domingo, 19 de maio de 2019

Aceitável (Atos 10.1-8)

Alguns anos atrás, a população ficou alarmada com rumores de que um jogo muito popular entre crianças e adolescentes, chamado Baleia Azul, os estava levando a cometerem suicídio. De fato, o risco é real, não só pelo fenômeno do jogo em questão, mas também por outros estímulos, quando a ansiedade por ser aceitável em seu grupo de relacionamento acaba levando as pessoas a cometerem loucuras. Um grande problema entre nós, seres humanos, é o medo de não sermos aceitos pela sociedade. Mas, será que as pessoas se preocupam também com a possibilidade de não estarem sendo aceitas por Deus? Cornélio é o exemplo de um homem que se tornou aceitável, ou seja, se tornou um candidato a ser aceito por Deus. Neste parágrafo de Atos 10.1-8, encontramos pelo menos três virtudes de Cornélio que o tornaram aceitável para Deus.


Primeira virtude: Piedade (1,2)


“Morava em Cesaréia um homem de nome Cornélio, centurião da coorte chamada Italiana, piedoso e temente a Deus com toda a sua casa e que fazia muitas esmolas ao povo [...]”


Um homem piedoso tem vantagens quando se trata de aceitação, pois é visto por Deus de um jeito especial, conforme 2ª Pedro 2.9, que diz: “[...] o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia de Juízo”.


Mas não é qualquer tipo de piedade que comove a Deus. Jesus, inclusive, adverte em Mateus 6.2 que, quando “[...] deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita”. E Paulo vai mais longe em 1ª Coríntios 13.3, ao dizer: “[...] ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará”.


A pesquisadora Maria da Conceição Meireles Pereira, num estudo sobre as publicações que sucederam o terremoto de Andaluzia, em 1885, analisa a diferença entre os conceitos de caridade e filantropia e, citando uma das publicações analisadas, observa que um correspondente chamado “[...] Lúcio Fazenda recusa os vocábulos caridade e filantropia porque identifica a primeira com hipocrisia e a segunda com egoísmo; propõe, em sua substituição, os conceitos que elege para título do seu texto: Reciprocidade ou Solidariedade”


PEREIRA , Maria da Conceição Meireles. Caridade Versus Filantropia - Sentimento e Ideologia: A Propósito dos Terramotos da Andaluzia (1885). Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal, 2004. Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/5016.pdf Acesso em: 23 abr. 2017.


Este ceticismo das pessoas com respeito à suposta piedade de alguns pode se justificar em casos como o mencionado numa reportagem da Gazeta do Povo de 17/05/2009, onde lemos que


“[...] Cerca de 330 mil peças de roupas e alimentos doadas para os atingidos das enchentes em novembro e dezembro do ano passado, em Santa Catarina, foram apreendidas em um galpão, anexo a um brechó, na cidade de Rio Negrinho, no Planalto Norte do estado. O empresário e dono do brechó, Ismael Evelson Ratzkob, 37 anos, foi preso em flagrante. Em depoimento, ele informou para a polícia que pegava os produtos em Ilhota, uma das cidades mais atingidas pela tragédia, e os levava para um depósito particular onde vendia peças para a população por até R$ 1. Ismael teve prisão temporária decretada”.


Doações a SC eram vendidas em brechó. Folhapress, em Gazeta do Povo, 17/05/2009. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/doacoes-a-sc-eram-vendidas-em-brecho-bl0ovwxbqt2uytmglwgq0vbda Acesso em 23 abr. 2017.


Às vezes é difícil decidir sobre como vamos praticar a nossa piedade. A prática mais comum é a de dar esmolas, mas existem controvérsias como as que são expostas no artigo de Nathália Braga, da Revista Super Interessante que, em 18/02/2011, compila algumas respostas à pergunta: “Devemos dar esmolas?”:


“A indiferença é a forma contemporânea da barbárie. É preferível dar porque, às vezes, o que você dá é a diferença entre ter ou não uma oportunidade. Ainda que seja só a oportunidade de comer.”


Rita Amaral, doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo.


“Acho errado. Esmola vicia e leva a pessoa a viver na condição de se acomodar com o pouco que recebe.”


Içami Tiba, Psiquiatra, educador e autor de quem ama educa.


“Depende. Nunca dou dinheiro, mas pago uma refeição. Solidariedade é um dever ético – repartir uma porção do que tem com um amigo em dificuldade é o princípio bíblico do dízimo.”


Frei Betto, Teólogo e escritor.


“Não. A esmola pode aliviar situações de extrema necessidade, mas não contribui para transformar a condição de miserabilidade dos pedintes.”


Waldir Mafra, da care Brasil, Ong que combate a pobreza.


“As pessoas acham que mendigo gosta de pedir, mas eu não gosto. Sei que esse não é o único jeito de viver, mas ainda não vejo outra saída. Se mais gente me ajudasse, talvez eu saísse dessa situação.”


Carla, moradora de rua.


BRAGA, Nathália. Devemos dar esmolas? Revista Super Interessante, 18/02/2011. Disponível em: http://super.abril.com.br/comportamento/devemos-dar-esmolas/ Acesso em: 23 abr. 2017.


O fato é que Cornélio já havia tomado a decisão de ser piedoso, e a maneira principal de praticar sua piedade era fazer “muitas esmolas ao povo”, pelo que se tornou aceitável, tanto pelos homens quanto por Deus.


Segunda Virtude: Fidelidade (2-6)


[...] e, de contínuo, orava a Deus. Esse homem observou claramente durante uma visão, cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que se aproximou dele e lhe disse: Cornélio! Este, fixando nele os olhos e possuído de temor, perguntou: Que é, Senhor? E o anjo lhe disse: As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus. Agora, envia mensageiros a Jope e manda chamar Simão, que tem por sobrenome Pedro. Ele está hospedado com Simão, curtidor, cuja residência está situada à beira-mar.


A fidelidade de Cornélio pode ser notada pelo fato de ele orar continuamente a Deus, e foi justamente nesta prática, na oração da “hora nona” (15 horas, em nosso modelo de nomenclatura atual), é que recebeu a visita do anjo de Deus. Somos exortados pela Bíblia a andarmos na mesma prática fiel, pois a oração é tida por Deus como “sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13.15).


A fidelidade é o que nós esperamos uns dos outros. Ao nos casarmos, diante de Deus e das testemunhas, prometemos fidelidade. No nosso trabalho, o patrão espera que sejamos fiéis, tanto para chegar nos horários combinados, quanto para executar adequadamente as nossas tarefas. Os trabalhadores, por sua vez, esperam que o transporte coletivo seja fiel em passar nos horários determinados, e em levá-los para os locais programados. A sociedade, em geral, enaltece aqueles que são fiéis, mas rejeita os infiéis.


Quando um cristão decide ser fiel, é porque quer se assemelhar ao seu Pai, pois, “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1ª João 1.9). A fidelidade de Deus também não deixa que sejamos tentados além de nossas forças (1ª Coríntios 10.13). Gosto muito do Salmo 19 (1-6), que exalta, entre outros atributos, a fidelidade de Deus, ao cantar que


Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor.


A terra gira em torno do seu próprio eixo a uma velocidade aproximada de 1700 km/h, e muitos se perguntam: “e se um dia a terra parar?”. É certo que haveria muitas catástrofes, e possivelmente a extinção da vida. Mas todos os dias acordamos e lá está o sol, revelando a glória e a fidelidade de Deus, em manter a terra em movimento, para que continuemos a vida.


A segunda parte do Salmo 19 (7-14) fala da Palavra de Deus (a lei, os preceitos, o temor) e do desejo do salmista de, em contrapartida, também ser fiel ao seu Redentor, o que nós todos, igualmente, deveríamos buscar para que, como Davi ou Cornélio, nos tornemos aceitáveis a Deus.


Terceira virtude: Humildade (7-8)


“Logo que se retirou o anjo que lhe falava, chamou dois dos seus domésticos e um soldado piedoso dos que estavam a seu serviço e, havendo-lhes contado tudo, enviou-os a Jope”.


Cornélio, sendo um importante centurião da coorte, não se deixou dominar pela arrogância. Antes, humildemente, enviou três dos seus servos, cuidadosamente escolhidos, para solicitar a presença do apóstolo Pedro, conforme orientado pelo anjo.


A humildade é requerida dos cristãos em Romanos 12.16, que diz: “Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos”, e é uma virtude ensinada pelo exemplo do próprio Senhor Jesus que, certa vez, declarou : “[...] sou manso e humilde de coração [...]” (Mateus 11:29).


São muitos, porém, os que escolhem o caminho da arrogância. Talvez o maior exemplo disto, na história, seja a do partido Nazista de Hitler, que popularizou e fez sua própria aplicação macabra da teoria da “Raça Ariana”. Numa matéria da revista Mundo estranho, em abril de 2011, lemos que este


É um conceito surgido no século 19 e que hoje está desacreditado. “A raça ariana seria supostamente a linhagem ‘mais pura’ dos seres humanos, constituída apenas por indivíduos altos, fortes, claros e inteligentes, representando assim, de acordo com critérios arbitrários, uma raça superior às demais”, afirma o biólogo Danilo Vicensotto, da Universidade de São Paulo (USP). A palavra “ariano” deriva de arya (“nobre”, em sânscrito) e serviu para denominar um povo de origem controversa. “Na verdade, os arianos não são uma raça, e sim um grupo lingüístico, mais conhecido como indo-europeu”, diz o historiador Robert Rozett, da biblioteca Yad Vashem, em Israel.


