, por favor, não insista e faça pista; não quero torturar meu coração. Perdão à namorada é uma coisa normal, mas é que eu tenho que manter a minha fama de mau!

CARLOS, Erasmo, CARLOS, Roberto. Minha fama de mau. Gravadora Elenco. Rio de Janeiro, 1983.

Será que nós estamos preocupados em manter a nossa fama, seja ela qual for? Paulo, certa vez, apelou para uma espécie de “chantagem emocional”, desafiando os coríntios a serem generosos na contribuição aos seus irmãos da Judéia, de modo que comprovassem sua boa fama (2Coríntios 9.1-4):

Ora, quanto à assistência a favor dos santos, é desnecessário escrever-vos, porque bem reconheço a vossa presteza, da qual me glorio junto aos macedônios, dizendo que a Acaia está preparada desde o ano passado; e o vosso zelo tem estimulado a muitíssimos. Contudo, enviei os irmãos, para que o nosso louvor a vosso respeito, neste particular, não se desminta, a fim de que, como venho dizendo, estivésseis preparados, para que, caso alguns macedônios forem comigo e vos encontrem desapercebidos, não fiquemos nós envergonhados (para não dizer, vós) quanto a esta confiança.

Enquanto Chipre e até mesmo a Acaia, podiam se orgulhar de sua boa fama, o mesmo não se pode dizer a respeito de outra ilha, Creta, porque a sua fama não era muito boa, conforme Tito 1.12: “Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos”.

Conclusão

Quanto será que valem as nossas “identidades de procedência”? Os gaúchos dos Pampas e de outras regiões certificadas com o “Registro de Indicação Geográfica”, podem se gabar da boa qualidade dos seus produtos. Barnabé, por sua vez, era um exemplo a ser seguido, por seu amor prático, representando bem os “filhos da exortação” (nascidos do Espírito Santo), os “filhos de Levi” (religiosos), e os “filhos de Chipre” (comunidade de onde veio). Todos esses podiam se orgulhar do seu bom representante, e afirmar confiantemente que José era um homem de procedência.



quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Uma igreja rica (Atos 4.32-35)

A igreja nominal de Cristo alcançou muita riqueza nos seus quase dois mil anos de existência. Como exemplo, podemos citar uma notícia no portal G1, em junho de 2017, a qual diz que

O Instituto para as Obras de Religião (IOR), mais conhecido como o banco do Vaticano, ganhou € 36 milhões em 2016, frente aos € 16,1 milhões de 2015, segundo comunicado divulgado nesta segunda-feira (12).
"Este resultado foi obtido graças a uma atividade de negociação eficaz, em um contexto de grande volatilidade dos mercados, de instabilidade política (...) e de baixas taxas de juros", disse o IOR.
O banco explica ter continuado em 2016 "a servir com prudência e a oferecer serviços financeiros especializados à igreja católica em todo o mundo".
Em 2016 o IOR tinha cerca de 15.000 clientes, principalmente religiosos, congregações e trabalhadores do Vaticano. No dia 31 de dezembro administrava € 5,7 bilhões em fundos.


Banco do Vaticano tem faturamento de € 36 milhões em 2016. Portal G1, 12/06/2017. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/banco-do-vaticano-tem-faturamento-de-36-milhoes-em-2016.ghtml Acesso em: 01/10/2017.
* 36 milhões de euros = R$ 123 milhões em 01/01/2017; 16 milhões = R$ 59.856 milhões; 5,7 bilhões = R$ 21.323,7 milhões;


A Revista Forbes, em janeiro de 2013, fez uma lista dos cinco pastores mais ricos do Brasil. Segundo o jornal Correio News,


A revista americana de economia e negócios Forbes avaliou o patrimônio dos principais pastores evangélicos do Brasil e elaborou uma lista dos cinco mais ricos. Em primeiro lugar, disparado, ficou Edir Macedo (foto), chefe da Igreja Universal do Reino de Deus. A revista estima que seu patrimônio líquido seja de pelo menos US$ 950 milhões (R$ 1,9 bilhão). [...] Valdemiro Santiago, da Mundial, em segundo lugar. Forbes estimou que a patrimônio líquido do pastor que aparece na TV chorando pedindo dinheiro seja de US$ 220 milhões (R$ 440 milhões). [...] Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. A revista avaliou o seu patrimônio líquido em US$ 150 milhões (R$ 300 milhões). [...] R.R. Soares, o quarto colocado na lista dos mais ricos. O fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus teve seu patrimônio líquido estimado em US$ 125 milhões (R$ 250 milhões). Estevam Hernandes Filho e sua mulher Sônia, da Igreja Renascer, ficaram em quinto lugar, com patrimônio líquido estimado em US$ 65 milhões (R$ 130 milhões).