Em meados do século 19, o diplomata e escritor francês conde de Gobineau propôs o conceito de ‘raça ariana’, defendendo a superioridade dos brancos sobre negros, amarelos e semitas. Gobineau classificava como ‘arianos’ os povos nórdicos e germânicos, que para ele representavam o ápice da civilização, sendo responsáveis por todo o progresso da humanidade ao longo da história. As idéias do conde francês tiveram aceitação na Europa da época, em especial entre intelectuais alemães. Na Alemanha do século 20, o conceito foi assimilado pelo Partido Nazista e por seu líder Adolf Hitler, servindo de base para a política de extermínio de judeus e de outros ‘povos não-arianos’.”


O que é a Raça Ariana? Por “Redação Mundo Estranho”, Site Super Interessante ,18/04/2011. Disponível em: http://mundoestranho.abril.com.br/historia/o-que-e-a-raca-ariana/ Acesso em: 23 abr. 2017.


Talvez alguns cristãos achem que somos uma espécie de “Raça Ariana”, e que somos superiores aos demais pecadores. Mas não é isto o que a Bíblia ensina. Tiago (4.6) alerta para o fato de que “[...] Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes”. O apóstolo Pedro, em sua primeira carta (5.5), também faz um apelo à humildade: “[...] outrossim, no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça”. Portanto não devemos, nunca, nos jugarmos melhores do que ninguém, se quisermos estar entre aqueles que recebem a graça de Deus, a qual Cornélio, tendo sido julgado aceitável, humildemente recebeu.


Conclusão


Você tem o desejo de ser aceitável no seu grupo de relacionamento? E quanto a Deus, você se considera aceitável para ele? Ser aceitável não significa ser, necessariamente, aceito. Cornélio podia ser aceitável, mas um anjo lhe foi enviado, para avisar que chamasse Simão Pedro, para que ouvisse a mensagem do evangelho, para que, crendo, fosse finalmente aceito por Deus. Você já foi aceito por Deus? Pode ser que você não tenha sido piedoso em sua vida, como deveria; não tenha sido fiel em ler a Bíblia e orar, ou não tenha se tornado aceitável por meio da humildade, reconhecendo que é um pecador, arrependendo-se e convertendo-se pela fé no evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas hoje pode ser o tempo “sobremodo oportuno”, e o “dia da salvação” (2ª Coríntios 6.2).


Quanto aos que têm consciência de que já foram aceitos por Deus, continuem dignos da vocação a que foram chamados, buscando o que é aceitável para Deus, exercitando a piedade, a fidelidade e a humildade.


(*) Imagem do cabeçalho disponível em: http://www.psicologoroberte.com.br/aceitacao/ Acesso em 19 maio 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.


 

domingo, 21 de abril de 2019

O milagre mais difícil (Atos 9.32-43)

 

Quem é que não gostaria de presenciar algum milagre? Às vezes o anseio é tão grande que até mesmo a eventos naturais alguns podem atribuir fenômenos milagrosos, como no caso do incêndio da Catedral de Notre Dame, em Paris.


[...] O edifício, com cerca de 850 anos, foi parcialmente consumido pelas chamas, como foi possível ver com a queda do famoso pináculo que se fazia ver ao longe nos céus da capital francesa. O fogo, que só foi dado como extinto às 9h00 desta terça-feira, 16 de abril, fez o que quis e destruiu tudo o que lhe surgia pela frente, mas, no meio das chamas e de todo aquele inferno, houve um milagre que se fez sentir logo à transmissão das primeiras imagens do interior da catedral. [...] O altar e o crucifixo sobreviveram milagrosamente à invasão das chamas e a toda a onda de destruição que existia à sua volta. Os franceses chegaram já a intitular este acontecimento como «Milagre da Páscoa».


Crucifixo sai intacto no meio das chamas. VIP, 16/04/2019. Disponível em: https://www.vip.pt/crucifixo-sai-intacto-no-meio-das-chamas-milagre-de-pacoa-durante-tragedia-na-notre-dame Acesso em 21 abr. 2019.


O milagre da Páscoa, na verdade, foi e sempre será a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, mas pode ser que os franceses estejam parcialmente corretos, já que Deus poderia ter interferido para preservar aquelas relíquias e as vidas humanas no interior da Notre Dame para, quem sabe, dar ao mundo um sopro, mesmo que pequeno, de fé, assim como tem feito muitos milagres continuamente, os quais são constantemente ignorados.


A Bíblia narra muitos milagres. Dentre eles, podemos citar os três que aconteceram neste parágrafo de Atos 9.32-43.


Enéias (Aeneas="laudable" Louvável): O Senhor faz com que os coxos andem direito (32-35)


Passando Pedro por toda parte, desceu também aos santos que habitavam em Lida. Encontrou ali certo homem, chamado Enéias, que havia oito anos jazia de cama, pois era paralítico. Disse-lhe Pedro: Enéias, Jesus Cristo te cura! Levanta-te e arruma o teu leito. Ele, imediatamente, se levantou. Viram-no todos os habitantes de Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor.


Pedro foi ver como estavam os santos. Enéias, cujo nome significa “louvável”, se encontrava acamado, paralítico, havia oito anos. Pelo tempo decorrido, Enéias pode ter ficado com a impressão de que ficaria assim para sempre. A chegada de Pedro, porém, lhe trouxe boas notícias: “Jesus Cristo te cura”.


Até hoje, passados quase dois mil anos, não se ouve de ocorrências de curas espetaculares como a de Enéias. É verdade que a medicina tem feito conquistas preciosas, entre elas a revolucionária cura de um homem chamado Darek Fidyka, de 40 anos, que


[...] ficou paralisado do peito para baixo após ser esfaqueado várias vezes em 2010 [...]. O tratamento, inédito no mundo, foi realizado por cirurgiões poloneses em colaboração com cientistas em Londres. [...] utilizou células especiais que fazem parte do sentido do olfato (OECs, na sigla em inglês). Elas agem como células de direção, que permitem que as fibras nervosas do sistema olfativo sejam continuamente renovadas. Na primeira de duas operações, os cirurgiões removeram um dos bulbos olfativos do paciente e as células cresceram em cultura. Duas semanas depois, eles transplantaram as células para a medula espinhal, que tinha sido reduzida a uma pequena faixa de tecido, à direita. [...] Fidyka mantém o programa de exercícios que já realizava antes do transplante - cinco horas por dia, cinco dias por semana. Ele notou pela primeira vez que o tratamento havia sido bem sucedido após cerca de três meses, quando sua coxa esquerda começou a desenvolver músculos. Seis meses depois, ele foi capaz de tentar dar seus primeiros passos com a ajuda de barras paralelas, usando muletas e com o apoio de um fisioterapeuta. Dois anos após o tratamento, ele agora pode andar fora do centro de reabilitação utilizando um andador. O neurocirurgião Pawel Tabakow, consultor no Hospital Universitário de Wroclaw, que liderou a equipe de pesquisa polonesa, disse: "É incrível ver como a regeneração da medula espinhal, algo que era considerado impossível por muitos anos, está se tornando uma realidade".


WALSH, Fergus. Homem paralisado volta a andar após transplante de células do nariz. BBC News, 21 de outubro de 2014. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/10/141021_saude_caminha_hb Acesso em 21 abr. 2019.


O milagre operado por meio de Pedro, no entanto, foi tão maravilhoso que Enéias imediatamente se levantou e arrumou o seu leito, perambulou pela cidade, de maneira que todos os habitantes de Lida e Sarona, maravilhados, se converteram. As palavras de Hebreus 12.12 também lhes seriam muito apropriadas naquele momento: “restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos.


Tabita (corça ou gazela): O Senhor dá solução até mesmo para a morte (36-42)


Havia em Jope uma discípula por nome Tabita, nome este que, traduzido, quer dizer Dorcas; era ela notável pelas boas obras e esmolas que fazia. Ora, aconteceu, naqueles dias, que ela adoeceu e veio a morrer; e, depois de a lavarem, puseram-na no cenáculo. Como Lida era perto de Jope, ouvindo os discípulos que Pedro estava ali, enviaram-lhe dois homens que lhe pedissem: Não demores em vir ter conosco. Pedro atendeu e foi com eles. Tendo chegado, conduziram-no para o cenáculo; e todas as viúvas o cercaram, chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas. Mas Pedro, tendo feito sair a todos, pondo-se de joelhos, orou; e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te! Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro, sentou-se. Ele, dando-lhe a mão, levantou-a; e, chamando os santos, especialmente as viúvas, apresentou-a viva. Isto se tornou conhecido por toda Jope, e muitos creram no Senhor.


Tabita (ou, Dorcas), cujo nome significa “gazela”, símbolo de beleza e delicadeza, foi acometida de uma doença grave, e acabou falecendo. Como será que Tabita estava se sentindo nos últimos dias antes de sua morte? Como estavam se sentindo as pessoas, especialmente as viúvas que ela ajudava? Se fosse como hoje em dia, haveriam correntes de oração por aquela serva de Deus, muitas mensagens de consolo e de encorajamento, muitas “profecias” dizendo que ela iria sair dessa, pois “Deus está no controle”. Mas, no começo, parece que as orações não estavam sendo ouvidas. Pode ser que, de tanto pedir, e ver que a doença não regredia, muitos foram se conformando com a possibilidade de ficar sem a benfeitora.


Somente Deus tem poder sobre a vida, mas permite alguma flexibilidade em seus limites, de forma que, conforme a medicina vai avançando, o homem tem conseguido adiar e, em alguns casos, até reverter temporariamente a morte, como no caso da parada cardíaca, que


[...] ainda é, na maioria das vezes, fatal. Duas das decisões mais desafiadoras na ressuscitação cardíaca são quanto a manter os esforços de ressuscitação e quanto a interromper esforços inúteis. A aceitação e a implementação da ordem formal de não ressuscitar, fez deste um dilema de fim de vida menos frequente. Quando estas decisões devem ser tomadas durante o atendimento, elas devem ser baseadas em fatores não específicos do paciente (o estado pré-parada cardíaca do paciente), no grau de percepção da equipe de quando não é mais possível continuar os esforços de ressuscitação e na obrigação moral de preservar a dignidade humana.


Pozner CN, Martindale JL, Geyer BC. Cardicac Ressuscitation. ACP Medicine. 2012. Tradução: Keli Cristina Polese.Disponível em: http://www.medicinanet.com.br/conteudos/acp-medicine/6372/ressuscitacao_cardiaca.htm Acesso em 21 abr. 2019.


A morte de Dorcas, para alguns, pode ter sido o final da esperança. Mas outros, seguindo o exemplo de Abraão, “esperando contra a esperança” (Rm 4.18), mandaram chamar Pedro, pois talvez pudesse fazer alguma coisa. E fez. A ordem de ressuscitá-la veio de Deus, por meio de resposta à consulta do apóstolo, em oração. A notícia do feito extraordinário levou à conversão de muita gente, na cidade de Jope.


Duas perguntas poderiam surgir em meio a este espetacular acontecimento: por que Deus ouviu a oração de Pedro, ressuscitando a Tabita, apesar de não ter ouvido a oração das viúvas anteriormente? Ou será que a presença de Pedro, como instrumento de Deus para operar o milagre da ressurreição, foi justamente a resposta à oração delas?


Simão, o curtidor (ouvido, atendido): O Senhor faz diluir preconceitos (43)


“Pedro ficou em Jope muitos dias, em casa de um curtidor chamado Simão”.


Simão, o curtidor, cujo nome significa “ouvido, atendido”, fazia o seu humilde, difícil e, para muitos, repugnante trabalho, mas teve a honra de hospedar o apóstolo Pedro em sua casa.


Simão não estava doente. Seu trabalho era a sua cruz, visto que sua profissão era alvo de muitos preconceitos. Por isso, podemos dizer que foi um milagre do cristianismo o fato de Pedro ter aceitado se hospedar na casa de um curtidor. O trabalho do curtidor se dá em várias etapas, conforme nos instrui alguns sites na Internet:


Salga: Processo este que permite ao couro ser transportado e armazenado por vários dias, já que a vida útil do couro após a esfola é de apenas 6 horas.


Remolho: Este processo permite a retirada do sal, utilizado para a conserva e inicia-se o primeiro passo para a transformação de pele em couro.


Depilação: Nesta etapa utiliza-se o enxofre em sua forma de sulfeto de sódio para dissolver os pelos, compostos quase totalmente por queratina, substância esta que é atacada pelo enxofre.


Caleiro: Este é o momento onde se adiciona cal hidratada para provocar o intumescimento das peles, a fim de promover a limpeza entre as fibras, permitindo que os próximos processos tenham maior eficácia.


Desencalagem: Após obter a limpeza entre fibras, retira-se esta cal, e inicia-se a acidificação das mesmas para então se iniciar o processo de curtimento.


Neste momento utiliza-se também alguns tipos de enzimas para auxiliar neste processo de retirados de substâncias que resistiram ao caleiro, a este processo damos o nome de PURGA.


Acidificação e Curtimento: Neste momento, fornecemos aos couros uma quantidade de ácidos inorgânicos para que possamos acertar o pH destas peles e então inicia-se o processo de curtimento que é a oferta de tanantes minerais (cromo, alumínio, titânio, zircónio etc...) ou vegetais ricos em taninos (casca de angico, barbatimão, castanheira, quebracho, mimosa, acácia, mirabolano, gambier etc).


Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Curtume?oldid=44545654 Acesso em: 29 mar. 2017.


Este ofício consistia em tratar a pele dos animais mortos com um tipo de pasta de visgo. Em seguida eram enrolados e ficavam assim até que os pelos se soltassem. Após essa etapa, retirava-se qualquer carne e gordura ainda existente para então se mergulhar a pele em uma solução de visto e sumagre.


Disponível em: http://www.insejecrib.com.br/estudos-biblicos/5a-licao-simao-o-curtidor/2 Acesso em: 29 mar. 2017.


O processo comum de curtir consistia em lavar as peles em água corrente e deixá-las, em seguida, durante vários dias, em banhos envelhecidos de água de cal, operação prévia da descabelagem. Depois de tratadas pela cal e depiladas, as peles eram novamente lavadas e mergulhadas num banho tanante obtido pela maceração de cascas de carvalho, folhas de sumagre, raízes, caules, etc. Nesse banho se curtiam, na longa permanência que durava mêses. Secavam-se, depois, ao ar e, por fim, engorduravam-se com óleos e sebo, tornando-se impermeáveis e flexíveis.


AMADO , António Peres Correia. A industria de curtumes: Evolução e Aspectos Químicos P. 210. Revista Portuguesa de Química, vol. I, Lisboa, 1958 Disponível em: http://www.spq.pt/magazines/RPQ/225/article/332/pdf Acesso em: 29 mar. 2017.


Como se pode imaginar pela descrição acima, quem tinha a profissão de curtidor provavelmente incomodava muito seus vizinhos com o forte odor, tanto do couro e dos resíduos a serem tratados, como dos produtos químicos utilizados no processo. Quanto aos judeus, o incômodo era ainda maior, visto que tinham uma preocupação adicional quanto à pureza cerimonial, imposta em sua lei.


Será que as pessoas da igreja, de maneira semelhante, têm em seus corações repulsas, não só de profissionais que fazem trabalhos sujos, mas também de quem não vem regularmente aos cultos, de quem se veste de determinadas maneiras, de quem pertence a essa ou aquela classe social, que vem de família nobre ou mora num bairro de má fama? Esse tipo de repulsa nós chamamos de preconceito.


Antigamente, achávamos normal termos conceitos pré-definidos a respeito de certos temas e de pessoas, mas de uns tempos para cá, o preconceito tornou-se um termo proibitivo. Apropriando-se dessa nova tendência, em alta posição na lista dos que sofrem preconceito, estão os homossexuais. Como é que nós, cristãos, devemos tratar esse assunto tão delicado? O homossexualismo é pecado, disso não temos dúvidas, mas como devemos ajudar os homens efeminados e as mulheres masculinizadas que porventura se convertem e vêm fazer parte de nossa comunidade? Como vamos conviver de modo natural com os seus trejeitos, os quais poderão, muito bem, estar presentes, mesmo que tenham abandonado o pecado do sexo ilícito? Cada vez que um homem ou mulher se expressar de um jeito peculiar, ou fizer atividades que classificamos como sendo do sexo oposto, isso será para nós uma tentação para tratar o irmão ou a irmã com desprezo e desconfiança.


Uma vez, um jovem crente, convertido do homossexualismo, empolgado com a vida cristã, movido pelas pregações emotivas que ouvia na igreja, decidiu se entregar a Deus para o ministério de tempo integral. Pediu demissão do trabalho e reuniu dinheiro suficiente para pagar seus próprios estudos num seminário bíblico. Para se matricular, porém, precisava do apoio expresso, por escrito, de sua igreja. A igreja ficou então dividida em suas opiniões. Alguns achavam que não era bom, que o rapaz seria tentado e, ao mesmo tempo, seria uma tentação aos demais alunos com quem deveria conviver intimamente nas salas de aula, nas atividades estudantis e nos alojamentos durante, pelo menos, quatro anos. Outros achavam que a igreja devia dar-lhe todo o apoio pois, afinal, ele se convertera, e nada o desabonava em sua conduta, tendo demonstrado fidelidade na assistência aos cultos e no serviço cristão desde sua conversão até aquele momento. Se Deus tinha transformado sua vida, se é verdade que, ao confessarmos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda injustiça (1 João 1.9), então porque deveria a igreja tratar um convertido do homossexualismo de forma diferente de um convertido da promiscuidade, do adultério, da idolatria?


O debate na igreja não aconteceu abertamente, mas ficou implícito na atitude discrepante dos líderes, por quem o jovem foi aconselhado sobre sua importante decisão. Aconteceu que, repentinamente e inexplicavelmente, ele desistiu do seminário. Desistiu também da igreja e da vida cristã. Numa noite, após o culto, chamou o pastor para uma conversa particular e disse que havia decidido voltar à sua vida anterior de pecado, e por isso achou justo fazer essa comunicação e entregar sua carta de demissão à igreja.


Que sentimentos deveriam afluir desse acontecimento? Sentimento de alívio porque o seminário ficou livre de um aluno problemático? Sentimento de pesar porque a igreja perdeu um jovem promissor, cujo testemunho de conversão havia rendido, por breve tempo, muitas glórias a Deus? Sentimento de culpa porque não tratou devidamente de uma questão de preconceito, que levou um pequenino a tropeçar na fé? Deus há de revelar, no dia do juízo, que tipo de sentimento esse acontecimento deveria gerar na igreja, mas é fato que todos eles, e outros mais, foram gerados.


Conclusão


Vimos, neste parágrafo de Atos, que Pedro foi protagonista na realização de três grandes milagres, dois dos quais eu e você, provavelmente, nunca iremos operar em toda a nossa vida. Mas, se pudéssemos classificar milagres pelo seu nível de dificuldade, deveríamos colocar o milagre de se desvencilhar de preconceitos maliciosos e nocivos como o mais difícil de todos, visto que depende muito mais da fé daquele que Deus escolhe para ser o seu protagonista.


Este milagre, porém, é o mínimo que se espera ver em cada um de nós. Jesus disse em João 13.35: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”. Pouco depois, em João 14.12, também falou: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai”. Deus nos deu poder, ao descer sobre nós o Espírito Santo (Atos 1.8), poder de não nos conformarmos com esse século, mas de nos transformarmos pela renovação de nossa mente (Romanos 12.2).