Os Pastores mais ricos do Brasil, segundo a Forbes. O Correio News, maio 2016. Disponível em: http://ocorreionews.com.br/portal/2016/05/29/fortuna-de-pastores-brasileiros-chama-a-atencao-da-forbes/ Acesso em: 01/10/2017. Citando como fontes a revista Exame, 29 de maio de 2016, e o artigo de ANTUNES, Anderson. The Richest Pastors In Brazil. Site da Forbes, 17/01/2013, disponível em: https://www.forbes.com/sites/andersonantunes/2013/01/17/the-richest-pastors-in-brazil/#1105384d5b1e Acesso em: 01/10/2017.

A Bíblia, porém, fala da riqueza que a Igreja tinha no início de sua formação. Em Atos 4.32-35 podemos notar que haviam pelo menos três recursos abundantes que faziam da igreja primitiva uma igreja rica.


Primeiro recurso abundante na igreja: Comunhão (32)

Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum.


Gostamos de brincar, quando alguma cozinheira erra na medida do arroz, e ele fica grudado, dizendo que é um arroz “unidos venceremos”; é senso comum a ideia de que a “união faz a força”; pensando nisso, as empresas modernas e bem sucedidas sempre se empenham para manter, da melhor forma possível, o seu “clima organizacional”. Na igreja, há milênios, ecoa o apelo a “Evódias” e a “Síntiques” para que “pensem concordemente, no Senhor” (Filipenses 4.2).
Apesar de não faltarem apelos, houve divisão na igreja desde os primórdios, conforme veremos em Atos 6, com os helenistas murmurando contra os hebreus. Até mesmo líderes exemplares como
Barnabé e Saulo tiveram desavenças que os levaram a se separar no ministério (Atos 15.36-40). A história da igreja é uma história de divisões. É inevitável a divergência de opiniões.
Por isso mesmo, a comunhão dos cristãos é um milagre operado pelo Espírito Santo, que os mantém unidos no que é fundamental em termos de fé, e do “amor uns aos outros”, que é o autenticador dos que são reconhecidamente discípulos de Cristo. A comunhão se materializa no compartilhamento de bens, quando o crente considera que suas posses não são exclusivamente suas, mas estão à disposição do Senhor, para socorrer a quem precisa. Este hábito de comunhão, de compartilhar seus bens, ainda prevalece na igreja, entre os que sinceramente servem ao Senhor Jesus. Entre os bens que se compartilha em nome da comunhão, o que mais chama a atenção é o dinheiro. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada entre 2002 e 2003, divulgada pelo IBGE em março de 2012, mostra que

As famílias que têm como principal membro um praticante da religião espírita têm rendimento médio mensal de R$ 3,796 mil – valor 2,9 vezes maior que o rendimento médio dos evangélicos pentecostais, de R$ 1.271, que têm o menor rendimento. Ainda assim, a proporção entre o ganho e o volume gasto com doações, pagamento de pensões, mesadas e dízimos, na classificação de outras despesas correntes, é muito maior entre os evangélicos: de 21,4% entre os pentecostais (R$ 22,79), chegando a 34% em outras correntes evangélicas (R$ 59,16). Entre os espíritas, esta participação é de 8,2% (42,58).

RANGEL, Juliana. Espíritas são os mais ricos e evangélicos doam mais. O Globo Online, 29/08/2007, atualizado 03/03/2012. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/espiritas-sao-os-mais-ricos-evangelicos-doam-mais-4158120#ixzz4sJZ6Klotstest Acesso em: 10/09/2017.