(*) Imagem no cabeçalho disponível em: https://br.sputniknews.com/europa/2019041813710623-notre-dame-causas-incendio/ Acesso em 21 abr. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

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terça-feira, 26 de março de 2019

Planos frustrados (Atos 9.23-31)

Muitas pessoas, que se tornaram famosas por seu grande sucesso, passaram antes por rejeições, ou tiveram grandes fracassos. Além de muitos personagens bíblicos, podemos citar Thomas Edison, Bill Gates, Albert Einstein, Henry Ford, entre outros. Este último já teve duas empresas fracassadas, antes da criação da Ford Motor Company, e até mesmo nos anos finais de sua vida não foi isento de fracassos, inclusive de um investimento milionário feito na Amazônia brasileira, a Fordlândia.


A história não foi diferente com o novato apóstolo Saulo. Este parágrafo de Atos 9.23-31 nos apresenta o que parece ser uma sequência de planos frustrados daquele que se tornaria o maior evangelizador do mundo. Antes do sucesso, porém, era preciso que Saulo se ajustasse aos planos de Deus, pela fé. Vamos falar um pouco sobre os planos frustrados de Saulo, em contraste com os planos do Senhor.


Projeto Damasco (23-25)


"Decorridos muitos dias, os judeus deliberaram entre si tirar-lhe a vida; porém o plano deles chegou ao conhecimento de Saulo. Dia e noite guardavam também as portas, para o matarem. Mas os seus discípulos tomaram-no de noite e, colocando-o num cesto, desceram-no pela muralha".


Parece que Saulo decidiu começar, o quanto antes, seu mistério de pregação, mas seu ministério não “deslanchava”. Talvez tivesse a intenção de converter Damasco, e por isso pregava com tanta eloquência, que confundia os judeus, demonstrando que Jesus era o Cristo.


Um jovem de nossa igreja, há muito tempo atrás, ficou encantado com um projeto de evangelização numa grande favela em São Paulo. Seu alvo era ganhar 300 mil almas para Cristo. Nosso pastor, mais experiente, tentou dissuadi-lo, vaticinando que esse projeto, da maneira como planejava executar, em vez de glorificar a Deus, iria afastá-lo da Igreja, uma vez que, indo morar em São Paulo, perderia o vínculo com a congregação, onde ainda estava sendo treinado como obreiro. Argumentou que, se estava pronto para evangelizar na favela, por que não evangelizava seus vizinhos, sua casa, seus colegas de trabalho? Recebeu como resposta um versículo que diz: “[...] Não há profeta sem honra, senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa” (Marcos 6.4). O velho pastor, então, retrucou: “quem disse que você é um profeta, para poder aplicar este versículo para si”? Não obstante, o jovem, encantado, se foi, seguindo seus planos. Dos 300 mil convertidos, porém, nunca mais ouvimos falar.


Saulo nunca chegou a estabelecer uma igreja em Damasco, como fez em outras regiões mais tarde, no tempo determinado por Deus. Em vez disso, a situação ficou tão insustentável, que teve que elaborar um “plano B”, desta vez para fugir da cidade fortemente vigiada. E para isso contou humildemente com a ajuda dos demais discípulos, que o desceram dentro de um cesto, pelas altas muralhas.


Projeto Jerusalém (26,27)


"Tendo chegado a Jerusalém, procurou juntar-se com os discípulos; todos, porém, o temiam, não acreditando que ele fosse discípulo. Mas Barnabé, tomando-o consigo, levou-o aos apóstolos; e contou-lhes como ele vira o Senhor no caminho, e que este lhe falara, e como em Damasco pregara ousadamente em nome de Jesus".


Saulo quis ajuntar-se com os discípulos em Jerusalém, mas não acreditaram nele. Precisou da intervenção de Barnabé para ter acesso aos apóstolos, mesmo assim, só conseguiu falar com Pedro e com Tiago, conforme Gálatas 1.18,19. Qual seria agora o plano de Saulo? Será que planejava se estabelecer em Jerusalém, fortalecendo a base dos apóstolos, para dar apoio aos demais missionários?


Uma vez li sobre uma estratégia de missões, em que procuravam apoiar o envio de brasileiros para países como o Iraque, onde americanos eram muito rejeitados pelo povo, mas brasileiros eram bem-vindos, e podiam assim ser mais eficientes na evangelização. Será que uma coisa semelhante passou pela cabeça de Saulo? Já que era muito visado e não podia pregar livremente sem que os judeus o perseguissem, poderia ficar em Jerusalém e treinar outros que tivessem maior acesso entre o povo, e menor expressão pública. Se tinha um plano assim, é certo que não vingaria, pois não poderia contar com o apoio da maioria dos discípulos de Jerusalém, os quais nem acreditavam que ele fosse, de fato, discípulo.


Projeto helenistas (28-30)


"Estava com eles em Jerusalém, entrando e saindo, pregando ousadamente em nome do Senhor. Falava e discutia com os helenistas; mas eles procuravam tirar-lhe a vida. Tendo, porém, isto chegado ao conhecimento dos irmãos, levaram-no até Cesaréia e dali o enviaram para Tarso".


Persistindo ainda em seu ministério, direcionou seus esforços para evangelizar os helenistas, um grupo de judeus menos conservadores, que falavam a língua grega e não eram tão rigorosos quanto às tradições, como eram os fariseus. Esse plano podia parecer bem razoável, visto que Saulo podia compreender muito bem o seu modo de pensar, já que nascera em meio aos judeus da Cilícia, onde a maioria era simpática à cultura grega. Podia até ser um plano bem pensado, mas, o principal resultado foi a deportação para sua terra natal, para o bem de sua segurança.


Os planos do Senhor (31)


"A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número".


Os planos do Senhor, porém, não podem ser frustrados. Ele tinha planos de que a igreja tivesse paz, e que se edificasse, caminhasse no temor do Senhor e, no conforto do Espírito Santo, crescesse em número.


Pode ser que Saulo, até aquele momento, estivesse ainda trabalhando no seu próprio entendimento, como Sara e Abraão, que “ajudaram Deus” com o “projeto Hagar” (Gênesis 16.1,2), ou como Rebeca e Jacó, com seu “projeto primogenitura” (Gênesis 25.23; 27.5-10), ou ainda como os apóstolos, no “projeto décimo segundo” (Atos 1.15-26). Saulo bem poderia ter seu próprio projeto de evangelização, que não estava dando certo, mas talvez não imaginasse que tudo fazia parte do plano de Deus, que já estava, sim, em todas aquelas dificuldades, realizando os seus propósitos.


Imagino que Saulo era um jovem que gostava de ser independente, que era bem seguro de si, consciente de sua inteligência, superior aos demais de sua idade (Gálatas 1.14). Devia ser cheio de ideias, de críticas ao sistema vigente. Agora, que era um cristão, e apóstolo recrutado diretamente pelo Cristo ressuscitado, poderia fazer, da maneira certa, o trabalho do apostolado, de modo que frutificasse sobremaneira. Mas o Senhor tem uma maneira especial de trabalhar com os seus servos, de conduzi-los amorosamente à humildade e à simplicidade, para que a glória nunca seja do “vaso de barro”, mas de Deus (2Co 4.7). Saulo podia pensar que já estava maduro para o ministério, mas não. “Muitos propósitos há no coração do homem, mas o desígnio do SENHOR permanecerá” (Provérbios 19:21). 


(*) Imagem do cabeçalho disponível em: https://www.heliopeixoto.com/planos-de-deus-nao-podem-ser-frustrados/#.XJocwPdKiUk Acesso em 26 mar. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.


 

domingo, 17 de março de 2019

O discípulo (Atos 9.10-22)

Existem muitas coisas que podem nos aborrecer de repente. Um olhar torto, uma conta de luz muito alta, a ausência de pessoas na igreja, são algumas dessas coisas. A vida não seria mais fácil se fosse diferente? Se as pessoas fossem mais gentis conosco, se tivéssemos dinheiro sobrando, se a igreja estivesse cheia, talvez não ficássemos tão aborrecidos. Mas as coisas não são como a gente quer. Glória a Deus! Porque ele tem um plano melhor para nós. Ele quer nos ensinar a viver, e viver de maneira que glorifiquemos o seu nome, de maneira que sejamos conhecidos em todo o mundo como discípulos de Jesus, como filhos de Deus.


O discípulo de Cristo não anda como bem quer, e não deve ficar aborrecido por isso, porque tem que cumprir um programa de aprendizagem, que deixa nele suas marcas. Os discípulos que fazem parte desse programa recebem pelo menos três marcas que o identificam.


Primeira marca: obediência (10-15)


Ora, havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. Disse-lhe o Senhor numa visão: Ananias! Ao que respondeu: Eis-me aqui, Senhor! Então, o Senhor lhe ordenou: Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso; pois ele está orando e viu entrar um homem, chamado Ananias, e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a vista. Ananias, porém, respondeu: Senhor, de muitos tenho ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém; e para aqui trouxe autorização dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome. Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel;


Ananias, um discípulo que morava em Damasco, recebeu do Senhor uma instrução, através de uma visão: “Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso”; Ananias achou estranha a ordem do Senhor, e respondeu: “Senhor, de muitos tenho ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém; e para aqui trouxe autorização dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome”. Mas o Senhor insistiu que ele fosse, afirmando que Saulo era agora um instrumento escolhido para levar o seu nome “perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel”;


O discipulado é um programa onde se aprende a obediência. Ananias até questionou, num primeiro momento, a ordem recebida, mas, percebendo que o Senhor estava falando sério, foi sem vacilar. Não fez como Jonas, que, recebendo uma missão do Senhor, não quis obedecer, fugindo para Társis, escondendo-se de Deus num porão de navio, preferindo ser lançado ao mar do que ir pregar em Nínive (Jonas 3.3-12). Mas até mesmo Jonas teve que obedecer, pois Deus foi buscá-lo no fundo do abismo, dentro do estômago do grande peixe, ao qual Deus obrigou a devolver sua “refeição”, o profeta, para que finalmente fizesse o seu trabalho (Jonas 2.10; 3.1,2). Ananias não precisou de nada disso. Protestou, no primeiro momento, mas logo viu que o Senhor estava decidido a trabalhar com o rebelde Saulo, aquele que veio a Damasco perseguir a igreja.