Embora os números acima possam nos dar uma noção da maneira como os crentes administram seus bens, é importante lembrar que a comunhão não se resume, nem tem como principal exemplo as contribuições monetárias. A prática da comunhão, do ajuntamento proativo e constante dos crentes, pressupõe a consideração de que cada indivíduo é um mero administrador de seus bens. Tudo o que ele possui, o seu tempo, e até mesmo sua própria alma, pertencem ao Senhor. Deus permita que o abundante recurso da comunhão esteja ainda presente em cada comunidade verdadeiramente cristã.


Segundo recurso abundante na Igreja: Poder (33a)

Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, (...)

Os apóstolos eram um canal de grande poder, vindo de Deus, manifestando-se na igreja, alcançando os pobres e necessitados. O poder de fazer milagres dava respaldo à mensagem do evangelho. Jesus disse aos apóstolos, em Atos 1.8: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra”. Paulo também, embora não estivesse com Jesus no Monte das Oliveiras, recebeu o mesmo Espírito, conforme diz em 1Coríntios 2.4: “a minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder”. Os santos todos, da igreja, receberam poderosos e diversos dons, de acordo com 1Coríntios 12.10: “[...] a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las”. O apóstolo orou pelos efésios (3.16) “para que, segundo a riqueza da sua glória”, Deus concedesse que eles fossem “fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior”. O evangelho que chegou aos tessalonicenses não foi somente em palavra, “mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção”, assim como eles sabiam ter sido o procedimento de Paulo e seus ajudantes entre eles e por amor deles (1Tessalonicences 1.5). O jovem pastor Timóteo foi alertado por seu mentor de que não lhe fora dado por Deus “espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação”, de forma que ele não devia se envergonhar do “testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado”, Paulo, pelo contrário, deveria participar com ele “dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus” (2Timóteo 1.7,8).
Assim, quem quiser dar um testemunho poderoso, não pode deixar que seja enfraquecido pelo poder do pecado. Uma palavra com credibilidade depende muito do caráter de quem a profere, mas, sobretudo, depende desse abundante recurso que é o poder do Espírito Santo, poder esse que compõe o “patrimônio espiritual” desta rica igreja de Cristo.

Terceiro recurso abundante na igreja: Graça (33b-35)

(...) e em todos eles havia abundante graça. Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.


Lemos, na Wikipédia, que “Caridade (lat caritate: Amor de Deus e do próximo. Benevolência, bom coração, compaixão. Beneficência, esmola.) é um termo derivante do latim caritas (afeto, amor), que tem origem no vocábulo grego chàris (graça)” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Caridade Acesso em: 04-06-2016).
Em certo momento do ministério público de Jesus, ele enviou os doze numa missão, dizendo: “curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10.8). Essa prática de ser gracioso se estendeu à igreja, tornando-se obrigação de todos os crentes.
Quando falamos de comunhão, pensamos mais na comunidade dos crentes, mas quando falamos de Graça, o público-alvo é mais amplo. Assim como nosso Pai celeste “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mateus 5.45), assim também deve ser graciosa a igreja. Quanto mais rica for de bens terrenos, mais responsabilidade terá para com os pobres. Isto vale também para os indivíduos. Parece que essa consciência de responsabilidade está bem expressa numa notícia veiculada no portal de notícias da Uol, em maio de 2016:

Conhecida como Baronesa Thyssen, Carmen Cervera, a sétima mulher mais rica da Espanha, incendiou as redes sociais ao declarar que "ser rica é difícil" e "é muita responsabilidade". Em uma entrevista publicada no jornal especializado em economia "Cinco Dias", a aristocrata declarou: "Ser rico sempre é difícil, é pior do que ser pobre. Vem uma grande responsabilidade para si mesma e para as pessoas que dependem de você."



(http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2016/05/24/milionaria-causa-polemica-ao-dizer-que-ser-rica-e-dificil.htm Acesso em: 04-06-2016)

O sábio Salomão, em seus estudos sobre a vida na terra, disse em uma de suas conclusões que
"Onde os bens se multiplicam, também se multiplicam os que deles comem; que mais proveito, pois, têm os seus donos do que os verem com seus olhos? Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer muito; mas a fartura do rico não o deixa dormir" (Eclesiastes 5:11,12).
Embora o rico, se não quiser lutar contra a própria natureza, seja praticamente obrigado a ser gracioso, a graça que vem de Deus não depende de ser rico ou não. Os pobres costumam ser mais graciosos do que os ricos, ao compartilhar o pouco que têm. Frequentemente, Deus abençoa os seus filhos para que sejam canais de bênção para outros. A graça de Deus para conosco tem o objetivo de nos estimular às boas obras, conforme 2Coríntios 9.8: “Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra”.
O crente que cumpre bem o seu papel de ser gracioso, é ainda mais abençoado, porque aqueles que são por ele ajudados, oram a seu favor “com grande afeto, em virtude da superabundante graça de Deus” que neles há (2Coríntios 9.14).
Pedro no faz uma exortação: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus (1 Pedro 4.10).
Clive Staples Lewis, famoso escritor britânico, escreveu sobre a caridade, dizendo:

Não acredito que alguém possa estabelecer o quanto cada um deve dar. Creio que a única regra segura é dar mais do que nos sobra. Em outras palavras, se nossos gastos com conforto, bem supérfluos, diversão etc. se igualam ao do padrão dos que ganham o mesmo que nós, provavelmente não estamos dando o suficiente. Se a caridade que fazemos não pesa pelo menos um pouco em nosso bolso, ela está pequena demais. É preciso que haja coisas que gostaríamos de fazer e não podemos por causa de nossos gastos com caridade. Estou falando de "caridade" no sentido comum da palavra. Os casos particulares que afetam parentes, amigos, vizinhos ou empregados, de que Deus, por assim dizer, nos força a tomar conhecimento, exigem muito mais que isso: podem inclusive nos obrigar a pôr em risco nossa própria situação. [...] A regra comum a todos nós é perfeitamente simples. Não perca tempo perguntando-se se você "ama" o próximo ou não; aja como se amasse. Assim que colocamos isso em prática, descobrimos um dos maiores segredos. Quando você se comporta como se tivesse amor por alguém, logo começa a gostar dessa pessoa.

LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. Martins Fontes. São Paulo, 2005. Pag. 34, 48. Disponível em: http://portalconservador.com/livros/C.S.Lewis-Cristianismo-Puro-e-Simples.pdf - Acesso em: 04-06-2016)

De acordo com Emerson Detoni, Santo Agostinho ensinava que

[...] Credere in Deum implica um caminhar até Deus, um movimento de amor. Movimento que compreendemos perfeitamente quando lemos o Enchiridion e percebemos que a fé na existência de Deus não pode estar desprovida da Caridade, como era a fé dos demônios, que acreditavam unicamente para evitar Jesus e não para viver Nele (Ench. 2.8). A verdadeira fé “reclama” a graça, através da qual pode cumprir as boas obras que conduzem a Deus. Ou seja, a fé impetra a graça e ao receber o Espírito de amor, torna-se ativa (Ench. 31.117). Na visão de Agostinho, a única fé que se justifica é a fé que se faz ativa por meio do amor.


DETONI, Emerson. Santo Agostinho: Fé, Esperança e Caridade. Disponível em: http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/pdfs/2010_02_05.pdf Acesso em: 04-06-2016)

Conclusão

A riqueza que o Espírito Santo trouxe à Igreja a tornou abundante em comunhão, poder e graça. Resultados diferentes são produzidos pelo espírito do mundo. Paulo falou à igreja em 1Coríntios 2.12: “Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente”. Mas tinha uma preocupação, a de que a igreja acabasse influenciada pelo espírito que está no mundo, e por isso fez declarações como a que lemos em 2Coríntios 12.20: “Temo, pois, que, indo ter convosco, não vos encontre na forma em que vos quero, e que também vós me acheis diferente do que esperáveis, e que haja entre vós contendas, invejas, iras, porfias, detrações, intrigas, orgulho e tumultos”. Qual espírito está agindo em nós hoje? Quando Jesus voltar, nos encontrará agindo segundo o Espírito que nos deu, ou segundo o espírito do mundo? Sejamos sóbrios, vigilantes, e utilizemos bem os abundantes recursos que o Espírito Santo nos dá, para que a riqueza que se destaque na igreja seja de comunhão, poder e graça.