Há momentos em que Deus nos mostra caminhos que parecem não fazer sentido, mas é porque ele tem uma visão ampla, enquanto nós temos uma visão muito limitada. Se nós pudéssemos ver como vê o Senhor, não faríamos muitos questionamentos, dos que estamos acostumados a fazer. Obedecer significa fazer coisas que naturalmente não se faria. Acordar cedo no domingo, esforçar-se para chegar cedo nos cultos, cumprimentar todas as pessoas, até mesmo (e principalmente) aquelas com quem não temos muita afinidade, fazer um planejamento do nosso dia, de forma que sobre um tempo razoável para a oração e leitura diária da Bíblia. Deus é soberano, e exige de nós obediência. Spurgeon, falando sobre a soberania de Deus, em seu sermão nº 3284, prega aos pecadores não salvos que assistiam ao culto:


Pecador, é de uma misericórdia indescritível, para você, que o Senhor reine, pois é justamente por que Ele reina que você ainda vive. Se Deus não fosse Rei, a sentença da Justiça seria executada rapidamente, certamente, sem misericórdia. E todo pecador, no momento que peca, deve morrer. Porém, pecador, Ele, que é Rei, é benevolente e diz ao oficial de Justiça, ‘Poupe este homem. Deixe que viva.’ Ele poupou alguns de vocês trinta, quarenta, cinquenta, sessenta – e, talvez, até, 70 anos! Você não teria poupado nenhum dos seus semelhantes que o tenha ofendido por todo este tempo


Assim, pela misericórdia de Deus, os que ainda não foram salvos são pacientemente chamados à obediência. Depois, na segunda parte do seu sermão, ele fala àqueles que já eram salvos, que estavam se alegrando por fazerem parte do reino de Deus, e que eram membros de sua igreja:


Quão notável exemplo da Soberania Divina nós temos nessa igreja, assim como individualmente nos membros dela! Nós estamos entre os poucos de Sião, mas Deus têm nos multiplicado grandemente. Por que isso? Por que Ele nos abençoou tão espantosamente, e passou por outros os quais mal ouviram falar do choro de um convertido recém-nascido? Qual outra razão nós podemos dar senão esta – pois Lhe pareceu bom aos Seus olhos? Portanto, alegremo-nos, mas também que nos alegremos com temor para que o Senhor não nos tire tais experiências abençoadas!


A Consequência da Soberania Divina. Sermão Nº. 3284. Entregue por C. H. Spurgeon, no Tabernáculo Metropolitano, Newington, na Noite do Dia do Senhor, 4 de Fevereiro de 1866. Publicado na Quinta-Feira, 11 de Janeiro de 1912. Disponível em: http://projetospurgeon.com.br/wp-content/uploads/2012/02/A-Consequencia-da-Soberania-Divina.pdf Acesso em: 26 fev. 2017.


Assim, com temor, os que foram salvos também devem obediência. Ananias foi um discípulo obediente, mas não ficou muito famoso por isso. O desobediente Jonas, que recebeu missão semelhante e fugiu de Deus, até as crianças conhecem. É assim que acontece muitas vezes. Quase ninguém fala do obediente irmão do pródigo, mas do desobediente filho pródigo, a fama correu o mundo. Todos esses, porém, tiveram que obedecer igualmente, por bem ou por mal.


Deus ensina os seus filhos. Ensinou a Jonas, ensinou a Ananias, ensinou a Saulo. Ele ensinará a obediência a todos os seus filhos, os que se matricularem na sua escola de discipulado, para fazerem parte do seu programa de aprendizado.


Segunda marca: o sofrimento (16-18)


[...] pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome. Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e tornou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizado.


O Senhor disse que mostraria a Saulo o quanto lhe importaria sofrer pelo seu nome. Ananias foi então, impôs as mãos sobre Saulo, dizendo: “Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo”. Imediatamente caíram dos olhos dele algo parecido com escamas, e tornou a ver, levantou-se e foi batizado.


É possível que Saulo nunca tenha recuperado a vista completamente. Há passagens na Bíblia que nos levam a crer que a dificuldade de enxergar o tenha acompanhado até o resto de sua vida, como nas passagens abaixo:


“E vós sabeis que vos preguei o evangelho a primeira vez por causa de uma enfermidade física. [...] Que é feito, pois, da vossa exultação? Pois vos dou testemunho de que, se possível fora, teríeis arrancado os próprios olhos para mos dar” (Gálatas 4.13,15).


‘Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gálatas 6.11).


“E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte” (2ª Coríntios 12.7).


Mas não era só a suposta falta de visão que Saulo teve que sofrer. Ele dá testemunho de variados tipos de sofrimentos que suportou em seu apostolado, como em 2ª Coríntios 11.23-28:


[...] em trabalhos, muito mais; muito mais em prisões; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez. Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas.


O sofrimento de Saulo não foi sem medida, mas controlado, de forma que contribuísse para o seu aprendizado e para a sua missão. Havia um plano bem definido no qual, em meio aos sofrimentos, Saulo testificaria para reis, povos gentios, e para os filhos de Israel. Tudo fazia parte de um programa de treinamento, era um esforço calculado, como o de um atleta que esmurra seu corpo e o reduz à escravidão (1ª Coríntios 9.27). Saulo entendeu, ou pelo menos aceitou, e se apropriou da “sina” de sofredor, como se fosse uma conta de investimento, onde ajuntaria grandes riquezas espirituais, a serem resgatadas na vida porvir. Ele mesmo declara essa atitude em 2ª Timóteo 1.12: “[...] sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia”.


Você está disposto a ser um discípulo de Cristo? O sofrimento marcará a sua vida, pois isso faz parte do programa de aprendizado que Deus planejou.


Terceira marca: desenvolvimento de caráter (19-22)


E, depois de ter-se alimentado, sentiu-se fortalecido. Então, permaneceu em Damasco alguns dias com os discípulos. E logo pregava, nas sinagogas, a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus. Ora, todos os que o ouviam estavam atônitos e diziam: Não é este o que exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de Jesus e para aqui veio precisamente com o fim de os levar amarrados aos principais sacerdotes? Saulo, porém, mais e mais se fortalecia e confundia os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.


Depois de ter sido curado e batizado, Saulo se alimentou e sentiu-se fortalecido, permanecendo alguns dias em Damasco com os demais discípulos. Não passou muito tempo e já estava pregando nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os que o ouviam pregar ficavam atônitos dizendo: “Não é este o que exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de Jesus?” Pois sabiam que tinha vindo para levar os crentes presos para o sumo sacerdote. Mas em vez disso, “mais e mais se fortalecia e confundia os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo”.


Saulo não começou instantaneamente o seu ministério, mas começou devagar, alimentando-se após longo jejum, passando alguns dias com os discípulos, recuperando-se do choque que o levou à conversão. Sabemos, por meio de Gálatas 1.17,18, que ele foi para as regiões da Arábia. Imagino que tenha sido uma espécie de retiro, para meditação e aprendizado, antes de voltar a Damasco e colocar as mãos à obra. Assim o novo discípulo foi se fortalecendo mais e mais, e aperfeiçoando sua argumentação em favor do evangelho. Antes de tornar-se o grande missionário aos gentios, ainda ficou algum tempo em Jerusalém, Cesaréia e Tarso, sua terra natal (Atos 9.28-30), e depois se reuniu por um ano na Igreja de Antioquia (Atos 11.25,26). Já no final de sua carreira, notamos nas entrelinhas que o esforço intenso fez Saulo se enfraquecer fisicamente, mas não espiritualmente. Tornou-se como um dos heróis da fé de Hebreus 11.34, que “extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força [...]”, e compartilhou seu segredo em 2ª Coríntios 4.16: “Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia”. É assim que Saulo foi se fortalecendo mais e mais, como diz em 2ª Timóteo 4.17:“Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças, para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida [...]”.


Os seminaristas que estudaram no IBE, em Araçatuba, e retornaram à nossa igreja, sempre têm muitas histórias interessantes para contar. Dizem que havia alguns professores e diretores muito exigentes, e às vezes os alunos até se revoltavam com algumas injustiças da parte da liderança. Mas toda essa dificuldade no relacionamento entre alunos e professores se justificava com a premissa de que era preciso “trabalhar no caráter” dos alunos. Não era bastante aprender teologia, pois se o caráter não fosse devidamente desenvolvido, não haveria preparação suficiente para enfrentar a vida que se seguia fora do seminário. Saulo era um mestre em teologia, mas ainda assim, o seu caráter precisava ser desenvolvido. Precisava ser curado por um discípulo que antes era objeto de seu ódio; precisava ser batizado, dando testemunho de que agora abraçava a fé que, outrora, procurava destruir; precisava contar com a hospitalidade e o perdão dos humildes discípulos que viera para prender e arrastar para Jerusalém; precisava sofrer resistência dos judeus que, atônitos, ouviam sua pregação, aparentemente contraditória.


Se você quiser ser um discípulo de Jesus, matricule-se no programa que Deus lhe preparou, consciente de que será necessário trabalhar no seu caráter. Não basta ser sábio, inteligente, formoso, nobre. Se Deus se importasse com essas qualidades apenas, poderia enviar anjos para fazerem o trabalho de evangelistas. Mas a tarefa nos foi dada a nós, com todas as dificuldades inerentes, porque Deus quer, entre outras coisas, desenvolver o nosso caráter.


Conclusão


Você quer ser um discípulo de Jesus? Quer fazer parte do programa que vai apresentá-lo a Deus “aprovado, como um obreiro que não tem de que se envergonhar” (2 Timóteo 2.15)? Então matricule-se! Seja consciente de que o caminho do discipulado é um caminho de obediência e de sofrimento, mas Deus te dará forças, pois um de seus objetivos é moldar o seu caráter. Talvez você esteja pensando que é melhor não, porque você não gosta de sofrer, e não está disposto a obedecer sem reservas aos mandamentos de Jesus. Mas sua alma anseia por fortalecimento espiritual, e não há melhor caminho do que o discipulado, para atingir os objetivos que o Pai amoroso tem para você. Lembre-se da advertência do Senhor em Lucas 9.24: “Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará”. Saulo e Ananias, e certamente milhões de discípulos anônimos de Jesus já concluíram o seu curso, já colaram grau, e hoje estão no céu aguardando o seu galardão. Vamos nos juntar a eles? Assim, as marcas da obediência, do sofrimento e do desenvolvimento do caráter se tornarão bem visíveis em nós, para que sejamos dignos de sermos chamados discípulos de Cristo.


(*) Imagem do cabeçalho disponível em: http://www.pibnilopolis.org.br/o-discipulo-como-agente-de-transformacao-e-vida/ Acesso em 17 mar. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.


 


 

domingo, 10 de março de 2019

A viagem a Damasco (Atos 9.1-9)

Eu e minha esposa gostamos de viajar, tirar fotos, descontrair. Toda vez que temos a oportunidade de fazer uma longa viagem, nas férias ou num feriado prolongado, parece que voltamos renovados. No parágrafo de Atos 9.1-9, lemos que Saulo, ao fazer uma viagem, também voltou renovado, como uma outra pessoa. E não poderia ser diferente, pois aquela foi a viagem da sua conversão. Uma conversão dramática, uma mudança radical em sua vida. Isto porque, conforme suas próprias palavras, ele era, antes, o “principal dos pecadores” (1ª Timóteo 1.15). 


No caminho de Damasco há uma sequência de fases bem distintas. Na primeira fase, Saulo anda segundo o seu próprio entendimento, seguindo os seus impulsos, perdido em suas próprias obsessões, respirando ameaças e morte. Na segunda fase, ele tem um encontro com Jesus, a quem perseguia, e toda a força que o movia cai por terra. Saulo ficou desnorteado, abalado, vazio de si. Deixa cair as cartas dos sacerdotes, e, com elas, cai a sua importante missão policial, a qual nunca mais retomaria. Entra em Damasco como um guerreiro vencido, debilitado, amparado por seus companheiros. Inicia então a terceira e mais importante fase de sua vida: a conversão. Saulo faz um retorno, uma curva de 180 graus. Descobriu que estava errado, e agora precisava encontrar o caminho de volta, para consertar o que fosse possível, para se reencontrar com o seu Criador.


Será que a nossa vida é parecida com a de Saulo? Se fôssemos comparar nossas vidas com o caminho de Damasco, em que fase estaríamos hoje? Analisemos cada fase desse caminho.


Primeira fase: Perdendo-se nas próprias obsessões (1,2)


Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém.


Saulo respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, e, para ele, o melhor caminho era pedir ao sumo sacerdote cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do outro Caminho, fossem homens, fossem mulheres, os levasse presos para Jerusalém. Ele pensava que tinha o controle de sua vida, nem passava pela sua cabeça que estava perdido. Tinha uma meta, um alvo bem definido, não se distraía com nada que pudesse fazê-lo desviar. Passava longe de sua consciência a voz da advertência bíblica de que “há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Provérbios 14.12). Estava surdo para o conselho de Provérbios (3.5): “Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento”. Mais do que se estribando em seu próprio entendimento, Saulo estava completamente prostrado diante do seu modo de entender o mundo. Sua determinação em perseguir o Caminho de Jesus era uma obsessão. Não bastava perseguir e dispersar os cristãos, pretendia persegui-los por onde quer que se dirigissem, mesmo que fugissem para Damasco, distante mais de 200 Km de Jerusalém. Quantas pessoas, hoje em dia, estão nessa fase do caminho, perdidos em suas próprias obsessões. De acordo com um folder da UFRGS,


Obsessões são pensamentos, ideias, imagens, palavras, frases, números ou impulsos que invadem a consciência da pessoa de forma repetitiva e persistente. Sentidas como estranhas ou impróprias, geralmente são acompanhadas de desconforto, medo, angústia, culpa ou desprazer. O indivíduo obsessivo, mesmo desejando ou se esforçando, não consegue afastá-las ou suprimi-las de sua mente. Apesar de serem consideradas absurdas ou ilógicas, as obsessões causam aflição elevam a pessoa a fazer algo (rituais ou compulsões) ou a evitar fazê-lo (evitações) para livrar-se do medo ou do desconforto. As obsessões mais comuns se relacionam com: sujeira, contaminação; dúvidas; simetria, perfeição, exatidão ou alinhamento; impulsos ou pensamentos de ferir, insultar ou agredir outras pessoas; sexo ou obscenidades; armazenar, poupar, guardar coisas inúteis ou economizar; preocupações com doenças ou com o corpo; religião (pecado, culpa, escrúpulos, sacrilégios ou blasfêmias); pensamento mágico (números especiais, cores, datas e horários).


 


Cordioli, Aristides Volpato. Heldt , Elizeth. Litvin Raffin, Andréa. Transtorno obsessivo compulsivo: perguntas e respostas. Porto Alegre: UFRGS, 2004. Disponível em: http://www.ufrgs.br/psiquiatria/psiq/FOLDER%20TOC%20vers%C3%A3o%2010_05.pdf Acesso em: 05 fef. 2017.


Será que eu ou você estamos também passando por essa fase no caminho de nossas vidas? Será que alguma obsessão da lista acima se identifica com o nosso comportamento atual?


Segunda fase: Caindo por terra (3-6)


Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer.


Quando Saulo estava já próximo de Damasco, de repente uma luz do céu brilhou ao seu redor, fazendo-o cair por terra. Era Jesus glorificado, que se fez ouvir: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” Era Jesus, a quem Saulo perseguia, o qual lhe ordenou levantar-se e entrar na cidade, onde devia aguardar mais instruções.


Nessa fase do caminho houve uma crise inesperada, um súbito encontro com a luz divina, uma experiência que nunca mais iria esquecer. Assim acontece conosco também, quando somos pegos de surpresa por tempestades. Não somente as tempestades climáticas, mas também as tempestades emocionais, para as quais não estávamos preparados. Talvez não se trate de um acontecimento tão espetacular como o de Saulo, ou uma sequência de tragédias tão contundentes como ocorreu na vida de Jó que, de uma hora para outra, teve sua vida virada do avesso. Mas, quando Deus decide tocar em uma área crítica de qualquer pessoa, ela nunca mais será a mesma. Tudo cai por terra.


Já houve na sua vida um momento em que enfrentou grande angústia? Alguma vez aconteceu algo que mudou o rumo de sua vida? Uma doença, um acidente, uma morte precoce? Para que todos os nossos planos caiam por terra, nem sempre precisa acontecer uma coisa ruim.


Certa vez, eu li uma interessante história sobre um folheto salvador:


Todos os domingos de manhã, depois do Grupo de Oração na Igreja, o coordenador do grupo e seu filho de 11 anos saíam pela cidade e entregavam folhetos [...]. Numa tarde [...], fazia muito frio lá fora e também chovia muito. [...] Depois de caminhar por horas na chuva, estava todo molhado, mas faltava um último folheto. [...] Então ele se virou em direção à primeira casa que viu e [...] tocou a campainha, mas ninguém respondeu. Ele tocou de novo, mais uma vez, mas ninguém abriu a porta. Finalmente, o menino se virou para ir embora, mas algo o deteve. Mais uma vez, ele tocou a campainha e bateu na porta bem forte. [...] A porta se abriu bem devagar. Uma senhora idosa com um olhar triste [...] perguntou: O que você deseja, meu filho? [...] Senhora, [...] vim aqui para lhe entregar o meu último folheto[...]. No domingo seguinte na Igreja, [...] uma senhora idosa se pôs de pé. E começou a falar. [...] No domingo passado, um dia frio e chuvoso, [...] eu peguei uma corda e uma cadeira e subi para o sótão da minha casa, amarrei a corda numa madeira do telhado, subi na cadeira e coloquei a corda em volta do meu pescoço [...] quando [...] o toque da campainha me assustou. [...] A campainha era insistente; [...] Afrouxei a corda do meu pescoço e fui à porta [...], pois na minha varanda estava o menino mais radiante que já vi em minha vida. [...] Ele me entregou este folheto que eu tenho em minhas mãos. [...] Li cada palavra deste folheto. Então eu subi para o sótão, peguei minha corda e a cadeira. Eu não iria precisar mais delas. [...] vim aqui pessoalmente para dizer OBRIGADO [...].


O último folheto. Disponível em: http://www.hpbysandra.com.br/ultimo_folheto.html Acesso em 05 fev. 2017.


Aquela senhora idosa ia se suicidar, mas o Senhor interveio com uma coisa boa, com uma demonstração de amor que mudou a sua vida. Mas quando não ouvimos a voz mansa e suave de Jesus nos chamando, ele pode derrubar nossos planos obstinados através de outra metodologia.


Nossa igreja conhece uma jovem senhora, cujo filho sofreu, há alguns anos, um terrível desastre que quase lhe tirou a vida. Eu e minha esposa tivemos a oportunidade de visitá-los pouco depois do acidente. Seu filho já estava quase totalmente recuperado, e nos recebeu à porta. Logo veio também a senhora. Estávamos tentados a dizer que o acidente foi uma intervenção de Deus para que eles despertassem espiritualmente e voltassem para a igreja, mas não precisamos falar. Ela mesma disse que reconhecia a mão de Deus, tanto em permitir o acidente, quanto em poupar a vida de seu filho. Disse que iam dar atenção à voz divina, e que iam voltar à comunhão da igreja.


Pode ser que algum dia você ou eu nos sintamos assim, como se tudo caísse por terra. Os nossos sonhos, os nossos planos, o nosso ritmo, de repente é quebrado pela intervenção do Senhor. Quando isso acontecer, ouçamos a sua voz, e perguntemos como Saulo perguntou: “Quem é tu, Senhor?” e “que farei, Senhor?” (Atos 22.10). As cartas do sumo sacerdote já não tinham mais utilidade, podiam ser deixadas ali mesmo, no chão. Seus projetos, sua respiração de ameaças e morte já não faziam mais sentido. Tudo estava ali, como o próprio Saulo, caído na terra.


Terceira fase: Convertendo-se ao Senhor (7-9)


Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém. Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco. Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu.


Os companheiros de viagem de Saulo pararam emudecidos. Ouviram a voz, mas não viram ninguém. Saulo se levantou da terra e, quando abriu os olhos, percebeu que estava cego. Guiando-o pela mão, seus companheiros o levaram para Damasco. Lá ficou três dias, sem ver, e durante esse tempo nada comeu, nem bebeu.


Sabemos, pelo versículo 11 deste capítulo, que Saulo estava orando. Estava prostrado diante do trono do Senhor. Não era mais aquele jovem determinado que deixou Jerusalém com uma missão obstinada. Agora estava à disposição de Jesus, esperando instruções antes de dar o próximo passo, e a oração era a melhor maneira de ouvir a sua voz. Todo homem que, sinceramente, quer saber a vontade de Deus para a sua vida, deve ser um homem de oração. Homens de Deus famosos deixaram também esse testemunho, homens como David Livingstone, um escocês, que


Foi um dos personagens mais impressionantes do século 19. Foi cientista, explorador e evangelista [...] descobriu e mapeou vários rios e foi o primeiro homem branco a percorrer a África de Norte a Sul, ida e volta. Sua vida chegou ao fim quando intentou descobrir a nascente do rio Nilo [...]. Morreu orando, ajoelhado à beira da cama” (Sombrio et al., p.43)


SOMBRIO, Alexandre, et al. Dia a Dia com Deus. Curitiba: Publicações RBC, 2011.


O fato de Saulo estar orando evidenciava sua conversão. Ele estava voltando, havia feito uma curva de 180 graus no seu caminho, pois reconheceu que andara errado, e se arrependeu. A conversão não foi o final do caminho de Saulo, até Damasco. Sua caminhada, sob o ponto de vista da conversão, estava apenas começando. E começou muito bem, buscando a orientação do Senhor através da oração. Até onde sabemos, Saulo nunca mais se desviou do caminho estreito, até completar a sua carreira. Mas nem todos são assim. Há momentos na vida de um crente em que ele precisa parar e analisar se não está se desviando do caminho que iniciou quando da sua conversão. Podemos achar que estamos no caminho certo, mas é necessário consultar o Senhor, através da Bíblia e da oração, para provar se de fato não nos desviamos do caminho estreito. Vejam o caso de Pedro, que estava andando com Jesus havia mais de três anos. Tinha mudado drasticamente sua vida. Tinha abandonado tudo para seguir Jesus. Tinha confessado diante de todos que aquele homem era o Cristo, o filho de Deus, mas Jesus o abordou com palavras que poderiam lhe parecer estranhas naquela altura de sua vida: “Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos” (Lucas 22.32). Como assim, “quando te converteres”!? Pedro podia achar que já era convertido, as pessoas que o observavam podiam também chegar a essa conclusão, mas aos olhos do Senhor Jesus, Pedro ainda não tinha chegado a essa fase.


Conclusão


Meditando sobre estas coisas, podemos nos perguntar: “Em que fase estamos?” Perdidos em nossas próprias obsessões? Ainda não caímos por terra, nos prostrando diante do grande poder do Senhor? O que ele precisa fazer para nos derrubar do nosso próprio entendimento, sobre o qual estamos estribados? Hoje não é o dia de nos convertermos ao Senhor? De voltarmos do caminho errado pelo qual estamos teimosamente trilhando? Será que a contracorrente deste mundo está vencendo os nossos esforços, de modo que retrocedemos alguns passos? Deixemos o Espírito do Senhor nos dar essa resposta. Examinemo-nos a nós mesmos, e oremos: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Salmos 139.23,24).


(*) Foto do cabeçalho: Arco Romano, Damasco, Síria. David Samuel Santos, 18/06/2010. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/samuel_santos/4840926639/ Acesso em 10 mar. 2019.


(**) citações da Bíblia extraídas de: A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada 2ªed. 1988, 1993. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. 1280p.

domingo, 3 de março de 2019

O maior tesouro (Atos 8.26-40)

Nos acampamentos de carnaval de que participávamos quando jovens, sempre fazíamos brincadeiras emocionantes que envolviam a todos. Uma das preferidas era a “caça ao tesouro”. No site do jornal O Globo, em meados do ano passado, nós lemos que


Em algum lugar da França está enterrada uma pequena estatueta de uma coruja feita de ouro e prata. Quem a encontrá-la ganhará não apenas a escultura original como prêmio, mas será reconhecido como o vencedor da mais longa caça ao tesouro do mundo, que já dura 25 anos. "Sur La Trace de La Chouette d'Or" (algo como "A Caça à Coruja de Ouro", em português) foi um livro ilustrado publicado pela primeira vez em 1993, logo depois que seu autor, Max Valentin, secretamente escondeu a escultura da coruja em um local na França conhecido apenas por ele. [...] Um quarto de século depois, milhares de "chouetteurs" — como os caçadores da coruja se intitulam — continuam estudando os 11 enigmas do livro Max Valentin, que podem ser baixados gratuitamente na internet. Eles trocam teorias em fóruns de bate-papo on-line e se reúnem em encontros anuais. Existe até uma associação criada pelos "caçadores", a A2CO.


A caça ao tesouro mais longa do mundo intriga a França há 25 anos. Site O Globo/Sociedade, 13/08/2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/a-caca-ao-tesouro-mais-longa-do-mundo-intriga-franca-ha-25-anos-22973888 Acesso em 03 mar. 2019.


No parágrafo de Atos 8.26-40, encontramos a história de um eunuco etíope, que era superintendente do tesouro do seu país, mas buscava para si um maior tesouro, o tesouro espiritual. Sendo um alto oficial, estava acostumado a elaborar estratégias e tomar grandes decisões. E o eunuco tomou pelo menos quatro grandes decisões que o levaram a conquistar o seu verdadeiro tesouro.


Primeira grande decisão: Buscou o Deus revelado nas escrituras sagradas (26,27)


Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Dispõe-te e vai para o lado do Sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Ele se levantou e foi. Eis que um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro, que viera adorar em Jerusalém,


Sendo um homem bem-sucedido, abastado, culto, leu nessas escrituras os relatos de Moisés sobre a criação, o dilúvio, a saga de Abraão e seus descendentes, a história do próprio Moisés, cujo Deus poderoso subjugou os deuses do Egito (Êxodo 12.12), país que ficava ao norte da Etiópia. Tomou então a decisão de buscar esse Deus, e certamente o comunicou à Rainha, que por meio de seu alto oficial, repetiu o nobre feito de sua antecessora (1º Reis 10.1) elogiada pelo próprio Senhor Jesus em Mateus 12.42: “A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão”.


A história da Etiópia está documentada como uma das mais antigas do mundo. Na Wikipédia nós lemos que,


Junto com os países vizinhos de Eritreia, Sudão, Djibouti, Somália e Somalilândia, esta região hospedou também o Império de Axum. A origem de Axum, por sua vez, remonta ao reino de Sabá (ou Shebah), no Iêmen, referido na Bíblia, que, por volta do ano 1000 a.C., se estendia, aparentemente, por todo o Corno de África e por parte da Península Arábica. Desde aproximadamente o século IV a.C. os gregos chamavam de "Etiópia" a todos os países com população de raça negra, sem distinguir reinos nem países. Portanto, a Etiópia, segundo os gregos poderia ser a Núbia do sul de Egito e Sudão, ou poderia ser o Império de Axum, que se concentrava nos arredores da Eritreia e ao norte da própria Etiópia, mas não há certeza histórica sobre isso. Fontes gregas referem que o Império de Axum era extremamente rico no século I e a cidade de Adúlis (que fica no país vizinho da Eritreia) é frequentemente mencionada como um dos mais importantes portos de África. Documentos oficiais, contudo, colocam a cidade de Axum como a capital onde se encontrava a corte da Rainha de Sabá. Esse reino tinha, no século II, direito de receber tributos de estados da Península Arábica e tinha inclusivamente conquistado o Reino de Cuche, no actual Sudão. Há indicações do carácter cosmopolita desse reino, com populações judaicas, núbias, cristãs e mesmo minorias budistas.


História da Etiópia. Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Eti%C3%B3pia  Acesso em 28 jan. 2017, citando a fonte: Ancient African History – Ancient Abyssinia. Sankofa Project Guide.


O interesse do tesoureiro etíope em conhecer a Deus poderia nos levar a meditarmos: como é o Deus que conhecemos? Quem nos influenciou durante a vida para criar um conceito sobre quem é Deus? Uma personalidade famosa, apresentadora de programas infantis, consumava chamar Deus de “o cara lá de cima”; alguns pais, ao falar com Deus na presença de seus filhinhos, o invocam como “papai do céu”. Um amigo crente, já falecido, compartilhou que tinha dificuldades psicológicas quando pensava em Deus como uma figura paterna, porque a ideia que ele tinha de um pai não era encorajadora. Seu pai era um homem rico, amante de sua mãe, que não lhe dava atenção, como dava para seus outros filhos, frutos do casamento legítimo que mantinha paralelamente. Se ele dependesse apenas desse conceito paterno para conhecer o Deus verdadeiro, provavelmente iria odiá-lo em vez de amá-lo. Mas, para sua felicidade, converteu-se a Jesus Cristo e passou a aprender qual é o verdadeiro caráter do Deus que se revelou na Bíblia Sagrada. O eunuco etíope seguiu pelo mesmo caminho. Tomou a grande decisão de conhecer o Deus das Escrituras.


Segunda grande decisão: Ocupou o seu tempo lendo as escrituras sagradas (28,29)


[...] estava de volta e, assentado no seu carro, vinha lendo o profeta Isaías. Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o.


De acordo com o Google Maps (1), a distância entre Jerusalém e a Etiópia moderna, via A1, é de 131 h (4.204,6 km). A Etiópia mencionada neste texto, porém, pode estar se referindo a um lugar mais próximo, como o Sudão, no sul do Egito, cuja distância, então, seria cerca de 106 h (2.549 km) via A1 (2).


(1) Disponível em: https://www.google.com.br/maps/dir/Jerusal%C3%A9m,+Israel/Eti%C3%B3pia/@20.1827035,26.4993529,5z/data=!3m1!4b1!4m14!4m13!1m5!1m1!1s0x1502d7d634c1fc4b:0xd96f623e456ee1cb!2m2!1d35.21371!2d31.768319!1m5!1m1!1s0x1635d0cedd6cfd2b:0x7bf6a67f5348c55a!2m2!1d40.489673!2d9.145!3e0 Acesso em: 28 jan. 2017.


(2) Disponível em: https://www.google.com.br/maps/dir/Jerusal%C3%A9m,+Israel/Cartum,+Khartoum,+Sud%C3%A3o/@23.419318,23.8635836,5z/am=t/data=!3m1!4b1!4m13!4m12!1m5!1m1!1s0x1502d7d634c1fc4b:0xd96f623e456ee1cb!2m2!1d35.21371!2d31.768319!1m5!1m1!1s0x168e8fde9837cabf:0x191f55de7e67db40!2m2!1d32.5598994!2d15.5006544 Acesso em: 28 jan. 2017.


Os viajantes de hoje têm recursos extraordinários. Um dia minha esposa e eu viajamos para Ribeirão Preto numa van alugada. O motorista acionou o ar condicionado e ligou a TV, que passava um filme de comédia. O tempo passou tão rápido, que nem percebemos quando chegou no destino. Se você não é um escravo do trabalho, como muitos acabam se tornando nestes tempos modernos, talvez tenha alguns momentos durante o dia para relaxar. Nestes momentos, como você aproveita o tempo? Alguns gostam de jogar “games”, outros, de ver televisão, outros gostam de sair, mas os que amam o Senhor sempre reservam um pouco de tempo para a leitura da Bíblia, diariamente. O eunuco estava assentado confortavelmente em seu carro, enquanto o condutor e sua escolta o dirigiam naquela longa viagem. Que fazer durante todo o tempo do trajeto? Ele veio prevenido. Tinha consigo um rolo do profeta Isaías, para passar o tempo. O eunuco etíope tomou a grande decisão de ocupar seu tempo lendo as escrituras sagradas.


Terceira grande decisão: Procurou compreender melhor as escrituras sagradas (30-34)


Correndo Filipe, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: Compreendes o que vens lendo? Ele respondeu: Como poderei entender, se alguém não me explicar? E convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele. Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca. Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porque da terra a sua vida é tirada. Então, o eunuco disse a Filipe: Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?


A leitura da Bíblia às vezes nos traz momentos de grande esclarecimento, às vezes nos deixa com muitas dúvidas. Há passagens difíceis de se compreender. O motivo de ficarmos em dúvida a respeito de algumas passagens bíblicas pode ser falta de experiência, falta de persistência, até mesmo falta de fé. Quando eu era jovem, descobri que a Escola Dominical era grande fonte de conhecimento. Costumava dizer que mais da metade do conhecimento que tinha adquirido da Bíblia vinha de minha perseverança em assistir às aulas aos domingos de manhã. É que, às vezes, precisamos da ajuda de irmãos para que possamos abrir nossas mentes para alguns detalhes. Às vezes o professor, ou até mesmo outros alunos, têm informações que são a chave para a compreensão dos textos difíceis.


O pastor e escritor Tim Lahaye, em seu livro intitulado “Como estudar a Bíblia Sozinho” (3), na página 82, aconselha os leitores a adquirirem bons livros para auxiliarem seus estudos, e até sugere alguns que foram muito úteis para ele mesmo: Manual Bíblico – Halley; concordância, baseada na edição ''Revista e Atualizada".; Dicionário da Bíblia de John D. Davis e o "Novo Dicionário da Bíblia", Edições Vida Nova; Novo Comentário da Bíblia – Edições Vida Nova; Harmonia dos Evangelhos de S. L. Watson e W. E. Allen; Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, de Myer Pearlman; Mais que um Carpinteiro, de Josh McDowell.


(3) LAHAYE, Tim. Como Estudar a Bíblia Sozinho. Venda Nova (MG): Editora Betânia,1984.


Mas, espere um pouco, por que Lahaye indica tantos livros auxiliares, se disse que era para estudar a Bíblia sozinho?! Sim, mas não tão sozinho, conforme a própria Bíblia dá a entender nos versículos abaixo:


  • Provérbios 1.8 Filho meu, ouve o ensino de teu pai e não deixes a instrução de tua mãe.
  • Provérbios 13.14 O ensino do sábio é fonte de vida, para que se evitem os laços da morte.
  • 1 Coríntios 4.17 Por esta causa, vos mandei Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja.
  • 1 Timóteo 4.13 Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino.
  • 1 Timóteo 5.17 Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino.

O eunuco tomou a grande decisão de conhecer melhor as Escrituras, e, que bom que tinha Filipe por perto!


Quarta grande decisão: Converteu-se ao Caminho revelado nas escrituras sagradas (36-40)


Seguindo eles caminho fora, chegando a certo lugar onde havia água, disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que seja eu batizado? Filipe respondeu: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. Então, mandou parar o carro, ambos desceram à água, e Filipe batizou o eunuco. Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, não o vendo mais o eunuco; e este foi seguindo o seu caminho, cheio de júbilo. Mas Filipe veio a achar-se em Azoto; e, passando além, evangelizava todas as cidades até chegar a Cesareia.


De nada valeriam as grandes decisões anteriores, se o eunuco etíope não tivesse tomado esta última grande decisão. Depois do batismo, cada um seguiu o seu caminho, mas o eunuco já não era mais o mesmo homem. Agora ele estava cheio de júbilo, um dos frutos do Espírito Santo, que certamente agora nele habitava. Se ele não tivesse decidido naquela hora, será que haveria nova oportunidade?  Será que, noutra estrada deserta, O Espírito iria enviar outra vez um Filipe para lhe explicar de novo o evangelho? Improvável. Paulo exorta os Coríntios a não perderem oportunidades como estas, em 2ª Coríntios 6.1,2  “E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus  (porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação)”;


O Eunuco teve uma grande oportunidade, e tomou a grande decisão de obedecer ao evangelho, pedindo para ser batizado, dando seu testemunho diante de todos os seus servos que faziam parte da comitiva, e de quem mais quisesse presenciar a cerimônia, que demonstrava sua nova fé em Jesus, o Filho de Deus.


Conclusão


Este parágrafo de Atos nos falou de grandes decisões, que levaram um homem a encontrar o seu maior tesouro. Ele também fala da importância da obediência (Filipe obedeceu e ganhou uma alma); da alegria motivada pela obediência (o eunuco obedeceu e ficou alegre); e da recompensa da obediência (Filipe foi honrado por ter sido arrebatado para uma nova missão). Pode ser que você tenha gostado deste artigo. Talvez Deus tenha tocado no seu coração para você começar a mudar alguns hábitos. Talvez você ainda não tenha tomado a maior decisão de sua vida, a de aceitar a Jesus como seu Senhor e Salvador, entregar sua vida a ele, confessando e se arrependendo dos seus pecados. Faça como o eunuco etíope. Seu interesse por ler este artigo pode indicar que está buscando o Deus revelado na Bíblia Sagrada. Você decidiu dedicar algum tempo para a leitura, e prestou atenção na explicação da Palavra de Deus. Agora, eu te convido a “parar o carro”, olhar para as águas da oportunidade que estão à sua volta, e se fazer também a mesma pergunta: “que impede que seja eu batizado?” Ou, “que impede que eu me torne um filho de Deus pela fé em Jesus Cristo”? ou, “que impede que eu atravesse a ponte sobre o abismo do pecado que me separa de Deus, o Pai?” Ou, “que impede que eu abandone hoje mesmo todos os meus vícios, toda a minha amargura, todo o meu orgulho, ou o que quer que seja, e me renda à vontade do Senhor para minha vida?” Que impede?... Neste momento eu estou orando por você, amado leitor.


(*) Foto do cabeçalho: A escultura da coruja em pleno voo, feita pelo artista Michel Becker Foto: Reprodução. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/a-caca-ao-tesouro-mais-longa-do-mundo-intriga-franca-ha-25-anos-22973888 Acesso em 03 mar. 2019.


Este e outros artigos deste Blog fazem parte do livro "A Igreja em Expansão (Atos 6 a 14)", disponível em um dos links abaixo:

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